sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Crítica: Soldado Anônimo | Um Filme de Sam Mendes (2005)



Mais do que de filmes de guerra propriamente, sempre fui fã de dramas de guerra. Se há algo que me chama mais a atenção do que um show pirotécnico que ilumina e estremece a película são os dramas pessoais aos quais os envolvidos são diretamente bombardeados nesses conflitos militarizados. O conflito que se passa no interior de cada sodado em relação a sua condição. E é justamente sobre isso que o diretor Sam Mendes procura explorar com ênfase através de "Soldado Anônimo" (Jarhead, 2005). Um filme que mostra de uma forma bastante particular o lado humano desses homens e mulheres afetados pela guerra sem apelar para clichês e espetáculos visuais sobrepostos. 


Inspirado no livro autobiográfico de Antony Swofford (interpretado pelo ator Jake Gyllenhaal), a trama enfoca o tédio que ronda um esquadrão a espera de um confronto com as tropas iraquianas na Guerra do Golfo em 1991. Acompanha os soldados americanos, em especial Swofford, pelo treinamento desgastante e necessário para a batalha, passando pela espera angustiante pelo confronto com o inimigo que culmina numa decepção arrebatadora, ao perceber, que ao contrário do que ele esperava, não fez a diferença. Foi uma guerra, que quando começou, durou apenas poucos dias, e o mérito pelas manobras militares que levaram os Estados Unidos da América a vitória, com a derrubada do governo de Saddam Hussein foram atribuídas à campanha Tempestade do Deserto – o que gerou o termo “Guerra Videogame” – onde a tecnologia de caças e mísseis tele guiados fizeram todo o estrago enquanto a infantaria assistia tudo de camarote. Nem todos os soldados reagiram de acordo com resultados dessa guerra, por assim dizer vitoriosos.

A direção de Mendes entrega um filme incomum, em sua maior duração contemplativo. Com um inicio que remete claramente como uma homenagem ao clássico “Nascido para Matar” (1987), dirigido por Stanley Kubrick, onde os percalços do protagonista nos cercados do quartel servem como introdução para nos familiarizar com os personagens, que dentre eles, se destaca Jamie Fox, como o oficial responsável pela tropa, vemos a rotina militar através da perspectiva de Swofford até a chegada à zona de combate. Enquanto Jake Gyllenhaal mostra todo seu cinismo e sua visão intelectual sobre guerra, Jamie Fox é a imagem da devoção por um ideal seguido por uma doutrina rigorosa regida pelas forças armadas. Tanto um quanto o outro estão soberbos em suas interpretações, apoiadas pela atmosfera delicada da narrativa de Mendes, ocasionalmente pausada com passagens bem humoradas.

Se o espectador espera ver banhos de sangue e violência desenfreada ao som de metralhadoras sem direção, esqueça. A proposta desse longa está além disso. Está no impacto dos acontecimentos para os soldados, não no futuro, mas no presente momento. Traumas de guerra já foram excessivamente abordados em outros filmes. Com Mendes os sintomas são imediatos. As dificuldades de manter a sanidade depois de semanas torrando em solo árabe a espera de alguma ação, que quando confrontada, como numa sequência em especial, é impossibilitado por ordens superiores é o retrato da frustração que assola alguém por não alcançar seus objetivos. Perceber que todo sacrifício feito virou uma formalidade meramente desnecessária. 


De fato, “Soldado Anônimo” é um filme de difícil digestão para apetites mais vorazes por ação. Mas bem aproveitado por Mendes como um estudo interessante do comportamento humano ao ser exposto a situações de pressão e esgotamento por circunstâncias extremadas. Ao vermos os mortos, pela perspectiva do protagonista, sem tiroteios e granadas explodindo de relance, nos resta imaginar pelas experiências cinematográficas passadas, o levou a isso, enquanto Mendes nos apresenta com competência um raro e esplêndido drama de guerra.

Nota: 7/10
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Crítica: A Vila | Um Filme de M. Night Shyamalan (2004)



O diretor responsável pelo surpreendente “O Sexto Sentido”, e pelo incompreendido “Corpo Fechado” dispensa sumarias apresentações. M. Night Shyamalan tem entre essas fitas citadas um punhado de outros projetos bem curiosos em sua filmografia. Em seu passado, sua capacidade de sacar do limbo um tema esquecido e transformá-lo em sucesso a partir de uma fórmula infalível – onde criava uma atmosfera perfeita até a chegada de um desfecho inesperado – fez com que se consagrasse no cinemão. Seus trabalhos mais recentes (O Último Mestre do Ar ou A Dama da Água) não tinham essa brilhante sacada e consequentemente fizeram seu nome cair em descredito por não se adaptar aos métodos convencionais de se contar uma história, freando a multiplicação de fãs que crescia a cada première. De certo modo, inclusive causou um crescente aumento de deserções devido à insatisfação que o rumo de sua carreira tomou. Porém, sua capacidade de criar filmes brilhantes não foram golpes de sorte. Tiveram a estrutura e o comprometimento de seu realizador em sua plenitude que contribuiu para seu sucesso.


