terça-feira, 16 de agosto de 2016

Crítica: Esquadrão Suicida | Um Filme de David Ayer (2016)


A morte do Superman trouxe a vida uma grave necessidade. A ausência de uma força heroica que pudesse intervir aos mesmos interesses que o homem de aço atendeu durante um momento drástico da sobrevivência da humanidade. Assim o governo dos Estados Unidos toma uma atitude tanto inesperada quanto improvável: criar uma força tarefa excepcional composta com os piores criminosos do mundo para agir de acordo com os interesses do governo. E o teste de funcionalidade dessa ideia veio quando uma perigosa e misteriosa entidade do passado surge para destruir a humanidade, entram em cena esses estranhos heróis que não tem nada a perder para salvar o mundo. Mas ao mesmo tempo, isso levanta uma imprescindível questão: o quanto eles estão realmente interessados em salvar o mundo ao lado da lei e da ordem? “Esquadrão Suicida” (Suicide Squad, 2016) é uma aventura de fantasia estadunidense baseada no eclético grupo de anti-heróis homônimo da DC Comics que é adaptada para o cinema por David Ayer. Adaptação essa marcada de uma série de irregularidades, essa segunda maior aposta da DC para o ano de 2016 se mostra uma produção rasa, que desperdiça a irreverência dos seus personagens e deixa os inúmeros buracos da trama e a montagem delirante em contraste com uma campanha de marketing bem bolada.

Existe um sentimento de desapontamento latente em “Esquadrão Suicida”. E isso é quase unanime. Embora não seja tão ruim quanto à crítica especializada tem o rotulado nos meios de comunicação (como o maior desastre desse ano), ainda assim está bastante inferior ao que se esperava. Após vários burburinhos de bastidores envolvendo Jared Leto (que interpretou a nova cara do Coringa) e alguns trailers espetaculares, era de se esperar um melhor acertamento no desenvolvimento da trama e personagens. O filme causava a ligeira impressão de ser a combinação equilibrada de uma série de boas sacadas que foram adotadas em outros filmes da rival Marvel no passado. Tudo indicava que esse projeto seria a opção de entretenimento mais bem sucedida desse ano para fãs do gênero ou não. Mas infelizmente para o grande público, fã ou não dos personagens, não foi bem assim que aconteceu. Se “Batman vs Superman – A Origem da Justiça” (2016) dividiu opiniões, ainda que se mostrasse infinitamente superior ao filme do “Homem de Aço” (2013), o trabalho de David Ayer deixa a desejar em vários aspectos. Para começar pelo roteiro confuso, caótico, que banaliza ações e não empolga. Desprovido de objetividade, o roteiro aproveita pouco da potencialidade dos personagens e os lança numa bagunça de enredo que obviamente não detinha um foco preciso. O que consequentemente dificulta o trabalho do elenco, que tirando a presença de o Pistoleiro (interpretado por Will Smith) e Arlequina (interpretada por Margot Robbie), os demais não passam de meras excentricidades de conveniência. No final das contas, a exploração de personagens não é realmente satisfatória e por várias vezes desperdiçada. O que diga sobre o Coringa (interpretado por Jared Leto), que se comportou de forma mais interessante nos bastidores, numa possível estratégia de composição de personagem, do que em cena.

A trilha sonora de “Esquadrão Suicida” é brilhantemente escolhida, com várias canções empolgantes, mas que não se mesclam ao enredo com a devida funcionalidade é uma incógnita. A sonoridade é fantástica, mas excessiva a certa altura. O filme está repleto de efeitos visuais de grande vislumbre (algo em seu desfecho me fez lembrar o primeiro “Caça Fantasmas), embora o artificio não compense de modo algum as outras deficiências narrativas encontradas tanto na trama quanto na condução da ação realizada por David Ayer que não leva o espectador a um desfecho interessante. As boas sacadas de humor foram praticamente todas utilizadas nos trailers, não restando muitas outras surpresas para o filme em si. Na verdade, o melhor dessa produção se encontra realmente nos trailers. Quase tudo está lá, inclusive à expectativa dos espectadores que esperavam ver uma produção memorável.

