sábado, 28 de setembro de 2013

Crítica: Guerra Mundial Z | Um Filme de Marc Forster (2013)


Se Hollywood fosse uma concessionária de carros, a maioria dos Blockbusters lançados nos últimos anos seriam de certo modo como relíquias customizadas. Antigos sucessos que cativaram milhares de pessoas no passado e que agora ganham uma nova estética visual, um melhor acabamento e proporções inimagináveis bem superiores ao seu primeiro modelo para continuar a fazer sucesso. E "Guerra Mundial Z" (World War Z, 2013) seria sem dúvida alguma o relançamento de um clássico dos anos sessenta monstruosamente potencializado pelos infinitos recursos que a industria atual dispõe. Sobretudo a seu favor, ainda teve a sua disposição o melhor garoto propaganda que qualquer especialista em marketing desejaria, já que essa produção era constantemente mencionada como o filme de Brad Pitt, e não dos zumbis que levam o mundo ao completo caos. Baseado no livro de Max Brooks, e com o roteiro escrito a três mãos (Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard e Damon Lindelof), essa produção traz ao espectador a velha premissa de uma doença desconhecida que se espalha rapidamente pelo mundo, transformando as pessoas em vorazes zumbis. A velocidade com que a doença se espalha é assombrosa, obrigando o governo americano a recrutar Gerry Lane (Brad Pitt), um ex-investigador da ONU (Organização das Nações Unidas) para investigar a origem da epidemia que toma proporções catastróficas. Relutante por abandonar sua família, sua esposa Karen (Mireille Enos) e suas duas filhas, que ficaram sob os cuidados da ONU, Gerry viaja pelo mundo em busca da cura, indo da Coréia do Sul a Israel sob constantes perigos. Percorrendo o caminho inverso da contaminação, Gerry vai juntando pistas que podem ser a salvação da humanidade diante de uma infestação descontrolada, ou pelo menos uma forma de evitar que ela se propague ainda mais.


Antes de mais nada, talvez seja imprescindível que se mencione que "Guerra Mundial Z" é sobretudo, uma surpresa positiva. Por quê? Após vários problemas em sua realização (praticamente o terceiro ato foi todo refilmado estourando o orçamento em milhões, além dos constantes atritos entre Brad Pitt e o diretor Marc Forster que tiveram diversas divergências quanto ao rumo da história), esse longa-metragem se mostrou bem superior do que se esperava de uma produção problemática feito essa. Abordando a contaminação em âmbito global (geralmente os filmes de zumbis restringem a um local específico, apenas objetivando a sobrevivência) acompanhamos a cruzada de Gerry Lane por vários cantos do mundo em busca de uma cura, ou pelo menos algo que possibilite a proximidade disso. Com um desenvolvimento eficiente de personagens, tanto do protagonista, quanto dos personagens que cruzam seu caminho, a experiencia de Marc Forster em contar histórias de apelo dramático se fez notável, conseguindo criar um exemplar eficiente desse subgênero do terror. Com uma tensão angustiante precedendo sequências de ação monstruosas (o surgimento dos zumbis na Filadelfia é avassaladora pelos contornos de caos de origem desconhecida, como a tomada de Israel é angustiante por parecer que não há para onde fugir) Forster se mostra habilidoso em equilibrar os distintos momentos. A tensão que antecede os ataques dos zumbis, prende os olhos na película, enquanto os ataques dos zumbis (capazes de correr de modo sobre-humano) tornam-se consequentemente assustadores. Se em "007 Quantum of Solace" Forster pecou profundamente nas cenas de ação, aqui ele se redime: estão ótimas independente dos exageros. Apesar de algumas escolhas e soluções forçadas em sua estrutura, ainda assim se mostram inofensivas diante da linearidade do conjunto acentuado por uma trilha sonora fascinante de responsabilidade de Marco Beltrami.

Em resumo,"Guerra Mundial Z" cumpre seu papel com eficiência. Ao se arriscar em expandir os limites de uma praga capaz de dizimar a natureza humana da face da terra, aposta alto em sua escolha pretensiosa e acerta em reduzir o ambiente de desfecho a um campo menor. Aplica os grandes momentos de ação computadorizada e perseguições no melhor estilo Blockbuster em seu desenvolvimento, gerando cenas de ação emocionantes nunca antes visualizadas com zumbis, e confere uma grande dose de tensão e dramaticidade ao gran finale proporcionado pelo astro Brad Pitt . Apesar da ação ser o combustível motor dessa produção, o que levou naturalmente milhares as sessões de cinema, o espectador ganha também uma trama ligeiramente cerebral e bem amarrada que desperta carisma com facilidade. E pelo reconhecido e promissor resultado dessa produção, que já foi anunciado ter uma sequência confirmada, o espectador ganha por ter a chance de ver o primeiro episódio de uma promissora franquia. 

Nota:  8/10  
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Trailer do Filme "Guerra Mundial Z"

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ilustrações Minimalistas de Fred Birchal

Vista-se como um vencedor e vença! Naturalmente os filmes que inspiraram o designer Fred Birchal de criar uma série ilustrada com base nos figurinos característicos de personagens de filmes famosos, compõe uma lista de produções vencedoras. Conquistaram ao seu modo a crítica e o público ao decorrer dos anos, e o artista, com seu sutil estilo minimalista, faz uma homenagem bem acabada para esses filmes que multiplicam o número de apaixonados. 





quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Crítica: Os Homens que Encaravam Cabras | Um Filme de Grant Heslov (2009)


Bob Wilton (Ewan McGregor) é um jornalista americano, que quando foi abandonado pela esposa, Debora (Rebecca Mader), decide assumir a perigosa tarefa de fazer uma cobertura jornalistica sobre a Guerra do Iraque ocorrida em 2003. Porém encontra dificuldades em conseguir autorização para entrar no Iraque, sendo obrigado a permanecer hospedado em um hotel no Kuwait. Certo dia nas dependências do hotel, Bob acaba conhecendo Lyn Cassady (George Clooney), um soldado aposentado do exército norte americano, cujo o nome já lhe era familiar devido a uma entrevista que fez no passado sobre um soldado que afirmava ter feito parte de um exército que detinha poderes paranormais. Por coincidência, Lyn também integrava essa curiosa divisão especial das forças armadas chamada "Exército da Terra Nova", que era comandada pelo brigadeiro Bill Django (Jeff Bridges). O objetivo sumário dessa divisão era buscar a paz mundial ao invés do combate (através do constante treinamento da capacidade psíquica de soldados). Os soldados eram treinados por todo tipo de gurus e paranormais para terem a capacidade de ler mentes, atravessar paredes, mover objetos e inclusive em alguns casos, eles exercitavam a capacidade de matar uma cabra com um simples olhar e o poder da mente (o que explica a razão do título). Quando Lyn diz que precisa infiltrar-se no território iraquiano para completar uma missão secreta, Bob vê uma oportunidade para conseguir uma boa matéria. Juntos os dois arrumam muita confusão no Iraque, onde Bob passa a conhecer mais profundamente o misterioso exército ao qual Lyn integrava além de si mesmo. "Os Homens que Encaravam Cabras" (The Men Who Stare at Goats, 2009) é uma comédia estranha que satiriza de modo curioso o ambiente de guerra e alguns aspectos a sua volta.


