sexta-feira, 8 de março de 2013
Iron Man 3 | Pôster com Robert Downey Jr & Gwyneth Paltrow
Cinéfilo desde os tempos da Sessão da Tarde, que aprendeu a desenhar antes mesmo de andar; embora seja mais louco do que artista.
Crítica: O Quarto do Pânico | Um Filme de David Fincher (2002)
Em "O Quarto do Pânico" temos um pouco dos dois: um clima que remete a lembrança de filmes de Alfred Hitckcock; e uma composição estrutural sofisticada. A forma como a câmera de Fincher faz uma varredura suave pelos cômodos da residência, logo no início, apresentando-a ao espectador é de uma perspectiva no mínimo inteligente, pois de certo modo, a casa é um elemento chave dentro dos eventos que virão a se desenrolar ao decorrer da trama. Além do surgimento do créditos iniciais num sutil contraste com a arquitetura da cidade. O clima claustrofóbico obtido das circunstâncias em que mãe e filha são submetidos é digno de um grande suspense - impotência e vulnerabilidade andam de mãos dadas com o beneficio da super proteção proporcionada pelo quarto - apesar da sinopse simples. Sua proteção é uma prisão com tempo de validade curto, que acarreta em desespero. Acompanhar as manobras dos invasores em ultrapassar as barreiras que os separam é de uma angustiante sensação transposta com habilidade. O circuito interno de TV disponibilizado no interior do quarto é em teoria uma forma de amenizar seu desconforto diante da fatalidade, porém a narrativa de Fincher prova que esse recurso somente inflacionou o terror diante da ameaça. Um detalhe importante: a relação mãe/filha antes de se enclausurarem no quarto não eram das melhores evidentemente. Circunstâncias extremadas ocasionalmente fortalecem laços rompidos. No caso o elo familiar, humanamente instintivo de proteger sua filha, obrigando Meg a tomar decisões e atitudes arriscadas, demonstra a profusão de sacrifício que o ser humano é capaz sob as condições adequadas. Enquanto a filha, retribui sem palavras declaradas sua gratidão e reconhecimento do fato.
Se o elenco feminino atende as necessidades desse longa, com belas interpretações, diga-se então o masculino: Jared Leto está sinistro e aterrorizante em sua determinação de cumprir o trabalho a qualquer custo, independente do que for necessário para abrir a porta do quarto - até mesmo matar. Para uma trupe de invasores amadores, as circunstâncias desencadearam instintos primitivos inusitados, tanto no elo familiar aprisionado no quarto, quanto em Leto, por não medir as consequências de seus atos. Enquanto em Forest Whitaker, aflorou arrependimento visivelmente expresso em uma passagem específica da fita. Um olhar que diz mais do que mil palavras. O lado bom dos trabalhos de Fincher, é que até o mais despretensioso de seus projetos, como esse "O Quarto do Pânico" tem sua relevância, mesmo sem o impacto marcante que suas produções apresentam na maioria das vezes. Trata-se de um filme medido e limitado por sua narrativa, mas brilhantemente realizado e imperdível a quem o desconhece.
Nota: 8/10
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Se o elenco feminino atende as necessidades desse longa, com belas interpretações, diga-se então o masculino: Jared Leto está sinistro e aterrorizante em sua determinação de cumprir o trabalho a qualquer custo, independente do que for necessário para abrir a porta do quarto - até mesmo matar. Para uma trupe de invasores amadores, as circunstâncias desencadearam instintos primitivos inusitados, tanto no elo familiar aprisionado no quarto, quanto em Leto, por não medir as consequências de seus atos. Enquanto em Forest Whitaker, aflorou arrependimento visivelmente expresso em uma passagem específica da fita. Um olhar que diz mais do que mil palavras. O lado bom dos trabalhos de Fincher, é que até o mais despretensioso de seus projetos, como esse "O Quarto do Pânico" tem sua relevância, mesmo sem o impacto marcante que suas produções apresentam na maioria das vezes. Trata-se de um filme medido e limitado por sua narrativa, mas brilhantemente realizado e imperdível a quem o desconhece.
