segunda-feira, 4 de maio de 2015

Crítica: Poder Sem Limites | Um Filme de Josh Trank (2012)


Mesmo tendo as limitações comuns da narrativa “câmera na mão”, o diretor estreante consegue um trabalho bem acima da média. Essa narrativa que já foi explorada pelos mais diversos gêneros do cinema desde o lançamento de “A Bruxa de Blair” (1999), onde grande parte do filme é filmada pelos próprios atores de uma forma meio documental, "Poder Sem Limites(Chronicle, 2012), é uma produção britânica-estadunidense de ficção cientifica que consegue de forma inesperada reciclar a formula original com grande sucesso. Apesar de a fórmula fazer ainda sucesso, principalmente no gênero do terror/suspense, apesar de inúmeras fitas menos competentes que beiram ao trash serem produzidas ao toque de caixa, a abordagem adotada aqui é bem mais suave e pretensa a um filme de super-heróis (o que antecipadamente já o torna diferente) do que uma trama sobrenatural. Tendo a história com foco na descoberta de três garotos que ganham superpoderes após o contato com um objeto luminoso de natureza desconhecida (uma motivação para uma sequência devido aos mistérios que rondam suas origens), enterrado em uma caverna na floresta, eles passam a filmar constantemente suas atividades cotidianas como forma de documentar através de suas brincadeiras as infinitas possibilidades de seus poderes. O que começa com telecinésia e ao desenrolar da história atinge gradualmente a capacidade impensável de voar como um avião, eles decidem manter esses poderes em sigilo (mas sem a menor descrição) ao mesmo tempo não tendo qualquer conhecimento sobre tal poder. Com uma trama com o foco direcionado no trio de garotos, composto por Matt (Dane DeHann), Andrew (Alex Russel) e Steve (Michael B. Jordan), a narrativa flerta de forma magistral com a ficção cientifica, mesmo com o simplório ponto de partida focado em suas rotinas estudantis e pessoais. 


A documentação da forma como os poderes se desenvolvem através do constante exercício é impressionante, e principalmente (o que desperta o fascínio nesse filme) a relação diferenciada de cada um dos jovens com esse poder. Enquanto Matt procura utilizá-lo de forma sábia e concisa, Steve apenas o encara como pura diversão e entretenimento. No entanto Andrew, um nerd tímido e deslocado da realidade escolar, o vê como algo especial que ganha aos poucos um contorno sinistro. O roteiro de "Poder Sem Limites", mesmo cheios de furos funciona bem (há vários aspectos desse poder que não são abordadas). A estética trêmula da câmera característica dessa narrativa, que muitas vezes causa descontentamento por parte de um espectador mais tradicional, ganha pontos valorosos com a solução adotada. Os poderes de Andrew são usados como suporte e recurso para extrair enquadramentos perfeitos. O uso de tudo que é ferramenta de captura de imagem amplia as possibilidades da narrativa, de estética arrojada sem interferir na película. Os efeitos especiais apesar muito simples fazem seu papel e acentuam uma trama que começa como filme de adolescente (daquele tipo que infestam os cinemas todos os anos) e culmina em um filme de super-herói acima das expectativas. A direção habilidosa de Josh Trank divide bem a premissa descontraída adolescente, que acompanha com desenvoltura a evolução de seus personagens e seus conflitos com o rumo definitivo que leva ao desfecho. O processo de transformação dos garotos diante das circunstâncias é vital para o destaque desse longa-metragem em comparação a outros filmes do gênero, pois existe uma carga dramática muito eficiente nas interpretações e na composição dos personagens. 

Mesmo deixando claro que os jovens não têm a menor ideia da responsabilidade que lhes foi conferida através desse poder, como O Homem Aranha teve que descobrir a duras penas, o diretor enfatizou bem como o “Poder” pode ser usado (ou interpretado) de diferentes maneiras, variando de indivíduo para indivíduo. Por isso, "Poder Sem Limites" é sobre muitas coisas, entre elas: adolescentes irresponsáveis, superpoderes mal utilizados e acima de tudo, sobre transformação. Vários tipos de transformação. E um exemplo dessa transformação, fica a do diretor que prova que ao usar a câmera na mão com uma boa ideia na cabeça, ainda pode revolucionar despretensiosamente uma ideia amplamente difundida que se mostrava até então muito desgastada. 

Nota: 7,5/10
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