sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crítica: Anjos da Noite O Despertar | Um Filme de Måns Mårlind e Björn Stein (2012)



Depois que a vampira Selene (Kate Beckinsale) foi mantida em cativeiro em um laboratório humano em estado de coma por mais de uma década, retorna de seu estado clinico vulnerável e é surpreendida com a descoberta de ter uma filha híbrida (meio vampira e meio Lycan) mantida sob a guarda de cientistas por cerca de quatorze anos foragida logo após sua recuperação. O mundo passou por uma guerra onde a raça humana ciente da existência real das duas espécies, passou a caça-las até a completa dizimação delas. Segura disso, da extinção dos vampiros e dos Lycans, a humanidade baixa a guarda deixando para trás a triste lembrança do temor da guerra e retorna ao curso normal da vida. Porém o que os homens não sabiam, e os vampiros nem imaginavam era que os Lycans nunca estiveram tão fortes quanto agora. Com isso, um grupo assassino de Lycans passa a caçar Nissa, filha de Selene, talvez a mais forte e poderosa descendente de ambos os clãs. Cabe a sua mãe e mais ninguém protegê-la de todas as ameaças. O filme Anjos da Noite – O Despertar (Underworld Awakening, 2012) é o quarto filme da série e o terceiro protagonizado pela estonteante Kate Beckinsale. Segue o estilo dos mesmos, com muito sangue e sequências de ação que se encarregou de lançar essa franquia ao estrelato. Mesmo com o retorno de Kate a franquia e mais ação nas cenas, não houve visivelmente, entretanto melhoras substanciais na narrativa adotada que perpetua o estilo de ação oferecido por este longa-metragem, que por sinal, desta vez se apresenta inclusive curto com apenas 89 minutos de duração. 


Kate Beckinsale volta ainda mais destemida e valente em sua atuação, confirmando a razão da escolha de seu nome para encabeçar essa franquia anos atrás – ela chuta, atira, luta, interpreta a vontade o personagem. O restante do elenco cumpre seu papel de forma funcional, apesar de bons momentos por parte dos vilões. Mas ainda assim momentos, o que não sustenta a trama tão bem quanto os rivais do primeiro filme. Contudo, com ou sem atuações marcantes, o mais impressionante ainda reside nos efeitos visuais de estética dinâmica, com uma fotografia bem acabada e planos curtos que proporcionam ritmo ao desenvolvimento. Mas mesmo diante de uma produção padronizada, o roteiro de Allison Burnett e Kevin Grevioux perdeu um pouco do carisma que consagrou a franquia. Falta um “Q” de pessoalidade no desenvolvimento da trama. Tudo parece que ocorre de forma muito mecânica, sem tensões ou dilemas. Cada decisão tomada é um resultado de medida acertada. Naturalmente esse longa metragem dispõe de uma conveniente e óbvia oportunidade para um quinto episódio de sinopse clara ao espectador. Por fim, Anjos da Noite – O Despertar apesar de não oferecer nada de novo ao público, cumpre com a promessa de agradar ao fã convicto dessa franquia. Mesmo sem o impacto dos dois primeiro filmes, supera o terceiro – que por coincidência não apresentava Kate Beckinsale – e deixa a oportunidade de melhoras para o futuro. 

Nota: 5,5/10
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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Crítica: Sangue Negro | Um Filme de Paul Thomas Anderson (2007)


Desde o lançamento de Boogie Nights – Prazer Sem Limitesonde o cineasta transpôs para telona a história de ascensão e queda de um astro pornô, Paul Thomas Anderson criou pérolas memoráveis para o cinema contemporâneo. Mas nenhuma delas foi tão brilhante no conjunto quanto essa produção intitulada Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007), vencedor de dois Oscar – melhor ator e melhor fotografia – abordando magistralmente um momento crucial da história americana de forma tão implacável e crítica. Anderson não poupa o espectador da obra ácida que criou, compondo um épico que por sua vez ainda será lembrado como referência histórica de imensa relevância no futuro. A trama que acompanha a cruzada de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis), homem de temperamento grosseiro e direto, buscando riqueza com a extração de petróleo no Meio-Oeste americano. Com dedicação e estratagemas de negócio consegue se tornar enfim um magnata do petróleo. As dificuldades superadas pelo protagonista para juntar fortuna como explorador de petróleo não é nada diante dos dilemas e rinchas que enfrenta com a sociedade, a religião em especial, a qual de certa forma ajudou a construir através dos resultados de sua ocupação. 


