sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Crítica: Drive | Um Filme de Nicolas Winding Refn (2011)



Sabe aqueles filmes que depois de algum tempo é lançado com a versão sem cortes ou por assim dizer, versão definitiva?  Por que alguém achou que podia melhorar na sala de edição algo que passou batido no primeiro lançamento? No caso desse longa-metragem, chamado "Drive" (Drive, 2011), duvido que isso venha acontecer. Deixe-me explicar. O filme tem um roteiro conciso, objetivo e sem floreios. Cada diálogo tem porque existir, e é apresentado de forma enxuta. As cenas de violência não possuem restrições visuais que se armam do poder da sugestão como solução para contornar uma censura ostensiva. Tudo é explicito e bem delineado através de um perfeito enquadramento de câmera. A história é linear, de sinopse simples desprovida de extravagâncias cinematográficas comuns. A complexidade da história reside nos personagens (protagonista) e não no ambiente em si no qual a ação decorre. Não há o que melhorar em sua totalidade sendo que já trabalha sob a pressão de um fino ajuste. Na trama o motorista interpretado por Ryan Gosling – o nome do personagem nunca é mencionado – é um dublê em filmes de Hollywood onde requer a presença de um experiente motorista em cenas de ação, e que também desempenha por ironia do destino o papel de motorista de fuga em verdadeiros assaltos. O “Motorista” se envolve emocionalmente com sua vizinha (Carey Mulligan) e seu filho, se prestando ao trabalho de ajudá-los na quitação de uma “dívida” decorrente da negligência dos atos criminosos de seu marido, recém-saído da cadeia. O débito pode ser pago através da realização de um assalto aparentemente simples, ao qual o Motorista os auxilia na realização. Porém, nem tudo sai como planejado, e consequentemente suas habilidades atrás do volante fazem toda a diferença. Apesar de tudo, entre mortos e feridos, todos os personagens envolvidos nessa trama têm suas vidas reviradas em um turbilhão de emoções.

O filme está em completa sintonia com o cinema, desde sua ambientação – Hollywood dos anos 80 – ao protagonista, que é interpretado em tons de homenagem a personagens marcantes da história cinematográfica – a jaqueta com estampa de um escorpião nas costas é igual à de Antonio Banderas em A Balada do Pistoleiro”, ou o constante palito entre os dentes de Sylvester Stallone em “O Cobra”. Mas não é somente de homenagens que o protagonista apenas nos alimenta, pois sua atuação explora o máximo das possibilidades que seu personagem pode proporcionar. Trata-se de um ator que interpreta o papel de um cara comum, que parece estar constantemente imerso em um personagem que ele mesmo criou para si próprio. É uma alienação mascarada de homenagem, que funciona bem devido ao trabalho do conjunto do roteiro de Hossein Amini e da direção de Nicolas Winding Refn, que tanto um quanto o outro souberam aproveitar o melhor disso sem ficar óbvio demais. O protagonista tem uma postura metódica, calculada e um temperamento de uma serenidade pouco usual – quase sempre estampa uma expressão de alguém que contempla a vida com um constante ar de descoberta. Porém em seu trabalho, o ilegal, sabe como agir e reagir diante das circunstancias extremas a qual é exposto, indo de uma enorme tranquilidade e frieza a reações necessariamente violentas sem hesitação. Sua atuação é medida, tanto nas cenas em que divide a tela Carey Mulligan, demonstrando ternura e um sugestivo interesse romântico, ou nas cenas violentas em que confronta seus algozes perseguidores após o equivocado assalto.

Entretanto, não é somente no casal já mencionado que mora as melhores atuações desse longa: Ron Perlman está excelente e assustador com sua sempre marcante voz; Oscar Isaac não fica por menos mesmo não tendo o mesmo destaque; mas jamais haveria um grande herói nesse filme, se não houvesse um vilão a altura, e por isso os aplausos mais explosivos ficam para Albert Brooks, que compôs um rival quase tão fascinante quanto o mocinho nesse filme. "Drive" é perspicaz em sua proposta. Mistura gêneros que oscilam entre filmes de ação frenéticos e suspenses policiais dos longínquos anos 70. Cria um personagem diferente, que ironicamente surgiu de umas oportunas homenagens que despertam a atenção de cinéfilos mais aguçados. Poderia muito bem ter saído da mente criativa de Quentin Tarantino pelas semelhanças narrativas. Mas não saiu. O que já basta para colocar esse longa-metragem numa posição nobre entre as grandes surpresas que alguns cineastas estão criando atualmente.

Nota: 8,5/10
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4 comentários:

  1. Realmente gostei disso: "um cara comum, que parece estar constantemente imerso em um personagem que ele mesmo criou para si próprio."

    O filme me agradou bastante, não apenas pelas atuações, mas também pela forma forma como toda a trama foi conduzida. Sem contar que a dinâmica do filme é bem peculiar, oscilando entre momentos de tensão e de pura tranquilidade. Ótimo filme!

    Abraço

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  2. Também gostei... em tempos em que varios cineastas tentam imitar Tarantino, finalmente um consegue criar uma produção no estilo sem parecer plágio.

    abraço

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  3. ADOREI! TRAMA, AÇÃO DINAMISMO,SIMPLESMENTE PERFEITO
    BEIJINHOS
    ISABEL MESQUITA

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