sábado, 26 de setembro de 2015

Crítica: Um Toque de Pecado | Um Filme de Jia Zhang-Ke (2013)


Ganhador do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes 2013, “Um Toque de Pecado” (A Touch of Sin, 2013) é um longa-metragem dramático realizado na China que foi escrito e dirigido por Jia Zhang-Ke (responsável por documentários como “Em Busca da Vida” e “O Mundo). Através dessa obra, o cineasta transporta o espectador para uma China contemporânea e apresenta através de um olhar crítico arrepiante e, sobretudo pessimista, a realidade de uma nação marcada de violência e desumanidade que absorveu mal a mudança dos tempos. A essência de seu olhar se foca no apodrecimento das relações humanas em meio às mudanças econômicas e cultuais que a China é submetida nos últimos anos. Em sua trama acompanhamos quatro histórias sucessivas, onde seus personagens principais se cruzam em um breve momento da narrativa. Iniciada com a história de Dahai (Wu Jiang), um empregado insatisfeito com a corrupção na empresa em que trabalha e no vilarejo onde mora, toma uma atitude drástica para dar um basta nesse panorama. Essa parte é seguida pela trajetória de Xiao Yu (Tao Zhao), uma desolada recepcionista de uma sauna, que envolvida com um homem casado relutante em abandonar a esposa, acaba sendo brutalmente assediada no trabalho. Por sua vez, acompanhamos um trecho da vida de Zhou San (Baoqiag Wang), um jovem que é naturalmente capaz de matar e roubar para garantir a sobrevivência de sua família, como o recém-contratado Xiao Hui (Lanshan Luo), um jovem determinado e cheio de sonhos de prosperidade, se sente acuado e perdido numa China implacavelmente capitalista.


Em “Um Toque de Pecado” não acompanhamos um percurso muito longo da vida de seus personagens, mas um momento de transformação peculiar na vida deles transpostos de uma forma minuciosamente crua e violenta (embora justificável pelo rumo do enredo). A China não é mais como aquela que mantínhamos em nosso imaginário, e as mudanças estruturais de política e economia do país desencadearam alguns efeitos negativos sobre a população. O que inclusive pode causar certo choque aos espectadores. As diferenças de classe estão visíveis, e o tratamento dado e levado a elas também. A solidão e o abandono em que se veem alguns de seus personagens são traços marcantes dos personagens. Embora seu desenvolvimento se mostre vagaroso e excessivamente meditativo à primeira vista, onde a câmera do cineasta desenha cuidadosamente para o espectador a mistura do passado com o presente e recheia a obra com os mais diferentes elementos contundentes de uma China desfigurada de tradições, é nas pequenas e brutais passagens de cada história onde o cineasta ganha o público. Imprevisíveis, sombrios e válidos a proposta do cineasta, o método de causar reflexão do diretor é não é claro e muito menos de fácil digestão. Os pecados resultantes das mudanças são pequenos desfechos que buscam causar uma autorreflexão no espectador. O filme pode proporcionar os mais variados significados dependendo de espectador para espectador ao tocar em vários pontos dessas mudanças. Portanto, “Um Toque de Pecado” é uma experiência cinematográfica gratificante, bem explorada e profundamente tocante. 
  
Nota:  8,5/10   
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2 comentários:

  1. eu vi que estava passando, mas ainda não tive coragem de ver. beijos, pedrita

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    1. É um filme forte em vários sentidos. Não se trata de um filme agridoce típico do cinema estadunidense. O drama é mais pesado e a atmosfera é desprovida de verniz. Particularmente gosto.

      bjus

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