terça-feira, 22 de agosto de 2017

Crítica: Bekas: Para o Alto e Avante | Um Filme de Karzan Kader (2012)


No inicio da década de 90, o Iraque, mais precisamente o território curdo se mostra uma terra difícil para se sobreviver. Nesse ambiente inóspito, os irmãos Zana e Dana, dois órfãos que vivem nas ruas da cidade e as margens da sociedade vislumbram na imagem do Superman a sua derradeira salvação. Decididos a viajar para a América para encontrar o super-herói para pedir ajuda sem a devida noção das dificuldades, os dois se desdobram numa odisséia pelo território iraquiano e suas fronteiras para viajar para os Estados Unidos. Enquanto o mais velho tenta traçar ao seu modo um plano sensato para esse feito, onde julga necessário ter transporte, passaporte e dinheiro para a viagem, o mais novo fantasia com o dia que o Superman virá ao Iraque para deter e punir Saddam Hussein e finalmente fazer a necessária justiça que seu povo necessita. “Bekas: Para o Alto e Avante” (Bekas, 2012) é um drama iraquiano escrito e dirigido por Karzan Kader (responsável pelo filme “A Última Hora”, de 2010). Aqui em seu segundo longa-metragem, Kader entrega um filme simples, inocente e de grande alcance. A sua inocente história possui uma alma universal, motivações válidas e contornos de fantasia deslumbrantes. Inspirado em um curta-metragem seu de mesmo nome e que recebeu vários prêmios, Karzan Kader se motiva a estendê-lo para algo mais extenso.

Bekas: Para o Alto e Avante” tem a forma e a essência de uma fábula. Uma fábula criada pela imaginação de duas crianças que ficaram órfãs e veem na figura do Superman a única solução para punir o homem que levou seus pais. Tanto que o filme se passa historicamente no período no qual Saddam Hussein mais perseguiu os curdos. A dupla de jovens protagonistas que nos conduzem numa espécie de road movie iraquiano, nos leva a vários cantos do Iraque. O espectador vai tendo aos poucos a noção do ambiente hostil que prevalece na região, mas sob um olhar que lança uma visão mais poética sob as condições da pobreza e miséria que assolam uma parcela grande da sociedade. Entre correrias e gritos, a agitação dos garotos nos apresenta suas dificuldades para sobreviver, suas motivações para a missão e suas perspectivas de futuro. Porém o enredo que é carregado de lições e mensagens válidas que enriquecem a trama de diferentes formas (o poder da família diante de adversidades talvez seja uma das lições mais relevantes impressas no enredo) as ideias são um pouco prejudicadas pelo ritmo agitado que expressam certo descontrole de câmera e montagem. Como os diálogos proferidos pelo elenco mirim, principalmente os de Zana, que são dados ao espectador em constantes berros vão sendo depois de algum tempo um desnecessário incômodo de fácil solução e que não atrapalhariam a autenticidade do produto.

Sobretudo, “Bekas: Para o Alto e Avante” é uma história de superação divertida de ser acompanhada e que é capaz de despertar alguma admiração sobre a figura dessas duas crianças que resistem bravamente em um ambiente que lhe pouco os favorecem, mesmo sendo crianças. Sensível, sensato e inspirador, a jornada dos dois garotos não encanta pela expectativa da chegada ao destino que eles a almejam, mas dos valores humanos que eles agregam pelo caminho. O que para todos os efeitos, é muito mais importante.

Nota:  7/10 
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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Crítica: Jogo do Dinheiro | Um Filme de Jodie Foster (2016)


Lee Gates (George Clooney) é um descontraído apresentador de um programa de televisão que dá dicas de investimentos da bolsa de valores para seus espectadores. Mas quando durante uma transmissão do programa ao vivo, o estúdio é invadido por um intruso armado chamado Kyle (Jack O’Connell), que faz Gates e toda a sua equipe de refém, nada do que consta no roteiro daquele dia será seguido. Kyle recentemente perdeu todas as suas economias devido a uma dica dada por Gates e quer tomar satisfação dos responsáveis de sua ruina.  Aproveitando as circunstâncias do imprevisto, a diretora do programa, Patty Fenn (Julia Roberts) vai transmitindo tudo o que acontece em tempo real nesse cenário onde a audiência do programa cresce de acordo com a tensão dos acontecimentos. “Jogo do Dinheiro” (Money Monster, 2016) é um thriller de suspense estadunidense escrito por Alan Di Fiore, Jim Kouf e Jamie Lindem, e dirigido por Jodie Foster. Famosa por seus trabalhos como atriz em filmes como “Taxi Driver” (1976), “Silencio dos Inocentes” (1991), “Deus da Carnificina” (2011), entre muitos outros mais; ela também já dirigiu alguns episódios piloto para seriados e uns poucos longa-metragens de pouca expressividade. Curiosamente seu mais recente trabalho como diretora surpreende por aproveitar bem suas poucas qualidades.

