quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Crítica: O Jardineiro Fiel | Um Filme de Fernando Meirelles (2005)


O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener, 2005) é a estreia do cineasta Fernando Meirelles (responsável pelo icônico “Cidade de Deus”) em território estrangeiro. Estreia essa que não podia ser melhor. Tendo como base uma adaptação de um romance de John Le Carré (cujo trabalho já havia rendido outros bons filmes como “O Alfaiate do Panamá” e “O Espião que Sabia Demais”), Meirelles impressiona por manter seu toque autoral sobre o projeto além do poder sobre a obra (recusou a participação de Nicole Kidman no papel principal pela contratação de Rachel Weisz). O trabalho de John Le Carré tem como característico misturar intrigas políticas com tramas de espionagem sedimentadas com grandes doses de suspense. Em “O Jardineiro Fiel” temos a tira colo uma fascinante história de amor marcada de adversidades e contada com sensibilidade e de forma fascinante. Em sua história acompanhamos Justin Quayle (Ralph Fiennes) um renomado diplomata britânico que se apaixona por uma ensandecida ativista dos direitos humanos, chamada Tessa (Rachel Weisz) depois de uma atrapalhada palestra. Apaixonados acabam se casando e após alguns anos casados o casal passa a residir na região do Quênia, onde Justin se mantém ocupado com suas tarefas diplomáticas enquanto Tessa investiga sigilosamente grandes golpes envolvendo megacorporações farmacêuticas que lucram com a miséria da África. Mas quando Tessa é misteriosamente assassinada e as provas do crime levam Justin a duvidar da fidelidade de sua esposa, faz com que Justin ignore todos os avisos e passe a investigar por conta própria no que sua mulher estava envolvida, e consequentemente acaba colocando sua vida também em risco.

Com uma narrativa entrecortada, uma direção de fotografia saturada e uma linda história de amor carregada de lirismo, Meirelles em seu segundo trabalho de direção cinematográfica cria um longa-metragem que não deve em nada para diretores mais experientes. Com atuações espontâneas motivadas pela condução de Meirelles, cineasta oriundo do mundo da publicidade, o elenco entrega atuações inspiradas e de grande beleza. Com uma trama exibida em grande parte através de flashbacks funcionais que se alternam com a ação real, o foco que o cineasta canaliza sobre a determinação de Tessa para impedir que as indústrias farmacêuticas parem de se favorecer sobre a miséria da África, que usa os cidadãos pobres e necessitados como cobaias para a aplicação de seus remédios, trás para a película um tema de alerta urgente abordado com fluência e sensibilidade. Mas quando Meireles passa a acompanhar a busca de Justin pelo paradeiro de Tessa, e por esclarecimentos sobre seu desaparecimento, é quando essa produção ganha à proporção de um grande filme que o espectador guarda na memória. Com uma montagem bem orquestrada, cenas quase que documentais sobre a triste condição de vida do Quênia e de outras partes da África (mas sem apelação), Meirelles cria uma obra carregada de emoções que resultam num grande drama. “O Jardineiro Fiel” tem uma história antenada com um tema pouco usado com habilidade (as conspirações corporativas sobre os menos favorecidos com o aval de governos negligentes com seu povo), sendo que essa produção consegue associar com funcionalidade uma ficção bem conduzida sobre um romance legítimo e contemporâneo com um tema que facilmente renderia um bom documentário. Meirelles juntou as duas possibilidades em um grande filme.
Nota: 8,5/10 
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4 comentários:

  1. É um bom filme, que mistura drama, romance e denúncia, sem contar o ótimo elenco.

    Abraço

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    1. Com certeza Meirelles fez uma ótima escolha de elenco. E olha que nunca gostei muito de Fiennes... e fiquei impressionado.

      abraço

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  2. Assino embaixo.........belo trabalho de Meirelles no estrangeiro.

    Belo roteiro que articula bem diversos temas.

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    1. Preciso assistir "360" logo. Já ouvi falar que é bom também, embora não seja superior a essa fita. Em breve...

      abraço

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