sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Crítica: Os Mercenários | Um Filme de Sylvester Stallone (2010)



Esse filme pode até causar desdém, ou desencadear mesmo ódio por parte da crítica especializada, que torpedeia sem cerimônias filmes iguais a esse, que não passam de uma sequência de brutalidades e exageros totalmente desprovidos de bom senso e inteligência. Para com o único intuito, de angariar fundos para o bolso dos envolvidos, que através desse filme, tentam (alguns) resgatar o sucesso passado, enquanto todos procuram um pouco mais de evidência com a realização desse longa. Mas quem se importa? É lógico que se trata de uma homenagem descarada a filmes onde prevalecia o direito de atirar primeiro e perguntar depois sem vergonha nenhuma. Tiros e explosões não faltavam no gênero. Naturalmente nesse filme chamado "Os Mercenários" (The Expendables, 2010), se deve descartar de antemão a qualidade artística, ou a possível moral da história, e saborear a reunião de todos os ícones do gênero que marcaram época a duas décadas atrás em uma só produção.

A história acompanha Barney Ross (Sylvester Stallone) o líder de um grupo de brutais mercenários constituído por Lee Christmas (Jason Statham), Ying Yang (Jet Li), Gunner Jensen (Dolph Lundgren), Toll Road (Randy Couture) e Hale Caesar (Terry Crews). Trata-se de sujeitos solitários e capazes de realizar feitos impossíveis em sua área de atuação, vivendo unicamente em função de executar missões de batalha pelos quatro cantos do mundo. Obviamente são os melhores nessa área, onde seus feitos são reconhecidos e admirados por muitos, independente de quão violentos fossem. Assim Mr. Church (Bruce Willis) propõe uma operação com contornos de missão suicida ao grupo que não se nega a executar algo que pode render boas doses de ação. Assim esse grupo de mercenários voa em direção a um pequeno país da América Latina para derrubar um governo autoritário controlado por um ditador e salvar o dia. Em resumo, o filme tem todos os clichês do gênero que consagrou o elenco que compõe esse longa: muito sangue, explosões seguidas de explosões, tiroteios e mais tiroteios, humor e sarcasmo para dar com o pé, uma trama pouco convincente, muita testosterona sem preocupação com interpretações, e muitas, muitas explosões mais. Mais apesar da exibição de uma infinidade de clichês e ideias batidas, esse filme apresenta algo novo que vale a pena conferir, mesmo que seja para descer a lenha no final: nunca houve um filme antes que sozinho tenha reunido um elenco tão “explosivo” quanto esse. Trata-se de uma grata homenagem aos atores, e um delicioso divertimento para os fãs que sempre acompanharam os protagonistas dessa aventura separadamente, e agora podem conferir a trupe toda reunida e mais explosiva do que nunca.

A direção assumida por Stallone para esse longa arremete ao sucesso narrativo que consagrou seu personagem mais emblemático: “Rambo”. Porém mais violento e exagerado, com doses cavalares de violência explicita e por vezes gratuita. Entretanto, Stallone apenas serviu ao público nada mais do que ele esperava dessa inusitada e gratificante homenagem cinematográfica aos filmes B dos anos 80, onde aqui esses elementos são mais do que necessários para transpor uma aventura recheada de cenas ação que seguem uma linha narrativa frenética e emocionante. Por fim, "Os Mercenários" apesar de seus defeitos, que podem fazer muitos críticos torcerem o nariz para sua proposta, não faz mais do que cumprir com as expectativas do espectador consciente, que não esperava ver outra coisa na tela que não tenha aparecido no decorrer da exibição desse longa. Certamente não vai mudar a vida de ninguém, mais que diverte ainda assim, diverte bastante.