Essa produção é tão estranha, que a mensagem que aparece no início dos créditos iniciais é a maior afirmação disso: "você ficaria surpreso com a quantidade de coisas nesse filme que são verídicas". Sem ter a intenção de desencadear do espectador risadas fáceis, essa produção procura fazer piada justamente com o improvável (o lado verídico da história), que deixa uma folga oportuna para isso. A razão pela qual as forças armadas americanas criaram o "Exército da Terra Nova" é de um surrealismo incrível (chega parecer brincadeira ou mentira, mas não é). Talvez seja a piada verídica mais intensa de um grande repertório de outras mais. Com sua história baseada no livro Jon Ronson, a premissa que até de longe se mostra absurda é muito bem aproveitada através do roteiro de Peter Straughan, como também o diretor Grant Heslov, consegue entregar uma comédia inteligente e original com um nível razoável de competência (também é um experiente ator, roteirista e sócio-produtor com George Clooney na produtora Smoke House). Com um elenco que embarca com habilidade na viagem da trama, Heslov obtêm boas interpretações do elenco de astros que compõe essa produção (Ewan McGregor, George Clooney, Jeff Bridges e Kevin Spacey) que tem ares do estilo irreverente dos irmãos Coen, mesmo não tendo o carisma envolvente de suas produções. Por fim, "Os Homens que Encaravam Cabras" por melhor que seja, também não é para todos os públicos.  Heslov criou sim, uma produção inegavelmente interessante, que se arma de crítica e boas intenções, mas que também causa uma estranha sensação da ausência de algo mais.  

Nota: 7/10
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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Crítica: Jobs | Um Filme de Joshua Michael Stern (2013)


Cinebiografias em geral são um desafio a qualquer realizador. Desde cineastas conceituados de incontestável competência, até realizadores que são vistos como uma promessa para o futuro, veem nesse gênero de filme uma tarefa de difícil equilíbrio. Quanto mais célebre é a personalidade, mais elogios e críticas irá gerar daqueles que alinham certo carinho ou admiração pelo retratado (ou pelo menos conhecem naturalmente a figura ou seus feitos). "Jobs" (Jobs, 2013) não foge a regra. Uma cinebiografia de Steve Jobs, um dos homens mais relevantes dos últimos tempos, cuja genialidade tocou ou influenciou vários setores que iam da arte a tecnologia não seria uma tarefa fácil. Isso porque além de seus feitos, acima de tudo havia a imprescindível necessidade de retratar um pouco a trajetória de Jobs como pessoa (sua vida particular, sua ascensão e relacionamentos profissionais conturbados que tiveram na mídia tanto destaque quanto suas realizações). São cerca de trinta anos de vida espremidos em um longa com cerca de duas horas. Dirigido por Joshua Michael Strern e escrito pelo estreante Matt Whiteley, essa produção abrange na medida do possível algumas relevâncias em volta do gênio (a maior parte delas já haviam sido noticiadas no decorrer dos anos em jornais e noticiários), em um longa visualmente interessante, mas narrativamente sem força criativa. 


Talvez a coisa que mais impressione nessa produção, seja a semelhança física de Ashton Kutcher com o gênio (naturalmente com uma ajudinha de um eficiente departamento de maquiagem) nas diferentes fases da vida de Jobs. Além do mais, Kutcher materializa os trejeitos e maneirismos de Jobs com habilidade, mas para infelicidade do longa, o desenvolvimento não soa harmonioso (causa uma sensação de que teve uma montagem amadora). Há alguns saltos no tempo e de fatos que demonstram uma irregularidade gritante que causa incomodo. Na falta de profundidade concedida a acontecimentos decisivos da biografia do gênio, além de uma adequação mais dramática a certos momentos cruciais da história de "Jobs" (seu afastamento e reintegração da Apple), faz com que essa produção desperdice um potente enredo (somente a vida pessoal de Steve Jobs já renderia material para estruturar uma novela de horário nobre). Talvez para espectadores que tenham lido alguma de suas biografias, essa transposição se mostre mais clara, embora ainda assim haja incoerências. O diretor Joshua Michael Strern apresenta com fidelidade o mundo do inventor com uma reconstituição de época impressionante, mas falha em transpor a vida do homem com alguma originalidade. Curiosamente aborda alguns aspectos de sua personalidade sem censura e a sua visão empreendedora, mas não consegue corrigir as várias deficiências do roteiro atropelado. Em resumo, "Jobs" ainda não é cinebiografia definitiva do homem de grandes ideias que foi (há outros projetos em Hollywood para transpor a vida de Steven Jobs). Provavelmente, se ele ainda estivesse vivo e visse esse longa metragem, até ele reprovaria e ordenaria ser redesenhado. 

Nota:  5/10

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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Crítica: Fora de Controle | Um Filme de Roger Michell (2002)


Gaven Banek (Ben Affleck) é um promissor advogado que trabalha com seu sogro, Stephen Delano (Sydney Pollack) para uma grande firma envolvida em uma causa milionária. Se tudo der certo, e ele jogar de acordo com o planejado, um futuro promissor o espera no final desse processo. Mas somente se tudo der certo, já que para algo dar errado não precisa de muito, sua situação não se mostra favorável. No caso de Banek, bastou Doyle Gipson (Samuel L. Jackson), um vendedor de seguros recuperando-se do alcoolismo que busca desesperadamente um empréstimo para comprar uma casa e salvar sua família traumatizada pelo seu vício, cruzar seu caminho. O acaso faz com que Banek bata no carro de Gipson, e nas pressas de levar documentos vitais do processo em que está trabalhando à Corte, o agitado advogado abandona o acidente e deixa Gipson no acostamento sem muitos esclarecimentos (além de fazê-lo perder seu compromisso e a chance de resgatar sua vida). Mas o acaso prega uma peça nesses dois homens de mundos tão diferentes, quando Gipson no caos das circunstâncias acaba ficando com uma pasta com documentos imprescindíveis para o sucesso de Banek. E o que poderia muito bem ser resolvido com uma boa conversa, toma contornos extremos que levam esses dois homens aos seus limites. "Fora de Controle" (Changing Lanes, 2002) é uma produção estadunidense instigante que explora com competência a visão de "um dia de cão" de dois homens, que diante da perda do controle de seu futuro, se abstêm de qualquer sombra de moralidade e jogam qualquer resquício de bom senso no lixo, resultando em um embate incontrolável.


Dirigido por Roger Michell (do recente "Um Final de Semana em Hyde Park, 2012"), sua condução se mostra mais do que eficiente. Explora bem a premissa (na qual o mundo contemporâneo muitas vezes faz homens de bem abandonarem o bom senso) em uma trama sem heróis e vilões. Sua condução se prende apenas em explorar o potencial de cada personagem ao extremo, onde que a direção tem como foco principal, demonstrar como o ser humano sem alternativas aparentes é capaz de abandonar a civilidade sem pestanejar. O roteiro de Chap Taylor se mostra inteligente em seu desenvolvimento, embora seja mais astuto por onde começa (não há ambiente mais apropriado que aflore a selvageria de um homem civilizado do que no trânsito). Com atuações impressionantes que materializam de modo convincente o drama dos personagens, tanto Ben Affleck, quanto o extraordinário Samuel L. Jackson barbarizam em suas interpretações. Com uma produção de desenvolvimento tenso e uma climatização que prende a atenção, perde alguns pontos pelo desfecho politicamente correto e óbvio da trama (quase uma necessidade de propagar esperança ao mundo real). Além de contar com a ajuda de um elenco de apoio que é um show a parte: Toni Collete, Sydney Pollack, Richard Jenkins e Amanda Peet. Por fim, "Fora de Controle" é um filme cheio de qualidades (técnicas e narrativas) que explora com maestria uma das tantas facetas da natureza humana (tanto boa quanto negativa) de modo fascinante como poucas produções do gênero.