Nota:  6/10
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sábado, 30 de julho de 2016

Crítica: Amantes Eternos | Um Filme de Jim Jarmusch (2013)

São poucos os filmes de vampiros que conferiram algo de realmente novo ao gênero nos últimos anos. Assim sendo, o cineasta norte-americano Jim Jarmusch, um criativo representante em atividade do cinema independente estadunidense, talvez seja o que melhor representou no passado mais recente alguma iniciativa com esse propósito. “Amantes Eternos” (Only Lovers Left Alive, 2013) é um drama romântico escrito e dirigido por Jim Jarmusch (responsável por “Flores Partidas”, de 2005 e “Homem Morto”, de 1995) lança um olhar originalmente singelo e profundo sobre o legado da eternidade que marca esses sanguinários personagens da cultura contemporânea. Em suma, trata-se de uma história de amor impressionante sobre dois personagens imortais. O cineasta se desarma de um punhado de clichês batidos (os mais adotados e igualmente cansativos) se reinventando e atribui um toque autoral sobre a longa relação amorosa de um casal de vampiros que atravessam os séculos dividindo suspiros e memórias. Em sua trama acompanhamos o vampiro Adam (Tom Hiddleston), um recluso músico underground que se esconde no interior de uma casa em ruinas de Detroit para se distanciar da cansativa rotina humana que o cerca. O que ocasiona uma costumeira tendência suicida em seu ser. Enquanto isso, Eve (Tilda Swinton), uma mulher enigmática e devoradora de livros que reside em Tanger, viaja urgentemente ao encontro de Adam, após o pedido de seu amado durante uma crise existencial. Unidos novamente, o clima de normalidade volta a habitar a vida de Adam, mas é interrompido quando Ava (Mia Masikowska), a irmã mais nova de Eve aparece inesperadamente e arruína a permanência discreta do casal na cidade violando o código de conduta vampiresco que os coloca em perigo.
Amantes Eternos” é uma experiência cinematográfica sensorial. Deliciosamente lento, o seu ritmo é devidamente preenchido com diálogos muito bem verbalizados por Tom Hiddleston e Tilda Swinton, como por uma trilha sonora maravilhosamente hipnótica de responsabilidade de Jozef Van Wissem e Yasmine Hamdan. O cineasta Jim Jarmusch resgata esse subgênero da mediocridade em que se encontrava após uma horda de filmes negativos e o mescla com seriedade a temas relevantes, abordando questões existenciais entrelaçadas com elementos da cultura popular de forma original e dramática. De atmosfera sombria e elegante, história simplista, o desenvolvimento seguro de Jarmusch da trajetória dos dois vampiros é inegavelmente curioso. Adam é um personagem avesso à evolução humana, frustrado com a humanidade ele se ocupa a colecionar raras guitarras adquiridas por um empolgado prestador de serviços de seu pequeno círculo de conhecidos que tem contato. Sobretudo, sua atenção está eventualmente voltada a encontrar soluções politicamente corretas para sua sobrevivência (o sangue do qual se alimenta provem de um banco de sangue que ele cuidadosamente contrabandeia). Enquanto isso, Eve é imensuravelmente mais fascinada pelos humanos, como por personalidades históricas que cruzaram o caminho de Adam ao longo dos séculos e que ele constantemente relata traços de suas personalidades e suas impressões pessoais sobre elas. Eles são o que os românticos afirmam ser: os opostos se atraem. O que rende ótimos e fascinantes diálogos bem proferidos pela dupla que esbanja serenidade e comprometimento com a proposta narrativa de Jarmusch. Enquanto Adam é mais contido e metódico, Eve é mais espontânea e fascinada pelas coisas que a rodeiam.
Mas a inesperada intromissão de Ava na casa é o desequilíbrio da harmonia, a quebra da zona de conforto a qual se encontram. Como ao mesmo tempo, a ação necessária e ausente da trama de Jarmusch, apesar de não ser muito intensa ou pelo menos duradora para o conjunto da obra. Talvez esse aspecto seja o único déficit desse longa-metragem, que não eleva as pretensões da trama a outro nível e sugere conduzir o espectador ao tom do ponto de partida. Porém “Amantes Eternos” é uma experiência válida de cinema pelas suas sutis qualidades técnicas, pelas envolventes interpretações do elenco principal e pela visão elegante de seu realizador que descarta exibições de caninos salientes e derramamentos de sangue ofensivos aos olhos.
Nota:  7,5/10
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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Crítica: Vingadores – Era de Ultron | Um Filme de Joss Whedon (2015)


