domingo, 17 de maio de 2015

Crítica: As Aventuras de Pi | Um Filme de Ang Lee (2012)



Depois de muitos anos, Hollywood conseguiu transpor o best-sellerA Vida de Pi”, de Yann Martel para o cinema. Não foi uma tarefa fácil, já que o projeto passou durante anos por diferentes cineastas de respeito (M. Night Shyamalan, Alfonso Cuarón e Jean-Pierre Jeunet) até aterrissar nas mãos do diretor chinês Ang Lee, que se adaptou bem a tarefa de adaptar a fantástica história de sobrevivência e fé de Pi Patel. Inclusive o autor afirmou ser uma história de difícil transposição para a telona. Apesar de que credibilidade não lhe faltava desde quando encantou o mundo com a sua inusitada história de amor entre dois cowboys tipicamente americanos no longa-metragem “O Segredo de Brokeback Mountain”. Em “As Aventuras de Pi” (The Life of Pi, 2012), o diretor soube com perfeição abordar a premissa apaixonante do livro de Martel sobre a trajetória do protagonista Pi Patel através de cenários fantásticos e reflexões sobre questões delicadas da natureza humana. Em sua história podemos acompanhar os acontecimentos extraordinários que envolvem Piscine Molitor Patel (Suraj Sharma quando adolescente, e Irrfan Khan, na condição adulta) o filho mais novo do dono de um zoológico da Índia localizado na cidade de Pondicherry. Após anos cuidando do zoológico o pai do garoto decide vender o empreendimento devido à retirada dos incentivos dados pela prefeitura local e a inviabilidade de mantê-lo. A solução encontrada pela família para a falência foi se mudar para o Canadá, onde poderiam vender os animais por um bom preço e dar retomada a vida. Mas o cargueiro onde todos viajam, e inclusive toda fauna que residia no zoológico acabam naufragando por ventura de uma enorme tempestade. O jovem Piscine, “Pi” como era chamado, consegue milagrosamente sobreviver ao naufrágio. Teoricamente seguro em um bote salva-vidas após a tempestade, o jovem tem a infelicidade de descobrir que precisa dividir o pouco espaço disponível no barco com uma zebra indefesa, um simpático orangotango, uma traiçoeira hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker. De certo modo, Richard Parker será a pior e a melhor coisa que poderia acontecer na vida de Pi Patel.


Descrever “As Aventuras de Pi” sem deixar desagradáveis spoilers escaparem não é uma tarefa das mais fáceis. O brilhantismo dessa produção se esconde em alguns segredos que o rondam. Após um primeiro ato realístico, que descreve particularidades que envolvem o jovem protagonista (a origem de seu nome, sua indecisão quanto ao caminho religioso que tomará permanentemente, uma curta paixão) abre-se a margem para um segundo ato, que ocorre a partir do naufrágio, onde a trama se direciona para a estranha relação de Pi com Richard Parker (essa que envolve medo, a conquista de respeito e espaço, até tornar-se ao final, um singelo companheirismo). O trabalho de Ang Lee apresenta uma dramática discussão sobre religião, existencialismo, simbologia, sobrevivência e acima de tudo, sobre os rumos que o destino nos tem reservado. Prepare o coração, pois a tensão no desenrolar dos acontecimentos prende a atenção do espectador do começo ao fim, desde o relato documental dos fatos até a perspectiva inverossímil do destino. Praticamente todo rodado dentro de um estúdio, que possibilitou a criação de uma atmosfera perfeita para acomodar de maneira convincente as pretensões desse projeto, Ang Lee conseguiu um resultado brilhante visualmente e delicado aos sentidos. O céu e mar por vezes se confundem, e a prisão infinita do horizonte, dão as dimensões precisas do desespero do náufrago. Sem contar com a presença do faminto tigre, em sua maior parte criado digitalmente, que inflaciona o perigo da condição do náufrago. O uso de efeitos visuais na criação dos animais foi mais do que necessária para dar a devido perfeição a produção. Pois, de certo modo, Richard Parker praticamente contra cena emotivamente com Pi, deixando claro que não se trata apenas um passageiro perigoso, mas de uma criatura viva com necessidades e dificuldades a serem atendidas. Seria impossível extrair de um animal real toda a performance apresentada pelo CGI.

De elenco desconhecido, exceto pela pequena ponta de Gérard Depardieu como cozinheiro do cargueiro, nenhum nome de astro habita o casting dessa produção. “As Aventuras de Pi” é a terceira indicação do Oscar ao cineasta Ang Lee, onde já teve indicações por filmes como: “O Tigre e o Dragão” (melhor filme estrangeiro em 2001) e pelo O Segredo de Brokeback Mountain” (melhor diretor em 2006). Essa produção percorreu a premiação com 11 indicações ao Oscar. Dentre todas as qualidades de “As Aventuras de Pi”, a narrativa sobre a perspectiva mágica da história é a mais enfática. O realismo criado pelos efeitos visuais tem toda a sua importância dentro da trama, porém não se equivale ao brilhantismo com que a fantasia do enredo é mostrada. E se para alguns o filme não seja tão brilhante comparado à premissa fantástica (um jovem isolado no Oceano Pacífico num bote salva-vidas com um tigre de bengala) se desvencilhe do é possível, e abra seu coração para o fantástico mundo de Pi, e consequentemente o de Ang Lee também. 

Nota: 8,5/10 
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4 comentários:

  1. Uma criativa aventura de sobrevivência que deve ter feito mais bem à discussão sobre a fé e a espiritualidade do que, digamos, Deus Não Está Morto.

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  2. É um belíssimo filme, que mistura aventura e sensibilidade na medida certa.

    Um dos grandes trabalhos de Ang Lee.

    Vale destacar ainda o ótimo ator indiano Irrfan Khan, que foi coadjuvante em alguns filmes americanos e protagonista do também sensível "The Lunchbox".

    Abraço

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    1. Verdade! Um dos melhores filmes de Ang Lee. Mas esse "The Lunchbox" ainda não assisti e não conheço. Uma possibilidade para o futuro!

      abraço

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