Nota:  7/10
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sábado, 21 de setembro de 2013

Crítica: Pausa para um Assassinato | Um Filme de Jérôme Le Gris (2011)


Lucrèce (Mélaine Laurent) é uma linda assassina profissional que pretende se aposentar. Mas antes da derradeira aposentadoria ela é incumbida por seu agente-contratante (Tcheky Karyo) de fazer um último trabalho. Sendo uma hábil cantora de ópera, ela se disfarça como cantora e é enviada a um castelo suíço localizado nos Alpes, para assassinar um grande tenor, Alexander Child (Christopher Stills) em um festival de música clássica que irá apresentar uma monumental ópera. Alexander recentemente comprou uma destilaria na Escócia, localizada em uma área que está sendo um grande obstáculo para a construção de um oleoduto ligado a uma organização milionária que não mede esforços para alcançar seus objetivos. Para impedir o atentado, autoridades de contra-espionagem consciente dos planos acerca de Alexander Child enviam um agente, Rico (Clovis Cornillac) também um habilidoso músico que irá compor a orquestra, para investigar e impedir sem ter grandes informações quem será o assassino. Assim entre dezenas de suspeitos, Rico tem que ao longo dos ensaios de o Messias de Haendel impedir que ocorra um assassinato. "Pausa para um Assassinato" (Requiem Pour Une Tuese, 2011) é um thriller de suspense pouco eficiente escrito e dirigido por Jérôme Le Gris. Excessivamente lento e pouco envolvente, essa produção se revela ao contrário várias outras produções francesas, um mal aproveitamento dos bons recursos que dispõe.


Com uma ambientação mais decorativa do que tensa, sua trama e condução não geram o pretenso efeito desejado em sua arquitetura (momentos tensos são raros e ainda assim pouco enfáticos), desperdiçando o talento de um elenco competente encabeçado pela belíssima e talentosa atriz Mélaine Laurent. Qualquer tentativa de criar um suspense Hitckcockiano moderno estagnou na teoria (a existência da protagonista loira que era o objeto de culto do cineasta em seus filmes e uma trilha sonora semelhante a de Bernard Herrmann são indícios óbvios do rumo ao qual seu projeto era direcionado). Problemas a parte, o desenvolvimento equivocado de sua trama é responsável por boa parte da perda de força do conjunto da obra. As sugestões passaram batidas e a escassez de bons momentos e diálogos interessantes somente vieram a reforçar a pouca fluência desse suspense. Além do mais, ao contrário do que prega o elegante cartaz (exposto logo acima desse post) dessa produção , a atriz Mélaine Laurent não dá um tiro sequer durante toda duração desse filme. Especializada em matar seus alvos com soluções venenosa mortais, ela está longe de ser uma assassina do tipo que estampa o cartaz, e que sugere alguma ação que obviamente não se aplicou. Por fim, "Pausa para um Assassinato" se mostrou mais bonito do que eficiente. De uma pretensão que não atende as expectativas do público (e vendo a tentativa de homenagear o mestre do suspense) provavelmente não tenha agradado nem seu realizador.

Nota:  5/10
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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Crítica: Truque de Mestre | Um Filme de Louis Leterrier (2013)


Quatro ilusionistas detentores de diferentes habilidades são reunidos em uma única equipe para encenar grandiosos espetáculos de magia para grande públicos. J T. Aylas (Jesse Eisenberg) um controlador obsessivo e arrogante, com quem já havia trabalhado com Merrit McKinney (Isla Fisher), uma ex-assistente de palco, Henley Reeves (Woody Harrelson) um metalista picareta e pretensioso, e Jack Wilder (Dave Franco) um ilusionista de rua e batedor de carteira, formam o grupo que se intitula os Quatro Cavaleiros. Trabalhando sob um comando misterioso, em seu primeiro grande show em Las Vegas, ao mesmo tempo que apresentam seu espetáculo, também roubam um banco em Paris, e distribuindo todo o dinheiro aos espectadores da apresentação. O feito chama a atenção das autoridades, tanto do FBI quanto da Interpol, tendo os agentes Dylan Rhodes (Mark Ruffalo) um descrente da magia, e Alma Dray (Mélanie Laurent) enviada da França para investigar o crime. Com a ajuda de um desmascarador de mágicos, Thaddeus Bradley (Morgan Freeman) unem-se para desvendar os mistérios em volta do golpe e prender os Cavaleiros. "Truque de Mestre" (Now You See Me, 2013) logo em seu início anuncia em tom de profecia: "Quanto mais perto você olha, menos você vai ver". E não é que isso é verdade. Trata-se sumariamente de um longa sob medida para quem busca solucionar seus mistérios antes da subida dos créditos finais, que mistura com eficiência truques de ilusionismo, roubos milionários onde nada é o que parece (remetendo a lembrança de "Onze Homens e um Segredo" com um toque de Robin Hood) e materializado através de uma realização envolvente motivada por reconhecimento e vingança.


Feito para agradar vários públicos diferentes, não é necessário você gostar de mágica para que essa produção lhe agrade, contanto que se abra mão de alguma lógica para se convencer do seu controverso desenvolvimento (a abordagem do mito do "O Olho" é um bom exemplo de uma deficiência incômoda). Mesclando vários elementos na mesma trama, cuja premissa já se mostrava curiosa a primeira vista (roubar um banco em outro continente em tempo real durante um show de mágica é a essência de apelo típica de um espetáculo do gênero), o diretor Louis Leterrier constrói uma trama ligeiramente inteligente com boas sequências de ação e boas tiradas de humor que funcionam nesse longa de modo mágico. Com o roteiro escrito a três mãos (Boaz Yakin, Ed Solomon e pelo estreante Edwaqrd Ricourt) a história se distancia da realidade para criar um produto de entretenimento divertido repleto de surpresas. Apesar de alguns recursos de sua estrutura serem manjados, essa produção consegue um resultado positivo se visto pelo conjunto da obra. Tem um elenco carismático, uma produção grandiosa (com direito a vários efeitos visuais de contribuição da Industrial Light & Magic), uma trilha sonora que acentua toda a ação e reviravoltas pontuais que prendem a atenção do espectador do começo ao fim, fazendo valer a afirmação proferida por Morgan Freeman: "é aqui que a magia acontece".

Embora esteja repleto de qualidades, "Truque de Mestre" não é impecável. Visto com um olhar mais crítico está longe disso. Na verdade ele funciona como todo truque de mágica (simplista ou grandioso) ao qual você já descobriu o mistério. O auge da diversão é potencializado por um surpreendente clímax que é obtido somente na primeira apresentação. Depois disso, em uma segunda visualização, ele acaba por perder seu brilho e encanto, somente nos restando vê-lo com um olhar mais burocrático. Revisitá-lo é outra história...