É unanime assegurar que a empreitada de superar o resultado de seu antecessor não era uma missão fácil para o cineasta Joss Whedon. Sendo que “Vingadores”, de 2012, um dos maiores blockbusters lançados pela produtora Marvel e que havia se mostrado ao grande público como uma das obras mais bem sucedidas do cinema da aventura dos últimos anos, a meta de superá-lo era quase que previsivelmente impossível de ser realizada. Embora a primeira reunião orgânica de diversos personagens diferentes em um único longa-metragem acabou superando expectativas de crítica e público no final das contas, era lógico que sua sequência seria esperada com uma carga de anseio maior. Mas era provável também que a superação não se mostraria tão cedo em vista do obstáculo que se infligiu a si mesmo. Além do mais, essa crescente miscigenação de vários filmes interligados em uma corrente evolução do universo cinematográfico da Marvel que se expandia a cada ano dificultava ainda mais a tarefa. Mas “Vingadores – Era de Ultron” (Avengers Age of Ultron, 2015) é uma produção estadunidense de aventura e fantasia que obteve com êxito para surpresa de muitos, um nível de excelência considerável. Em sua trama acompanhamos Os Vingadores em busca do cetro de Loki, que está em posse da Hydra. Artefato recuperado, Tony Stark (Robert Downey Jr.) encontra nesse poderoso artefato a oportunidade de aperfeiçoar seu exército de robôs com a ajuda de Bruce Banner (Mark Rufallo) para criar uma inteligência artificial focada na proteção mundial e evitar desastres como os ocorridos em “Os Vingadores”. Mas a ideia acaba dando errada, gerando a criação de Ultron (com voz de James Spader), um robô de conceitos e motivações muito diferentes das quais foi idealizado e que tem o propósito de levar a paz através da destruição total da humanidade. Assim os Vingadores terão que se unir para salvar a humanidade dessa inesperada ameaça.

Vingadores – Era de Ultron” tem tudo que se esperava dessa épica produção: longas sequências de ação seguidas de ação; muitos efeitos visuais de um primoroso requinte que somente a Marvel Estúdios é capaz de imprimir; alguns novos personagens (como os gêmeos Mercúrio, interpretado por Aaron Taylor e Feiticeira Escarlate, interpretada por Elizabeth Olsen); um aprofundamento de personagens conhecidos da franquia que conferiu algo novo ao que se tinha como certo; boas passagens de humor não apenas disparadas por Robert Downey Jr. e um vilão bastante peculiar (totalmente em CGI e que talvez seja uma das maiores sacadas dessa produção). Embora tenha tudo que é positivo para engrandecer o alcance dessa franquia, também possui uma barreira implacável. A dificuldade de comportar todas as suas qualidades de forma justa a todos os personagens em uma única produção. Ainda que o roteiro de Joss Whedon nesse episódio toque na possibilidade, ele não consegue dominar com a mesma habilidade que antes. Mas o filme se eleva com a excelência de suas qualidades que são brilhantemente distribuídas ao longo dos 143 minutos de duração. A exploração de algumas novas nuance sobre os costumeiros personagens da franquia Vingadores (no caso da vida pessoal do Clint Barton interpretado por Jeremy Renner); um suposto romance proibido entre Viúva Negra e Hulk; além da estratégica inserção dos aprimorados gêmeos na trama e a inesperada apresentação de Visão (interpretado por Paul Bettany).

Personagens como os de Robert Downey Jr. (Homem de Ferro), Chris Evans (Capitão América), Chris Hemsworth (Thor), dispensam aplausos. Suas participações são as que costumeiramente mais fitam olhares. Mais do que a vontade em seus papéis, suas interpretações somente são dificultadas pelas complexidades do enredo que não são resolvidas pelo roteiro. Mas o destaque está por conta de Ultron. Inteligente, sarcástico, bipolar e de um visual bastante arrojado, sua criação se mostra mais do que acertada. Sua presença em tela se mostra realmente ameaçadora aos heróis, como o desafio de superá-lo se mostra muito mais complexo do que na empreitada anterior, já que para combatê-lo é preciso acima de tudo compreender suas intenções. Muito da personalidade de Ultron é herança de Tony Stark (uma sacada do roteiro), como o visual também segue a linha estética proposta pelos robôs de Stark. Outra surpresa se encontra na presença de Veronica (um robô customizado por Stark) que protagoniza um dos grandes embates dessa produção. Joss Whedon não economiza nos efeitos visuais, nas cenas arrebatadoras de ação e menos ainda no artifício costumeiro do gênero em inserir alguma piada no calor do momento.

