quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crítica: O Legado Bourne | Um Filme de Tony Gilroy (2012)



Desde a incursão de Matt Damon ao universo da espionagem, nunca mais vimos os espiões com os mesmos olhos. A transposição do universo literário de Robert Ludlum para as telonas através da jornada de auto descoberta de Jason Bourne exibida em três produções de sucesso (A Indentidade Bourne, 2002; A Supremacia Bourne, 2004 e O Ultimato Bourne, 2007), foi o que existiu de mais próximo da realidade de mãos dadas com a visão cinematográfica e fantasiosa desse subgênero. Em “O Legado Bourne” (The Bourne Legacy, 2012) não vemos uma sequência necessariamente, mas uma ação paralela aos eventos ocorridos em “Ultimato Bourne”, que proporciona uma conveniente continuação a essa franquia nas quais cabeças chaves desse negócio haviam dado por encerrado – Matt Damon acusou o roteiro do terceiro episódio como o fim da carreira do personagem. Porém, Tony Gilroy que era roteirista dos três primeiros filmes, assume a cadeira de diretor nessa produção e a complicada tarefa de estender o prestigio dessa cinessérie por mais tempo.


A trama de “O Legado Bourne” se passa paralelamente a caçada de Jason Bourne quando chega à cidade de Nova York em “O Ultimato Bourne”. O panorama é de que o Programa Treadstone está prestes a ruir, e a repercussão que tem surgido na mídia faz com que outros programas de treinamento semelhantes do governo devam cessar até os holofotes se apagarem sobre a questão. E em um desses programas, o agente Aaron Cross (Jeremy Renner), é uma das cobaias para o desenvolvimento e aperfeiçoamento de drogas que auxiliam na melhoria do desempenho operacional de agentes. Sob o aval de Eric Byer (Edward Norton) a CIA determina encerrar os programas experimentais, eliminando todos os envolvidos, desde os agentes de campo aos envolvidos na pesquisa. Porém, Aaron sobrevive à tentativa de queima de arquivo, como também salva a vida da Doutora Shearing (Rachel Weisz), uma das responsáveis pela pesquisa médica do programa e criação dos milagrosos medicamentos. Mas apesar das melhorias que esse medicamento proporciona, tem como empecilho sua dependência química que caso não seja atendida pode levar a morte, fazendo da doutora Shearing uma ferramenta fundamental para a sobrevivência de Aaron Cross.


Com um forte vínculo com o personagem Jason Bourne (há varias menções ao personagem nesse longa) o diretor e roteirista tenta explorar ao máximo a Iniciativa Bourne. Tanto sua história como a narrativa adotada não se difere em nada dos três filmes anteriores, que tem como o chamariz um protagonista treinado em uma incessante fuga de autoridades do governo. Contudo as motivações dos protagonistas ligeiramente se alteram, pois enquanto Matt Damon buscava conhecimento sobre sua real identidade, Jeremy Renner busca a sobrevivência antes do esgotamento de seu tempo. E nessa luta contra o relógio, o ator corre, pula, briga para driblar seus algozes perseguidores em sequências de ação intermináveis e por vezes exageradas. Se Damon ganhava pontos por seu carisma, Renner esbanja intensidade por seu desempenho. Com um roteiro mais frenético do que a franquia exaltava nos episódios anteriores, todo o longa é focado no protagonista, não restando muitas oportunidades para Norton mostrar por que veio, em seu papel burocrático e funcional. A atriz Rachel Weisz, apesar de fazer dupla com Renner na maior parte do longa, e de certos momentos inspirados de interpretação, sem dúvida Gilroy entrega o filme ao protagonista por razões óbvias.


A produção caprichada e investe na repetição do formato da ação – lutas bem coreografadas, perseguições aceleradas e muitas exibições brutais com toques de sofisticação. Mesmo tendo um elenco promissor, mal aproveitado de certo modo, o roteiro se volta para o gênero da ação sem cerimônias como o maior atrativo dessa produção. A excessiva exibição de cortes e uma montagem rápida vêm a inserir na narrativa uma dose cavalar de adrenalina e ritmo. Apesar de um desenvolvimento emocionante e competente, como era esperado por um espectador da franquia, faltou um desfecho mais climático e menos apressado. A cena final como exemplo, não trouxe nenhum frescor às finalizações dos filmes anteriores.