Nota:  7,5/10
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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Crítica: Sem Perdão | Um Filme de Niels Arden Oplev (2013)


Victor (Colin Farrel) é um homem soterrado de segredos. Determinado a conquistar a confiança de Alphonse (Terrence Howard) o líder de um grupo criminoso da cidade ao qual trabalha, ele não hesita em cumprir ordens, que inclui até matar. Sobretudo, quando se instala na organização criminosa um alerta de segurança que põe em risco a segurança do chefe, a lealdade de todos no grupo começa a ser questionada. Diante das circunstâncias delicadas na qual passa a organização, Victor acaba por conhecer sua vizinha de janela, Beatrice (Noomi Rapace), uma mulher cujo rosto ficou marcado por um acidente de carro no qual o responsável saiu impune. Diante da aparente fragilidade e desamparo dessa mulher, há uma pessoa verdadeiramente decidida a obter vingança sobre o homem que desfigurou seu rosto. Ao saber dos segredos de Victor, ameaçando divulgá-los ele concorda em ajudá-la em seu plano de vingança. Com um inesperado pacto de cumplicidade, ambos buscam ao seu modo, algo além da redenção que transformará suas vidas para sempre. “Sem Perdão” (Dead Man Down, 2013) é um thriller de suspense dirigido pelo dinamarquês Niels Arden Oplev (responsável pelo “Millennium Os Homens que não Amavam as Mulheres” na versão sueca), cuja produção se mostra uma engenhosa trama de vingança extremamente instigante. Eventos aparentemente desconexos vão lentamente se combinando em um desenvolvimento fascinante, que se alternam com momentos de suspense fortes, cenas de ação funcionais, reviravoltas inesperadas que levam a um clímax explosivo.


A vingança é um tema clássico do cinema constantemente revisitado por grandes ou regulares cineastas. Niels Arden Oplev consegue um resultado bem acima da média através dessa produção realizada pelos estúdios da WWE, que é geralmente responsável por produzir filmes B de baixa qualidade. Com um elenco fabuloso, Oplev consegue uma excelente interpretação de Colin Farrel, como nos bons tempos de “Por Um Fio” ou “Tigerland”. Seu personagem não se valoriza através de diálogos, mas por suas expressões que traduzem toda sua angustia diante das circunstâncias as quais está a sua volta. Agora Oplev, em sua segunda parceria com Noomi Rapace (com quem já havia trabalhado em “Millennium Os Homens que não Amavam as Mulheres”), extrai uma interpretação emocionalmente rica em vários aspectos: a atriz confere a esse longa uma carga dramática bem equilibrada conseguindo fazer uma ligação emocional forte com Farrel (seus personagens são sobrecarregados de emoções ocultas e planos sinistros). Mesclando com competência as catástrofes pessoais de cada personagem em uma única trama, Oplev demonstra capacidade em conduzir momentos que requerem dramaticidade. Além de tudo, exibe habilidade narrativa com a câmera ao condicionar cenas de ação projetada em uma história de propósito mais dramático. O elenco de apoio ajuda muito para que o desenvolvimento cresça de maneira envolvente, onde o ator Dominic Cooper se mostra uma escolha acertada a espera de um grande projeto que aproveite seu talento. Mas um dos grandes acertos de "Sem Perdão", certamente é o roteiro de J. H. Wyman que desenvolve bons momentos e uma trama consistente que prende a atenção. Sobretudo, a trilha sonora de Jacob Groth acentua com genialidade o progresso da produção em cada cena. "Sem Perdão" é um longa fascinante, com excelentes atuações, boas cenas de ação e uma história de renascimento em meio ao sombrio terreno da vingança que desperta carisma no espectador. 

Nota:  8/10
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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Crítica: Elektra | Um Filme de Rob Bowman (2005)


Constantemente torturada pelo seu passado, Elektra (Jennifer Garner) após sua morte (ocorrida durante um confronto com o Mercenário em “O Demolidor – O Homem Sem Medo, 2003”) e sua misteriosa ressurreição  quando foi trazida de volta dos mortos pelas mãos de seu sensei, Stick (Terrence Stamp) a faz viver numa constante busca por vingança. Embora tenha sido treinada na rígida disciplina do ninjutsu, ela não consegue controlar a fúria que sente pelos responsáveis pela morte dos pais. E em seu anseio por vingança ela abandona o culto dos Virtuosos e parte num exílio para se tornar uma perigosa assassina profissional, onde passa a empregar seus poderes de prever o futuro. Mas quando ela contratada para matar Mark e Abby Miller (Goran Visnjic e Kirsten Prout) pai e filha, demônios de seu passado ganham mais força em sua consciência. Porém, a partir do momento que ela não os executa, passa a ter a responsabilidade de protegê-los de um clã milenar de ninjas chamado Tentáculo. Contudo, o que Elektra não imaginava eram as razões que levava tantos assassinos a quererem matá-los. "Elektra" (Elektra, 2005) aparentemente prometia através da divulgação mais do que era capaz de entregar, no entanto, o resultado realmente entregue mostrou-se inferior ao esperado, onde o cineasta Rob Bowman bombardeia o espectador com um filme morno e desinteressante. 



A personagem foi criada em 1981 como uma heroína secundária dos quadrinhos em "O Demolidor", onde o quadrinista Frank Miller acertou em cheio em sua criação (fã confesso do universo dos misteriosos ninjas, esses personagens frequentemente habitavam várias histórias diferentes de sua autoria). Contudo, o diretor Rob Bowman não acertou em quase nada ao transpor a personagem (que antes dividiu a tela com o Demolidor) para telona. Pouca profundidade sobre sua história, uma climatização exótica que remetia ao cinema do oriente (belas paisagens e muito cenas de luta) e um repertório de estranhos vilões que beiravam ao carnavalesco. Mas sua maior deficiência reside no roteiro rebuscado de claras costuras e pouco envolvente (a trama é muito corrida para uma produção que não se presta ao trabalho de familiarizar nada a respeito da personagem). Com cenas de ação sem novidades e pouco clima, apesar do condicionamento técnico elegante, naturalmente a talentosa atriz Jennifer Garner (um fenômeno nascido do extinto seriado "Alias - Codinome Perigo") não conseguiu o sucesso desejado na tarefa de segurar a produção sozinha, mesmo sendo uma hábil lutadora que dispensa dublês em cena e por esbanjar uma sensualidade latente. "Elektra" foi um claro sintoma do desgaste da fórmula de sucesso projetada pelos grandes estúdios, que caminhava ao completo esgotamento, e por fim, acabou chamando a atenção dos responsáveis de que não era tão fácil ganhar dinheiro transpondo a toque de caixa todo e qualquer personagem dos quadrinhos. 

Nota:  4/10 
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Crítica: Finalmente 18 | Um Filme de Jon Lucas e Scott Moore (2013)


Qualquer semelhança não é mera coincidência. Escrito e dirigido pelos roteiristas de "Se Beber, Não Case!", essa produção chamada "Finalmente 18" (21 and Over, 2013) de Jon Lucas e Scott Moore é uma simples versão teen da trilogia de sucesso protagonizada por Bradley Cooper e Cia tempos atrás (não se diferenciando em quase nada). O diferencial notável desse filme mesmo está na faixa etária dos protagonistas das loucuras que preenchem essa produção (mais novos e nada famosos), eles enveredam por mais de uma hora e meia um festival de absurdos regada a bebedeira que consegue promover bons momentos e piadas eficientes. Sem grandes ou nenhuma novidade, esse exemplar explora ao máximo esse subgênero em que coloca muitos adolescentes em festas de arromba em fraternidades descontroladas. Em sua história acompanhamos Jeff Chang (Justin Chon) que no dia de seu aniversário em que completa a maioridade e as vésperas de uma importante entrevista para a faculdade de medicina que segundo seu pai é vital para seu futuro, é deixado ser levado por seus dois melhores amigos, Miller (Miles Teller) um completo desajustado, e Casey (Skylar Astin) um jovem bem mais comportado de que seu amigo, para tomar uma cerveja para comemorar. Obviamente nem tudo sai como planejado e as loucuras começam a acontecer e a situação a fugir do controle até tomar dimensões incontroláveis. 


