quinta-feira, 14 de maio de 2015

Crítica: V de Vingança | Um Filme de James McTeigue (2005)


“Lembrai, lembrai do cinco de novembro
A pólvora, a traição, o ardil
Por isso não vejo porquê esquecer
Uma traição de pólvora tão vil”
Frase proferida pelo personagem principal a certa altura do filme.

Numa Inglaterra futurista assolada por um regime autoritário imposto pelo o fascista Chanceler Adam Sutler (John Hurt), o país sofre pelas imposições feitas pelo estado maior. Decorrente da decadência dos Estados Unidos em função de uma Guerra Civil fatal, o Reino Unido com receio de seguir o caminho de sua nação irmã, o governo toma providências radicais para evitar esse mal, isso através de medidas políticas controversas. Num cenário de pouca liberdade e muita restrição, uma jovem funcionária de uma emissora de TV chamada Evey Hammond (Natalie Portman) viola o toque de recolher e é salva de uma tentativa de estupro pelo mascarado anarquista V (Hugo Weaving), cuja face é coberta por uma máscara do lendário conspirador inglês Guy Fawkes. Esse herói surge das sombras e de um passado esquecido do Reino Unido, buscando vingança, justiça sobre aqueles que propagaram medo e desolação no povo. Através da aplicação de uma ideia lúdica e radical, a qual o personagem prega a liberdade como uma ideia que não deve ser esquecida ou ignorada, tanto pelo direito de tê-la como por sua importância diária, esse enigmático mascarado chamado V, luta para provar a todos que não é, e sim que está lutando contra uma grande ameaça, ao mesmo tempo em que Evey se revela aos poucos uma ferramenta fundamental nessa revolução onde deixa de ser apenas mais uma vítima desse sistema governamental opressivo. "V de Vingança" (V for Vendetta, 2006) é uma produção dramática baseada na graphic novel criada por Alan Moore e David Lloyd, e adaptada para o cinema pelos irmãos Andy e Larry Wachowski (responsáveis por filmes como: “Matrix”, “Speed Racer” e “Cloud Atlas”) que assumem o roteiro e parte da produção. Os criadores de “Matrix” misturam política, terrorismo e histórias em quadrinhos em um filme de contorno polêmico. Dirigida por James McTeigue (Ninja Assassino, 2009), o cineasta entrega uma produção de qualidades muito relativas, mas que com o tempo tornou-se cult e membro seleto numa gama de filmes que pregam a revolução em seu enredo.


Guy Fawkes é história e parte da fonte inspiradora para "V de Vingança". Quando Alan Moore escreveu a minissérie em quadrinhos V de Vingança, a Inglaterra estava no auge do thatcherismo, um período de aparência fascista e opressora organizado pela primeira-ministra Margareth Thatcher. Com uma perspectiva negra de futuro, Alan Moore materializa seus anseios, combinando passado, presente e futuro na figura de V. O personagem principal tem como inspiração a figura histórica de Guy Fawkes, conspirador católico que com outras 12 pessoas tentaram explodir o Parlamento Britânico em 5 de novembro de 1605. O período era drástico e o povo sofria com a falta de condições de sobrevivência e a ineficiência do poder supremo. A história relata a prisão dele de posse de 36 barris de pólvora no porão do Palácio de Westminster que seriam utilizados em seu atentado. Quando deflagrado, o responsável foi condenado à forca por crime contra o Império. O acontecimento é um marco da história da Inglaterra. O plano batizado de "Conspiração da Pólvora" gerou uma comemoração chamada "Noite das Fogueiras", que inclusive hoje ainda é festejada com fogos de artificio em lembrança aos acontecimentos históricos que marcaram essa data no Reino Unido. "V de Vingança" teve uma produção marcada de complicações das mais variadas. Para começar, boatos maliciosos sobre os bastidores dessa produção. Dissiparam-se histórias pela internet que a direção de McTeigue (assistente de direção em Matrix Reloaded e Matrix Revolutions) foi na verdade comandada pelos irmãos Wachowski em tom de sigilo. Além disso, some a demissão contundente do ator principal a meio caminho das filmagens, salva pela contratação acertada de Hugo Weaving, sem falar das costumeiras reprovações iradas de Alan Moore sobre suas criações.