Vingadores – Era de Ultron” não é aquilo tudo que muitos fãs da franquia esperavam, mas também não é diferente do que era necessário para fazer sucesso. Diversão comprometida com o divertimento e que não abala a qualidade que a Marvel tem imprimido em seus trabalhos. Equilibra com precisão o desejo de divertir com a necessidade de dar continuidade. 

Nota:  8,5/10
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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Crítica: Thor – O Mundo Sombrio | Um Filme de Alan Taylor (2013)


Após os eventos ocorridos em “Os Vingadores”, Thor (Chris Hemsworth) sai em uma campanha para pacificar os Nove Reinos, enquanto Loki (Tom Hiddlestone) punido por sua traição permanece aprisionado em Asgard pelos crimes cometidos no planeta Terra. Mas o clima de normalidade restaurada começa a ruir, quando em Londres começa a surgir indícios de uma Convergência entre os Nove Reinos que ocorre a cada cinco mil anos. Esse raro evento chama a atenção de Jane (Natalie Portmann) que é tele transportada para um mundo sombrio onde testemunha a liberação do Éter, uma arma mortal de grande poder. Infectada pelo poder do Éter, isso também desperta a atenção de Thor que se alia a Loki e deixam as fronteiras de Asgard para salvar a vida de Jane e impedir que Malekith, um adversário antigo que oferece uma grande ameaça ao planeta Terra. “Thor – O Mundo Sombrio” (Thor: The Dark World, 2013) é uma produção estadunidense de aventura e fantasia baseada na história em quadrinhos de Don Payne e Robert Rodat, para os personagens da revista em quadrinhos “Thor” criada por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby. Com o roteiro de Christopher Yost, Christopher Markus e Stephen McFeely, a direção dessa aventura ficou a cargo de Alan Taylor. A Marvel seguindo a risca a estratégia que construiu ao longo dos anos, onde seus filmes seguem uma fórmula que os fazem estar organicamente interligados um aos outros, ainda consegue algo mais formidável: seus filmes funcionam como realizações isoladas que são bastante recompensadoras. E esse também é o caso de “Thor – O Mundo Sombrio”.

Nenhum outro filme anterior a “Thor – O Mundo Sombrio” usufruiu tanto dos benefícios da experiência da Marvel Studios. Observando em retrospecto, é incrível que a produção problemática desse longa-metragem que teve vários atritos nos bastidores nas mais variadas áreas de atuação, mudanças urgentes no roteiro e a necessidade de acertos inesperados no enredo por parte de Joss Whedon (responsável pela realização de “Os Vingadores) poucos meses antes de estrear, ainda tenha resultado em um blockbuster extremamente competente e divertido. Superior ao seu anterior, isso sem querer desmerecer o trabalho de Keneth Bragnahn, o diretor Alan Taylor entrega um produto leve e comprometido com os interesses da Marvel, sobretudo agradável aos fãs do personagem. Com claras evidências de amadurecimento dos personagens, onde todo o elenco principal se mostra mais a vontade em seus papéis, Chris Hemsworth demonstra estar mais do que apto para empunhar o Martelo de Odin por definitivo, como Tom Hiddlestone em sua interpretação de Loki foi capaz de mostrar ser um personagem tão fascinante quanto o próprio herói (praticamente Hiddlestone rouba a cena a cada aparição na tela). Essas são algumas das muitas melhorias que essa sequência demonstrou ter. Há outros ganhos relevantes que estão presentes no conjunto: o filme ganha boas passagens de tensão em que coloca a vida dos personagens num constante clima de perigo, reviravoltas pontuais que amarram bem toda a trama e uma dose bem equilibrada de humor inteligente que sempre é bem-vindo a filmes comprometidos com o entretenimento.

Com um orçamento muito mais generoso do que no primeiro filme solo do personagem título, “Thor – O Mundo Sombrio” esbanja apelo visual do inicio ao fim, seja nas locações ou nos efeitos visuais em CGI que ganharam muito mais explosão aos olhos do espectador. Tem ritmo de aventura e ação bem cuidada, com boas passagens de humor e um roteiro bem mais trabalhado do que seu antecessor, essa produção é garantia de entretenimento como é simplesmente o seu foco principal. No final das contas, ainda que não seja um dos melhores filmes da Marvel, trata-se de uma produção que dá continuidade a uma boa fase da produtora que tem conferido destreza e leveza a seus produtos como nenhuma outra franquia de personagens em quadrinhos tem conseguido.