Se a premissa de "Se Beber, Não Case!" sugere ter servido de inspiração, que usando locações que iam de Las Vegas a Tailândia,  aqui os campus universitários, irmandades e bares funcionam tão bem quanto qualquer outra locação exótica do mundo (em alguns aspectos até funciona melhor). Considerando a infinidade de produções similares no mercado, essa se mostra ligeiramente acima da média ao apresentar uma mistura de "Super Bad" com "Projeto X - Uma Festa Fora de Controle". Criado com o único intuito de divertir o espectador (mais especificamente o da mesma faixa etária dos envolvidos nas peripécias) nesse quesito cumpre seu papel com eficiência (as extravagâncias em que o trio se envolve se mostram bem elaboradas). E muito dessa eficiência se deve ao trio de atores que funcionam bem (principalmente o ator Justin Chon, a quem se deve o parabéns por protagonizar as sequências mais hilárias dessa produção) além da condução preparada de Jon Lucas e Scott Moore, que buscam um nível razoável de profundidade na composição dos protagonistas, mantendo um ritmo adequado para o gênero no qual se encaixa e uma consciência explícita de sua proposta. "Finalmente 18" está longe de ser memorável, já que na verdade filmes desse gênero (comédia adolescente) geralmente são vistos com pouco entusiasmo pela crítica. E como, o elenco também não é composto por grandes nomes, essa produção é facilmente ignorada por ser um produto de aparência descartável. Mas para quem procura um programa escapista repleto de cenas escatológicas, nudez gratuita e monumentais bebedeiras, esse filme se mostra um programa acertado.

Nota:  7,5/10   
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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Crítica: Batman O Cavaleiro das Trevas | Um Filme de Christopher Nolan (2008)


O diretor Christopher Nolan recria conceitos e ultrapassa todas as expectativas com uma sequência sombria e realista. Em "Batman O Cavaleiro das Trevas" (The Dark Knight, 2008) a coisa que mais me chama a atenção é justamente não se tratar de um típico filme de heróis, mas de vilões e a linha tênue que os separa. O grande herói dessa produção continua intocado desde o surpreendente “Batman Begins”, embora desta vez tenha um adversário à sua altura e enigmaticamente superior. A presença mais marcante desse longa-metragem foi arrematada pelo Coringa através de uma interpretação inspirada (em que ele mesmo se define como um agente do caos), elevando seu personagem aos patamares mais altos da história dos vilões do cinema (onde personagens como de Hannibal LecterO Silêncio dos Inocentes” e Norman Bates Piscose” habitavam sem perturbações, o Coringa se mostra igualmente fabuloso). Mas o Coringa, apesar de sua expressiva vantagem sobre outro vilão que compõe o repertório de personagens fantásticos de "Batman O Cavaleiro das Trevas", é seguido de perto por Harvey Dent (também conhecido como Duas Caras) igualmente bem composto. O herói continua incrível, contudo seus oponentes não deixam nada a desejar. 

Na trama dessa produção acompanhamos os eventos após o término de “Batman Begins”, quando o Comissário Gordon (interpretado por Gary Oldman) promovido após o desfecho do filme anterior anuncia ao Cavaleiro das Trevas (Christian Bale) a existência de um estranho criminoso mascarado, que além de estar preocupando as autoridades policiais de Gotham, ainda tem incomodado as atividades criminosas da Máfia consolidada. Mas Bruce Wayne procura mais do que tudo, um substituto para que ele possa aposentar o uniforme do justiceiro mascarado e abandonar as noites em claro. Encontrando na figura de Harvey Dent (Aaron Eckhart) um otimista promotor de justiça determinado a limpar a cidade do crime a oportunidade para essa realização, ambos juntam forças com Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) para combater um poderoso inimigo: o Coringa (Heath Ledger) um mascarado psicopata que se propõe a matar o Batman para os chefões do crime de Gotham City. Subestimado por Batman, logo ele espalha o caos pela cidade virando uma ameaça a todos. Com inteligentes artimanhas e uma insanidade assustadora o Coringa obriga Batman a abandonar todas as suas regras, se mostrando o maior de todos os desafios que poderiam ter cruzado o seu caminho.

O cineasta Christopher Nolan deixa de lado qualquer conceito de filmes de herói, criando um épico onde mesmo tendo tudo que remeta ao gênero (um herói mascarado, vilões totalmente insanos, humor afinado e muita ação) torna-se ao mesmo tempo uma análise profunda sobre a origem do mal e de como qualquer pessoa sob as condições adequadas pode tornar-se sua personificação. Essa produção, apesar de se utilizar dos clichês do gênero, não pode ser caracterizada de forma simplista como apenas um filme de super-herói (gênero sofrido de preconceito em certos círculos críticos devido a péssima qualidade da maioria dos exemplares lançados). Suas ramificações se alternam durante sua duração (tem ação, humor, flerta com o gênero policial quando não com filmes de mafiosos) dando ênfase a vários elementos diferentes na composição do todo. Enquanto a ação desenfreada toma a atenção em um primeiro ato, uma trama resultante de suas consequências se cria posteriormente, e que logo em seguida desencadeia outras mais. Cada elemento (dos personagens a narrativa) tem seu tempo exato para entrar em cena, onde o cineasta (também um competente produtor e roteirista) não perde a mão em momento algum. Subtramas se unem em um único enredo e onde esquemas de corrupção policial, temor público pelos poderes da máfia, interrogatórios policiais, dividem a tela com extravagâncias tecnológicas do protagonista sem causar estranheza, o filme se torna envolvente e um excelente programa de entretenimento. Personagens secundários como Rachel (Maggie Gyllenhaal), Lucius Fox (Morgan Freeman) e Alfred (Michael Caine) representam o que há de melhor como elenco de apoio. Filmado em IMAX em diferentes partes do mundo, esse longa alia uma produção impecável com uma realização competente divulgada através de uma campanha de marketing magistral.

Em resumo, a psicologia de questões morais perpetradas nos acontecimentos em volta de Batman  O Cavaleiro das Trevas” o torna diferente dos filmes do gênero. A soma de atuações extraordinárias, um roteiro fluente em suas origens, de condução memorável, faz dessa produção um longa-metragem único no gênero. Assim essa sequência ultrapassa os limites do realismo arquitetado em “Batman Begins”, definindo de forma antológica o universo sombrio do famoso personagem da DC Comics, que ao mesmo tempo, concilia produto e arte numa produção inusitada de modo surpreendente  

Nota: 10/10
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sábado, 14 de setembro de 2013

Crítica: Adaptação | Um Filme de Spike Jonze (2002)


