terça-feira, 23 de abril de 2013

Crítica: O Homem da Máfia | Um Filme de Andrew Dominik (2012)



"Os EUA não é uma nação... são apenas negócios". É certo que essa ácida declaração disparada pelo astro Brad Pitt, um dos nomes mais prestigiados do cinemão estadunidense da atualidade feita no longa-metragem "O Homem da Máfia" (Killing Them Softly, 2012), seja parte da essência dessa fita dirigida pelo cineasta australiano Andrew Dominik, que acerta mais uma vez ao trabalhar com Brad Pitt depois do filme "O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford" (2007). E se não for, já rende um dos momentos mais memoráveis dessa produção, na qual os diálogos e a conversa mole são o combustível que movimenta toda trama. Todo o longa está repleto de tensas discussões e conversas tão fascinantes quanto ao mesmo tempo banais e estranhas. Baseado no livro policial Cogan´s Trade, de George V. Higgins publicado em 1974, o resultado fascinante dessa produção é um típico filme policial, com personagens que oscilam entre a degradação e a marginalidade, numa América desumana, capitalista e sem heróis. Em sua trama acompanhamos Markie Trattman (Ray Liotta) um responsável a serviço da máfia por uma casa de jogatina noturna onde rola muito dinheiro todas as noites. Num momento de devaneio e de ambição, Markie não resiste à tentação e arma um assalto à própria casa levando um dinheirão dos frequentadores.  É claro que, cedo ou tarde, o nome do responsável viria à tona um dia.  E foi justamente o que aconteceu, porém sempre foi visto com muito carinho pela chefia, e assim, Markie leva um corretivo dos chefões pela audácia que teve e a vida continuou seguindo seu curso natural. Porém, uma dupla de marginais de terceira categoria decide roubar novamente a casa, certo de que Markie vai levar a culpa, culpado ou não. E num emaranhado de intrigas de difícil explicação, a máfia envia Jackie Cogan (Brad Pitt) para resolver esse problema de modo silencioso, rápido e que em tempos de crise é o que mais importa: com baixo custo para máfia.

A crise econômica americana atingiu a todos, sem exceção. Da mesma forma que o povo americano elege Barack Obama a presidência por sua insatisfação pelo governo corrupto e uma economia em crise deixada pelo Bush em 2008, o cineasta Andrew Dominik explora de forma centrada e inteligente a crise que assola o meio criminal também vitimado. Apresentando sua história lentamente – Brad Pitt, o nome de maior relevo dos créditos somente aparece no início da segunda metade desse longa – o cineasta envolve o espectador em sua trama sem pressa. Apresenta seus personagens e os desenvolve num ritmo lento, mas distante de ser cansativo. Sua ação: os diálogos, brilhantes e que trazem todo o entretenimento necessário para prender a atenção do espectador. Além do mais, há o arrojo visual perpetrado na obra, exemplificado em um assassinato em câmera lenta – superlenta – demonstrando o estilismo visual que enfatiza momentos e situações específicas, fugindo pontualmente de uma retratação comum e simplista; ou o efeito das drogas, pela perspectiva dos dependentes. Brad Pitt mostra porque é no fim o centro desse universo – cínico cruel e manipulador – transpõe o papel de um trabalhador do submundo fazendo a complexa máquina do crime funcionar sem problemas. O uso e James Gandolfini (consagrado como o mafioso Tony Soprano do seriado Família Soprano) nessa produção é uma presente afirmação de suas raízes mafiosas em sua contemporaneidade. Ray Liotta, figura certa no gênero, dá a profusão das ideias incrustadas no contexto dessa produção carregada de ódio pelo rumo das coisas como estão.


Se a história de “O Homem da Máfia” é bem apresentada, muito se deve a direção de fotografia bem escolhida e a trilha sonora sempre pontual, que age como complemento eficaz das imagens e situações da trama. A aparição de Jackie Cogan ao som de The Man Comes Around, de Johnny Cash, pode-se considerar a mais expressiva. Mas há várias outras faixas inspiradas no conjunto além dessa, que completam as cenas com maestria. Entretanto, o que não parece completo mesmo, é o filme em si. A sensação na subida dos créditos finais é de que acabamos de ver apenas um capítulo de um plano maior. Não algo inacabado por assim dizer, mas interrompido. O que até poderia ser considerado ruim aos olhos do espectador, inclusive aos mais críticos, na verdade é ótimo. Já que, se esse não é o tão famigerado desfecho, porque existe a sugestão dessa possibilidade na narrativa adotada, isso somente aumenta as expectativas da retomada dessa parceria brilhante da dupla Pitt/ Dominik que até então apenas nos surpreendeu.

Nota: 8,5/10
____________________________________________________________________________

2 comentários:

  1. Adoro essa parceria Pitt e Dominik!!1 Louco para ver esse filme!!! Seu trabalho anterior, O assassinato de Jesse James, eu acho magnífico!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero que venha a ter uma continuação desse filme. Seu final sugere isso, e espero que essa dupla de continuidade a esse sucesso.

      abraço

      Excluir