Por fim, “O Legado Bourne” é diversão descompromissada. Acima de tudo, trata-se de entretenimento bem feito sem maiores pretensões a não ser a de conseguir mais com o mesmo. Tony Gilroy anseia pela volta de Damon a franquia mesmo após algumas trocas de farpas. Quem sabe no próximo episódio não veremos Matt Damon novamente ligado à franquia e a incontestável confirmação disso?  

Nota: 6,5/10
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Crítica: Django Livre | Um Filme de Quentin Tarantino (2012)



Todo lançamento de um filme do cineasta Quentin Tarantino é uma boa razão para celebrar. E falar de seus filmes sem mencionar o seu nome é quase impossível. Querendo ou não, a ciência do cineasta em compor seus trabalhos eventualmente é tão fascinante quanto o próprio resultado. Limitando os meus comentários aos mais recentes trabalhos do cineasta, dentre eles o longa “À Prova de Morte”, que foi esmiuçado friamente pela crítica, mesma consciente das motivações do cineasta para sua realização, em “Bastardos Inglórios”, Tarantino deu sinais de seu amadurecimento como cineasta mainstream. Se no passado seus filmes eram apenas rotulados como violentas estilizações de histórias magistralmente conduzidas, fruto de seus respectivos roteiros, sua criativa e imaginária vingança histórica de judeus na Segunda Guerra Mundial, liderada por Aldo Raine (Brad Pitt), demonstrou o quanto Tarantino pode ser brilhante sem abandonar suas características na realidade. “Bastardos Inglórios” alia a qualidade de seus roteiros, sempre esbanjando esmero e diálogos impressionantes, com um foco mais sóbrio e delineado. Além das motivações dilacerantes de seus personagens no decorrer da trama, há nobres ideais a serem alcançados no contexto da ação. Acima de tudo, contado de forma que o cineasta não precise abrir mão das qualidades narrativas que o consagraram como ícone da cultura pop. Basta vermos alguns minutos de uma obra de sua autoria, para constatar que se trata de um filme de Quentin Tarantino.

Em “Django Livre” (Django Unchained, 2012), o cineasta une de certo modo, o útil ao agradável – uma história com motivações ideológicas, contada com estilo e exuberância. Através desse faroeste divertido, em função dos diálogos marcantes que permeiam toda a produção, um elenco extremamente competente e uma história repleta de homenagens delirantes, Tarantino usa uma postura crítica a escravidão – tema sempre atual, apesar de pouco destaque crítico no gênero – como pano de fundo para sua obra mais bem realizada, que inclusive está sendo indicado a 5 Oscar’s – incluindo Melhor Filme e Roteiro Original – e concorre com vários gigantes dessa cerimônia. A história se passa em 1858, antes da Guerra Civil Americana, onde Django (Jamie Foxx), um escravo que é comprado por King Schultz (Christopher Waltz), um esperto caçador de recompensas alemão, que precisa da ajuda de Django para capturar os irmãos Brittle – três criminosos que tem a cabeça a prêmio. Somente Django pode reconhecê-los, gerando o seguinte trato: Django o ajuda na captura dos foragidos da lei, vivos ou mortos, em troca de sua liberdade. Após uma missão bem sucedida, porém, ambos permanecem juntos numa inusitada parceria. Após um tempo trabalhando juntos, Schultz decidi ajudar o amigo e atravessam todo Texas e o Mississipi em busca da esposa de Django, Broomhilda (Kerry Washington), uma escrava que está em poder do cruel Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Dono de uma enorme fazenda chamada "Candy Land", a mulher é deixada aos cuidados do preconceituoso escravo Stephen (Samuel L. Jackson), onde a dupla terá nesse perturbador empregado o seu maior obstáculo para sair da fazenda com Broomhilda são e salvos. 

