sexta-feira, 8 de março de 2013

Crítica: O Quarto do Pânico | Um Filme de David Fincher (2002)


Meg Altman (Jodie Foster) é uma mulher recém-separada, que com sua filha adolescente Sarah (Kristen Stewart) passam a morar em uma nova casa nos arredores de Manhattan, na cidade de Nova York, após a separação. Essa casa tem uma peculiaridade: além dos cômodos tradicionais, ela tem um quarto oculto em suas dependências para situações de emergência. Logo em sua primeira noite na casa, por coincidência ela é invadida por três estranhos (Forest Whitaker, Jared Leto e Dwight Yoakame como esperado, mãe e filha se refugiam no tão famigerado quarto. Entretanto o objetivo dessa invasão se encontra justamente no interior do mesmo. Assim se trava uma batalha entre os que querem entrar no quarto, e mãe e filha que precisam impedir que isso aconteça a todo custo.  Olhando para trás é fácil constatar que "O Quarto do Pânico" (Panic Room, 2002) é somente um exercício ocupacional para um cineasta do nível de David Fincher. Isso não quer dizer que esse longa seja ruim, ou superficial na carreira de Fincher, mas que está apenas aquém da capacidade de seu realizador. Apesar de todas as qualidades narrativas exibidas nessa fita, que se resumem tanto na premissa, quanto no desenrolar da trama criada por David Koepp, ambas não oferecem um desafio para um diretor que comandou anteriormente trabalhos complexos como "Seven" (1995) e "Clube da Luta" (1999) de forma magistral. Enquanto "Seven" foi um exemplo de climatização bem realizada que resultou em um desfecho aterrador, "Clube da Luta" tinha uma história cerebral ajustada numa estrutura narrativa que foi tecnicamente perfeita.

Em "O Quarto do Pânico" temos um pouco dos dois: um clima que remete a lembrança de filmes de Alfred Hitckcock; e uma composição estrutural sofisticada. A forma como a câmera de Fincher faz uma varredura suave pelos cômodos da residência, logo no início, apresentando-a ao espectador é de uma perspectiva no mínimo inteligente, pois de certo modo, a casa é um elemento chave dentro dos eventos que virão a se desenrolar ao decorrer da trama. Além do surgimento do créditos iniciais num sutil contraste com a arquitetura da cidade. O clima claustrofóbico obtido das circunstâncias em que mãe e filha são submetidos é digno de um grande suspense - impotência e vulnerabilidade andam de mãos dadas com o beneficio da super proteção proporcionada pelo quarto - apesar da sinopse simples. Sua proteção é uma prisão com tempo de validade curto, que acarreta em desespero. Acompanhar as manobras dos invasores em ultrapassar as barreiras que os separam é de uma angustiante sensação transposta com habilidade. O circuito interno de TV disponibilizado no interior do quarto é em teoria uma forma de amenizar seu desconforto diante da fatalidade, porém a narrativa de Fincher prova que esse recurso somente inflacionou o terror diante da ameaça. Um detalhe importante: a relação mãe/filha antes de se enclausurarem no quarto não eram das melhores evidentemente. Circunstâncias extremadas ocasionalmente fortalecem laços rompidos. No caso o elo familiar, humanamente instintivo de proteger sua filha, obrigando Meg a tomar decisões e atitudes arriscadas, demonstra a profusão de sacrifício que o ser humano é capaz sob as condições adequadas. Enquanto a filha, retribui sem palavras declaradas sua gratidão e reconhecimento do fato.

Se o elenco feminino atende as necessidades desse longa, com belas interpretações, diga-se então o masculino: Jared Leto está sinistro e aterrorizante em sua determinação de cumprir o trabalho a qualquer custo, independente do que for necessário para abrir a porta do quarto - até mesmo matar. Para uma trupe de invasores amadores, as circunstâncias desencadearam instintos primitivos inusitados, tanto no elo familiar aprisionado no quarto, quanto em Leto, por não medir as consequências de seus atos. Enquanto em Forest Whitaker, aflorou arrependimento visivelmente expresso em uma passagem específica da fita. Um olhar que diz mais do que mil palavras. O lado bom dos trabalhos de Fincher, é que até o mais despretensioso de seus projetos, como esse "O Quarto do Pânico" tem sua relevância, mesmo sem o impacto marcante que suas produções apresentam na maioria das vezes. Trata-se de um filme medido e limitado por sua narrativa, mas brilhantemente realizado e imperdível a quem o desconhece. 

Nota: 8/10

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