quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Crítica: O Conselheiro do Crime | Um Filme de Ridley Scott (2013)


Um proeminente advogado (Michael Fassbender) toma uma arriscada decisão ao se envolver no submundo do tráfico de drogas. Como lhe foi avisado, uma simples visita através desse mundo não é algo que a maioria dos homens podem fazer sem dor e violência. Embora consciente dos riscos, sua ambição o cega diante da oportunidade dos ganhos que esse negócio pode lhe proporcionar, além da vontade de apoiar sua belíssima noiva, Laura (Penélope Cruz) a quem está acostumado a impressionar com luxo e presentes caros. Alertado sobre os vários aspectos desse negócio pelo extravagante Reiner (Javier Bardem), obcecado por sua companheira (Cameron Diaz) e pelo pragmático Westray (Brad Pitt), um homem livre de amarras com o mundo, o advogado se sente seguro o bastante para ingressar nesse perigoso jogo que presume conhecer bem as regras. Porém quando o curso das coisas foge do controle, e os cartéis Mexicanos com quem ele negociava passam a caçá-lo, como aos seus sócios empreendedores, o mal que jamais imaginaria que iria tocá-lo simplesmente o golpeia violentamente sem perdoar ninguém. Embora “O Conselheiro do Crime” (The Counselor, 2013) ter sido dirigido pelo experiente cineasta Ridley Scott (Prometheus, 2012), num trabalho conjunto com um dos maiores escritores americanos da atualidade ainda vivo, Cormac McCarthy (vencedor do Prêmio Pulitzer), o único motivo válido para conferir esse filme de crime e suspense é a composição do elenco principal que facilmente daria inveja a qualquer cineasta. Já que de resto, essa produção é marcada de desconfiança por parte do espectador, que em desacordo com a estética adotada, reage com estranheza diante do resultado incomum desse filme, mesmo que competente.

Sendo o primeiro esforço de Cormac McCarthy em escrever um roteiro original, sabendo que filmes como o impactante “Onde os Fracos não Têm Vez” e o envolvente “A Estrada” apenas foram baseados em seus romances, McCarthy canaliza suas forças na criação de uma trama que herde suas qualidades literárias. Repleto de diálogos filosóficos de gramatica intelectualizada apresentados em forma de extensos monólogos, e situações carregadas de excentricidade e menções de erotismo fetichista, o trabalho de McCarthy é favorecido pela entrega do talentoso elenco a proposta idealizada por seu arquiteto. Com a trama resolvida, sem um começo, meio e fim bem delineado, entra Ridley Scott, materializando um filme que lembra “O Homem da Máfia”, e que por sinal, também tem Brad Pitt em seu elenco principal. Mas Ridley Scott entrega um filme acima de comparações considerando seus trabalhos mais recentes, algo positivo vendo que alguns diretores ícones têm cada vez mais entregado filmes bem inferiores aos tempos das vacas gordas. Oliver Stone, com seu “Selvagens” (2012) é uma exemplificação evidente disso. Apesar de ter cara de um piloto de luxo para televisão, “O Conselheiro do Crime” tem o seu valor, e muito disso por causa do carisma dos atores envolvidos sobre o grande público, fazendo valer a elitizada escalação que confere certo magnetismo aos inúmeros diálogos inebriantes e cenas marcadas de simbolismos sobre questões mais profundas do que a própria vida. Boas sacadas narrativas são lançadas ao longo do desenvolvimento, como o fechamento ajustado onde certas citações ganham contornos de ação, ora chocantemente violentas (como na aplicação real do bolito), ora sugestivas (como na entrega de um DVD onde a dedução do conteúdo visual que o CD comporta fica a cargo da imaginação do espectador).
  
Entre deficiências e congratulations, “O Conselheiro do Crime” é uma experiência camuflada de filme. Se no passado Ridley Scott teve um reconhecimento mais tardio sobre “Blade Runner” (1982), uma realização ignorada no imediato lançamento, mas que com o tempo obteve maior atenção até virar uma obra de culto e ganhar o status de clássico, talvez seja possível, apesar de improvável, que “O Conselheiro do Crime” seja revisitado no futuro e visto pelo menos com mais carinho. E muito do que determinará isso, não será tanto o rumo da carreira de Scott daqui para adiante (trata-se de um cineasta consagrado acima de suspeitas independente de quantos mais fracassos ou filmes menores ele possa acumular), mas sim a de Cormac, já que ele passa a ingressar diretamente no universo cinematográfico, ainda que com alguns vícios literários que não foram muito bem vistos pela maioria dos espectadores.

Nota:  7/10
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