Apesar dos famosos filmes de faroeste de Sergio Leone, as referências de Tarantino para compor seu “Django” se restringem mais aos filmes de Sergio Corbucci, e do Django estrelado por Franco Nero na década de 60. Sem deixar de lado os delírios tarantinescos mais do que esperados pelo espectador, como o culto ao movimento Blaxploitation, “Django” consiste entre muitos outros elementos, na garantida violência estilizada com ceros exageros, ou em diálogos ágeis proferidos por um elenco de primeira. 

Se Jamie Foxx tem o peso da responsabilidade de interpretar o personagem principal, a alavanca na qual se ergue toda trama, Christopher Waltz deixa claro que a primeira metade da produção é inegavelmente dele no momento em que somos apresentados a sua persona no início do filme. A forma cômica com que o ator profere suas falas é de um brilhantismo único – é a sua transposição mais carismática até então. Se em “Bastardos Inglórios”, Waltz no papel de um vilão dissimulado ele já inspirava carisma por parte do espectador, agora como um elemento heroico da história ele esbanja simpatia. Enquanto na segunda parte, a oportunidade de Jamie Foxx de equilibrar a balança, Leonardo DiCaprio rouba a cena entregando uma performance intrigante. Seja pela sua materialização de um vilão naturalmente cruel, desprovido de questionamentos morais, ou seja, pela relação intrigante que mantem com seu empregado Stephen, que esboça certo poder de influência sobre sua figura. Stephen é tão racista quanto seu próprio patrão, senão mais ainda. O que o torna uma peça fundamental no desfecho da trama e na jornada de vingança do protagonista. O que não quer dizer que Foxx esteja mal em sua interpretação. Somente não tem o mesmo rendimento que os demais personagens apesar de demostrar conforto em sua interpretação – sua interpretação é mais gestual, física e limitada as suas atitudes do que em diálogos exibicionistas. Os melhores diálogos estão sem dúvida com Christopher Waltz, o personagem mais estudado do roteiro, como DiCaprio na cena do jantar, exibe talento em não deixar a extensa sequência ficar desgastante ou monótona. Apenas diante do próprio Tarantino em atuação, Django apresenta toda sua versatilidade em atuação.

A trilha sonora é igualmente inspirada, senão mais, do que em filmes como “Kill Bill” e “Pulp Fiction”. Trata-se de um espetáculo musical, que por vezes proporciona a devida intensidade aos acontecimentos que transcorrem sobre a película. Com canções retiradas de sua coleção própria de discos de vinil dos anos 70 – com ou sem falhas decorrentes do desgaste – demonstra o quanto fascinante pode ser o processo de criação de Tarantino. 

Ao contrário de seus trabalhos anteriores, Tarantino tarda um pouco pelo caminho do desfecho – a conclusão da vingança. Perde-se algumas passagens que seriam próprias para isso, deixando duração mais extensa do necessário. No final, peca pela ausência de um término climático a altura do desenvolvimento. Certamente que tiroteio no salão criou uma falsa sensação que precedia o THE END. Mas o cineasta não podia perder a oportunidade de mostrar o quanto divertido – através de sua participação especial – que foi a construção desse faroeste carregado de reflexão sobre um tema a ser discutido com relevância, bom humor e originalidade. Ao ver “Django Livre”, muitos espectadores irão torcer o nariz para seu espetáculo de brutalidade, transvestido de uma transposição histórica fiel. Muitos cineastas se armam de roteiros ambientados em épocas conturbadas para justificar ações mais radicais visualmente. Talvez seja o caso de Tarantino. Contudo, inegavelmente houve melhoras em seu trabalho desde que optou em se comprometer com um cinema de contexto mais amplo, mesmo sendo nas trivialidades do fenômeno “Pulp Fiction” que resida a maior gama de fãs ao seu sensacional trabalho.

