quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Crítica: A Estrada | Um Filme de John Hillcoat (2009)


Após um cataclismo que devastou toda civilização, aniquilando a fauna e a flora até onde os olhos do homem podem alcançar, poucos anos após o evento ainda persistem alguns sobreviventes que caminham pelos destroços da civilização humana. Nesse cenário desolador em que a sociedade se encontra diante da inóspita condição do meio ambiente, um pai (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit-McPhee) rumam em direção ao sul com a esperança de buscar algum refúgio. Mas o canibalismo passa a ser uma forma de sobrevivência adotada pelos mais fortes e cruéis sobreviventes que vagam pelos restos da civilização na caça de vítimas. O perigo desse comportamento é constante e o estado de alerta nunca deve ser diminuído. Por isso, nessa jornada de esperança pai e filho sobrevivem em meio a inúmeros obstáculos e dificuldades, onde cada dia vivo é uma conquista que gera um aprendizado a ser preservado com a mesma determinação que a vida. “A Estrada” (The Road, 2009) é um road movie estadunidense de grande impacto baseado na obra de Cormac McCarthy (premiado escritor ganhador do Pulitzer pela obra que inspirou essa produção). Dirigido por John Hillcoat (Os Infratores, 2012) e roteirizado por Joe Penhall, esse longa-metragem de contornos apocalípticos extremados apresenta um filme de atmosfera pesada, melancólico e de ritmo lento com doses incessantes de tensão muitas vezes aterrorizante.


Embora “A Estrada” tenha nomes de conceito no elenco como Robert Duvall, Guy Pearce (totalmente irreconhecíveis) e Charlize Theron numa presença ínfima de flashbacks que retratam o princípio dos tempos negros, Viggo Mortensen entrega um personagem marcante de aparência e psicologia, obviamente seguido de perto pelo jovem e inexperiente  Kodi Smit-McPhee em uma atuação sensível e tocante. Ainda que os tempos sejam difíceis, Mortensen busca além de se manter vivo como prioridade, procura sistematicamente ensinar ao seu filho conceitos de civilidade anteriores a situação em que a sociedade se encontra, ainda que numa reação mais do que humana, sugere se desviar eventualmente em reações bipolares em função das circunstâncias. É a lógica combinada com emoção que resulta numa experiência cinematográfica forte aos olhos e delicada aos sentidos. Sobretudo, “A Estrada” é um filme unicamente de atmosfera. Favorecido por uma direção de arte e fotografia bem escolhida, o desprendimento do ser humano de convenções racionais materializadas na constante ameaça do canibalismo (a descida ao porão de uma casa nunca foi tão aterrorizante quanto nessa produção) faz desse longa-metragem uma experiência tensa, e às vezes amedrontadora, como nenhuma outra produção de premissa apocalíptica. Por isso, a combinação acertada do conjunto técnico com inspiradas atuações fazem de “A Estrada” um filme marcante, com uma mensagem de esperança inspiradora para tempos difíceis que se grava na memória facilmente.

Nota: 8/10
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