quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Crítica: Fome | Um Filme de Steve McQueen (2008)


Durante quase duas décadas de lutas armadas, a Irlanda conviveu sob constantes ataques e padeceu com os brutais atentados terroristas provocados pelo IRA (do inglês “Irish Republican Army”, denominado como o Exército Republicano Irlandês), um grupo paramilitar católico que buscava separar através de radicalismos a Irlanda do Norte do Reino Unido e automaticamente reanexar-se a República da Irlanda, isso atacando alvos prioritariamente protestantes ligados ao governo britânico. Dissolvido oficialmente em 2005, o grupo deixou um legado de histórias marcadas de sangue e sofrimento para posterioridade. Uma delas é a do prisioneiro irlandês do IRA, Bobby Sands (Michael Fassbender), quando em 1981 dá entrada no cumprimento de sua pena na prisão de Maze, em Belfast. Fervoroso ativista dos objetivos do IRA, Bobby Sands inicia uma luta contra sua condenação como criminoso comum e conduz uma greve de fome que é levada a cabo por todos os prisioneiros do IRA que permanecem nas dependências de Maze, e que reivindicam justiça pelo direito de morrerem na prisão como prisioneiros políticos que realmente são. “Fome” (Hunger, 2008) é um drama biográfico de cujo político produzido em parceria entre Irlanda e Reino Unido que foi escrito por Enda Walsh e Steve McQueen (o qual o segundo também assume a direção do filme). Baseado em um episódio real da vida de Bobby Sands, o britânico artista Steve McQueen tem em seu longa-metragem de estreia uma obra cinematográfica intensa emocionalmente, de visual brutal aos olhos e que também não é para todos os estômagos.


Poderoso, provocador e profundo, “Fome” é antes de qualquer coisa um pedaço marcante de seu realizador. É preciso ressaltar o quão soberbo que é esse trabalho de estreia de Steve McQueen. Na época um conhecido artista plástico do cenário da arte, hoje é um dos mais talentosos cineastas em atividade do cinema contemporâneo. Responsável por premiados filmes como “Shame”, em 2011 e “12 Anos de Escravidão”, em 2013, sua incursão no meio cinematográfico não poderia ter sido melhor. “Fome” transborda excelência em vários quesitos no gênero de filmes de presídio. Com uma abordagem menos política e mais aprofundada sobre a figura de Bobby Sands (onde o cineasta nos envolve nas últimas semanas de sua greve de fome), a interpretação de Michael Fassbender se mostra impecável, tanto na dedicação para compor o personagem quanto em seu desempenho na interpretação. Fassbender impressiona em várias cenas. Sobretudo, Steve McQueen constrói também uma magistral atmosfera de presidio e suas condições carcerárias críveis as quais o personagem é submetido na prisão, o que transporta o espectador ao enredo de forma profunda. Fassbender emagreceu gritantemente aos olhos para compor seu personagem (que depois de alguns dias em greve de fome evidentemente teria que emagrecer visivelmente aos olhos do espectador) rivaliza com outras performances marcantes como a de Christian Bale, em “O Operário”, ou de Matthew McConaughey, em “Clube de Compras Dallas”.

A busca de reconhecimento de Bobby Sands ganha contornos de realismo impressionantes pelas mãos de seu realizador, como pela atuação de Michael Fassbender que obviamente se entrega ao papel de corpo e alma para mostrar quem foi realmente Sands dentro da história da Irlanda, sobretudo do IRA. Visceral em seu conjunto, o filme alterna bem cenas ousadas de brutalidade com a essência de motivações de apelo universal do personagem principal de uma forma fluente. Por isso, “Fome” é em suma a impressionante materialização da competência de dois ícones do cinema contemporâneo.

Nota:  8/10 
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