"Adaptação" (Adaptation, 2002), talvez seja menos inovador do que "Quero Ser John Malkovich" (1999), enquanto "Onde Moram os Monstros" (2009) seja uma incongnita de tão pessoal que se apresenta. Embora alguns aspectos referentes a "Adaptação" se mostrem tão curiosos quanto o próprio filme, o convencionalismo adotado nessa produção se mostra fascinante. Mesclando com apuro ficção e realidade, o roteirista Charlie Kauffman (um dos mais talentosos roteiristas do cinema independente em atividade) tentou sem sucesso transpor o livro "O Ladrão de Orquídeas"(escrito por Susan Orlean) conforme desejado. Assim com base em suas frustrações de não conseguir adaptar o livro em um roteiro cinematográfico de acordo com a encomenda, ele recicla parte do material e ultrapassa os limites das possibilidades criando um trabalho brilhante e original com sua inspiração. Sua trama: Para começar, ele próprio é o personagem principal de sua trama (interpretado por Nicolas Cage em sua melhor fase) onde o ponto de partida se tem quando ele é contratado para tornar o livro de Susan Orlean (Meryl Streep) num roteiro de cinema. Kauffman aos poucos passa a perder as esperanças em roteirizar o livro, transformando sua decepção em um material diferenciado repleto de absurdos bem interessantes (Kauffman inclusive cria um irmão gêmeo para sua trama e que também quer se tornar um roteirista igual a ele). O irmão gêmeo de Kauffman  começa a frequentar cursos de roteirista para aprender o ofício, e mesmo sob protestos e nenhuma motivação do irmão, não é que ele se vira bem? Para interpretar o "Ladrão de Orquideas" John Laroche que dá título ao livro, temos o ator Chris Cooper. 


O cineasta Spike Jonze adotou uma narrativa convencional para essa produção (repleta de idas e voltas no tempo para explicar os fatos e acontecimentos propostos pelo roteiro), apresentando aos espectadores de forma quase didática a fórmula de se faz cinema underground de primeira linha (a inserção de cenas de bastidores de seu filme anterior (Quero Ser John Malkovich) dá a exata noção disso). Embora tenha uma roupagem convencional em sua estética, consente evidências de elementos fantásticos característicos da filmografia de Jonze sem interferir no conjunto da obra. Mesmo não sendo um filme para todos os públicos, mantém um vínculo forte com a normalidade da narrativa habitualmente usada por outros cineastas. O grande mérito de Jonze é a extração de extraordinárias interpretações de seu elenco (inclusive Nicolas Cage desempenha papel duplo na história mostrando-se imensamente capaz, desde que tenha em mãos um bom roteiro e um personagem com algo a dizer). Se Cage já dá um show ao materializar as nuances dos profissionais do meio (dos roteiristas), Meryl Streep dispensa comentários, enquanto Chris Cooper compõe seu personagem de modo a levar ao espectador uma interpretação inusitada. Todo o elenco impressiona por seu comprometimento e por suas caracterizações perfeitas de personagens que facilmente poderiam ser moldados com clichês batidos. Mas ao invés disso, apresentam interpretações originais e cativantes.

Com uma produção de difícil posição de gênero, esse longa-metragem dramatiza os bastidores de Hollywood com humor e boas tiradas, surpreendendo pelo rumo que sua trama segue e acima de tudo, por elevar o nível de atuações de um grupo de atores de uma só vez com uma história cujo ponto de partida é sobre (entre muitas coisas) um livro de orquídeas que gera alguns obstáculos para um experiente roteirista. Sobretudo, "Adaptação" mesmo que não vá agradar um amplo percentual de espectadores por sua estética que rivaliza com sua excentricidade, ao menos irá surpreendê-lo caso você busque uma inspirada surpresa em um simples longa-metragem. 

Nota:  8/10
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Crítica: Reino de Fogo | Um Filme de Rob Bowman (2002)


O ano é 2008. Quando uma equipe de escavações de um metrô em Londres acidentalmente acaba descobrindo a existência de um gigantesco dragão nos subsolo britânico. Dando origem a uma nova geração de criaturas cuspidoras de fogo, se inicia uma catástrofe de proporções épicas pelo mundo. Difíceis de matar, e sendo que se reproduzem com rapidez, logo o mundo é tomada por essas temíveis feras. A humanidade praticamente dizimada ao longo das anos, resta apenas pequenos grupos de sobreviventes que resistem lutando contra os implacáveis dragões. Cerca de 20 anos após o inicio dessa perigosa infestação, Quinn (Christian Bale) lidera um desses grupos de sobreviventes na Inglaterra. Certo dia chega um grupo de americanos armados até os dentes e comandados por Van Zan (Matthew McConaghey) pedindo apoio aos ingleses. Visto como um provável suicídio, os americanos partem em sua caçada com poucos recrutas e nenhuma chance de sucesso. Decididos a caçar e matar todos os dragões que se aninham em Londres, seus planos fracassam após um ataque devastador do macho que se fosse destruído, poderia levar esperança a humanidade. É quando Quinn após um grande ataque que praticamente dizima sua inexpressiva resistência, decide também ajudar Van Zan os levando direto ao epicentro do mal que assola a humanidade: direto para a toca do dragão. "Reino de Fogo" (Reign of Fire, 2002) é uma produção de 95 milhões de dólares dirigida por Rob Bowman (Elektra, 2005) e que materializa um exemplar interessante de aventura de ação, que ao inserir dragões (de modo lógico embora impossível) em um mundo contemporâneo, mostra uma visão apocalítica diferenciada dos rumos da humanidade. 

      
Com um elenco de pré-estrelas (Christian Bale, Matthew McConaghey e Gerard Butler) que viraram verdadeiras sensações de bilheteria em outras produções diferentes posteriormente, essa produção teve uma passagem infeliz pelos cinemas (não rendeu nem a metade do que custou). Com um clima que remete a filmes pós-apocalípticos, sua ambientação é rica visualmente. Os dragões são em grande parte exercícios bem realizados de efeitos especiais combinados com técnicas convencionais de filmagem de resultado funcional. E se os efeitos funcionam bem, o mesmo vale para o elenco, apesar da falta de um roteiro envolvente e conectasse o espectador as subtramas do grande enredo. Embora Bale seja o fósforo que acende o fogo e esquenta a chapa, entrega uma interpretação pouco expressiva, enquanto McConaghey transborda talento apesar de interpretar um personagem de poucos amigos. Com boas cenas de ação, onde a parte técnica tem uma elaboração interessante, a condução de Rob Bowman não consegue conferir credibilidade a momentos chaves do longa (tentar convencer o mundo da existência passada de dragões não é tarefa fácil), como não consegue conferir tensão a certas sequências que tinham esse propósito. Trata-se de um filme onde suas maiores qualidades se encontram primeiramente na premissa curiosa e depois em alguns aspectos técnicos da produção (a trilha sonora sempre em tom elevado para despertar as emoções no espectador, nem sempre afloram com a devida intesnidade). Em resumo, "Reino de Fogo" se diferencia um pouco da estética de Hollywood, embora não se mostre em desenvolvimento melhor por isso. Tem boas cenas e excelentes atuações, mas não se mostra um produto muito eficiente e para todos os públicos que apenas se agradaram com as possibilidades da premissa. Poderia ter ficado melhor.