De premissa sensacionalista e desenvolvimento bem ajustado ao propósito de prender a atenção do espectador do começo ao fim, “Jogo do Dinheiro” articula bem suas pretensões críticas com boas performances do elenco principal. George Clooney, Julia Roberts e Jack O’Connell se mostram ótimas escolhas de elenco que se adequam bem ao enredo que busca emplacar reviravoltas expressivas num contexto de ideias contemporâneo. Simplificando ao máximo os aspectos técnicos de um investimento na bolsa de valores, o roteiro lança uma crítica interessante sobre a posição de impotência em que investidores comuns estão diante da complexidade do confuso universo do mercado financeiro. Esses investidores estão às vezes sendo reféns de ações administrativas irresponsáveis e muitas vezes gananciosas sem ter direitos realmente válidos além do poder de venda antecipado antes de um inevitável prejuízo. O mercado se mostra cruel de formas diferentes. Isso é um ponto positivo para o filme. A forma como a importância do investidor está no necessário depósito, porém numa possível queda, seu direito a explicações são irrelevantes é genial. Mas o roteiro se eleva a outro patamar quando ainda mescla uma crítica aos critérios utilizados por emissoras na cobertura de eventos extraordinários. E principalmente a manipulação da cobertura, em sua forma ou substância. A forma como o extraordinário é imprescindível no momento, mas cai numa transição de banalização é curioso.

Jogo do Dinheiro” articula bem os complexos desdobramentos da trama, que transmitidos em tempo real, tanto Fenn quanto Gates precisam encontrar uma maneira de se manterem vivos enquanto algumas verdades escondidas não são descobertas. Desde o surgimento de Kyle na tela a certa altura do primeiro ato, o tom de urgência e tensão é implantado com um nível de eficiência moderado, mas sempre presente nas entrelinhas. Trata-se de um bom filme, acessível e pretensioso de uma forma agradável pelas interpretações do elenco principal. Talvez um dos melhores filmes já realizados por Jodie Foster. Mas é claro, atrás das câmeras.

Nota:  7/10
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domingo, 20 de agosto de 2017

Jerry Lewis (1926-2017)

Morre aos 91 anos, um dos maiores comediantes da história. Uma lenda!

sábado, 19 de agosto de 2017

Cinema e Música: Capitão Fantástico - Sweet Child O' Mine

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Crítica: Deus Branco | Um Filme de Kornél Mundruczó (2014)


Lili (Zsófia Psotta) é uma jovem estudante que é obrigada a passar algum tempo morando com seu pai, Dániel (Sándor Zsótér) em um apartamento. Para sua companhia, Lili leva seu devoto cão de estimação chamado Hagen. Porém, a presença do cão torna-se uma intransigência para a permanência da filha, assim Dániel abandona a própria sorte o animal numa movimentada rua. No entanto o cão se mostra determinado a reencontrar a menina após uma série de abusos e atrai para si um grande número de cães de rua que iniciam uma revolução contra a opressiva raça humana. “Deus Branco” (White God; Fehér isten, 2014) é um produção dramática húngara escrita por Kornél Mundruczó, Viktória Petrányi e Kata Wéber. Dirigido por Kornél Mundruczó, o filme foi levemente inspirado no romance Desonra, do sul-africano J.M. Coetzee. O filme ganhou um lugar de destaque após estrear no Festival de Cannes 2014, sendo selecionado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015, mas não obteve êxito e acabou não sendo indicado. Premiado em Cannes com o Palme Dog (uma espécie de Oscar que é concedido a filmes, pelo desempenho de interpretação de cães verdadeiros ou digitalizados), essa produção reinventa os conhecidos filmes de cachorro e apresenta um material recheado de cenas de ação com toques de substância inesperada nas entrelinhas.

Deus Branco” é entre várias coisas, uma impressionante metáfora sobre racismo e xenofobia contada de uma forma bastante original. Essa premissa familiar na qual uma minoria sofre com o preconceito de uma raça dominadora é levada a tela de uma forma diferente. Sendo que curiosamente o conceito de “raça” é levado ao pé da letra pela narrativa, o diretor Kornél Mundruczó trabalha bem a ideia. Isso porque nesse caso, o conceito de raça dessa produção é focado em um cão, mestiço, refém do domínio humano e sem poder sobre sua condição. Dividido em três atos, o filme começa leve e é elevado a um nível dramático deslumbrante. Por fim, o seu terceiro ato é mais brutal e apavorante. Se o filme começa com os contornos de uma aventura ao estilo de “Lassie”, o filme termina nos moldes de “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock. Sem a interferência de recursos digitais, os animais que transitam por todo filme são todos animais reais coordenados por adestradores. A cena mais impressionante, que inclusive se apresenta duas vezes no filme, é a cena de abertura onde a cidade está com suas ruas desertas devido a repercussão que o enredo objetiva atingir, apenas Lili montada sobre uma bicicleta é confrontada com uma gigantesca matilha de cães descontrolados. É poesia, requinte visual e muita substância no mesmo filme.