Nota: 8,5/10 
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sábado, 26 de janeiro de 2013

Sobre a Perspectiva de Tom Olesnevich | Fotografia


Veja a perspectiva inovadora com que o fotógrafo e ciclista Tom Olesnevich decide mostrar a cidade de Nova Iorque.  Com uma infinidade de fotos tiradas com uma câmera anexada ao quadro de sua bike, o fotografo encontra uma maneira diferente de mostrar lugares bem familiares aos nossos olhos, porém de um ângulo bem diferenciado. Confira as fotos:



 











sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Crítica: Vamos Nessa! | Um Filme de Doug Liman (1999)



Com uma narrativa basicamente fragmentada, o diretor do excelente “Swingers” consegue um resultado bem bacana mostrando a força do cinema independente no fim da década de 90 através de “Vamos Nessa!” (Go, 1999), que retrata uma noitada insana de jovens em meio a circunstâncias desesperadas. O filme remete a lembrança do fenômeno do cinema underground chamado “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, ou do filme “Short Cuts”, de Robert Altman, porém menos sanguinolento do que o trabalho de Tarantino, e mais simplista que do que a fita de Altman, mas inegavelmente divertido em todos os sentidos.

A trama narra um dia e uma noite de um grupo de personagens as vésperas do Natal, visto sob três diferentes perspectivas: a de Ronna (Sarah Poley), uma caixa de supermercado falida e desesperada por dinheiro, e Claire (Katie Holmes) disposta a qualquer negócio para sair da rotina; a de Simon (Desmond Askew), um inglês distante de casa, desesperado por diversão que segue rumo a Las Vegas com seus amigos de Los Angeles e somente encontram confusão; e Adam e Zack (Scott Wolf e Jay Mohr) uma dupla de atores de TV, que em busca de diversão, se metem numa ação policial confusa e recebem de um policial estranho uma proposta mais estranha ainda. 


Vamos Nessa! é um exemplar de fita que mesmo não apresentando nada de extraordinário, diverte, tanto pelos personagens malucos quanto pela história em si, isso por conta dos diálogos ágeis das situações absurdas as quais esses personagens se envolvem. Drogas alucinógenas, sexo casual, música eletrônica são elementos imprescindíveis dentro da trama, e não são meros artigos de decoração, e sim fazem parte das adversidades comuns as quais os jovens se esbarram numa noitada feito a desses personagens, se fazendo mais do que necessária como uma justa ambientação. A forma com que foi montada – de forma fragmentada – é somente um dos atrativos que essa produção nos presenteia. A trilha sonora é igualmente brilhante e antenada com a proposta dessa produção. 

A forma como o roteiro de John August se desenvolve e brinca com os personagens – como no caso de Scott Wolf, deixando claro que sua interpretação está ligada ao personagem da extinta série “O Quinteto”, é uma das passagens inspiradas de seu roteiro; ou quando os atores, numa conversa casual, se queixam da tietagem resultante de seu trabalho na TV. Claire, uma das personagens mais legais dessa produção, dá um show que a torna relevante não tanto na trama, mas no balanço das interpretações divertidas de “Vamos Nessa!”.

Por fim, “Vamos Nessa!” é como uma tradicional balada. Trata-se de uma rotina que algumas vezes muda, aqui ou ali. Em geral é sempre a mesma coisa, e mesmo que funcione para passar o tempo de maneira divertida, não vai mudar sua vida. 

Nota: 7/10

 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Crítica: A Árvore da Vida | Um Filme de Terrence Malick (2011)