Trata-se de um filme de beleza singular – uma ambientação fiel e visualmente rica – bem condicionado de forma técnica – trilha sonora competente de responsabilidade de Jonny Greewood – com atuações fantásticas de todo o elenco, em destaque a interpretação de Daniel Day-Lewis, que compõe de maneira brilhante um personagem calculista e esperto apesar da pouca habilidade em lidar com as pessoas que lhe contrariam, ou que tentam tirar proveito de sua pessoa. O que não o inibe de fazer o mesmo. Inclusive a adoção do filho de um amigo, morto acidentalmente em uma explosão, é resultado de uma ação de conveniência calculada por parte de seu personagem – a vida familiar paralela à extração de petróleo lhe conferem valores cativantes às negociações. A constante presença do garoto adotado, que margeia a atuação de Day-Lewis, retrata a importância dos valores familiares a grandes homens de negócio, ao mesmo tempo em que resplandece uma suposta submissão à igreja que não se confirma como esperado pelo líder religioso da localidade que se desenrola a maior parte da trama.
  
Seus confrontos com o pastor Eli Sunday (Paul Dano) pode ser um bom exemplo de um roteiro afinado, que proporciona através das atuações bem executadas do elenco, a garantia de momentos de grande impacto, hora no tenso silêncio do deserto, ou nas ferozes batalhas verbais do rude protagonista. Sunday equipa seu personagem com artimanhas de lideranças religiosas contraditórias. Em constante enaltecimento da fé, seu personagem teve uma lição merecida por vender esperança por conveniência. Dentre todos os elementos que compõe esse longa metragem – a rotina diária dos exploradores de petróleo, a relação da sociedade que margeia esses homens, as circunstâncias extremas as quais são expostos para obter sucesso nesse perigoso ramo de negócios – apesar de necessários para a trama, não possuem a magnitude e a profundidade que detém os conflitos do protagonista com a religião e a família. Que no caso a religião, talvez tenha apresentado o desfecho que justifique a razão do título sinistro. Tudo por trás de Sangue Negro é voltado, apesar da distância óbvia do tempo em que a ação se passa, adequada aos tempos atuais de uma forma magistral - frieza do capitalismo, a deterioração dos valores familiares e a duplicidade da religião. Contudo, se há alguém mais atualizado do que esse longa-metragem, certamente consiste no diretor Paul Thomas Anderson, que através dessa realização, garantiu o seu lugar entre os melhores diretores da atualidade. 

Nota: 9/10 

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Crítica: O Código | Um Filme de Boaz Yakin (2012)



Essa produção está longe de ser um dos melhores filmes já estrelados pelo brucutu Jason Statham, mas em contra partida explora ao máximo sua capacidade de realizar feitos fantásticos quando necessário. O filme "O Código" (Safe, 2012), tenta dar contornos dramáticos ao protagonista, mas foi mesmo nas cenas de pancadaria protagonizada pelo astro o que segurou à atenção do espectador em meio a uma infinidade de personagens confusos.

Na trama, Jason Statham perambula pelas ruas desiludido por sua condição, quando uma chinesinha interpretada por Catherine Chan, dona de uma capacidade mental sobre humana e detentora de uma senha de um cofre que guarda uma quantia milionária é perseguida pela máfia chinesa e russa, cruza o caminho do atormentado moribundo. Jason encontra nela a chance de uma inusitada retomada na vida salvando-a do perigo e consequentemente fazendo as pazes com seu passado. Porém o que Jason não sabe é que além de todas as máfias, antigos conhecidos dele – policiais corruptos – também estão atrás dos segredos que a menina detém em sua memória.