Distante de se encaixar no estilo de filmes de Sessão da Tarde, “Deus Branco” surpreende pelas qualidades de sua proposta que é desafiadora de ser realizada. Além de criar uma construção de personagens válida para o elenco humano do filme, também confere passagens marcantes para os animais que transitam pela tela. A revolta dos animais talvez não seja dotada de realismo, mas funciona para dar a mensagem ao espectador. Embora haja uma incógnita, presente em seu título, que não consegui entender ou associa-la a algo claro. Provavelmente só faça sentido na Hungria.

Nota:  7,5/10 
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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crítica: Prenda-me se For Capaz | Um Filme de Steven Spielberg (2002)


Frank Abagnale Jr. (Leonardo DiCaprio) é um jovem de classe média que mesmo com pouca idade acabou tornando-se um mestre de disfarces. Isso porque com apenas 18 anos, Frank já havia enganado muita gente ao se passar convicentemente por médico, advogado e piloto de avião sem nunca ter estudado para exercer tais funções. De família humilde que passava por dificuldades financeiras, e com pais com problemas na relação, Frank aproveitou suas habilidades naturais de se disfarçar e iludir as pessoas e passou a interpretar o papel da vida que desejasse e como quisesse ao ponto de aplicar golpes milionários sem nunca levantar suspeitas sobre sua figura. Responsável por uma série de fraudes bancárias realizadas em alguns poucos anos, a sua identidade foi durante algum tempo um mistério para as autoridades. Seu sucesso só foi barrado, quando o empenhado agente do FBI, Carl Hanratty (Tom Hanks), com muita obstinação e através do uso de todos os meios possíveis passa a caçá-lo pelo mundo para levá-lo a justiça. “Prenda-me se For Capaz” (Catch Me If You Can, 2002) é um comédia dramática estadunidense escrita por Jeff Nathanson e dirigida por Steven Spielberg. Baseada na vida de Frank Abagnale Jr., que antes mesmo dos 19 anos de idade já havia se passado por diferentes pessoas, seu principal crime foi à falsificação de cheques que de tão bom que era, acabou sendo contratado pelo FBI para ajudar na captura de outros falsários em atividade. Curiosamente uma significativa parcela dos métodos adotados pelos bancos hoje para legitimar cheques e evitar fraudes foram criações dele.

Aclamado pela crítica especializada e adorado pelo público em geral, “Prenda-me se For Capaz” é um filme que agrada com facilidade. Erguido com base numa história fascinante de uma figura desconhecida, Spielberg entrega um filme bem ajustado. Brilhantemente protagonizado por Leonardo DiCaprio e Tom Hanks, essa produção equilibra com precisão humor e dramaticidade como poucas obras de retratação biográfica conseguem. A visão de Steven Spielberg para a trajetória de Frank com o foco no entretenimento é bem vinda e muito bem sucedida, ainda mais pelo fato de que, o roteiro aproveita bem os vários aspectos dramáticos em volta do personagem, como as motivações do jovem criminoso (sua forte ligação com o pai, interpretado por Christopher Walken, e seu forte desejo de mostrar que ele é capaz de vencer na vida, como reaproximar os pais separados). O desempenho de DiCaprio somente não é maior do que suas façanhas em tela. A jornada de Carl Hanratty é outro ponto forte da trama, elevado pelo desempenho de Tom Hanks e novamente favorecido pelo roteiro ciente de sua proposta. O filme ainda tem uma participação especial da atriz Jennifer Garner, na época conhecida pelo seriado “Alias: Codinome Perigo”, desempenhando o papel de uma inocente garota de programa que se deixou enganar pela convincente atuação de DiCaprio.

Prenda-me se For Capaz” é o resultado de um filme de entretenimento de alto nível. Construído com a elaboração típica dos filmes de Spielberg, onde a produção é enriquecida com detalhes de cenografia e direção de arte que retratam a época em que os fatos se passaram com precisão, o filme lança o público numa onda de lamento e admiração pela figura de Frank Abagnale Jr.. Por isso, os incidentes que acompanham os percalços de Frank, desafiando a lógica e fazendo o espectador duvidar da veracidade da inspiração, como também os momentos memoráveis entregues pelos dois atores principais durante quase duas horas e meia de duração, são parte de um bônus de um trabalho bem realizado de um conjunto de escolhas bem feitas. As dificuldades de acreditar na fantástica trajetória de vida de Frank Abagnale Jr. são dissolvidas com competência do conjunto da realização.

Nota:  8/10
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