Em “A Vila” (The Village, 2004) não foi diferente. A história acompanha a rotina de uma vila no século 19 sitiada em uma floresta. Nas redondezas dessa floresta habita um mostro que permanece inofensivo desde que seja feita ocasionalmente generosas oferendas e que nunca, nunca se ultrapasse os limites do vilarejo para dentro da mata desconhecida. E sob esse mundo medido ocorrem acontecimentos que resultam numa afronta aos inabaláveis tabus pregados pelos anciões da vila liderados por Edward Walker (Willian Hurt). Lucius Hunt (Joaquin Phoenix), um jovem que deseja quebrar as regras impostas pela comunidade e apaixonado por Ivy (Bryce Dallas Howard) uma jovem cega, que também é fruto do desejo Noah Percy (Adrien Brody), uma figura tomada por contornos de desiquilíbrio. Por uma razão desconhecida o pacto parece ter sido quebrado, pois vários animais começam aparecer mortos nas redondezas mesmo que aparentemente nenhuma transgressão tenha sido cometida. E quando a jovem Ivy precisa ultrapassar os limites da cidade para salvar um membro da vila à beira da morte, confrontando o terror que o monstro tem sobre seu imaginário, nada a impede de cumprir sua destemida missão margeada por uma possível revelação de grandes segredos que rondavam os arredores da vila além do misterioso monstro.

Se você quisesse estragar o clímax e reduzir drasticamente o potencial cinematográfico de um filme de Shyamalan, era contando o final de seus projetos. O resto, ruiria como um castelo de cartas tamanha a importância desse elemento em sua narrativa. Porém, mesmo que seus filmes seguissem religiosamente uma cartilha, as temáticas abordadas pelo cineasta e roteirista sempre tiveram a peculiar diferença: em “O Sexto Sentido” tratava-se de um garoto que via pessoas mortas; em “Corpo Fechado” traçava a criação de um super-herói; enquanto em “Sinais”, outro de seus sucessos, abordava uma inusitada invasão alienígena de forma aterrorizante. Todos os seus trabalhos por mais que flertassem com o suspense de horror, eram abordagens sobre temas bem diferenciados. Já em “O Fim dos Tempos”, o diretor se arma do mesmo método sinistro de contar histórias – reduzindo amplitude do foco para dramas particulares do elenco principal – ao contar uma trama sobre o fim da raça humana, que se dizima ao perder o senso de auto sobrevivência devido a certas mudanças climáticas do planeta. Contudo, com um final distante do potencial impactante de seus trabalhos anteriores, o filme agrada exponencialmente ao espectador pouco ansioso em ver uma grande revelação. Toda obra se apoia apenas na premissa ligeiramente interessante que provem de uma teoria cientifica amparada pelo gênio Albert Einstein. 


Como nos trabalhos citados acima, “A Vila” tem suas maiores qualidades no elenco, sempre bem escolhidos para seus papéis. Desde a escolha da segunda parceria de Joaquin Phoenix, que já trabalhou com o cineasta indiano em “Sinais”, até a completa desconhecida Bryce Dallas Howard – filha de Ron Howard. Mas nem o mais brilhante elenco é tudo nos filmes desse cineasta, pois como em seus trabalhos anteriores, a parte técnica é sempre muito bem condicionada – uma direção de fotografia competente que intensifica os detalhamentos da produção de arte que criou locações e figurinos extremamente bem caracterizados. Por mais criticado que possa ter sido o cineasta M. Night Shyamalan por sua fase Hitchcochiana, culpado ao som de aplausos de fãs, é claro, A Vila” é um exemplo saudoso de sua capacidade de realizar filmes interessantes a partir de temas incomuns, e que infelizmente, não tem conseguido trazer com o mesmo esmero aos seus projetos mais recentes.  