Numa trama onde simplesmente ninguém presta, tendo todos os personagens com sério déficit de caráter – salvo a menina – é fácil identificar o herói dessa empreitada, mesmo que o roteiro tente pintá-lo diferente através de uma edição com idas e voltas no tempo, que inclusive até funciona bem na abertura. O protagonista é vitima das consequências de seus atos. Simplifica a ligação do passado do protagonista com a presente situação ao qual se encontra. Mas a direção de Boaz Yakin não sustenta a trama de forma interessante, apelando para o estrelismo do protagonista como única ferramenta de sustento da premissa. E como Jason Statham não é nenhum primor de ator talentoso, a solução mais conveniente foi mandar bala para todos os lados para ver quem se salva, já que pouca gente na tela tem valor. E a atriz mirim Catherine Chan, ainda é uma incógnita, até porque o roteiro não ajuda e a direção de Boaz Yakin não é a mesma coisa do que a de Steven Spielberg ou M. Night Shyamalan, que conseguiram obter atuações memoráveis de atores infantis.  

Numa infinidade de tiroteios, às vezes confusos visualmente, o astro distribui pancadas e tiros sem economia. Nenhuma surpresa até então. Mas mesmo com sua experiência na área, faltou aquela beleza estética sempre preponderante em seu trabalho – algumas sequências parecem um pouco bagunçadas e de difícil acompanhamento. Apesar dos diálogos estarem até bons, se comparados a outros de seus filmes menores.

Por fim, "O Código" vai agradar aos fãs do astro, mas também não vai entrar na lista dos 10 melhores filmes dele. Agora enquanto Jason não encontra um papel dramático nos moldes que ele declarou estar na procura, pode continuar fazendo o que sabe fazer de melhor sem problemas nenhum. Contanto que nunca se esqueça do gênero que o consagrou.

Nota: 6/10 
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Crítica: Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros | Um Filme de Timur Bekmambetov



Qualquer um que criou gosto pelo trabalho apresentado em “O Procurado”, onde o cineasta russo Timur Bekmambetov exibiu toda sua capacidade de realizar um filme arrojado visualmente e desprendido da realidade com competência, sem dúvida vai adorar esse longa-metragem chamado Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter, 2012). Trata-se da adaptação para o cinema do best-seller de Seth Ghahame-Smith, autor de romances mash-up como: “Orgulho e Preconceito” e “Zumbis”.

A história acompanha o protagonista desde a infância, onde sua mãe foi envenenada por um vampiro, o que levou ela a morte, despertando em seu filho o desejo de vingança sobre os responsáveis. Porém o que Abraham Lincoln (Benjamin Walker) não sabia, era sobre as dificuldades de matar o que já estava tomado pela morte. Os responsáveis pela morte prematura de sua mãe eram vampiros. Após uma tentativa mal sucedida de fazer justiça com as próprias mãos, quase foi morto. Salvo por Henry Sturgess (Dominic Cooper), recebe o devido treinamento para matar os sanguinários vampiros, que sob as condições de seu experiente e misterioso mestre, parte em direção a Springfield disfarçado, para dizimar células vampirescas que se instalam por todas as cidades americanas. Durante o dia, Lincoln cumpre o papel de um eficiente funcionário de um comércio da cidade, mas na calada da noite efetua missões para a eliminação dessas criaturas pelas quais nutre tanto ódio. Ao mesmo tempo em que Lincoln procura cumprir com sua vingança urgentemente, tem com o decorrer do tempo se preocupado cada vez mais com o futuro de seu país, os direitos humanos e a idolatrada liberdade americana. Em paralelo com sua missão de acabar com a existência dos vampiros, Lincoln se incube da tarefa de salvar sua nação de um futuro sombrio.


Um dos mais famosos presidentes americanos da História, Abraham Lincoln é uma figura preponderante. Seguindo uma febre atual do cinema de unir personagens históricos em aventuras fantásticas, como exemplo Sherlock Holmes e o escritor Edgar Alan Poe; a parceria de Tim Burton com Timur Bekmambetov, transpôs para tela uma ideia surreal como pano de fundo, mas ao mesmo tempo com ricas menções a relatos históricos. Todos os elementos narrativos da trama revertem para a criação de um super-herói novo e original. Qualquer semelhança identificada com o personagem dos quadrinhos criado por Bob Kane chamado Batman, pode acreditar, não é mera coincidência. Mesmo sem um Tumbler como transporte, vários elementos na trama – a vingança como a sua motivação primária, seu duplo papel de cidadão de dia, e justiceiro à noite, um machado que parece um cinto de utilidades – fazem menção ao cavaleiro das trevas de forma proposital e escancarada. Trata-se do surgimento de um novo e imbatível defensor dos oprimidos, com requintes históricos e caprichos visuais marcantes.