Ao invés de escrever sobre algum grande vencedor do Oscar 2012 (Academy Awards 2012), decidi reescrever esse post esquecido nos primórdios desse blog, dedicado a um dos indicados dessa anual corrida premiada. Esquecido pelo júri naquela premiação, mas que tem um lugar prestigiado no coração de muitos espectadores. Os grandes prêmios da cerimônia de 2012 foram previsivelmente divididos entre os filmes "O Artista" e "A Invenção de Hugo Cabret", aos quais não tive oportunidade de vê-los na telona na época, mas que como no caso do segundo, o conferi posteriormente na telinha. Ambos detinham características nostálgicas de um cinema francês que nunca teve muito a ver comigo, ao qual vi poucas obras as quais serviram de referência e inspiração para seus realizadores.  Cinema mudo, por exemplo, nunca me cativou, e seria uma hipocrisia dizer o contrário. Gosto sim do diálogo, das frases de efeito marcante, das reviravoltas que uma boa discussão fervorosa pode causar na película. Gosto de relembrar no dia posterior a uma exibição o que fulano disse para ciclano. Necessito disso tanto quanto gosto. Por isso acho que Martin Scorsese, com o filme “A Invenção de Hugo Cabret” já havia ganhado meu humilde voto antes mesmo de vê-lo. Mas talvez ainda me surpreenda com o premiado filme "O Artista" (2011), de Michel Hazanavicius, ao qual ainda não tive a oportunidade de assistir, ou evito por puro preconceito.

Nessa peneira da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas - que não passa muita variedade - facilita as apostas e muitas vezes as deixam um pouco óbvias demais para os cinéfilos, onde é raro, muito raro algum filme me espantar. Tem muita coisa boa rodando nas salas de cinema e que não obtém um justo reconhecimento pelos criteriosos membros da Academia. E uma indicação sempre pode alavancar um projeto promissor que passou despercebido pelo grande público. Por essa razão, voltei minha atenção mais a um dos competidores do que aos premiadíssimos vencedores que dispensam mais aplausos pós-cerimônia. E minha postagem dedicatória não fica propriamente restrita ao filme em questão, mas sim ao seu realizador, que faz parte de um seleto grupo de diretores excêntricos como David Linch (Cidade dos Sonhos, 2001), Spike Jonze (Eu Quero Ser John Malkovich, 1999) e Lars Von Trier (Festa de Família, 1998), que demonstram muitas vezes dirigirem filmes para si próprios, de tão controversos que são seus resultados. Mais do que entender o filme propriamente, deve-se ter uma ligeira compreensão sobre a personalidade de seus realizadores. Terrence Malick não é diferente. 

O filme "A Árvore da Vida" (The Tree of Life, 2011), estrelado por Brad Pitt, Sean Pean e Jessica Chastain, é um trabalho do diretor/roteirista Terrence Malick, que documenta a relação entre pai e filho em uma simples família americana, ao mesmo tempo em que paralelamente exibi um ensaio sobre a vida com uma abordagem visual sofisticada da criação do mundo até o fim dos tempos, de forma religiosa e cientifica, sempre enfatizando a profundidade do tema familiar com uma edição de imagens correlacionadas com a origem da vida. Isso em síntese. "A Árvore da Vida" tem a pretensão de se apresentar segura de si, como uma obra cinematográfica ou como material que gere reflexão. Textualiza a explosão do Big Bang, a transição do tempo e a evolução do mundo a qual conhecemos.

Do surgimento do mundo a história nos leva ao amago da família O´Brien. Tudo apresentado através de lembranças de Jack (Sean Pean): os esforços do Sr. O´Brien (Brad Pitt) na construção do sonho americano, de sua esposa (Jessica Chaistain) preservando os valores da família, a pregação da espiritualidade dominical, a importância de um trabalho honesto, a relação familiar entre pai e filhos. Malick transporta o espectador para a década de 50 com seu filme, através de uma perfeita e harmoniosa reconstrução da ambientação na qual a trama se passa, enriquecida pelas nuances dos equívocos que acompanha evidentemente, esse tal “sonho americano”. E nesse enredo denso sobre a queda do delicado véu que cobre essa sociedade puritana, estão preciosos atores que dão a devida densidade para os personagens elaborados por Malick, e que retratam com perfeição a sua construção do mundo. Brad Pitt é a encarnação de um severo pai de família, perfeitamente caracterizado dramaticamente, e sobrecarregado de expectativas. Tudo desencadeia ações e reações, por vezes desagradáveis para o contexto familiar. Enquanto Sean Penn procura a redenção. O sofrimento expresso no passado, recapitulado evento após evento, talvez seja uma forma de encontrar a solução que o tempo não trás por conta própria. Ambos trazem a tona toda dramaticidade que uma narrativa contemplativa da direção necessita para intensificar onde imagens repletas de simbologias falam tanto quanto imensos discursos shakespearianos. 