Nota: 7/10
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Filme Completo e Dublado: A Vila 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Faça Amor, Não Faça Guerra (Make love not war) | Fotografia



Em meio a protestos ocorridos em junho de 2011 que surgiram a partir de Vancouver, as imagens chocantes que surgem entre carros em chamas, pelotões de choque armados, vandalismo e cenas de violência desenfreada, uma fotografia em especial se destacou soberanamente sobre toda aquela bárbarie por não mostrar nenhuma dessas coisas.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Crítica: Highlander – O Guerreiro Imortal | Um Filme de Russel Mulcahy (1986)



É fácil descrever a importância desse longa-metragem para os envolvidos nessa produção, e principalmente para a cultura pop apesar dos anos, quando meramente é mencionada a palavra “Highlander” em uma conversa qualquer. A palavra resgata de imediato na memória as lembranças de uma fita, há muito esquecida desde os meados da década de 80, e que mesmo não citada como uma obra genial por nenhum crítico que se prese, teve seus status de cult acertado. A fantasia de um guerreiro imortal que duela com outros iguais a ele, até que apenas por fim, restasse um, virou obra de culto por parte de uma geração que nem sequer na época tinha a noção exata do que isso significava na realidade. Para o cineasta Russel Mulcahy (O Sombra), talvez tenha sido o seu melhor trabalho. Engrenou vários outros projetos graças ao sucesso atingido por esse longa. Enquanto para o protagonista, o ator Christopher Lambert, sem dúvida a interpretação de maior reconhecimento de sua carreira. Contudo, para os saudosos espectadores, tratava-se do princípio de um sonho místico – a eternidade – e irremediavelmente instigante que transpassava da película através de uma trama simples e interessante narrativamente, de um estupendo visual onde o passado e o presente agiam de maneira fascinante.


A história do filme “Highlander – O Guerreiro Imortal” (Highlander, 1986), retrata a trajetória de Connor MacLeod (Christopher Lambert) que no ano de 1536, após ser ferido fatalmente em uma batalha na Escócia, é dado por morto por sua família e inexplicavelmente ressuscita. Expulso pelo clã MacLeod, sob a acusação de feitiçaria, Connor passa a vagar pelo mundo sob a pena de apenas poder morrer se sua cabeça for decepada. Anos mais tarde, casado com Heather (Roxanne Hardt), é encontrado pelo misterioso Juan Sanchez Villa-Lobos Ramirez (Sean Connery), e doutrinado na arte do combate com espadas e no estilo de vida dos imortais, para um confronto inevitável com Kurgan (Clancy Brown), outro imortal, que onde a vitória reservará ao último imortal remanescente um prêmio desconhecido. 

A história criada originalmente por Greg Widen, e roteirizada também por Peter Bellwood em conjunto com Larry Ferguson, foi fruto da inspiração causada pela contemplação de armaduras medievais do século XVI, onde que Widen imaginava possibilitar a presença desses guerreiros e suas vestimentas em tempos contemporâneos. Uma ideia simplista a primeira vista, porém bem realizada por Mulcahy, que obteve um resultado interessante ao mesclar de forma paralela o passado do personagem com a presente ação do momento do protagonista, numa montagem eficiente mesmo com as limitações de um roteiro pouco enriquecedor. Soube sanar as deficiências do elenco principal com efeitos visuais eficientes, usando o carisma de Sean Connery de forma medida, e entregando uma fita onde o sabor do filme reside no enredo e na narrativa pontual da montagem. Belas locações da Escócia e de Londres acentuam o visual que é embalado por uma trilha sonora de contribuição da extinta banda Queen com cerca de seis canções.

Após o sucesso do filme, gerou-se uma franquia descabida da ideia original, que apesar da resistência ao tempo foi se afundando em descredito até um completo e inquestionável fracasso. Além disso, revistas em quadrinhos, séries de TV, jogos de RPG surgiram oportunamente como forma de angariar lucro de um personagem, e principalmente de uma ideia a muito exaurida pelos detentores dos direitos sobre o personagem. Inclusive recentemente confirmou-se um remake do filme original com Ryan Reynolds como protagonista, na chance de ressuscitar o personagem da inércia a qual se encontra.


De fato, “Highlander – O Guerreiro Imortal” além de seu contexto de eternidade nos contornos da trama, Connor MacLeod sobrevive apesar do tempo de forma afetuosa na memória dos fãs. E se depender da indústria do entretenimento, certamente terá muitas oportunidades de ressuscitar ainda. Porém, independente de quantas vezes esse personagem possa ressurgir pela conveniência de lucro facilitado, será difícil resgatar toda a essência que consagrou marcantemente o mais cult dos imortais do cinema de da cultura POP.  