O elenco encabeçado por Benjamin Walker, trás um protagonista pouco carismático, mas eficiente de forma surpreendente. Mesmo não sendo uma opção obvia ao papel, agrada principalmente ao espectador que está mais focado na trama do que propriamente nas atuações. A escolha de um protagonista desprovido de um traço de super-herói - sem músculos salientados – faz de seu personagem um homem real conectado com sua época. Qualquer ator com o tórax do Jason Statham seria uma extravagância difícil de associar ao presidente. Dominic Cooper tem demonstrado que seu nome, pode e está ligado a grandes realizações diferenciadas com o mesmo padrão de qualidade. Enquanto Rufus Sewell, pouco visto no cinema atuando em produções de destaque, desempenha um papel de vilão sinistro interessante.


Contudo, tudo em volta dessa produção arremete convenientemente para um festival de sequências de ação, lutas coreografadas e delírios visuais que provavelmente saíram da mente de Bekmambetov, que não surpreenderia ninguém se algum dia declarasse que apenas consegue ver o mundo em slow motion, de tanto que abusa desse recurso para que o público não perca um movimento sequer de suas cenas estilizadas. Agora com a popularização do 3D, o céu é o limite para vivência aplicada de seus enquadramentos vertiginosos. O manuseio do machado pelo protagonista é um espetáculo de malabarismo e destreza com a ferramenta, que nas mãos certas se torna uma arma mortal tanto quanto um revólver. Desperta a lembrança de filmes chineses onde havia confrontos com bastões e espadas. 

Basta ver a filmografia de Timur Bekmambetov para saber que Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros é somente mais uma produção bem bacana desse diretor, mas que poderia ter tido sim, contornos mais arrepiantes e sombrios aos vampiros do que foi aplicado. Todas as excentricidades do diretor estão lá, em cada frame, movimento de câmera e no desfecho que dá oportunidade para uma conveniente sequência. Mas a produção de Tim Burton, infelizmente não acrescentou nada além do esperado. O filme tem sem dúvida a cara do diretor. Pôde até ter trazido ao produtor momentos de nostalgia, dos tempos em que conduziu a busca por justiça do morcegão, no entanto a responsabilidade dessa produção ficou naturalmente a cargo do russo.

Nota: 7,5/10 


sábado, 15 de setembro de 2012

Crítica: Duplicidade | Um Filme de Tony Gilroy (2009)



Depois do excelente Conduta de Risco lançado em 2007, que marcou a estreia de Tony Gilroy na direção, seu segundo filme intitulado "Duplicidade(Duplicity, 2009), repete com excelência uma hábil incursão atrás das câmeras, onde ele filma um roteiro extremamente inteligente de sua própria autoria. Desde a o inicio da sequencia de abertura a subida dos créditos finais, o espectador é incessantemente bombardeado com diálogos legais, cenas curiosas e um baile de atuações de natureza cool bem ao estilo de Onze Homens e um SegredoA história foca na interação entre Clive Owen e Julia Roberts, onde ambos são experientes espiões que agem a serviço de duas megacorporações da indústria de cosméticos. Nesse trabalho, planejam juntos uma jogada milionária – roubar uma fórmula de shampoo revolucionaria que é capaz de fazer crescer cabelo – usam seus conhecimentos de inteligência, e recursos de espionagem moderna e passam a agir estrategicamente como agentes duplos para seus contratantes. Porém o maior obstáculo para que consigam obter sucesso nessa empreitada, ainda consiste na constante desconfiança que nutrem um pelo outro, típico comportamento preventivo de qualquer agente especial bem treinado.

A relação duvidosa do casal que se apresenta por todo o filme, deixa o espectador confuso e intrigado a cada reviravolta do roteiro. Trata-se de um festival de clichês bem executados – cheio de flashbacks que são colocados mais para confundir do que para esclarecer os fatos – e que prendem a atenção do espectador, que instintivamente procura uma antecipação do desfecho que a direção somente entrega mesmo no final. O curioso ambiente de espionagem ao qual os protagonistas são expostos, que é dado uma relevância que chega parecer que estão evitando a terceira guerra mundial, o diretor usa e abusa da narrativa do gênero e macetes de um bom filme de espionagem internacional. O que é hilário, sendo que todo trabalho desses personagens é voltado ao mundo corporativo da beleza, que se demonstra tão competitivo quanto se tivessem interceptando mísseis nucleares para zonas de conflito no Oriente Médio. 