Nota: 8/10
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Cinéfilo desde os tempos da Sessão da Tarde, que aprendeu a desenhar antes mesmo de andar; embora seja mais louco do que artista.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Crítica: Amor Impossível | Um Filme de Lasse Hallström (2011)
Com um título nacional fora de contexto, e uma
história em sua premissa até interessante, o cineasta sueco Lasse Hallström (Querido John)-
como também o restante dos envolvidos - falham em dar crédito a essa visão
romanceada de um universo tão peculiar como o da pesca de salmão. Como romance
esse longa não funciona, e como comédia basta ver o trailer para usufruir das
melhores piadas dessa produção. Assim em “Amor
Impossível” (Salmon Fishing in the Yemen, 2011), acompanhamos um xeique
visionário chamado Muhammed (Amr Waked) que busca levar os benefícios da arte
da pesca do salmão para o seu país, ao inserir a pesca esportiva no meio do
deserto independente de quanto isso vá custar. Para realizar seu sonho ele tem
a advogada Harriet (Emily Blunt), incumbida da tarefa de convencer o especialista
britânico no assunto Alfred Jones (Ewan McGregor), na execução da impossível
tarefa. Se não fosse a interferência do governo britânico em consolidar essa
ideia, a princípio absurda, por meio de sua porta voz Patricia (Kristin Scott
Thomas) o assunto jamais sairia da teoria. Num cenário estremecido pela guerra
no Oriente Médio, a criação de noticias positivas é essencial para preservar as
aparências entre os governos. E num panorama de impossibilidades vemos essa fábula
sobre fé e realizações acontecendo a partir do desejo de um homem em
compartilhar o prazer de uma simples pescaria.
De longe, este um dos mais fracos filmes de
Hallström. Com a história baseada no livro de Paul Torday, a trama ganha
contornos cansativos e de pouca emoção. É difícil afirmar qual é o pano de
fundo dessa produção: a pesca do salmão, ou o arrastado romance dos
protagonistas. Enquanto a apaixonante Emily Blunt perde pontos por não traduzir
com expressividade suas dores particulares, e o competente ator Ewan McGregor,
demonstra não ter mais aquele tino para comédia romântica como nos tempos de
filmes como “Por Uma Vida Menos Ordinária”.
E se os protagonistas dessa história não tem um desenvolvimento fascinante, Kristin
Scott Thomas dá um charme a sua personagem como uma espécie de vilã cínica e
manipuladora num cenário sem heróis declarados. Inclusive o ator Amr Waked tem
boas passagens, em sua maioria inspiradoras, que dão uma acentuação adequada à
proposta oferecida pelo roteiro de Simon Beaufoy (Quem Quer Ser um Milionário?). Mas no geral, “Amor Impossível” não agrada
simplesmente por não causar nenhum tipo de emoção legítima, mesmo que fosse essa
um mero desejo de pescar.
Nota: 5/10
Cinéfilo desde os tempos da Sessão da Tarde, que aprendeu a desenhar antes mesmo de andar; embora seja mais louco do que artista.
Crítica: 13 Assassinos | Um Filme de Takashi Miike (2010)
Essa produção é um remake de um filme de samurai datado de 1963, realizado por Eiichi Kudo, onde sua história foi baseada em uma lenda conhecida da cultura japonesa. Nada mais natural do que um lendário diretor como Takashi Miike (Harakiri, 2010) para fazer uma refilmagem sobre a mesma. Extremamente cultuado por cinéfilos do mundo inteiro, suas produções violentas, na maioria sobre a máfia japonesa, são uma demonstração de que seu talento é proporcional a seu apetite por trabalho – Miike tem uma média de dois filmes anuais. Em “13 Assassinos” (Jûsan-nin no Shikaku, 2010) acompanhamos a história no ano de 1844, onde o cruel Lorde Naritsugu (Gorô Inagaki) irmão do Shogun, comete atrocidades inimagináveis impunemente. Para detê-lo, o samurai Shinzaemon Shimada (Kôji Yakusho) reúne sob seu comando 12 homens que partem numa missão de impedir que Naritsugu tome o poder supremo. O cultuado diretor japonês Takashi Miike faz um filme de samurai repleto de humor e violência, que explode na batalha final de forma magistral.