O filme foi também indicado ao Oscar de melhor filme, diretor e fotografia, mas não se consagrou em nenhuma categoria. Particularmente por razões óbvias. O filme é interessante de uma forma singular, bem característica da autoria de Malick, porém desnecessariamente longo e excessivamente divagante. E bota divagação nisso. Sequências intermináveis de imagens e mais imagens. Por mais que bem feito e criativamente editado, torna-se cansativo para a maioria dos espectadores, justamente por sua maior qualidade: o tempo. Malick não tem pressa em apresentar seu roteiro, como o mundo não teve em gerar a vida. É preciso compreender que espiritualidade e ciência se sobrepõem para compor seu desacelerado enredo. Foram acontecimentos atrás de acontecimentos, que geraram fenômenos que ultrapassavam milhares de anos, até a próxima etapa. Malick seguiu a cartilha de maneira religiosa. E sua infinita inserção acontecimentos pode muito bem passar despercebida por uma gama de espectadores. 

O visual está perfeitamente montado com imagens deslumbrantes, que vão do excepcional contraste de névoas e luzes do espaço, ao subúrbio estadunidense dos anos 50, cheio de cores enriquecidas pela direção de fotografia Emmanuel Lubezki. A beleza nostálgica do passado perfeitamente reproduzida, em cores, enquanto afronta em contraste com o contemporâneo, retratado em cores entristecidas e acinzentadas. A visão do autor para o futuro, sutilmente expressa nas cores. 


O filme “Além da Linha Vermelha” (The Thin Red Line, 1998), outro trabalho de Malick, talvez tenha sido um de seus trabalhos mais comerciais já realizados pelo cineasta. Algo no mínimo curioso, em vista que se trata de um drama de guerra ambientado em plena Segunda Guerra Mundial. Esse concebido depois de anos afastado das câmeras, retornou com projeto monumental e complexo, de difícil execução devido ao extenso roteiro, que não agradou muito por seu ritmo mais contido e lento para o gênero. O filme também havia sido indicado ao Oscar de melhor filme, com poucas chances sobre o vencedor da categoria. Porém havia sido realizado de uma maneira mais linear e sóbria do que “A Árvore da Vida”, o aumentava suas chances diante da concorrência. Tinha todos os devaneios existências característicos do autor, ritmo lento e contemplativo, que misturava fé e existencialismo, com um elenco estelar e uma proposta interessante de reflexão espirituosa sobre os dramas dos combatentes nos campos de batalha. É um dos meus filmes preferidos no gênero no qual se encaixa, isso muito pela escolha da belíssima trilha sonora.

Apesar de Terrence Malick ter amargurado uma derrota pela conquista do Oscar 2012 com seu “A Árvore da Vida”, ele tinha uma virtude em comum com o vencedor: ele tem uma visão nada convencional do cinema a qual estamos acostumados a ver diariamente e não teme o risco que essa afronta pode causar. Um dos méritos da fita de Michel Hazanavicius é justamente esse ponto: não se importar com os riscos que acompanham seu projeto. Mas minha salva de palmas fica reservada mesmo ao cineasta Terrence Malick, que tem evoluído por sua persistência por realizar projetos inclinados em gerar reflexão através de beleza e autenticidade como o vencedor desta premiação. 

Nota: 8/10
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Crítica: Os Infratores | Um Filme de John Hillcoat (2012)



Certa vez alguém me disse: “eu não bebo, para não perder o controle de minhas emoções”. Julguei sensato o comentário, como um exemplo de autoconhecimento e responsabilidade, sendo alguém que sabe que o álcool pode desencadear o que há de pior na natureza humana sob as condições adequadas para uma fatalidade. Certamente que no ano de 1931, no condado de Franklin, na Virginia, sob o peso da grande depressão e o cumprimento da Lei Seca americana a qualquer custo, a imposta abstinência do álcool não conteve as emoções inflamadas, por vezes brutais, dos personagens do mais recente filme de John Hillcoat. Em “Os Infratores” (Lawless, 2012), o diretor faz uma incursão auspiciosa ao universo dos grandes filmes de gângsteres. 

