sábado, 11 de julho de 2015

Crítica: O Jogo da Imitação | Um Filme de Morten Tyldum (2014)


A Segunda Guerra Mundial possui muitas histórias fantásticas baseadas em personagens reais a espera de serem contadas no cinema. E muitas dessas histórias dramáticas ambientadas nesse período nem sempre serão marcadas de atos isolados de bravura, onde homens lançados aos campos de batalha sobrevivem esquivando-se de tiros e explosões como é do agrado da maioria dos espectadores de filmes do gênero. Muitas histórias não são apenas de um idealismo panfletário tocante ao espectador e acessível ao público feito para virar uma obra cinematográfica emocionalmente apelativa. São apenas histórias de pessoas que se dedicaram a um objetivo útil, que podiam fazer a diferença ao seu modo e acabar com os horrores que uma guerra proporciona para todos os envolvidos. “O Jogo da Imitação” (The Game Imitation, 2014) é um drama biográfico de Alan Turing, um notável matemático e brilhante decifrador de códigos que fez uma enorme diferença na guerra a favor dos aliados e deixou um legado para a posterioridade que serviu de base para conferir ao sujeito a honra de ser considerado como pai da computação. Sua história é real, como o efeito benéfico que sua trajetória foi transposta para o cinema pelo cineasta norueguês Morten Tyldum (responsável pelo excelente “Headhunters”, de 2011), com sua história baseada no livro de Andrew Hodges chamado Alan Turing: O Enigma, o longa-metragem é o resultado da adaptação inteligente de Graham Moore. Com 8 indicações ao Oscar 2015, o roteiro de Graham Moore recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado
   
O Jogo da Imitação” é convincente em sua totalidade e lindamente apaixonante em vários aspectos. Dividido em três períodos cruciais da vida de Alan Turing que foram distribuídos ao longo dos 114 minutos de duração, esse ajuste cinematográfico nos leva a sua adolescência (época na qual ele passa por uma fase de descoberta de suas inclinações sexuais), depois pelo período caótico da guerra e sua conturbada batalha para decifrar o código nazista chamado Enigma, como anos depois quando Turing, condenado pelas autoridades conservadoras inglesas por crime de indecência devido a sua homossexualidade, um detalhe que anulava odiosamente sua postura determinante que poupou milhares de vidas de um prolongamento desgastante dos conflitos. Alan Turing, brilhantemente interpretado por Benedict Cumberbatch já é um motivo que vale conferir esse longa-metragem (desempenho que atribuiu ao ator uma indicação ao Oscar de Melhor). As particularidades do personagem (sua postura antissocial, pretensiosa e ligeiramente arrogante) foram muito bem compostas e desempenhadas com consistência por parte Cumberbatch sem que soassem clichê, sobretudo apoiado pelo ademão de Keira Knightley, Rory Kinner e Mark Strong em atuações funcionais. De alguns poucos anos para cá, Benedict Cumberbatch tem se mostrado um dos atores mais requisitados e acertados do momento para papéis dramáticos de relevância. Dono de uma trilha sonora fabulosa e delicada (de responsabilidade de Alexandre Desplat), a sonoridade desse filme é hipnótica ao sentido.

O Jogo da Imitação” tem uma dinâmica madura, que resulta em uma cinebiografia equilibrada, acessível e profunda. Isso porque serpenteando com cuidado pelo seu desenvolvimento, o espectador é agraciado com passagens leves e bem-intencionadas que desencadeiam sorrisos alternados com momentos dramáticos de grande emoção, como por uma reconstituição de época precisa e uma necessária revisão dos conceitos humanos sobre a humanidade. Ocasionalmente comparado ao longa-metragem “Uma Mente Brilhante” estrelado por Russel Crowe, em virtude de alguns aspectos em volta da personalidade peculiar do personagem principal, o trabalho de Morten Tyldum é de uma beleza narrativa autossuficiente que resulta numa comoção generalizada.