Contudo as melhores atuações não consistem nos duelos verbais de Clive Owen e Julia Roberts ou na condição em que se encontram; Tom Wilkinson e Paul Giamatti também estão ótimos em suas interpretações, como magnatas da indústria a qual o casal presta serviço. Mas caso alguém condene o casal de golpistas pela inescrupulosa atitude de roubar seus patrões, basta ter um pouco de contato com os chefões do negócio, para você torcer para que tudo dê certo para a dupla de espiões traidores. Tanto Giamatti quanto Wilkinson estão, talvez propositalmente, estampando a imagem do mundo corporativo que reside no imaginário da sociedade. Enfim, "Duplicidade" é uma comédia romântica disfarçada de filme de espionagem e suspense. Por isso, talvez seja tão inspirada e divertida como poucas comédias conseguem ser. Foge do convencional sem ser pretensiosa, mas atende ao mesmo público que esperava – independente do sucesso do golpe ou não – que os protagonistas ficassem juntos no final livres de qualquer vestígio de desconfiança. 

Nota: 8,5/10 

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Crítica: O Caçador de Pipas | Um Filme de Marc Forster (2007)



Seguindo uma tendência em alta dos últimos anos, foi apenas uma questão de tempo para que o best-seller da autoria de Khaled Hosseini fosse finalmente adaptado para a telona. E inevitavelmente foi o que aconteceu. E certo que foi adaptado para o cinema com todos os cuidados necessários para transpor a essência da obra com a mesma magnitude que consagrou o livro. Por isso não é difícil constatar que O Caçador de Pipas (The Kite Runner, 2007), é uma adaptação bem feita de um romance emblemático que passou a ser leitura mais do que necessária a qualquer ávido leitor. 

O filme acompanha de perto a amizade de Amir (Zekeria Ebrahimi) e Hassan (Ahmad Khan Mahmidzada), dois inseparáveis amigos que se divertem em um torneio de pipas. Após a vitória neste dia um trágico acontecimento é sofrido por Hassan, testemunhado passivamente por Amir, e marcando para sempre a vida de ambos. Amir, após os conflitos serem intensificados em Cabul devido à guerra e o avanço das tropas soviéticas sobre território árabe, viaja sob o clima de fuga com seu pai para longe de sua terra natal e passa a viver nos Estados Unidos. Após um inusitado telefonema retorna ao Afeganistão após 20 anos com a intenção de corrigir seus erros de infância. Porém ele se depara com uma nação desfigurada, diferente de suas lembranças, reconfigurada pelo governo talibã. Amir (agora adulto, interpretado por Khalid Abdalla) passa a ser um turista em sua própria terra, o que não ajuda em seu desejo de consertar seus erros passados.


A transposição do livro para tela está perfeita, demonstrando imensos cuidados na produção e numa perfeita ambientação dos personagens. O elenco, principalmente infantil está bárbaro, apesar da pouca experiência e da responsabilidade conferida aos garotos, pelo fato de que apesar da história ultrapassar décadas, os momentos do enredo mais enfáticos residem na infância dos personagens, cumprem com seu papel com a competência de veteranos. E como no livro, as circunstancias traumáticas que avaria a intensa amizade da dupla, também é igualmente provocante na telona.


As escolhas da direção de Marc Forster, onde ele rejeita a ideia de um longa-metragem todo falado em inglês, apesar do possível boicote do público americano, que tem aversão a legendas, foi uma decisão corajosa e grata a essa produção. O filme deveria ser filmado em Cabul, mas por conta do clima de instabilidade que a região é assolada, recorreu a outras locações. Mas não abriu mão, da necessidade de utilizar atores mirins, mesmo desconhecidos do grande público, mas residentes do Afeganistão. Enquanto os adultos, o escocês de ascendência egípcia Khallid Abdalla transpõe um Amir fiel a sua origem literária, ao mesmo tempo em que o iraniano Homayoun Ershadi (pai de Amir) apresenta uma interpretação emocionante. 

