quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Crítica: Cidade dos Sonhos | Um Filme de David Lynch (2001)



Enquanto alguns cineastas, para não dizer quase todos, criam filmes direcionados para as massas, o diretor David Lynch desempenha um trabalho no extremo oposto desse objetivo. Quando cada vez mais cineastas procuram servir o público com o que ele deseja, Lynch está pouco se importando com a satisfação do espectador. Se houve ou não um perfeito entendimento de seu raciocínio, não importa, porque cinema é como a vida, que nem sempre tem explicação para acontecer. E o mais provável é que o tiro saia pela culatra com uma teorização tão arriscada assim, porém às vezes, de forma inusitada, sua capacidade de realização ainda consegue surpreender.

Nesse filme chamado Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001), apresenta uma trama esquisita, cheia de personagens que vem e vão sem explicação, mas que ao decorrer do tempo, quando comtemplados mais de longe, nota-se a razão de suas presenças dentro da película. No filme que acompanha duas mulheres: onde a primeira é Rita (Laura Harring), que perde a memória depois de um acidente de carro, e sai cambaleando pela rua que dá título ao filme, e encontra a segunda, Diane Selwyn (Naomi Watts, em uma interpretação maravilhosa), que faz o papel de uma aspirante a atriz em Los Angeles, que busca o tão sonhado estrelato. Juntas tentam juntar as peças desse quebra-cabeça que gira em volta da amnésia de Rita, e de uma pequena fortuna em dinheiro que ela carregava sem saber a origem.


O filme se apresenta de forma confusa, distante de um entendimento sincronizado, e uma realidade linear, que aborda através de sutis metáforas, questões como falsidade, troca de identidade, e sobre um dos maiores mistérios que rondam Los Angeles, que é a própria Hollywood. Os bastidores da indústria do cinema, apresentado com a perspectiva de Lynch, serve como pano de fundo para a trama protagonizada pelas duas mulheres. Lynch, de forma sutil, não perde a oportunidade de criticar todo aquele glamour do cinema, que apenas serve como uma fina cortina para camuflar um emaranhado de superficialidades do meio e o jogo de interesses mesquinhos que rondam nos bastidores do poder de grandes estúdios – que naturalmente ele também é vítima.  

    
Esse longa foi idealizado com a intenção de virar uma série de televisão, mas foi rejeitada pela rede ABC, e para não descartar por completo o material pronto – o equivalente a três capítulos – David Lynch incluiu mais 40 minutos de filmagens extras e remontou todo projeto, para entrar nos moldes de um longa-metragem. Uma tentativa de reciclar todo seu trabalho, ao qual ele desconhecia a razão da rejeição dele.

Cidade dos Sonhos é um trabalho de Lynch um pouco esquisito, com passagens poéticas, porém também um pouco inexplicáveis. É o resultado talvez da costura do passado (quando o material era televisivo) com o presente reciclado. Por mais que a direção aborde certas superficialidades do meio, sua obra apresenta um material totalmente desprovido do mesmo. E ainda que não agrade a maioria, uma coisa é certa: David Lynch não está nem aí para isso.

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