Nota:  8/10

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Crítica: Maníaco | Um Filme de Franck Khalfoun (2012)


Frank (Elijah Wood) é um jovem proprietário de uma loja de manequins que foi herdada de seus pais. Um jovem introvertido e desinteressado com o mundo. Entretanto, se ao longo do dia ele trabalha incessantemente na loja de sua falecida mãe, restaurando manequins antigos, a noite ele passa a ocupar seu tempo perseguindo e matando lindas jovens, que com um afiado punhal retira os escalpos e os usa para decorar os manequins sem vida. Mas sua rotina de serial Killer é estranhamente afetada quando ele conhece Anna (Nora Arnezeder), uma bela jovem que se aproxima de Frank para coletar manequins que são usados para criação de obras de arte que representam retratos da humanidade. Decorrente desse contato, Frank passa a nutrir uma inédita atração por essa inesperada garota, um sentimento tão emocionante quanto matar, mas que também entra em conflito com seu desejo incontrolável de matar podendo transparecer para a bela, a aterrorizante fera que habita dentro dele. “Maníaco” (Maniac, 2012) é um longa-metragem de terror escrito por Alexandre Aja, Grégory Levasseur e CA Rosenberg, como também dirigido pelo cineasta francês Franck Khalfoun. Baseado num filme de 1980 de mesmo nome (filme estrelado por Joe Spinnel e dirigido por William Lusting), essa refilmagem realizada por Franck Khalfoun detêm alguns aspectos curiosos, sobretudo um em especial merecedor de um destaque todo especial: a forma como é filmado propriamente.


Maníaco” é um estudo repugnante e perturbador da natureza cruel de um serial Killer apresentado de uma forma ousada e interessante. Buscando um efeito de introspeção inédito ao espectador, toda a ação dos crimes cometidos por Frank como sua própria rotina é apresentada pelo olhar do assassino através de um método de filmagem que coloca o espectador na primeira pessoa (você que assiste ao filme, vê tudo, e como o assassino vê as coisas ao seu redor). É sabido que o gênero do terror sempre tem buscado novas formas de surpreender os espectadores, que cansados de sustos fáceis, carnificinas sanguinolentas e tramas batidas, não se contentam mais com produtos de resultados padronizados. E por isso, Franck Khalfoun talvez tenha obtido um efeito de grande potencial com sua proposta. Com um desenvolvimento bem trabalhado do personagem principal desempenhado por Elijah Wood, que apresenta sua história de vida e vários aspectos de sua mentalidade doentia, como uma abordagem curiosa sobre as suas vítimas (há uma que não desperta solidariedade alguma), essa refilmagem apresenta um roteiro sólido para os novos tempos. E as atuações não ficam por menos, sendo que Elijah Wood surpreende em sua interpretação que necessita de uma presença de tela diferenciada da convencional (são em gestos, vozes e movimentos de câmera que sua presença se faz valer); como Nora Arnezeder, atriz e cantora francesa que confere delicadeza e precisão em sua interpretação.

No final das contas, “Maníaco” é uma experiência cinematográfica interessante de se ver. Apesar de a história seguir um rumo desprovido de originalidade (o roteiro segue uma linha de incessantes assassinatos violentos pausados pela estranha relação de Elijah Wood e Nora Arnezeder que culmina num desfecho mais do que esperado), Franck Khalfoun entrega um produto bem desenvolvido e atraente aos fãs do gênero (o sexo e o sangue estão numa proporção bem medida e justificável a proposta). Mas se sua premissa não vier a soar atraente ao espectador, é certo dizer que sua materialização dotada de homenagens a filmes de terror slasher, entre outras qualidades se mostra inovadora, onde a atmosfera é bem criada e perpetuada por toda sua duração, o visual é atraente e os pequenos detalhes recebem uma atenção notável por parte dos envolvidos.

Nota:  7,5/10


terça-feira, 7 de julho de 2015

Crítica: 300: A Ascenção do Império | Um Filme de Noam Murro (2014)


As forças invasoras persas não admitem derrotas. Após a morte de seu pai Darío, seu filho Xerxes (Rodrigo Santoro) transformado em um assustador Deus-Rei, ele inicia uma grandiosa jornada de vingança sobre a Grécia e seu povo. Enquanto Leônidas (Gerard Butler) em conjunto com os 300 espartanos defendiam a ofensiva persa no que foi a Batalha de Termópilas, um lendário massacre que embora tenha levado a morte centenas de bravos guerreiros espartanos, também inspirou muitos mais a lutarem pela liberdade ameaçada pelo avanço devastador dos exércitos persas. E na frente dessa missão está Temístocles (Sullivan Stapleton), um bravo guerreiro grego responsável pela frota naval grega a qual o destino o levou a medir forças com Artemísia (Eva Green), a implacável comandante da marinha persa que está decidida a obter o sucesso nessa batalha e conceder a vitória a seu Deus-Rei, aniquilando todos os gregos da história. “300: A Ascenção do Império” (300: Rise of an Empire, 2014) é uma produção de ação épica de guerra que dá sequência ao longa-metragem “300”, de 2006 dirigido por Zack Snyder e que tinha como base a série de quadrinhos cult de Frank Miller publicada em 1998. Seguindo a estética de seu antecessor, a atmosfera sombria e principalmente o visual de grande apuro e sanguinolência, Noam Murro (responsável pela comédia “Vivendo e Aprendendo) assume a difícil tarefa de dar segmento ao sucesso do primeiro filme realizado por Zack Snyder (que aqui assume o papel de produtor e divide a responsabilidade do roteiro com Kurt Johnstad e Michael B. Gordon). Entretanto, como esperado por fãs do longa original, tratava-se de uma tarefa quase impossível de ser atingida com o devido sucesso.


