quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Crítica: Ferrugem e Osso | Um Filme de Jacques Audiard (2012)


Ocasionalmente o cinema francês presenteia o espectador do mundo com alguns longa-metragens sensíveis e de grande intensidade. Um dos grandes destaques do Festival de Cannes 2012, foi o longa "Ferrugem e Osso" (De Rouille et d'os, 2012) dirigido por Jacques Audiard (de O Profeta, 2009) que foi elogiado pela crítica, prestigiado pelo público, e que teve todo o merecido reconhecimento após várias indicações a prêmios e certas conquistas. Trata-se de uma obra de reconstrução de vidas, onde nossos protagonistas diante da crueza de sua jornada, passam por transformações e encontram no afeto seu antidoto para a sobrevivência, e acima de tudo, a solução para continuar vivendo. Em sua trama acompanhamos sumariamente Ali (Mathias Schoenaerts), um ex-boxeador desempregado, que tem a responsabilidade de cuidar de seu filho de apenas 5 anos, e que apenas sobrevive de bicos e pequenos serviços para se manter. Com sérios problemas de relacionamento com a família, além das pessoas que acabam o conhecendo, ainda tem que lidar constantemente com seus problemas financeiros que o consomem. Em um de seus trabalhos como segurança de uma casa noturna ele acaba conhecendo Stéphanie (Marion Cotillard), uma adestradora de baleias orca que se mete em apuros. Tempos mais tarde Stéphanie sofre um terrível acidente de trabalho que resulta na perda de suas pernas. Após a fatalidade, os dois aproximam-se novamente aonde desenvolvem uma espécie de amizade marcada de cumplicidade. Uma relação estranha onde os opostos se atraem e consequentemente se completam.


"Ferrugem e Osso" joga um olhar estranhamente curioso e angustiante sobre a classe média-baixa, propositalmente distante dos cartões postais da Riviera Francesa. Através desse longa, o cineasta Jacques Audiard nos apresenta a estranha relação de duas pessoas debilitadas, dela física e dele emocional, que buscam juntos um rumo para seus destinos destroçados. Narrativamente fascinante, sua trama que poderia facilmente remeter a um típico e confortável melodrama, embora flerte com a narrativa, se mostra diferente e realista (um dos aspectos mais fascinantes dessa obra). A retratação medida da crueza de certos acontecimentos, como a dissecação fluente das emoções dos personagens, tem um fácil encaixe com a vida, mas como obstáculo, uma desafiante materialização superada com um inquestionável sucesso pelo cineasta. Se Audiard já acerta no tom da transposição de seu drama, ele encontra a superação de sua obra na escolha do elenco: Marion Cotillard interpreta sua personagem com um brilhantismo até então único em sua carreira. Suas dificuldades físicas ainda que marcantes, tem na transformação influenciada por Mathias Schoenaerts, seu maior mérito (de mulher saudável e infeliz, ela encontra através da tragédia sofrida pelo acidente um rumo para a felicidade). A sua margem temos a interpretação de Mathias Schoenaerts, que de poucas palavras, encontra nela o inusitado apoio para as lutas de rua ilegais que o fazem se sentir mais vivo e menos anti-social. Através de um decorrente distanciamento causado pelos inevitáveis problemas que assombram incessantemente a vida de Ali, ambos percebem o quanto se completam, quando ele vai até Stéphanie procurar refúgio.

Oscilando entre o desumano realismo (preponderante em sua maior parte do tempo) e o terno lirismo romântico carregado de emoções que se esperava de uma premissa igual a que se anuncia nessa obra, "Ferrugem e Osso" é um impactante conjunto de boas escolhas que a definem, que vão desde o título ao rumo final desse cintilante drama provido de honestidade e realismo. Poucos dramas românticos conseguem materializar tanto com tão pouco como esse longa. Uma luz de esperança inspiradora, permeado de sangue e sofrimento que erradia uma energia motivadora que provoca um delicioso efeito de reflexão sem indícios de fantasia. Cinema para gente grande. 

Nota: 9/10 
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