Nota: 7,5/10


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Crítica: Duro de Matar 4.0 | Um Filme de Len Wiseman (2007)



Desde “Duro de Matar – A Vingança” (1995) se passaram doze anos. Doze anos entre o terceiro episódio e o quarto filme de uma das mais famosas franquias de ação que surgiram nos distantes anos 80. E apesar do tempo, o protagonista não perdeu nessa quarta produção o talento de cativar o público e mostrar o porquê, do protagonista John McClane interpretado por Bruce Willis - um policial truculento, temperamental e o mais humano dos heróis da antiga guarda - se tornou um unânime ícone do cinema de ação, ao lado de astros como Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Jean Claude Van Dame, entre outros.  E em tempos onde os blockbusters tem tido a criação de suas sequências a toque de caixa, quase que imediatas, o longa “Duro de Matar 4.0” (Live Free or Die Hard, EUA, 2007) é um bom exemplo de que o tempo pode ser o melhor aliado na entrega de um produto filme bacana que consegue aliar adrenalina e humor do jeito que os estúdios creem ser a fórmula perfeita do sucesso do gênero. A história desse longa-metragem acompanha John McClane (Bruce Willis), no meio de um complexo atentado terrorista ao governo dos Estados Unidos da América. No cumprimento de uma simples tarefa de escoltar um hacker nerdiano chamado Matt Farrel (Justin Long), até Washington para um interrogatório após um suspeito ataque virtual aos sistemas de defesa americanos, é surpreendido por um grupo de assassinos que estão decididos a eliminar o tal nerd como queima de arquivo de um plano que poderá levar o país de volta a Idade da Pedra. Assim McClane precisa proteger Farrel do perigo que constantemente o segue, e impedir que um ganancioso terrorista chamado Thomas Gabriel (Timothy Olyphant) também antigo chefe do Departamento de Defesa que virou a casaca, consiga concluir seus ataques cibernéticos. Não demora muito para que McClane se torne inimigo pessoal de Gabriel, e sua filha Lucy (Mary Elizabeth Winstead) refém desse mesmo grupo de criminosos que farão de tudo para impedir que esse intrometido policial não estrague seus planos. Assim Farrel e McClane juntam forças para salvar Lucy do cativeiro e evitar que Gabriel tenha sucesso em sua empreitada.


A fita é o resgate do personagem que se consagrou nos anos 80, quando mesmo sem habilidades extraordinárias ou conhecimentos específicos, conseguia evitar que os vilões se dessem bem no final, apenas tendo como única ferramenta a seu favor sua obstinação em impedir o sucesso dos criminosos. Sem dúvida a persistência do personagem é a chave de seu sucesso, pois diferentemente de outros personagens heroicos, o detetive John McClane ao término de sua batalha sempre apresentou uma aparência física destroçada demonstrando o quanto sofrido foi para alcançar a vitória. Seus percalços sempre foram marcados de penúria extremada. Não há como salvar o dia sem derramar suor e sangue. Apanha feio da lindíssima Maggie Q, do francês acrobata Cyril Raffaelli, mas não perde a piada. Esse é um elemento imprescindível do personagem que se manteve intacto nessa produção sem alteração, e muito menos uma evolução. A regra dos filmes anteriores seguiu-se religiosamente. E se o roteiro de Mark Bomback e Doug Richardson pecou por deixar explícito o formato blockbuster dessa produção sem grandes alterações, que abusa de uma trama pouco plausível como forma de prender a atenção do espectador, o diretor Len Wiseman acertou a mão ao dar um ritmo competente aos exageros da trama, se superando em conciliar humor pontual com cenas de ação de tirar o fôlego como deve ser num bom filme pipoca. Seu domínio técnico da película apresenta-se extremamente aguçado, apesar de que, volto a afirmar que está exagerado, inclusive pelas identificáveis correções em CGI que em certas sequências foram adotadas como solução para as impossíveis cenas, como a que envolve um avião e um caminhão. É emocionante, mas... absurda como poucas na franquia.

Além da compensação técnica que é dada a trama, as atuações, tanto do elenco secundário quanto do principal foram vitais para equilibrar a balança do descredito que assola o enredo. Justin Long consegue uma química com Bruce Willis bem interessante com direito a bons momentos. Como o personagem de Long afirma, Mary Elizabeth Winstead é praticamente o McClane com cabelo. E Timothy Olyphant, apesar de não fazer jus aos antagonistas anteriores da série, cumpre seu papel dentro do possível, já que como ator Olyphant nunca impressionou de verdade dentro de sua filmografia – mais participou de filmes interessantes (Vamos Nessa) do que entregou participações interessantes (Hitman). Isso sem mencionar a curiosa participação de Kevin Smith, como o “Jedi de porão”, num papel que é praticamente a sua persona em vida, ajudando McClane no resgate de sua filha. Por fim, “Duro de Matar 4.0” mostra uma regular qualidade, que mesmo não superando seus antecessores, principalmente o original, resultou num programa divertido e inegavelmente bem realizado. Apesar do tempo, John McClane tem demonstrado com seu comportamento arcaico de resolver problemas, que está atual em plena era digital, agradando como nunca. 

Nota: 7,5/10
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