Poucas são sequências que precisam de tanta necessidade de uma revisitada atenta ao filme anterior quanto “300: A Ascenção do Império”. Portanto confira essa obra antes de se aventurar por sua sequência. Com uma ação que age até certa altura de forma paralela aos eventos que ocorreram na realização de Snyder, o trabalho de Noam Murro preserva algumas qualidades do primeiro filme, inclusive melhoradas, mas perde outros preciosos atributos pré-estabelecidos e necessários para fazer está produção tão memorável quanto foi o primeiro filme. De uma violência estilizada extremamente inflacionada (que resultou numa adoção de censura de 18 anos ao espectador), as águas dos mares ganham o tom avermelhado do sangue que jorra em sequências de ação coreografada e batalhas navais arrebatadoras. Embora o elenco prenda atenção do espectador com firmeza e com um toque pessoal bem presenciado por um duelo sexual entre Sullivan Stapleton e Eva Green, a ausência de um número grande de frases de efeito e a presença de um número maior de personagens relevantes se mostram um desgaste aos espectadores que esperam apenas os espetáculos visuais previsivelmente aguardados após a contemplação de trailers que enfatizavam esse atrativo. Obviamente que os caminhos narrativos estabelecidos por seu antecessor continuam intocados, como os exageros visuais de lógica improvável e algumas soluções místicas fantasiosas. Por fim, “300: A Ascenção do Império” não chega perto do efeito contundente de seu antecessor, mas ao mesmo tempo está longe de ser um produto que possa causar embaraço aos seus envolvidos. Dono de um faturamento três vezes maior do que foi seu orçamento, Noam Murro não se mostrou um diretor nada mal para um inexperiente realizador de filmes dessa escala e gênero. Sabendo conduzir com uma boa dose de habilidade complicadas sequências de ação, ainda conseguiu conferir alguma fluência ao contexto de conceitos que compõem essa obra focada em ideais nobres como coragem e liberdade.

Nota:  7/10  

domingo, 5 de julho de 2015

Crítica: O Sombra | Um Filme de Russel Mulcahy (1994)


Distante do status que o subgênero de filmes baseados em personagens de quadrinhos tem na atualidade, com produções milionárias, com astros do cinema como protagonistas, grandes diretores em tramas de proporções fantásticas que rendem críticas e bilheterias mais do que positivas, como também tem agradado os mais variados públicos da sétima arte, “O Sombra” (The Shadow, 1994) surgiu nos meados da década de 90 em meio a um pequeno grupo de pioneiros nesse gênero (outro seria “O Fantasma”, de 1996; dirigido por Simon Wincer), onde todos tentavam pegar carona no sucesso do Homem-Morcego materializado por Tim Burton (inclusive The Shadow e Batman possuem vários aspectos em comum). Baseado em um personagem pouco conhecido das grandes franquias do momento e de um passado recente, O Sombra foi criado por Walter B. Gibson na década de 30, no qual sua transposição para o cinema teve a direção de Russel Mulcahy (responsável pelo “Highlander – O Guerreiro Imortal”, de 1987) e o roteiro de David Koepp. De orçamento modesto e cara de cinema B, esse personagem como o próprio longa-metragem é uma relíquia ligeiramente competente desse subgênero. Em sua trama acompanhamos o milionário Lamont Cranston (Alec Baldwin) nos anos 30. Visto como um ditador cruel em alguma região remota do Oriente, Lamont é convertido em um bondoso homem e retorna a cidade de Nova York onde aplica seus conhecimentos e poderes ocultos adquiridos em sua peregrinação em benefício da humanidade ao se transformar em um misterioso vigilante cujo único objetivo é levar justiça a todos os malfeitores da cidade.


