terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Crítica: Django Livre | Um Filme de Quentin Tarantino (2012)



Todo lançamento de um filme do cineasta Quentin Tarantino é uma boa razão para celebrar. E falar de seus filmes sem mencionar o seu nome é quase impossível. Querendo ou não, a ciência do cineasta em compor seus trabalhos eventualmente é tão fascinante quanto o próprio resultado. Limitando os meus comentários aos mais recentes trabalhos do cineasta, dentre eles o longa “À Prova de Morte”, que foi esmiuçado friamente pela crítica, mesma consciente das motivações do cineasta para sua realização, em “Bastardos Inglórios”, Tarantino deu sinais de seu amadurecimento como cineasta mainstream. Se no passado seus filmes eram apenas rotulados como violentas estilizações de histórias magistralmente conduzidas, fruto de seus respectivos roteiros, sua criativa e imaginária vingança histórica de judeus na Segunda Guerra Mundial, liderada por Aldo Raine (Brad Pitt), demonstrou o quanto Tarantino pode ser brilhante sem abandonar suas características na realidade. “Bastardos Inglórios” alia a qualidade de seus roteiros, sempre esbanjando esmero e diálogos impressionantes, com um foco mais sóbrio e delineado. Além das motivações dilacerantes de seus personagens no decorrer da trama, há nobres ideais a serem alcançados no contexto da ação. Acima de tudo, contado de forma que o cineasta não precise abrir mão das qualidades narrativas que o consagraram como ícone da cultura pop. Basta vermos alguns minutos de uma obra de sua autoria, para constatar que se trata de um filme de Quentin Tarantino.

Em “Django Livre” (Django Unchained, 2012), o cineasta une de certo modo, o útil ao agradável – uma história com motivações ideológicas, contada com estilo e exuberância. Através desse faroeste divertido, em função dos diálogos marcantes que permeiam toda a produção, um elenco extremamente competente e uma história repleta de homenagens delirantes, Tarantino usa uma postura crítica a escravidão – tema sempre atual, apesar de pouco destaque crítico no gênero – como pano de fundo para sua obra mais bem realizada, que inclusive está sendo indicado a 5 Oscar’s – incluindo Melhor Filme e Roteiro Original – e concorre com vários gigantes dessa cerimônia. A história se passa em 1858, antes da Guerra Civil Americana, onde Django (Jamie Foxx), um escravo que é comprado por King Schultz (Christopher Waltz), um esperto caçador de recompensas alemão, que precisa da ajuda de Django para capturar os irmãos Brittle – três criminosos que tem a cabeça a prêmio. Somente Django pode reconhecê-los, gerando o seguinte trato: Django o ajuda na captura dos foragidos da lei, vivos ou mortos, em troca de sua liberdade. Após uma missão bem sucedida, porém, ambos permanecem juntos numa inusitada parceria. Após um tempo trabalhando juntos, Schultz decidi ajudar o amigo e atravessam todo Texas e o Mississipi em busca da esposa de Django, Broomhilda (Kerry Washington), uma escrava que está em poder do cruel Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Dono de uma enorme fazenda chamada "Candy Land", a mulher é deixada aos cuidados do preconceituoso escravo Stephen (Samuel L. Jackson), onde a dupla terá nesse perturbador empregado o seu maior obstáculo para sair da fazenda com Broomhilda são e salvos. 

Apesar dos famosos filmes de faroeste de Sergio Leone, as referências de Tarantino para compor seu “Django” se restringem mais aos filmes de Sergio Corbucci, e do Django estrelado por Franco Nero na década de 60. Sem deixar de lado os delírios tarantinescos mais do que esperados pelo espectador, como o culto ao movimento Blaxploitation, “Django” consiste entre muitos outros elementos, na garantida violência estilizada com ceros exageros, ou em diálogos ágeis proferidos por um elenco de primeira. 

Se Jamie Foxx tem o peso da responsabilidade de interpretar o personagem principal, a alavanca na qual se ergue toda trama, Christopher Waltz deixa claro que a primeira metade da produção é inegavelmente dele no momento em que somos apresentados a sua persona no início do filme. A forma cômica com que o ator profere suas falas é de um brilhantismo único – é a sua transposição mais carismática até então. Se em “Bastardos Inglórios”, Waltz no papel de um vilão dissimulado ele já inspirava carisma por parte do espectador, agora como um elemento heroico da história ele esbanja simpatia. Enquanto na segunda parte, a oportunidade de Jamie Foxx de equilibrar a balança, Leonardo DiCaprio rouba a cena entregando uma performance intrigante. Seja pela sua materialização de um vilão naturalmente cruel, desprovido de questionamentos morais, ou seja, pela relação intrigante que mantem com seu empregado Stephen, que esboça certo poder de influência sobre sua figura. Stephen é tão racista quanto seu próprio patrão, senão mais ainda. O que o torna uma peça fundamental no desfecho da trama e na jornada de vingança do protagonista. O que não quer dizer que Foxx esteja mal em sua interpretação. Somente não tem o mesmo rendimento que os demais personagens apesar de demostrar conforto em sua interpretação – sua interpretação é mais gestual, física e limitada as suas atitudes do que em diálogos exibicionistas. Os melhores diálogos estão sem dúvida com Christopher Waltz, o personagem mais estudado do roteiro, como DiCaprio na cena do jantar, exibe talento em não deixar a extensa sequência ficar desgastante ou monótona. Apenas diante do próprio Tarantino em atuação, Django apresenta toda sua versatilidade em atuação.

A trilha sonora é igualmente inspirada, senão mais, do que em filmes como “Kill Bill” e “Pulp Fiction”. Trata-se de um espetáculo musical, que por vezes proporciona a devida intensidade aos acontecimentos que transcorrem sobre a película. Com canções retiradas de sua coleção própria de discos de vinil dos anos 70 – com ou sem falhas decorrentes do desgaste – demonstra o quanto fascinante pode ser o processo de criação de Tarantino. 

Ao contrário de seus trabalhos anteriores, Tarantino tarda um pouco pelo caminho do desfecho – a conclusão da vingança. Perde-se algumas passagens que seriam próprias para isso, deixando duração mais extensa do necessário. No final, peca pela ausência de um término climático a altura do desenvolvimento. Certamente que tiroteio no salão criou uma falsa sensação que precedia o THE END. Mas o cineasta não podia perder a oportunidade de mostrar o quanto divertido – através de sua participação especial – que foi a construção desse faroeste carregado de reflexão sobre um tema a ser discutido com relevância, bom humor e originalidade. Ao ver “Django Livre”, muitos espectadores irão torcer o nariz para seu espetáculo de brutalidade, transvestido de uma transposição histórica fiel. Muitos cineastas se armam de roteiros ambientados em épocas conturbadas para justificar ações mais radicais visualmente. Talvez seja o caso de Tarantino. Contudo, inegavelmente houve melhoras em seu trabalho desde que optou em se comprometer com um cinema de contexto mais amplo, mesmo sendo nas trivialidades do fenômeno “Pulp Fiction” que resida a maior gama de fãs ao seu sensacional trabalho.

Nota: 8,5/10 
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2 comentários:

  1. Indubitavelmente um dos melhores filmes de 2012!
    Obrigado pela passagem no meu blog. Congratulo-te também por este espaço.

    abraço
    Rafael Santos
    Memento Mori

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    Respostas
    1. Talvez se torne a grande surpresa da premiação do Oscar esse ano. Difícil, mas em comparação ao favorito, ganha disparado.

      abraço Rafael

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