quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Crítica: Sangue Negro | Um Filme de Paul Thomas Anderson (2007)


Desde o lançamento de Boogie Nights – Prazer Sem Limitesonde o cineasta transpôs para telona a história de ascensão e queda de um astro pornô, Paul Thomas Anderson criou pérolas memoráveis para o cinema contemporâneo. Mas nenhuma delas foi tão brilhante no conjunto quanto essa produção intitulada Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007), vencedor de dois Oscar – melhor ator e melhor fotografia – abordando magistralmente um momento crucial da história americana de forma tão implacável e crítica. Anderson não poupa o espectador da obra ácida que criou, compondo um épico que por sua vez ainda será lembrado como referência histórica de imensa relevância no futuro. A trama que acompanha a cruzada de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis), homem de temperamento grosseiro e direto, buscando riqueza com a extração de petróleo no Meio-Oeste americano. Com dedicação e estratagemas de negócio consegue se tornar enfim um magnata do petróleo. As dificuldades superadas pelo protagonista para juntar fortuna como explorador de petróleo não é nada diante dos dilemas e rinchas que enfrenta com a sociedade, a religião em especial, a qual de certa forma ajudou a construir através dos resultados de sua ocupação. 


Trata-se de um filme de beleza singular – uma ambientação fiel e visualmente rica – bem condicionado de forma técnica – trilha sonora competente de responsabilidade de Jonny Greewood – com atuações fantásticas de todo o elenco, em destaque a interpretação de Daniel Day-Lewis, que compõe de maneira brilhante um personagem calculista e esperto apesar da pouca habilidade em lidar com as pessoas que lhe contrariam, ou que tentam tirar proveito de sua pessoa. O que não o inibe de fazer o mesmo. Inclusive a adoção do filho de um amigo, morto acidentalmente em uma explosão, é resultado de uma ação de conveniência calculada por parte de seu personagem – a vida familiar paralela à extração de petróleo lhe conferem valores cativantes às negociações. A constante presença do garoto adotado, que margeia a atuação de Day-Lewis, retrata a importância dos valores familiares a grandes homens de negócio, ao mesmo tempo em que resplandece uma suposta submissão à igreja que não se confirma como esperado pelo líder religioso da localidade que se desenrola a maior parte da trama.
  
Seus confrontos com o pastor Eli Sunday (Paul Dano) pode ser um bom exemplo de um roteiro afinado, que proporciona através das atuações bem executadas do elenco, a garantia de momentos de grande impacto, hora no tenso silêncio do deserto, ou nas ferozes batalhas verbais do rude protagonista. Sunday equipa seu personagem com artimanhas de lideranças religiosas contraditórias. Em constante enaltecimento da fé, seu personagem teve uma lição merecida por vender esperança por conveniência. Dentre todos os elementos que compõe esse longa metragem – a rotina diária dos exploradores de petróleo, a relação da sociedade que margeia esses homens, as circunstâncias extremas as quais são expostos para obter sucesso nesse perigoso ramo de negócios – apesar de necessários para a trama, não possuem a magnitude e a profundidade que detém os conflitos do protagonista com a religião e a família. Que no caso a religião, talvez tenha apresentado o desfecho que justifique a razão do título sinistro. Tudo por trás de Sangue Negro é voltado, apesar da distância óbvia do tempo em que a ação se passa, adequada aos tempos atuais de uma forma magistral - frieza do capitalismo, a deterioração dos valores familiares e a duplicidade da religião. Contudo, se há alguém mais atualizado do que esse longa-metragem, certamente consiste no diretor Paul Thomas Anderson, que através dessa realização, garantiu o seu lugar entre os melhores diretores da atualidade. 

Nota: 9/10 

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2 comentários:

  1. Olá, Marcelo Keiser. Que excelente texto. Dono de uma escrita maravilhosa. Esse é você, Marcelo. Muito bom, mesmo. Este filme, acredite, eu não vi, ainda. A ideia me parece boa. Irei conferir, sim. No mais um abraço e até a próxima...

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    1. Obrigado Maxwell! Tenho certeza que você vai gostar do filme também.

      abraço

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