Se na primeira e segunda parte desse longa somos agraciados com uma narrativa convencional pouco inédita sobre o universo dos samurais, é no confronto final que Miike mostra evidências que justificam porque ele é visto como um talentoso diretor resultante de culto. Todas as emoções contidas nos personagens dessa trama, com ressalvas nas passagens de humor afinado que ficam a cargo do caçador Koyata (Yûsuke Iseya), são extravasadas numa sequência de batalha fantástica. Se a violência e crueza visual era vista apenas em pequenas passagens no primeiro e segundo ato dessa produção – a mulher de braços e pernas decapitados é um bom exemplo disso – no final o cineasta não economiza no banho de sangue para demonstrar seu gosto em filmar sequências de luta coreografadas para apresentar sua homenagem estilizada à cultura samurai. Indicado mais aos fãs do gênero, “13 Assassinos” tem uma estrutura fiel ao original, forte visualmente e empenhada por justiça. Se o processo de preparação dos assassinos se apresenta tediosa até certo ponto, o desfecho final se mostra o oposto, demostrando que não se trata de um filme de samurai tradicional.
Nota: 7/10
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Cinéfilo desde os tempos da Sessão da Tarde, que aprendeu a desenhar antes mesmo de andar; embora seja mais louco do que artista.
domingo, 3 de março de 2013
Crítica: Os Vingadores | Um Filme de Joss Whedon (2012)
Devo
afirmar sumariamente, de que esse longa-metragem se superou. O filme "Os Vingadores" (The Avengers,
2012) atendeu a todas as minhas expectativas ao incorporar vários
elementos necessários do universo da Marvel, e ao mesmo tempo completamente distintos,
que se mostraram fascinantes para compor um longa à altura de minha ansiedade, e
porque não dizer também de seus fãs: confrontos épicos entre os heróis, enredo
plausível e conectado ao universo dos personagens, suspense e mistério
acentuado, elenco em plena sintonia e com uma divisão de tela proporcional,
direção ágil, efeitos especiais bacanas, ação de qualidade, humor refinado e
várias outras qualidades que poderia escrever infinitamente. Esse filme não
apenas ficou bom, mas ficou ótimo. Se tivesse sido realizado há cinco anos, não
teria feito o estrondo que alcançou, entre a crítica e o público, estourando
recordes de bilheteria e satisfazendo fãs, que muitas vezes são exageradamente
críticos. Certamente é apenas mais um blockbusters pipocando criado com a única
finalidade de ganhar horrores de dinheiro, mas inquestionavelmente bem
realizado. Por isso, caso não tenha assistido aos filmes-solo do Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America –
The First Avenger, 2011), ao filme Thor
(Thor, 2011), O Incrível Hulk
(The Incredible Hulk, 2008) e aos
filmes do Homem de Ferro (Iron
Man, 2008 e 2010) deve-se, apesar de tardiamente, assisti-los para
familiarizar-se com o processo de evolução que levou a criação da S.H.I.E.L.D. (Divisão de Intervenção Internacional Estratégica de Espionagem e Aplicação da Lei),
como é finalmente apresentada no filme dos vingadores.
A
história por incrível que pareça, não foi costurada para unir todos os
personagens em um único filme – como os pessimistas profetizavam – e sim, foi
encaixada com precisão – como deve ser – ainda tendo uma infinidade de personagens
de diferentes personalidades dentro do mesmo roteiro sem menosprezar ninguém do
variado conjunto. Mérito dado a Joss Whedon, que conseguiu fazer muito, e muito
mesmo, ainda que as probabilidades estivessem contra ele no imaginário dos
incrédulos. Responsável pela finada série “Buffy
– A Caça-Vampiros” também tinha essa característica de ter vários
personagens agindo simultaneamente, apesar de ser mais simples conduzir algo
assim numa série televisiva. Um longa-metragem temporizado com pouco tempo de trama se complica e inflaciona a responsabilidade. Trata-se sempre de um
orçamento milionário distribuído em cerca de 2 horas que corre o risco de
fracassar sem dar oportunidade para medida de correção dependendo dos equívocos
cometidos.