Sempre encarei essa produção, “O Sombra” como um primo distante e pobre de Batman, pouco conhecido, mas ao mesmo tempo inspirador que surgiu precocemente num mercado que ainda tinha muito que aprender. Entretanto, ainda com todos os obstáculos a serem superados que vão dos desafios técnicos de uma criação fiel do personagem e seu ambiente, ao preconceito do espectador com um filme baseado em um personagem de uma revista em quadrinhos de algumas décadas atrás, esse filme consegue apresentar um nível agradável de entretenimento mesmo sem grandes recursos e desprovido de atrativos. Na verdade, ele até possui um charme todo particular: com uma reconstituição de época fascinante seja nos contornos ou nas cores, boas atuações com destaque para o veterano Alec Baldwin, efeitos visuais funcionais e um vilão e uma ameaça aterradora bem encaixada na trama e sensata ao enredo respeitando a época em que se passa, Russel Mulcahy entrega um filme até respeitável em comparação a outros desastres que compõe sua filmografia. O problema é que o personagem por si só não possui a força necessária para virar uma figura cult entre apreciadores de personagens em quadrinhos. Em resumo, “O Sombra” é um filme de aventura e fantasia até bem feito, mas que não tem o carisma necessário para ser memorável e angariar novos fãs para o material de origem. Mas se não é memorável, ainda assim trata-se de uma obra digna de louvor se comparado a alguns filmes mais contemporâneos providos de recursos e experiência de seus realizadores.

Nota:  7/10


sábado, 4 de julho de 2015

Crítica: O Destino de Júpiter | Um Filme de Andy e Lana Wachowski (2015)


Júpiter Jones (Mila Kunis) odeia sua vida. Pudera, já que trabalha incessantemente sem perspectivas de um futuro prospero. Mas ao mesmo tempo em que trabalha duro como faxineira pela cidade junto com sua mãe, ela não sabe do nobre destino que a aguarda. Inesperadamente abordada por um grupo de assassinos alienígenas prontos para acabar com sua vida, ela também é salva pelo heroico Caine Wise (Channing Tatum), um ex-soldado intergaláctico que a familiariza com as nuances de sua natureza real. Arrastada para um conflito familiar marcado por disputas de poder, a família Abrasax encontra na humanidade apenas uma costumeira fonte de recursos, e Júpiter pode ser a derradeira salvação de muitas espécies de um projetado genocídio voltado para estabelecer a longevidade de poucos. “O Destino de Júpiter” (Jupiter Ascending, 2015) é uma produção de ficção científica, fantasia e ação produzida, escrita e dirigida pelos irmãos Wachowski (responsáveis por filmes como a versão em live-action de “Speed Racer” de 2008 e o mais recente “Cloud Atlas – A Viagem” de 2013). Curiosamente essa mais recente incursão dos famosos realizadores na sci-fi causa um nível desagradável de estranheza. O universo épico construído pela visão impressionante de seus realizadores resulta num aventura de proporções gigantescas aos olhos, no entanto rasa de substancia e muito mal concebida perdendo a tão desejada afeição dos espectadores.

O Destino de Júpiter” é pura ostentação de recursos. Na verdade, Andy e Lana Wachowski, donos de um dos maiores sucessos do cinema lançado no final da década passada (“Matrix”, de 1999) sempre tiveram uma queda expressiva pelo o exagero, como também uma clara ambição pelo extraordinário que nem sempre esteve ao alcance de suas competências (embora “Speed Racer” fosse visualmente fantástico, naturalmente mostrou-se falho em outros aspectos).Cloud Atlas – A Viagemé uma incógnita, pois divide opiniões. Sendo assim, as expectativas de fãs desses realizadores se dissolvem diante dos equívocos dessa sua mais recente empreitada. Com um roteiro mal concebido e repleto de falhas gritantes que geram um desenvolvimento extremamente confuso, os irmãos Wachowski ainda demonstram não ter esquecido algumas sacadas de seu maior sucesso (a humanidade passou de uma fonte de energia em “Matrix” a uma maniqueísta fonte de juventude). O elenco principal está apagado (com nomes de peso como Mila Kunis, Channing Tatum e Eddie Redmayne) muito vitimado por essas falhas, sobra as inimagináveis sequências de ação marcadas de um caos difícil de ser acompanhado com os olhos. O espetáculo pirotécnico por vezes se mostra cansativo, quando não repetitivo (não foi nenhuma nem duas ou três vezes que Caine salva Júpiter em cima do laço em passagens frenéticas). Provavelmente concebido para virar franquia, seu fracasso de bilheteria diante do orçamento milionário sela o destino dessa hipótese. 