Desafios superados, "V de Vingança" está ótimo da forma como ficou, seja narrativamente ou apenas por seu visual estarrecedor. Produção técnica caprichada, a direção de arte se mostra criativa e respeitosa com a arquitetura de Londres, como ao mesmo tempo audaciosa nas alterações necessárias para compor uma ambientação apropriada ao enredo. Os efeitos visuais são espalhados de forma discreta pela película e as sequências de ação em sua maioria são moderadas e funcionais. A Inglaterra futurista idealizada pela produção consegue acomodar uma trama enigmática e surpreendente sem esforço. De certo modo, o material original foi transposto para o formato cinematográfico com várias alterações em comparação a sua fonte, mas não perdeu a essência da obra que consagrou o trabalho de Alan Moore (o contexto politico que permeia toda obra continua inalterado). Hugo Weaving transpõe um personagem eloquente e carismático, embora oculto pela máscara. Sua interpretação é puramente gestual, conferindo ainda assim grande presença de tela ainda que não se visse a face do protagonista. Suas falas, na grande maioria, não são apenas ditas, mas proclamadas em tom teatral de grande fervor e paixão. Natalie Portman além de belíssima, ela esbanja talento e emoção ao incorporar as dores e emoções de seu bem feitor. Mas não se restringindo apenas aos protagonistas, que dispensam maiores elogios, o elenco de apoio dá o tom exato do nível de repressão que essa sociedade é sentenciada diariamente, e a qualidade alcançada pela produção. Todos sofrem com as limitações dessa ditadura imposta pelo governo – a censura que o apresentador de TV Gordon Dietrich (Stephen Fry) é submetido, ou a influência que se regime opressor tem sobre as autoridades, como no caso do investigador Finch (Stephen Rea), são exemplos do que está errado nessa sociedade motivando V a revelar ao povo quem são os verdadeiros terroristas. 


Descrever o trabalho de McTeigue sem abordar o conteúdo politico é inaceitável. Como Guy Fawkes, o vigilante mascarado toma uma atitude extrema em seu tempo como uma solução para fazer justiça aos menos favorecidos. Indícios disso vêm através de frases bem pontuadas como essa proferida anterior ao anúncio da inevitável erradicação da mentira: “É a Madame Justiça que dedico este concerto, em honra as férias que ela parece ter tirado deste local, e em reconhecimento ao impostor que ficou no lugar dela” ou “Artistas usam mentiras para falar a verdade, e políticos mentem para encobri-la”. Frases aprazíveis assim trazem a emoção que o protagonista procura desencadear no espectador, para que possamos refletir sobre os fatos que rodeiam nossa realidade. Mesmo que muitos possam rotular esse filme como subversivo em demasia, “V de Vingança” apenas tenta provocar reflexão sobre política, ditadura, democracia, preconceito, amor e tantos outros assuntos através da arte que tem entre muitas outras serventias, despertar a consciência de certas verdades. O longa-metragem funciona como uma máscara para dissipar uma ideia, perceptivelmente frágil nas mãos de um único homem, mas abraçada e defendida por um povo comprometido com a justiça e a verdade, tem a capacidade de ser indestrutível mesmo diante do mais temível tirano. Como o próprio protagonista a certa altura afirma: “Por trás desta máscara há mais do que carne e sangue; por trás desta máscara há uma ideia, e as ideias são à prova de bala”.

Nota: 8/10
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2 comentários:

  1. eu gosto bastante desse filme. assisti em 2008 e comentei aqui http://mataharie007.blogspot.com.br/2008/01/v-de-vingana.html

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    1. Eu vi a alguns anos atrás também. Volte e meia, eu volto a revisitá-lo! Adoro!

      bjus

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