Nota: 7,5/10 

_____________________________________________________________________________

Crítica: Drive | Um Filme de Nicolas Winding Refn (2011)



Sabe aqueles filmes que depois de algum tempo é lançado com a versão sem cortes ou por assim dizer, versão definitiva?  Por que alguém achou que podia melhorar na sala de edição algo que passou batido no primeiro lançamento? No caso desse longa-metragem, chamado "Drive" (Drive, 2011), duvido que isso venha acontecer. Deixe-me explicar. O filme tem um roteiro conciso, objetivo e sem floreios. Cada diálogo tem porque existir, e é apresentado de forma enxuta. As cenas de violência não possuem restrições visuais que se armam do poder da sugestão como solução para contornar uma censura ostensiva. Tudo é explicito e bem delineado através de um perfeito enquadramento de câmera. A história é linear, de sinopse simples desprovida de extravagâncias cinematográficas comuns. A complexidade da história reside nos personagens (protagonista) e não no ambiente em si no qual a ação decorre. Não há o que melhorar em sua totalidade sendo que já trabalha sob a pressão de um fino ajuste. Na trama o motorista interpretado por Ryan Gosling – o nome do personagem nunca é mencionado – é um dublê em filmes de Hollywood onde requer a presença de um experiente motorista em cenas de ação, e que também desempenha por ironia do destino o papel de motorista de fuga em verdadeiros assaltos. O “Motorista” se envolve emocionalmente com sua vizinha (Carey Mulligan) e seu filho, se prestando ao trabalho de ajudá-los na quitação de uma “dívida” decorrente da negligência dos atos criminosos de seu marido, recém-saído da cadeia. O débito pode ser pago através da realização de um assalto aparentemente simples, ao qual o Motorista os auxilia na realização. Porém, nem tudo sai como planejado, e consequentemente suas habilidades atrás do volante fazem toda a diferença. Apesar de tudo, entre mortos e feridos, todos os personagens envolvidos nessa trama têm suas vidas reviradas em um turbilhão de emoções.

O filme está em completa sintonia com o cinema, desde sua ambientação – Hollywood dos anos 80 – ao protagonista, que é interpretado em tons de homenagem a personagens marcantes da história cinematográfica – a jaqueta com estampa de um escorpião nas costas é igual à de Antonio Banderas em A Balada do Pistoleiro”, ou o constante palito entre os dentes de Sylvester Stallone em “O Cobra”. Mas não é somente de homenagens que o protagonista apenas nos alimenta, pois sua atuação explora o máximo das possibilidades que seu personagem pode proporcionar. Trata-se de um ator que interpreta o papel de um cara comum, que parece estar constantemente imerso em um personagem que ele mesmo criou para si próprio. É uma alienação mascarada de homenagem, que funciona bem devido ao trabalho do conjunto do roteiro de Hossein Amini e da direção de Nicolas Winding Refn, que tanto um quanto o outro souberam aproveitar o melhor disso sem ficar óbvio demais. O protagonista tem uma postura metódica, calculada e um temperamento de uma serenidade pouco usual – quase sempre estampa uma expressão de alguém que contempla a vida com um constante ar de descoberta. Porém em seu trabalho, o ilegal, sabe como agir e reagir diante das circunstancias extremas a qual é exposto, indo de uma enorme tranquilidade e frieza a reações necessariamente violentas sem hesitação. Sua atuação é medida, tanto nas cenas em que divide a tela Carey Mulligan, demonstrando ternura e um sugestivo interesse romântico, ou nas cenas violentas em que confronta seus algozes perseguidores após o equivocado assalto.

Entretanto, não é somente no casal já mencionado que mora as melhores atuações desse longa: Ron Perlman está excelente e assustador com sua sempre marcante voz; Oscar Isaac não fica por menos mesmo não tendo o mesmo destaque; mas jamais haveria um grande herói nesse filme, se não houvesse um vilão a altura, e por isso os aplausos mais explosivos ficam para Albert Brooks, que compôs um rival quase tão fascinante quanto o mocinho nesse filme. "Drive" é perspicaz em sua proposta. Mistura gêneros que oscilam entre filmes de ação frenéticos e suspenses policiais dos longínquos anos 70. Cria um personagem diferente, que ironicamente surgiu de umas oportunas homenagens que despertam a atenção de cinéfilos mais aguçados. Poderia muito bem ter saído da mente criativa de Quentin Tarantino pelas semelhanças narrativas. Mas não saiu. O que já basta para colocar esse longa-metragem numa posição nobre entre as grandes surpresas que alguns cineastas estão criando atualmente.