Nota: 5,5/10
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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Crítica: Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge | Um Filme de Christopher Nolan (2012)


Antes de qualquer coisa é imprescindível que seja dito que todo brilhantismo conferido a esse longa é resultante da harmonia do conjunto da obra iniciada em 2005 através de “Batman Begins”. Quando o cineasta Christopher Nolan transpôs um dos mais fascinantes personagens dos quadrinhos para telona de forma autoral e com toques de realismo inédito ao personagem criado por Bob Kane, o cineasta conseguiu não somente criar um produto comercial eficiente (artístico e lucrativo), mas redefinir o rumo de um gênero cinematográfico que caia meteoricamente em descrédito após inúmeras produções que beiravam a completa inutilidade. Daí contrariando outras regras do cinema que se davam como certas, ele realizou uma sequência insuperável materializada em “Batman O Cavaleiro das Trevas”. Por isso “Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (The Dark Knight Rises, 2012) é de longe sensacional. Esse longa não pode ser avaliado de forma isolada (entenda os três filmes como sendo uma única história), e deve-se sumariamente ser vislumbrado como sendo o fim de uma trilogia que se completa fantasticamente.

Assim em seu episódio de desfecho acompanhamos a Gotham City oito anos após as tragédias ocorridas em “Batman O Cavaleiro das Trevas”: Harvey Dent e Rachel Dawes estão mortos pela articulação do Coringa e a Máfia erradicada da cidade. Porém a culpa pelos acontecimentos trágicos foi depositada sobre Batman, agora um fora-da-lei caçado pelas autoridades. Desde então Bruce Wayne (Christian Bale) permanece distante da sociedade, mantendo-se recluso em sua mansão recém-construída e penando por assumir a responsabilidade por tudo que aconteceu antes. Após a morte de Dent (primeiro o Cavaleiro Branco de Gotham até se tornar o Duas Caras) a cidade repousa em paz sem a necessidade dos serviços da justiça de Batman. Mas apesar do clima de ordem restituído na cidade, nos bastidores desse aparente clima de normalidade instituído em Gotham, um grupo de terroristas ligado a Liga das Sombras, e liderado por Bane (Tom Hardy) traça um plano de levar à cidade de Gotham as ruínas como exemplo para mundo do mesmo modo que foi iniciado por Ra’s Al Ghul (Liam Neeson) em “Batman Begins”. E ressurgindo das trevas, Batman volta de seu auto-exílio para combater o mal novamente. Entretanto, além da habitual ajuda do comissário Jim Gordom (Gary Oldman), do jovem policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt) e Fox (Morgan Freeman) e Alfred (Michael Caine), acaba por desenvolver uma estranha ligação com Selina Kyke (Anne Hathaway), uma ladra que joga nos dois lados e que será colocada à prova enquanto Batman, debilitado por sua cruzada contra o crime, terá nesse misterioso inimigo conhecido como Bane (um acessório para o Armagedom) seu adversário mais perigoso. 


Após o grande sucesso do segundo episódio dessa franquia, muita expectativa se criou em cima dessa produção (especulações sobre o rumo que essa franquia tomaria e os personagens que passariam a fazer parte dela). E a maior de todas a especulações talvez fosse: Quem seria o grande vilão que protagonizaria o confronto final com o Homem-Morcego? Havia grande expectativa pela aparição do "Charada" que não se confirmou, embora Bane se revelou instigante. Um vilão de presença física e cujos diálogos são proferidos em tom paroquial de liderança, sua busca por instalar o caos em Gotham é impressionante. Entre outras opções e a escolha de Bane, interpretado por Tom Hardy, (que mesmo longe de superar o Coringa de Heath Ledger) a decisão de inseri-lo na grande trama mostrou-se um acerto gratificante para a franquia e condizente com a proposta de Nolan. O roteiro de Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David Goyer acerta mais uma vez e presenteia o espectador com várias surpresas (para fãs ou não do personagem) na forma da materialização de momentos cruciais do personagem em sua trajetória pelos quadrinhos. E se Bane se mostra uma surpresa, diga-se então sobre a presença da insinuante Mulher Gato interpretada pela belíssima Anne Hathaway (de uma composição que fará qualquer um esquecer as muitas outras anteriores). Inclusive a presença de Joseph Gordon-Levitt e da atriz Marion Cotillard aos poucos se mostra tão importantes quanto parecem em premissa.


E o Batman? Talvez nesse longa-metragem ele perca pontos para si mesmo, já que Bruce Wayne conquista em contrapartida uma presença de tela maior e de melhores momentos. Mas Christian Bale, a vontade em seu papel depois de duas produções, demonstra equilíbrio e acerta na presença de tela quando veste o traje de Cavaleiro das Trevas, ao mesmo tempo em que confere uma dramaticidade incrível ao milionário Bruce Wayne. Contudo, se o elenco funciona de forma magistral, onde há um evidente incremento com a presença de Selina Kyke, essa produção perde alguns pontos por suas subtramas que se mostram em certos momentos desnecessárias, como em outros momentos exageradas e encaixadas de modo forçado (o confinamento dos policiais é de difícil aceitação) já que a aplicação incorreta de certas soluções rouba a propriedade dos conceitos realísticos da obra. Contudo, suas eventuais deficiências são eficientemente ofuscadas pelas grandes qualidades do conjunto, que vão desde o conjunto técnico sempre impecável, ao ritmo acentuado e o tom acertado da obra (sombria e bem ambientada), além das pontuais reviravoltas da trama principal perfeitamente conduzidas pelo experiente cineasta Christopher Nolan. 

Um aspecto muito positivo desse longa são as cenas de ação: de grande apuro visual quando conveniente, e realismo quando necessário. O surgimento do Batmóvel é um espetáculo que gera uma boa cena de humor e o da Batmotocicleta sempre funcional. De resto fica uma surpresa que deixa o espectador nas alturas. Sobretudo, os créditos de heroísmo não ficam diretamente conectados ao grande herói dessa produção, mas também a todos que como ele, buscam salvar Gotham de seus malfeitores. 

Se mesmo que Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge” não seja superior ao filme anterior, mantem um nível de qualidade coerente e acima de tudo envolvente. Inegavelmente essa produção sofreu da falta de tempo para uma composição mais aprofundada, já que seu desfecho sutilmente insinua pressa por terminar, embora que o material exibido em sua maior parte demonstre ter sido muito bem aproveitado. Nolan consegue através dessa franquia (mas não necessariamente devido a esse filme) criar uma obra diferenciada do que se conhecia nesse subgênero e presentear fãs e apreciadores dessa franquia com um desfecho contundente e de grande impacto. Imperdível! 

Nota:  9/10
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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Crítica: O Escritor Fantasma | Um Filme de Roman Polanski (2010)


Provido de elegância e conduzido com domínio, esse thriller político mostra toda a capacidade do cineasta Roman Polanski de criar obras cinematográficas aprofundadas em sua proposta. “O Escritor Fantasma” (The Ghost Writer, 2010) impressiona pela climatização eficiente do suspense sobre uma trama de conspiração política (que nas mãos erradas pode facilmente se reverter em um desastre) repleta de tramoias e jogos de aparências. Esse longa também chama a atenção pelo desempenho de um elenco de astros de poucos atrativos a um grande público, que se entregam a seus papéis de modo envolvente, fazendo dessa produção que sutilmente remete a lembrança do mestre Hitchcock, uma grande realização. Em sua trama acompanhamos Adam Lang (Pierce Brosnan) um ex-primeiro ministro britânico, que passa uma temporada nos Estados Unidos da América, onde se dedica a seu livro de memórias. Mas após a morte do responsável por destilar todo manuscrito em um livro (que morreu misteriosamente afogado), o papel de terminar o livro é conferido a outro escritor fantasma (Ewan McGregor). Assim residindo em uma luxuosa propriedade de Lang localizada em uma ilha isolada, ele passa a enriquecer o material sobre seu contratante. Tentando reaproveitar parte do material escrito pelo falecido, o escritor fantasma procura se aprofundar mais sobre detalhes em volta de Lang. E nessa busca por maiores informações sobre Lang, ele investiga o passado do político e começa a descobrir sobre um misterioso envolvimento dele com o governo americano em antigos conflitos ocorridos no Iraque. Para atrapalhar sua tarefa de escrever um livro biográfico fiel, entra em cena a esposa problemática de Lang (Olivia Williams) e uma leal secretária (Kim Cattrall) onde começa a ver que por trás de toda descrição há segredos ocultos que podem colocar sua vida em risco.