A trama de
“Os Vingadores” é resumidamente movida
pelo interesse de vingança e poder de Loki (irmão de Thor) em dominar o planeta
terra. Foca as ações da S.H.I.E.L.D. em reunir urgencialmente soldados com
habilidades especiais através da chamada Iniciativa
Vingadora, para combater os inimigos que nenhum outro exército do mundo estaria
apto. E esse inimigo, aparentemente em forma de mensageiro da morte, aparece,
onde Os Vingadores juntam-se depois
de várias divergências para combatê-lo em prol da existência humana. Muitas
produções desse gênero falharam em criar uma trama que transparece-se clareza e
naturalidade com muitos personagens, porém o roteiro de superprodução assumida,
tem a coerência e a leveza de um trabalho independente – é divertido e de fácil
compreensão até mesmo para quem não havia visto os filmes-solo dos personagens.
Tem ares de ser um filme de Michael Bay, exagerado e visualmente sofisticado.
Mas basta ver os créditos finais para se constatar que essa impressão se resume
apenas na aparência, pois o conjunto da obra tem muito mais a oferecer do que
os melhores trabalhos de Bay.
Personagens
antes desfocados e pouco aproveitados em suas aparições anteriores ao filme dos
vingadores tiveram oportunidade de provar seu valor diante de ícones mais
conhecidos como Hulk, Homem de Ferro, Capitão América e Thor. Scarlett
Johansson somente ampliou seu destaque, que já havia alcançado em O Homem de
Ferro 2, quase nos fazendo desejar um filme solo dela como a Viúva Negra. A
atuação de Jeremy Renner como o Gavião Arqueiro, e como seu personagem foi
articulado dentro da trama, oscilando entre vilão e mocinho fechou as contas, sem
dever nada. O astro, Samuel L. Jackson mostrou porque veio no papel de Nick
Fury – além das semelhanças físicas que o deixam quase idêntico ao personagem dos quadrinhos – o ator mostra-se realmente
convincente no papel de líder de uma organização do porte S.H.I.E.L.D. sem
ficar com cara de bobo. E apesar do infeliz destino do agente Coulson – tratar-se
de personagens em quadrinhos, o que não quer dizer que seja definitivo - foi
brilhante, inclusive quando gerou a motivação que faltava ao grupo para se unir
para combater o mal que estava prestes a dominar o mundo. Sua participação
indireta, usada com astúcia de Nick Fury, transformou-se naquele momento
vibrante que todos os espectadores ansiavam durante a sessão.
O ator Tom
Hiddleston continua seu papel de vilão não punido com a devida eficiência.
Caracterizado com ganância, inveja, ambição, e cheio de problemas familiares
pendentes, refletem suas motivações para ser o estopim da criação da Iniciativa
Vingadora. O personagem Capitão América consegue se redimir em comparação
a sua primeira aparição, justificado por seu expressivo desempenho como líder e
por sua desenvoltura na trama. Chris Evans deveria agradecer ao Robert Downey
Jr., por ter gerado seus melhores momentos em cena. Os hilários principalmente.
E engraçado foi à forma como um personagem como Hulk, interpretado dessa vez
por Mark Ruffalo, uma escolha interessante diga-se de passagem, protagonizou um grande desfecho de forma espirituosa que jamais causaria
censura por parte de fãs familiarizados ou não com o comportamento do
personagem. Hulk se apresenta de forma fascinante ao espectador. A interpretação de Chris Hemsworth como Thor - arrogante e presunçoso, porém mais habilidoso com o martelo Mjolnir - continua
uma incógnita sem alterações para bem ou para mal. Apenas cumprindo seu papel
dentro da trama atende as necessidades essenciais do enredo. A disputa de forças com Tony Stark foi seu ponto alto, e
imprescindível como elemento necessário na fórmula dos quadrinhos levada ao
cinema. Divergências entre heróis, sempre foi comum nas HQs. Como a reunião de
personagens diferentes da mesma editora em uma única publicação sempre resultou em confrontos inflamados nem sempre justificáveis.
