sábado, 14 de setembro de 2013

Crítica: Adaptação | Um Filme de Spike Jonze (2002)


"Adaptação" (Adaptation, 2002), talvez seja menos inovador do que "Quero Ser John Malkovich" (1999), enquanto "Onde Moram os Monstros" (2009) seja uma incongnita de tão pessoal que se apresenta. Embora alguns aspectos referentes a "Adaptação" se mostrem tão curiosos quanto o próprio filme, o convencionalismo adotado nessa produção se mostra fascinante. Mesclando com apuro ficção e realidade, o roteirista Charlie Kauffman (um dos mais talentosos roteiristas do cinema independente em atividade) tentou sem sucesso transpor o livro "O Ladrão de Orquídeas"(escrito por Susan Orlean) conforme desejado. Assim com base em suas frustrações de não conseguir adaptar o livro em um roteiro cinematográfico de acordo com a encomenda, ele recicla parte do material e ultrapassa os limites das possibilidades criando um trabalho brilhante e original com sua inspiração. Sua trama: Para começar, ele próprio é o personagem principal de sua trama (interpretado por Nicolas Cage em sua melhor fase) onde o ponto de partida se tem quando ele é contratado para tornar o livro de Susan Orlean (Meryl Streep) num roteiro de cinema. Kauffman aos poucos passa a perder as esperanças em roteirizar o livro, transformando sua decepção em um material diferenciado repleto de absurdos bem interessantes (Kauffman inclusive cria um irmão gêmeo para sua trama e que também quer se tornar um roteirista igual a ele). O irmão gêmeo de Kauffman  começa a frequentar cursos de roteirista para aprender o ofício, e mesmo sob protestos e nenhuma motivação do irmão, não é que ele se vira bem? Para interpretar o "Ladrão de Orquideas" John Laroche que dá título ao livro, temos o ator Chris Cooper. 


O cineasta Spike Jonze adotou uma narrativa convencional para essa produção (repleta de idas e voltas no tempo para explicar os fatos e acontecimentos propostos pelo roteiro), apresentando aos espectadores de forma quase didática a fórmula de se faz cinema underground de primeira linha (a inserção de cenas de bastidores de seu filme anterior (Quero Ser John Malkovich) dá a exata noção disso). Embora tenha uma roupagem convencional em sua estética, consente evidências de elementos fantásticos característicos da filmografia de Jonze sem interferir no conjunto da obra. Mesmo não sendo um filme para todos os públicos, mantém um vínculo forte com a normalidade da narrativa habitualmente usada por outros cineastas. O grande mérito de Jonze é a extração de extraordinárias interpretações de seu elenco (inclusive Nicolas Cage desempenha papel duplo na história mostrando-se imensamente capaz, desde que tenha em mãos um bom roteiro e um personagem com algo a dizer). Se Cage já dá um show ao materializar as nuances dos profissionais do meio (dos roteiristas), Meryl Streep dispensa comentários, enquanto Chris Cooper compõe seu personagem de modo a levar ao espectador uma interpretação inusitada. Todo o elenco impressiona por seu comprometimento e por suas caracterizações perfeitas de personagens que facilmente poderiam ser moldados com clichês batidos. Mas ao invés disso, apresentam interpretações originais e cativantes.

Com uma produção de difícil posição de gênero, esse longa-metragem dramatiza os bastidores de Hollywood com humor e boas tiradas, surpreendendo pelo rumo que sua trama segue e acima de tudo, por elevar o nível de atuações de um grupo de atores de uma só vez com uma história cujo ponto de partida é sobre (entre muitas coisas) um livro de orquídeas que gera alguns obstáculos para um experiente roteirista. Sobretudo, "Adaptação" mesmo que não vá agradar um amplo percentual de espectadores por sua estética que rivaliza com sua excentricidade, ao menos irá surpreendê-lo caso você busque uma inspirada surpresa em um simples longa-metragem. 

Nota:  8/10
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2 comentários:

  1. Adoro essa insanidade cinematográfica.

    Filme que realmente não é para todos os gostos......apenas para quem curte o pouco convencional.

    Bela lembrança.

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    1. Particularmente o julgo o melhor longa-metragem de Spike Jonze. Na minha opinião...

      abraço

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