terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Crítica: Rede de Mentiras | Um Filme de Ridley Scott (2008)



Dentre tantos e variados gêneros em que o famoso cineasta britânico já se aventurou, entre épicos romanos e obras de ficção cientifica, foi através de “Rede de Mentiras” (Body of Lies, 2008), que o diretor Ridley Scott faz sua primeira incursão no universo da espionagem. Através desse thriller de temática atual e de uma engenhosidade impressionante ele se lançou num gênero desconhecido e distante de sua experiência. E por mais que essa fita a primeira vista possa ser confundida sendo apenas mais um thriller de espionagem em prol do entretenimento fácil, não se engane, pois basta notar as sutilezas de um roteiro bem elaborado que se encaixa em um contexto sobre os conflitos no Oriente Médio que se desenrolaram na última década para ver quão antenado está com o seu tempo. 


A história acompanha Roger Ferris (Leonardo DiCaprio), um agente secreto do governo norte-americano que trabalha disfarçado no Oriente Médio e que tem como tarefa prioritária se infiltrar em células terroristas. Tendo um veterano da CIA chamado Ed Hoffman (Russel Crowe), um burocrata egocêntrico que comanda as atividades antiterroristas do outro lado do mundo por telefone como seu contato, Hoffman interfere negativamente numa missão conjunta entre Ferris e a polícia jordaniana, colocando seu agente de campo em maus lençóis aos olhos dos poderosos da Jordânia.  Numa busca incessante pela captura de um líder terrorista da Al Qaeda que segundo informações adquiridas pela Agência, está promovendo um eminente ataque terrorista ao solo americano, obriga Ferris a se armar com técnicas de espionagem nada convencionais para se redimir perante as autoridades da Jordânia e conseguir descobrir o paradeiro do líder terrorista antes que seja tarde.

A fita é baseada no livro de David Ignatius, que foi adaptado para o cinema pelo roteirista Willian Monahan (Os Infiltrados, 2006). Ridley Scott, sempre competente no faz, cria uma transposição bem realista sobre os conflitos bélicos que ocorrem no Oriente Médio, transpondo a questão do terrorismo e as tensões causadas por ele com maestria. Apesar das qualidades visuais do filme serem brilhantes, seu maior mérito está no roteiro repleto de passagens intrigantes e diálogos bem elaborados entre os protagonistas, que quase sempre travam verdadeiras batalhas verbais que proporcionam uma dinâmica apurada a obra. Mas nem tudo é apenas estilismo narrativo, embora prevaleça, pois há várias nuances de fatos e referências contemporâneas no enredo que dão a devida credibilidade ao longa-metragem.

Enquanto Ferris transpõe uma versão do agente de campo, inteligente e flexível, que movimenta a máquina da espionagem e atende a eventual necessidade da presença de um Cristo quando algo não dá certo, Hoffman é a materialização de tudo que está errado através de uma personificação bastante cínica do alto escalão, negativando a política externa norte-americana em relação às regiões do Oriente Médio e da Ásia Central, e que retrata de forma detalhada como os EUA é capaz de passar por cima de tudo e de todos em função de seus interesses econômicos. E no meio disso, temos o chefe da segurança jordaniana (Mark Strong), o freio motor de ambas as partes, que sela seus tratos com base na confiança.


Apesar de “Rede de Mentiras” ser uma obra bem feita e aperfeiçoada, mesmo que a certo ponto se limite aos  interesses românticos de Ferris com uma enfermeira Jordaniana Aisha (Golshifteh Farahan), fugindo de seu foco político, a trama se mantém segura na mão de Scott, que consegue mesclar a tensão de tudo de forma natural sem deixar furos gritantes. O que poderia, por exemplo, nas mãos de Tony Scott ser apenas um festival de imagens de satélite na tela, confusas perseguições, e intermináveis tiroteios, Ridley Scott dá a devida profusão necessária para dar credibilidade ao conjunto. Mesmo que ignorado nas bilheterias, e que somente atingiu suas metas devido ao mercado internacional, não muda o fato de ser uma realização bem feita, com um ritmo envolvente e tenso até a última imagem de satélite.

Nota: 7,5/10
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2 comentários:

  1. Sua nota é igual a minha. Gosto do tema e o desenvolvimento da trama é bem feita com locações em vários países.

    Acredito que faltou um melhor climax, mas isso não atrapalhou o bom espetáculo.

    Abraço

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    1. Trata-se de um filme subestimado por muitos. Até tem seus defeitos, mas em comparação ao que se tem feito por aí, está ótimo.

      abraço

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