Trata-se
de um filme cuja realização técnica é irretocável. A direção de fotografia de Seamus McGarvey ressalta a o brilho e as cores que fazem lembrança ao formato dos quadrinhos. Os efeitos visuais estão bem
acabados e sempre tem sua aparição em momentos cruciais da trama, deixando
claro o brilhantismo da produção. Os efeitos visuais são ferramentas para se
obter o resultado, e não o objetivo do trabalho. O destaque fica por conta do
elenco, que puxa para si as atenções do espectador, independente se estão
verdes ou voando. A importância inegavelmente existe, justamente por se tratar
de um filme de heróis, mas o roteiro proporciona bons momentos com apenas
diálogos e imagens legais de nossos heróis. A trilha sonora de Alan Silvestri também
funciona redonda, apesar do pouco tino comercial que marca a cinessérie do
Homem de Ferro com AC/DC e Black Sabbath. Um excelente filme para
ser conferido em 3D, apesar de perder força desse recurso na telinha.
E Robert
Downey Jr. interpretando o Homem de Ferro,
somente nos fez salivar pelo lançamento do terceiro filme, que se mostrou
otimista por parte da Marvel Studios
em aumentar seu orçamento na expectativa de realizar mais um grande marco de
bilheteria através do sucesso alcançado pelo filme dos Vingadores. Logicamente trata-se de entretenimento criado para
proporcionar lucro, onde poucos longas do genero conseguem transcender os
limites das possibilidades como a franquia do Homem Morcego realizada por
Chrstopher Nolan. E se há alguém a agradecer pelo fantástico filme que “Os Vingadores” se tornou afinal, sem
dúvida nenhuma todos os aplausos devem ser direcionados a Robert Downey Jr. por
seu carisma e sua transposição perfeita do herdeiro das Industrias Stark. Nada mais justo que os trailers pré-exibição
fossem monopolizados pela presença dele. Outras sequências dos personagens vêm
por aí, e certamente dos Vingadores virá também no seu tempo. Resta-nos aguardar por mais um ano de transposições cinematográficas de
sucesso como tivemos em 2012.
Avante
Vingadores!
Nota: 9/10
Cinéfilo desde os tempos da Sessão da Tarde, que aprendeu a desenhar antes mesmo de andar; embora seja mais louco do que artista.
sábado, 2 de março de 2013
Buena Vista Social Club | Um Documentário de Wim Wenders (1999)
A
musicalidade é um dos traços mais marcantes da cultura cubana. Ao observar
isso, no ano de 1996, o guitarrista e produtor musical Ry Cooder foi a Cuba
gravar um CD com lendários músicos da cultura cubana que com o tempo acabaram
sendo esquecidos pelas novas gerações. Com o intuito de reviver essa
característica tão saborosa dessa nação, a música, cerca de dois anos depois, Cooder
voltou à ilha na companhia do famoso cineasta alemão Wim Wenders e de uma
pequena equipe de filmagens para gravar um documentário que foi intitulado “Buena Vista Social Club” (1999). Esse título
foi dado em homenagem a uma famosa casa de shows que teve o auge do sucesso nos
anos 40, e que hoje permanece fechada desde a década de 50, mas apesar de tudo não
foi apagada da memória de antigos frequentadores, e felizmente imortalizada
através desse documentário.