Através de O Caçador de Pipas, Marc Forster apresenta uma adaptação delicada, sublime em certos momentos, possivelmente fruto da participação bem sucedida do roteirista David Benioff (A Última Hora), que descreve com emoção uma história que aborda de forma sensível as variações do amor e as consequências do preconceito e da realidade da guerra sobre a natureza humana, vistas pelo olhar de duas crianças. 

Nota: 7/10


Crítica: Os Mercenários | Um Filme de Sylvester Stallone (2010)



Esse filme pode até causar desdém, ou desencadear mesmo ódio por parte da crítica especializada, que torpedeia sem cerimônias filmes iguais a esse, que não passam de uma sequência de brutalidades e exageros totalmente desprovidos de bom senso e inteligência. Para com o único intuito, de angariar fundos para o bolso dos envolvidos, que através desse filme, tentam (alguns) resgatar o sucesso passado, enquanto todos procuram um pouco mais de evidência com a realização desse longa. Mas quem se importa? É lógico que se trata de uma homenagem descarada a filmes onde prevalecia o direito de atirar primeiro e perguntar depois sem vergonha nenhuma. Tiros e explosões não faltavam no gênero. Naturalmente nesse filme chamado "Os Mercenários" (The Expendables, 2010), se deve descartar de antemão a qualidade artística, ou a possível moral da história, e saborear a reunião de todos os ícones do gênero que marcaram época a duas décadas atrás em uma só produção.

A história acompanha Barney Ross (Sylvester Stallone) o líder de um grupo de brutais mercenários constituído por Lee Christmas (Jason Statham), Ying Yang (Jet Li), Gunner Jensen (Dolph Lundgren), Toll Road (Randy Couture) e Hale Caesar (Terry Crews). Trata-se de sujeitos solitários e capazes de realizar feitos impossíveis em sua área de atuação, vivendo unicamente em função de executar missões de batalha pelos quatro cantos do mundo. Obviamente são os melhores nessa área, onde seus feitos são reconhecidos e admirados por muitos, independente de quão violentos fossem. Assim Mr. Church (Bruce Willis) propõe uma operação com contornos de missão suicida ao grupo que não se nega a executar algo que pode render boas doses de ação. Assim esse grupo de mercenários voa em direção a um pequeno país da América Latina para derrubar um governo autoritário controlado por um ditador e salvar o dia. Em resumo, o filme tem todos os clichês do gênero que consagrou o elenco que compõe esse longa: muito sangue, explosões seguidas de explosões, tiroteios e mais tiroteios, humor e sarcasmo para dar com o pé, uma trama pouco convincente, muita testosterona sem preocupação com interpretações, e muitas, muitas explosões mais. Mais apesar da exibição de uma infinidade de clichês e ideias batidas, esse filme apresenta algo novo que vale a pena conferir, mesmo que seja para descer a lenha no final: nunca houve um filme antes que sozinho tenha reunido um elenco tão “explosivo” quanto esse. Trata-se de uma grata homenagem aos atores, e um delicioso divertimento para os fãs que sempre acompanharam os protagonistas dessa aventura separadamente, e agora podem conferir a trupe toda reunida e mais explosiva do que nunca.

A direção assumida por Stallone para esse longa arremete ao sucesso narrativo que consagrou seu personagem mais emblemático: “Rambo”. Porém mais violento e exagerado, com doses cavalares de violência explicita e por vezes gratuita. Entretanto, Stallone apenas serviu ao público nada mais do que ele esperava dessa inusitada e gratificante homenagem cinematográfica aos filmes B dos anos 80, onde aqui esses elementos são mais do que necessários para transpor uma aventura recheada de cenas ação que seguem uma linha narrativa frenética e emocionante. Por fim, "Os Mercenários" apesar de seus defeitos, que podem fazer muitos críticos torcerem o nariz para sua proposta, não faz mais do que cumprir com as expectativas do espectador consciente, que não esperava ver outra coisa na tela que não tenha aparecido no decorrer da exibição desse longa. Certamente não vai mudar a vida de ninguém, mais que diverte ainda assim, diverte bastante.

Nota: 7,5/10 

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