quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Crítica: Clube de Compras Dallas | Um Filme de Jean-Mac Vallée (2013)


Quando nos anos 80 os portadores do HIV eram clinicamente diagnosticados como soropositivos, a doença, a AIDS era teoricamente restrita a grupos de risco (a homossexuais e usuários de drogas). Mas poucos anos antes da divulgação maciça das mudanças desse quadro, que mudou rapidamente virando uma espécie de pandemia global sem precedentes, essa doença ainda habitava no imaginário do homem comum americano sendo como uma desgraça apenas restrita aos homossexuais. E quando, diante do avanço dos sintomas esse mesmo homem comum era confrontado com a confirmação de ser portador da doença, que também era encarada como uma sentença de morte certa, o choque emocional era inevitável. Primeiro vinha à revolta, carregada de porquês, e depois a vergonha de portar uma doença que era sinônimo de constrangimento em tempos onde o preconceito reinava absoluto sob a visão conservadora do Partido Republicano conduzido por Bush. Dali para adiante cada homem ou mulher escrevia a sua própria história... Baseado em fatos reais, “Clube de Compras Dallas” (Dallas Buyers Club, 2013) é um longa-metragem dramático no qual podemos acompanhar a trajetória de um desses homens, que aprendeu a viver com a doença, desenterrando uma força que nem ele mesmo imaginava ter para lutar pela sobrevivência e que desconstrói seus próprios preconceitos. Após a confirmação de ser portador da doença em meados dos anos 80, Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um cowboy odioso que convencido da ineficiência dos medicamentos que tem sido usado nos portadores de HIV, ele busca incessantemente remédios alternativos para a cura. Com evidências dos males que a droga experimental, o AZT causa aos doentes, Ron Woodroof funda junto com o transexual Rayon (Jared Leto), o Clube de Compras Dallas que oferece (evidentemente mediante pagamento) remédios ilegais com melhores resultados. Agindo na clandestinidade, Ron bate de frente com o FDA (um órgão do governo responsável pelo controle sobre novos medicamentos), tendo um desafio maior do que sua própria doença: lutar contra corporativismo dominado pelos lobistas e órgãos reguladores ineficientes.

Com seis indicações ao Oscar, inclusive a de Melhor Filme, “Clube de Compras Dallas” é escrito por Craig Borten e Melissa Wallack. Dirigido por Jean-Marc Vallée (responsável por A Jovem Rainha Vitória) esse longa se mostra em suma um filme de atores e grandes atuações. Para começar com o protagonista, Ron Woodroof interpretado por Matthew McConaughey. Apresentado como um texano fracassado, machista, ignorante, homo fóbico, entre outras coisas, seu comportamento faz com que o espectador o considere sumariamente como um completo canalha. A certa altura do desenvolvimento da história, quando ele é golpeado com o diagnóstico de estar doente, sua reação diante da notícia de ter AIDS não sensibilizaria até o mais sensível dos humanos. Pelo contrário, geraria facilmente opiniões favoráveis ao seu diagnostico, supondo que o desaparecimento de um homem feito Ron Woodroof não acarretaria prejuízo algum à humanidade. Contudo o hábil roteiro que constrói situações interessantes bem conduzidas pela direção de Vallée possibilita, dando margem ao talento  de McConaughey para que o transforme de um modo incrivelmente orgânico em um sujeito envolvente e determinado diferente de como o conhecemos em sua estendida apresentação. E se McConaughey impressiona por sua atuação, como por sua caracterização física e comportamental, já que o ator emagreceu assustadoramente para compor um sujeito portador do vírus HIV, quase o deixando irreconhecível se comparado ao galã de antigas comédias românticas as quais protagonizava no passado; Jared Leto não fica a desejar em absolutamente em nada. Um exemplo disso está na doença que os consome, que ainda que seja a mesma, mas o modo como cada um lida com ela é de forma muito particular. Além do mais, nomes como o de Jennifer Garner, Denis O’Hare e Steve Zahn inserem na trajetória de Ron atuações que vão de convincentes a brilhantes, e que em muitos momentos conferem certa leveza e bom humor ao panorama dramático da obra.

Certamente que o trabalho de Jean-Marc Vallée também possui em sua composição algumas falhas, longe de serem gritantes, mas ainda presentes. Como a pretensão de manipular a atenção do espectador no tempo que decorre toda a ação, que se mostra confusa e desnecessária, além de algumas transições de tela enfatizadas como se fossem episódios de uma série televisiva. Sobretudo, nada que venha a oferecer uma ameaça que mereça atenção ao conjunto da obra que sensibiliza facilmente e desperta curiosidade pela tragédia de um sujeito que a primeira vista daria muito bem vontade de matar. “Clube de Compras Dallas” pode ser considerado uma criação única do talento do elenco, mais do que de apenas um realizador (já que suas deficiências se mostram possivelmente oriundas do lado detrás das câmeras). Merecedor das indicações voltadas ao elenco principal, essa luta que Ron Woodroof trava contra o sistema é uma experiência enriquecedora como relato da história e como ferramenta de inspiração.

Nota:  8,5/10
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2 comentários:

  1. Esse é um verdadeiro anti-herói '-'
    Lutando contra o sistema para ajudar o seu povo sem deixar de lucrar com isso.

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    1. Esse aspecto também é abordado com bom humor.

      abraço

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