Nota:  7,5/10
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segunda-feira, 18 de julho de 2016

Crítica: Os Oito Odiados | Um Filme de Quentin Tarantino (2015)


O destino é tão implacável quanto irônico, quando algum tempo após o fim da Guerra Civil de Wyoming, o destino reúne um pequeno grupo de diferentes sobreviventes sob o mesmo teto durante uma insuportável nevasca. Começando pelo caçador de recompensas, John Ruth (Kurt Russel) que está transportando uma famosa prisioneira de um bando de malfeitores, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que será levada para a cidade de Red Rock para responder a justiça. Ao longo da estrada, eles encontram o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), outro caçador de recompensas. Posteriormente Chris Mannix (Walton Goggins), um homem que afirma ser o novo xerife da cidade de Red Rock. Perdidos em uma terrível tempestade de neve, o pequeno grupo busca refúgio no Armazém da Minnie, um abrigo conhecido e bastante procurado nas redondezas. Quando chegam lá, são recebidos por alguns rostos desconhecidos: por Bob (Demián Bichir) um mexicano que afirma estar cuidando do lugar na ausência de Minnie; Oswaldo Mobray (Tim Roth), o carrasco de Red Rock; Joe Cage (Michael Madsen) um cowboy que está de passagem e Sanford Smithers (Bruce Dern), um confederado aposentado. À medida que a tempestade cessa esses oito personagens vão descobrindo os segredos um dos outros que os leva a um inevitável confronto sangrento. “Os Oito Odiados” (The Hateful Eight, 2015) é uma produção estadunidense de faroeste escrita e dirigida pelo cultuado cineasta Quentin Tarantino. Em seu oitavo filme, Tarantino cria uma inesperada peça teatral cheia de mistério e ótimas atuações.


Os Oito Odiados” é uma peça de teatro disfarçada de cinema. Embora o filme tenha as costumeiras cenas externas de um típico filme de western, praticamente todo desenvolvimento da sua simples premissa se passa no interior de um único cenário: o Armazém da Minnie. Todo o desenvolvimento da história é dividido em seis atos, onde a narrativa segue a fórmula de uma peça teatral brilhantemente customizada por um enredo que se revela um intrigante suspense de mistério policial. Acompanhar a revelação dos segredos dos oito personagens que se refugiam no interior do armazém é a grande sacada dessa produção, embora o filme não se esforce de nenhuma maneira em torna-los agradáveis para o espectador. Na verdade, aparentemente ninguém presta em cena, e que apenas permite ao público aguardar através de alguma brilhante reviravolta o porquê disso. Mais uma vez, Tarantino esbanja criatividade em sua mais nova empreitada, que mesmo sem o brilhantismo de alguns de seus filmes anteriores consegue imprimir seu estilo pessoal a esse longa-metragem. E como é de costume, Tarantino cria enredos de uma argumentação primorosa que possibilita que talentosos atores consigam apresentar o seu melhor desempenho. Os diálogos como sempre são de um requinte afiado, onde atores escolhidos a dedo como Samuel L. Jackson e Tim Roth apresentam interpretações fascinantes desde a primeira vogal. Agora, para a surpresa do público, atores como Kurt Russel e Michael Madsen que normalmente entregam desempenhos bem medianos em filmes ruins, curiosamente é sob a condução de Tarantino que acabam conseguindo se destacar de maneira no mínimo elogiável. Isso sem falar de Jennifer Jason Leigh resgatada do ostracismo, quase irreconhecível e de grande importância ao conjunto da obra.

Uma parte do filme foi filmado em 70mm como nos clássicos filmes de westerns (engrandecendo as cenas externas) enquanto o restante no tradicional formato 35mm. Porém pouco se aproveita desse diferencial aspecto, ainda que curioso pela adoção, sendo que as cenas externas onde melhor se destaca o recurso desse empenho acabam sendo muito mais raros do que se poderia esperar de um típico filme de faroeste. Sobretudo, a beleza visual é garantida como a trilha sonora de Ennio Morricone (habitual colaborador do cineasta) que se destaca nas mais variadas passagens. Embora esse mais recente exemplar assinado por Quentin Tarantino divida o público, muito se deve ao desfecho arrebatador marcado de violência e sangue que soou aos olhos de muitos como forçado, “Os Oito Odiados” tem todas as qualidades de seu realizador, como as derradeiras semelhanças com seus trabalhos anteriores.