O Destino de Júpiter” é desconcertante, uma obra impossível de ser imaginada ter sido feita pelos responsáveis de uma das mais icônicas produções de ficção cientifica que ainda hoje serve de referência ao gênero. Ainda que “O Destino de Júpiter” demonstra ter a alma de seus realizadores em algumas passagens (poucas por sinal) essa produção carece de muitas outras coisas mais. Isso demonstra a urgente necessidade de voltarem a estudar novas maneiras de se contar histórias.

Nota:  5/10

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Trinta Anos


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Crítica: A Gangue | Um Filme de Miroslav Slaboshpytskiy (2014)


Uma das sensações do Festival de Cannes 2014, “A Gangue” (The Tribe, 2014) é um drama ucraniano escrito e dirigido por Miroslav Slaboshpytskiy. De raros aspectos narrativos, essa obra se mostra uma obra visceral e polemica. Ganhador do Grande Prêmio da Semana de Crítica no Festival de Cannes, essa produção fez história nesse festival como poucas. Totalmente realizado na linguagem de sinais, obviamente condizente com o enredo, a estreia do cineasta é um autêntico produto contemporâneo que miscigena com habilidade competência e originalidade. Todo filmado com um elenco de atores surdos-mudos, toda comunicação que decorre por quase duas horas é totalmente realizada de forma gestual, embora a ausência de palavras não gere um empecilho significativo para sua compreensão. O diretor já havia feito antes um curta-metragem chamado “Surdez” em volta da temática. Mas as ações apresentadas nesse longa-metragem falam por si. Em sua trama acompanhamos Sergey (Grigoriy Fesenko), um garoto surdo-mudo que recém se estabelece nas dependências de um colégio interno especializado na educação de jovens com essas deficiências físicas. Logo após sua chegada ele é incorporado a uma gangue de estudantes cruéis que se dedicam a conduzir negócios focados em roubos e prostituição. Atividade essas que são curiosamente endossadas pela liderança de um professor da instituição. Rapidamente Sergey ganha a confiança dos membros da gangue, porém ele se apaixona por uma das garotas que servia como prostitutas. Essa paixão desencadeia uma necessidade de ganhos urgentes que o levará a tomar decisões nunca antes imaginadas por esse jovem calouro. 

Talvez seja desnecessário expor com prioridade que “A Gangue” não é para todos os públicos. Mas é imprescindível que seja proferido que se trata de uma produção digna de aplausos por seu brilhantismo e audácia. De estética nervosa pela forma com que opera a interação do elenco restringida a linguagem de sinais; chocante pela crueza de certas imagens que não se censuram pela necessidade de seu realizador de conferir realismo e uma profunda exploração das possibilidades de sua história; e de uma violência e sexualidade marcante para memória, o trabalho de Miroslav Slaboshpytskiy poderia facilmente ser rotulado como uma aparição forçada em um grande festival. Filmes como “Irreversível”, de Gaspar Noé em 2002 e “Anticristo”, de Lars Von Trier em 2009 ganharam fama por surgirem no mesmo festival de maneira apelativa. Mas no caso de “A Gangue” não, já que o filme se propõe a muito mais do que chocar o espectador. Ainda que os detalhes dos acontecimentos mostrados no decorrer do longa-metragem fujam aos olhos da maioria (pela ausência de diálogos e legendas), as ações falam por si e os fatos se esclarecem naturalmente. É necessário ter uma grande habilidade na condução de um desenvolvimento desses, e com a ajuda de um elenco formidável de jovens surdos-mudos tudo ocorre com o máximo de clareza necessária para uma boa compreensão das passagens. Não há obstáculos narrativos que não são possíveis serem ultrapassados com a devida paciência do espectador. Desde o princípio, “A Gangue” é uma proposta interessante que dispensa palavras e mostra atitude. Embora não seja categoricamente surpreendente (porque facilmente divide opiniões), o resultado tem a capacidade de surpreender espectadores que apreciam trabalhos cinematográficos com algum diferencial.

Nota:  8/10