Baseado em um romance do cronista político e também escritor Robert Harris, o personagem de Adam Lang tem claros indícios de ter sido inspirado no ex-primeiro ministro Tony Blair. Harris indiretamente auxiliou Blair a se eleger, e decepcionou-se com seu envolvimento na Guerra do Iraque. Harris, co-autor da adaptação do livro junto a Roman Polanski, o filme exibe brilhantes diálogos e são o maior mérito desse longa. Com uma ambientação de suspense lento, e uma direção de fotografia que enriquece a película, Roman conduz sua trama de modo que apenas revela o necessário em forma de pequenas pistas, até entregar um grand finale ao espectador. Se muito do brilho dessa produção se encontra no roteiro consciente proposto por Roman, uma parcela considerável de aplausos devem ser reservados a escolha do elenco que materializou com muito talento as nuances em volta de seus personagens. Pierce Brosnam com seu político polido e cheio de aparências confere sintonia e credibilidade a essa produção, como também Ewan McGregor transpõe seu personagem, que entra em cena como um duvidoso funcionário obediente, e passa a investigador obstinado de forma natural. Tecnicamente impecável, desde o visual a trilha sonora de Alexander Desplat (de O Curioso Caso de Benjamin Button), sempre expressiva, essa produção está fascinante em vários aspetos. "O Escritor Fantasma" é um ótimo suspense, inteligente e de climatização soturna que aproveita bem esse enredo político onde nem tudo parece o que é, além de mesclar com maestria outro universo diferente (os bastidores do mundo literário) de modo interessante e esclarecido. 

Nota: 8/10

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I Declare War | Pôster de um filme que não é brincadeira


A imaginação das crianças é algo curioso. Sua capacidade de ver de modo realista suas brincadeiras, diferente dos adultos, não é nada incomum. Isso é fruto de uma imaginação fértil. Dando vida a essa ideia, o filme canadense "I Declare War", dirigido por Jason Lapeyre e Robert Wilson se fez notar em alguns festivais de cinema de modo relevante ao levar a película um sangrento jogo de guerra através de imagens e sequências violentas onde preponderam apenas a atuações de crianças (todo o elenco é composto por crianças). O cartaz acima lançado pela DraftHouse Films, destila bem a moral do longa e a premissa ligeiramente interessante nunca antes materializada em uma produção cinematográfica, que se mostra no mínimo intrigante. 


Em sua trama acompanhamos uma comum brincadeira, onde uma turma de crianças armadas apenas com galhos e muita imaginação, envolvem-se em um jogo de Captura de Bandeira numa floresta. Pedras viram granadas, árvores tornam-se torres de controle e alguns galhos e varas transformam-se em armas pirotécnicas ou em metralhadoras, onde o faz de conta e a realidade se confundem em sua brincadeira. Mas o desejo de vitória transforma essa inocente brincadeira em uma batalha sem limites que ultrapassa os limites das possibilidades. 
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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Crítica: Ferrugem e Osso | Um Filme de Jacques Audiard (2012)


Ocasionalmente o cinema francês presenteia o espectador do mundo com alguns longa-metragens sensíveis e de grande intensidade. Um dos grandes destaques do Festival de Cannes 2012, foi o longa "Ferrugem e Osso" (De Rouille et d'os, 2012) dirigido por Jacques Audiard (de O Profeta, 2009) que foi elogiado pela crítica, prestigiado pelo público, e que teve todo o merecido reconhecimento após várias indicações a prêmios e certas conquistas. Trata-se de uma obra de reconstrução de vidas, onde nossos protagonistas diante da crueza de sua jornada, passam por transformações e encontram no afeto seu antidoto para a sobrevivência, e acima de tudo, a solução para continuar vivendo. Em sua trama acompanhamos sumariamente Ali (Mathias Schoenaerts), um ex-boxeador desempregado, que tem a responsabilidade de cuidar de seu filho de apenas 5 anos, e que apenas sobrevive de bicos e pequenos serviços para se manter. Com sérios problemas de relacionamento com a família, além das pessoas que acabam o conhecendo, ainda tem que lidar constantemente com seus problemas financeiros que o consomem. Em um de seus trabalhos como segurança de uma casa noturna ele acaba conhecendo Stéphanie (Marion Cotillard), uma adestradora de baleias orca que se mete em apuros. Tempos mais tarde Stéphanie sofre um terrível acidente de trabalho que resulta na perda de suas pernas. Após a fatalidade, os dois aproximam-se novamente aonde desenvolvem uma espécie de amizade marcada de cumplicidade. Uma relação estranha onde os opostos se atraem e consequentemente se completam.


"Ferrugem e Osso" joga um olhar estranhamente curioso e angustiante sobre a classe média-baixa, propositalmente distante dos cartões postais da Riviera Francesa. Através desse longa, o cineasta Jacques Audiard nos apresenta a estranha relação de duas pessoas debilitadas, dela física e dele emocional, que buscam juntos um rumo para seus destinos destroçados. Narrativamente fascinante, sua trama que poderia facilmente remeter a um típico e confortável melodrama, embora flerte com a narrativa, se mostra diferente e realista (um dos aspectos mais fascinantes dessa obra). A retratação medida da crueza de certos acontecimentos, como a dissecação fluente das emoções dos personagens, tem um fácil encaixe com a vida, mas como obstáculo, uma desafiante materialização superada com um inquestionável sucesso pelo cineasta. Se Audiard já acerta no tom da transposição de seu drama, ele encontra a superação de sua obra na escolha do elenco: Marion Cotillard interpreta sua personagem com um brilhantismo até então único em sua carreira. Suas dificuldades físicas ainda que marcantes, tem na transformação influenciada por Mathias Schoenaerts, seu maior mérito (de mulher saudável e infeliz, ela encontra através da tragédia sofrida pelo acidente um rumo para a felicidade). A sua margem temos a interpretação de Mathias Schoenaerts, que de poucas palavras, encontra nela o inusitado apoio para as lutas de rua ilegais que o fazem se sentir mais vivo e menos anti-social. Através de um decorrente distanciamento causado pelos inevitáveis problemas que assombram incessantemente a vida de Ali, ambos percebem o quanto se completam, quando ele vai até Stéphanie procurar refúgio.

Oscilando entre o desumano realismo (preponderante em sua maior parte do tempo) e o terno lirismo romântico carregado de emoções que se esperava de uma premissa igual a que se anuncia nessa obra, "Ferrugem e Osso" é um impactante conjunto de boas escolhas que a definem, que vão desde o título ao rumo final desse cintilante drama provido de honestidade e realismo. Poucos dramas românticos conseguem materializar tanto com tão pouco como esse longa. Uma luz de esperança inspiradora, permeado de sangue e sofrimento que erradia uma energia motivadora que provoca um delicioso efeito de reflexão sem indícios de fantasia. Cinema para gente grande. 

Nota: 9/10 
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