Nota:  8/10   
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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Crítica: O Final da Turnê | Um Filme de James Ponsoldt (2015)


O suicídio de David Foster Wallace precisava de um parecer mais pessoal. Algo que simplesmente transpusesse as tristes e objetivas informações que notificavam sua morte. Algo que permitisse ao público conhecer um pouco mais dos bastidores de sua vida. O que a meu ver é o que realmente importa. Sendo que a entrevista realizada por David Lipsky para revista Rolling Stone americana sobre o celebrado escritor David Foster Wallace durante os últimos dias de divulgação de seu celebrado romance, A Piada Infinita (Infinite Jest), publicado em 1996 e que, cuja entrevista inclusive foi descartada pela revista na época, até pode não ser o retrato definitivo do autor, mas seguramente rendeu o material necessário para compor algo muito mais precioso. Embora David Lipsky nunca tenha decifrado o enigma de David Foster Wallace em sua plenitude, antes ou posterior a sua morte, mas quem sabe para a nossa surpresa ele tenha contribuído valorosamente de algum modo para aproximar a figura simples do escritor com a notória fama que conquistou. “O Final da Turnê” (The End of the Tour, 2015) é um drama biográfico estadunidense sobre o escritor David Foster Wallace. Dirigido por James Ponsoldt (responsável pelo “O Maravilhoso Agora), o filme tem o roteiro assinado por Donald Margulies com base no best-seller Although of Course You End Up Becoming Yourself publicado por David Lipsky. No longa-metragem acompanhamos o interesse do jornalista e escritor David Lipsky (Jesse Eisenberg), a serviço da revista Rolling Stone de fazer uma entrevista com o recém-descoberto e brilhante escritor David Foster Wallace (Jason Segel). Acompanhando de perto sua rotina de divulgação de seu novo livro, Lipsky tenta de todas as formas compreender toda a genialidade de seu entrevistado, que não contrasta com a inesperada figura do caipira simples com que Wallace se mostra.


O Final da Turnê” é uma experiência agradavelmente contemplativa. Pudera, já que a narrativa dramática documental conduz o espectador a uma experiência passional diante da relação entre entrevistador e entrevistado. A esperta sensação de introspeção do espectador é a mesma a qual a narrativa busca exercer sobre o personagem de Jesse Eisenberg. Tanto Eisenberg quanto o espectador passa por um lento processo de descoberta sobre as curiosas nuances do personagem de Jason Segel. Enquanto David Lipsky (que recentemente havia lançado um livro chamado The Art Afair no mesmo ano da entrevista) desejava ser reconhecido e famoso por sua obra, coisa que obviamente não obteve, o cultuado escritor David Foster Wallace vivia num tortuoso dilema com vários aspectos da fama. A conturbada entrevista de cinco dias não ajudou muito a Lipsky a compreender seu entrevistado. O filme que abre com o suicídio de Foster Wallace, em 2008 (tragédia que inspirou Libsky a escrever um livro de memórias em 2010 sobre o encontro) se desenvolve com uma estranha calma e umas pequenas passagens de tensão ocasionadas entre os dois personagens. Sobretudo o filme fecha com uma sensível homenagem nostálgica. Talvez as passagens de tensão que surgem no filme seja uma das poucas derrapadas da condução de James Ponsoldt. Após alguns desentendimentos que ocorre entre os dois, nas sequencias seguintes o clima de normalidade retorna de forma artificial e pouco orgânica.

Sobretudo, a atuação verborrágica de Jesse Eisenberg novamente surpreende, desde os tempos de “Rede Social”, enquanto Jason Segel se mostra fascinante no papel de escritor recluso. A difícil tarefa de decifrar o gênio literário que se esconde por baixo do homem simples que Segel estampa é compreensível, o que gera ótimos diálogos entre os dois protagonistas que debatem tantos assuntos diferentes e interessantes ao longo de toda a sua duração desse filme. Por isso, “O Final da Turnê” mostra um perfil sensível e instigante a respeito do escritor, acima de tudo sobre o caráter de sua pessoa, como uma cinebiografia indispensável aos apreciadores desse gênero de cinema.

Nota:  8/10 
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