quarta-feira, 26 de junho de 2013

Crítica: Senhores do Crime | Um Filme de David Cronenberg (2007)


Anna (Naomi Watts) é uma parteira, que na noite de Natal ajuda uma criança a nascer, onde ao final, sua jovem mãe, Tatiana, não resiste ao parto e lamentavelmente morre. Anna decide por conta própria levar a notícia da morte da jovem, e o recém-nascido a família para que não se torne mais um órfão sem raízes. No entanto, com poucas informações ao seu dispor, tendo apenas em mãos um diário pessoal escrito em uma língua (russo) que não tem domínio, segue uma trilha de migalhas de pão que a leva ao endereço de um restaurante russo, onde conhece o proprietário Semyon (Armin Mueler-Stahl) que se presta ao serviço de traduzir o conteúdo do diário. O problema é que esse simpático senhor também comanda uma organização criminosa envolvida em prostituição, e o diário contém segredos sobre seu afetado filho, Kirill (Vincent Cassel) que pode abalar os alicerces do submundo do crime. Nessa armadilha, Anna ganha um aliado em Nikolai (Viggo Mortensen) um estranho motorista e guarda-costas, que se propõe a impedir que não se machuque nesse universo de violência, sexo e criminalidade. Em "Senhores do Crime" (Eastern Promises, 2007) o cineasta David Cronenberg constrói mais uma vez trama emblemática, apesar da forma convencional com que é contada, sobre a natureza violenta e conflitante do ser humano. Novamente o cineasta equilibra crueza (a cena da luta na sauna é visceral) e ternura (embutida na atitude de Naomi em não se conformar com o destino da criança) numa história bem delineada, extraída de atuações marcantes e um clima sombrio repleto de contrastes impactantes. 

"Senhores do Crime" repete a dobradinha Cronenberg/Mortensen, que fez de "Marcas da Violência" (2005) um longa fenomenal e mais acessível ao grande público. O trabalho de Cronenberg tem tido um crescente foco em uma temática clássica (violência), mas dado por ele um tom autoral que foge consequentemente do previsível. E a expressividade de seu trabalho, recompensada com um número crescente de fãs, vem muito de boas parcerias, como a que tem realizado com o ator Viggo Mortensen. Nessa produção, Mortensen compõe um personagem misterioso, discreto e assustador. Mas ao mesmo tempo, ainda assim com um toque de humanidade que bem representa o espectador que ele tanto cativa e inspira confiança. Trata-se de um personagem de camadas, como o vilão de Armin Mueler-Stahl que num proposital paradoxo, tem na figura pacata e carismática, há uma ocultação de um homem sinistro de uma crueldade temível. Mas todo o elenco tem suas singularidades, além de uma profundidade metafórica em seus contornos. Esse longa ganha pontos pelas tonalidades sombrias coerentes com o clima do enredo. Uma direção de fotografia bem escolhida, aplicada em locações que enriquecem o detalhamento do visual dessa produção. E é nos detalhes que muitas vezes passam desapercebido na película, que os filmes de Cronenberg demonstram sua riqueza. "Senhores do Crime" nos instiga acompanharmos a bem intencionada atitude de Anna, que nos leva ao enigmático Nikolai. Por fim, o cineasta nos conduz a um profundo universo de transformações humanas invisíveis, nos inserindo na psique de homens tão maus quanto possível serem descritos. 

Nota: 9/10
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