Baseado em fatos reais, a história acompanha os três irmãos Bondurant, onde Forrest (Tom Hardy), o líder durão do grupo, Howard (Jason Clarke), um destemido sobrevivente de guerra e braço direito de Forrest, e Jack (Shia LaBeouf), um caçula pretensioso e acovardado, que tem na fabricação e distribuição ilegal de bebidas alcoólicas um negócio lucrativo. Vistos como lendas na cidade, são imensamente conhecidos pela bebida ilegal (uísque) que vendem e por uma suposta invencibilidade física. Porém o governo fecha o cerco para suas atividades, onde um delegado corrupto chamado Charlie Rakes (Guy Pearce), passa a travar uma guerra contra a gangue de caipiras que prosperam vendendo sua bebida na cidade de Chicago.
                
John Hillcoat, tendo como fonte de inspiração para a criação de seu filme o livro “The Wettest County in the World”, de Matt Bondurant, neto de Jack Bondurant, transpõe para película uma obra brilhante, roteirizada por Nick Cave (A Proposta), mesmo sem o glamour do crime organizado que é retratado em filmes como “Os Intocáveis” (1987) e “Ajuste Final” (1990) de atmosfera mais urbana. Em “Os Infratores”, a narrativa está mais para um faroeste, de forma crua, em preparo para uma transição a um patamar superior, que por sinal tem indícios da presente existência na figura do chefão do crime Floyd Banner, interpretado por Gary Oldman, fundamental como inspiração para Jack, quando passa a enveredar no caminho da ilegalidade do qual seus irmãos estão são envolvidos.

Apesar de Jack ser o elo do filme com o espectador – através da narração em off – o  mérito da trama fica creditado ao personagem de Tom Hardy, detentor das melhores falas e protagonista dos melhores momentos do filme – com seu sotaque caipira e postura truculenta inspira mais carisma do que a interpretação espalhafatosa de Shia LaBeouf. Enquanto o cruel delegado Charlie beira o ápice de uma interpretação caricatural impressionante, podemos ver que só não supera o papel de Gary Oldman, sempre competente e numa boa fase na escolha de projetos que enriquecem sua filmografia. Mas nessa terra sem lei, onde violência e brutalidade reinam em regime de soberania, o papel da recém-chegada de Chicago Maggie Beauford (Jessica Chastain) é um ar fresco e colírio eficiente aos olhos depois de algumas passagens sanguinolentas. 

Muitos podem criticar “Os Infratores” pela violência, pelo excesso de brutalidade que decorre pela trama. Hillcoat deixa claro que sua obra se passa num período complicado da história americana, onde o governo apenas supõe que tem poder sobre o povo que sobrevive sob a penúria da grande depressão. Os Bondurant justamente sobrevivem, e prosperam graças ao não cumprimento das leis. A grande depressão, de certo modo é maior violência apresentada na tela, sendo a responsável pela criação de uma atmosfera apropriada para que a violência e a brutalidade seja a verdadeira autoridade. Hillcoat sabe disso, e não poupa o espectador de cenas extremadas, até um desfecho – um tiroteio confuso – que cela sua atmosfera brutal de um western à moda antiga.

Seguindo a ordem natural de Franklin, “Os Infratores” é um filme de gângster necessário como exemplo, de como até o mais raivoso cão pode um dia ser um animal dócil, desde que o ambiente propicie isso. O trabalho de John Hillcoat pode não superar os grandes clássicos desse subgênero, porém apresenta uma obra interessante e bem realizada que prende a atenção do espectador do começo ao fim, por sua transparência bem desvinculada de sucessos consagrados.

Nota: 7,5/10
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