O
trabalho documental de Wenders é focado na história dos músicos e
frequentadores do antigo clube de forma tocante e poética. Ignora respectivas
questões políticas e controversas dificuldades sociais que rondam o povo
cubano, dando destaque ao cenário musical ao qual os envolvidos nesse projeto
vivenciaram no passado. Tudo acentuado pela beleza geográfica de Havana
perfeitamente captada pela câmera do cineasta. Aclamado pela crítica, concorreu
ao Oscar de Melhor Documentário e
ganhou o prêmio de Melhor Documentário pela European
Film Awards. Composto por depoimentos carregados de emoção e nostalgia de músicos
como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Omara Portuondo, Eliades Ochoa, Faustino
Oramas e Rubén Gonzále, e belíssimas imagens de Havana, esse documentário tem seu
desfecho num concerto magistral no Carnegie Hall em New York carregado de
empolgação justificando a razão de sua existência.
Nota: 8,5/10
Nota: 8,5/10
Cinéfilo desde os tempos da Sessão da Tarde, que aprendeu a desenhar antes mesmo de andar; embora seja mais louco do que artista.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Crítica: Cosmópolis | Um Filme de David Cronenberg (2012)
Esse é um filme estranho. Sim, estranho, caso você não esteja familiarizado com o trabalho d o cineasta David Cronenberg. Talvez seja o longa mais estranho de sua autoria. Talvez... Enquanto inúmeros cineastas buscam ideias iluminadas sobre a essência oscilante dos novos tempos, Cronenberg dá um espetáculo quase predominantemente teatral apresentado na forma de "Cosmópolis" (Cosmopolis, 2012), um raio X da inevitável e volátil transformação do século XXI que passa desapercebida aos olhos e aos sentidos da massa. Porém, a missão tão pretensiosa tem como consequência, um resultado de difícil interpretação, que naturalmente desencadeia uma inevitável estranheza e desconforto. Baseado no livro de Don LeLillo, a profusão das ideias da obra literária, caracterizadas para película por Cronenberg de forma singular, somente tem efeito, justamente por serem transpostas de forma estranha. Um universo de informações, imagens, simbologias e personagens que margeiam o protagonista dessa trama erguida sobre o caos torna quase impossível a absorção total das ideias apresentadas em apenas uma exibição tamanha a quantia de material subliminar exposto. Na trama, conhecemos Erick Parker (Robert Pattinson) um bilionário de apenas 28 anos, que atravessa a cidade em meio a protestos anarquistas em busca de um corte de cabelo. Nessa viagem de destino e trajeto surreal, Erick passa por um processo de descobertas no interior de sua limousine que também lhe serve como quartel general, que irão lhe trazer revelações sobre a vida e a sociedade nunca imaginadas.
Com o protagonista dividindo sua atenção com uma infinidade de personagens diferentes, um a um, de sua recém esposa (Sarah Gadoh) a um reacionário ex-colaborador (Paul Giamantti), essa interação rendem diálogos fascinantes tanto em sua estrutura, como em sua profundidade. Apresentado através de uma narrativa quase teatral, delirante e repleta de divagações recheadas de críticas, observações e humor negro, e as vezes inclusive cínico, acentua todo o brilhantismo dessa obra cinematográfica. Também demonstra o quanto Cronenberg ainda tem se aperfeiçoado apesar da extensa carreira. Enquanto vários cineastas tentam fugir do convencional para dar uma roupagem inovadora a seus projetos, "Cosmópolis" luta para ser de certa forma normal, como em passagens quando Erick reivindica um papo casual com sua esposa, ou quando rola uma conversa nostálgica no barbeiro que acaba ganhando contornos sinistros de difícil contextualização. Tecnicamente bem realizado, sua estrutura visual é riquíssima. Num enredo onde o material e o imaterial se confundem, a lógica e a emoção se mesclam, o sensato e o imoral não tem barreiras, ironicamente a limousine de nosso protagonista acaba por ganhar contornos de coadjuvante nessa densa trama de forma extraordinária. "Cosmópolis" pode dividir opiniões, o que até pode ser justificável desde que o espectador tenha consciência, de que esse longa não é ruim, talvez seja somente estranho e com certeza diferente de tudo o que estamos habituados a ver.
Nota: 7,5/10
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Cinéfilo desde os tempos da Sessão da Tarde, que aprendeu a desenhar antes mesmo de andar; embora seja mais louco do que artista.
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