Nota: 8,5/10
____________________________________________________________________________

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Crítica: Sequestro no Espaço | Um Filme de Stephen Saint Leger & James Mather (2012)



O famoso cineasta Luc Besson, que há muito tempo não dirige um longa-metragem, assina o roteiro e apresenta essa nova aventura futurística, que é encabeçada pelo par romântico Guy Pearce (Prometheus) e Maggie Grace (Busca Implacável). Como sempre, Besson mescla uma série de boas ideias oriundas de sucessos de bilheteria e de filmes cult em um só filme. Porém dessa vez, em "Sequestro no Espaço(Lockout, 2012), mira alto, e leva um tombo a altura de sua pretensão. A história onde um agente da CIA chamado Snow (Guy Pearce) se envolve numa trama de espionagem a qual foi traído, capturado e por fim condenado a passar trinta anos congelado em uma câmara criogênica espacial. Nessa mesma estação espacial a qual iria cumprir pena, ocorre uma rebelião dos detentos, onde além dos prováveis reféns ainda há a presença da filha do presidente (Maggie Grace) como refém dos mais perigosos criminosos do mundo. Assim, a única forma de Snow evitar a prisão é executando uma missão de resgate suicida para salvar a vida da filha do presidente. Snow aceita a missão, imaginando que a única chance de provar sua inocência, também está aprisionada nessa estação espacial.


Dessa vez Luc Besson, criador de roteiros mais espertos do que inteligentes, tentou unir astros de filmes consagrados em um roteiro que arremete a um sucesso dos anos 80, intitulado Fuga de Nova York, estrelado por Kurt Russel. Porém a atuação canastra de Pearce não se iguala ao brilhantismo de Russel – que depois de um tempo Guy Pearce inclusive chega a ser irritante – enquanto de Grace como a filha do presidente, estava melhor em – pela pouca presença de tela provavelmente – como a filha do espião aposentado no filme "Busca Implacável". O roteiro de Besson totalmente fora de órbita, não se encaixa em nada com a temática escolhida. Ignora vários elementos necessários para criar um filme de ficção científica convincente, impulsionado por uma trama de espionagem erguida totalmente na sala de edição, acaba por não conseguir transpor para tela uma Sci-Fi interessante, ao mesmo tempo em que não constrói uma trama de suspense policial que nos faça lembrar-se dela até o final. 


A direção dividida de Stephen Saint Leger & James Mather funciona com a eficiência de um videogame. Inclusive tem uma cena de perseguição nas ruas que faz lembrar Need for Speed. Os tiroteios produzidos para esse longa poderiam ter sido melhores, como também o roteiro, por isso a direção da dupla – que também tem seu envolvimento com o roteiro – fez o que pode com o material impresso disponível, incapazes de fazer qualquer tipo de milagre com um festival de costuras e absurdos criados no papel. A fuga da prisão, no desfecho final, nem Ridley Scott (Blade Runner) conseguiria retirar uma sequência plausível de um roteiro que permitisse tamanha extravagância. Por fim, "Sequestro no Espaçoestá longe de ser um dos melhores filmes que leve o nome de Luc Besson como chamariz. O elenco também já teve aparições bem mais interessantes em outros filmes, como a direção já fez coisa melhor com bem menos recursos. Se alguém ficar indeciso quanto a assistir a esse filme, fique com Fuga de Nova York, caso não tenha assistido. É muito mais pé no chão do que esse, mesmo recheado de absurdos e extravagâncias também.

Nota: 4,5/10

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Crítica: Filhos da Esperança | Um Filme de Alfonso Cuarón (2006)



Em um mundo onde a raça humana caminha na direção da extinção, em Londres no ano de 2027, Theodore Faron (Clive Owen) que se cansou de lutar contra o sistema que faz de tudo para piorar as expectativas de vida da população. Ignorando o inferno que a sociedade se tornou, pelo fato da humanidade perder a capacidade de se reproduzir. Faron recebe uma oferta estranha, a qual aceita de forma relutante, onde tem que escoltar duas refugiadas pelo país, sem saber que uma delas está grávida. Algo impossível até então, o que causa por fim uma esperança no mal da infertilidade que assola a humanidade. Porém a missão de Faron, a qual ele deposita todas as esperanças possíveis, não será fácil, já que há muitos interessados em impedir o sucesso de sua missão. "Filhos da Esperança(Children of Men, 2006) é um longa-metragem dramático ambientado em um mundo pós-apocalíptico, caótico e violento, onde o diretor mexicano Alfonso Cuarón cria uma pequena obra-prima através desse drama em forma de ficção científica. Com uma narrativa e perspectiva interessante sobre o futuro, porém desoladora em sua essência, Cuarón surpreende. O nascimento de uma criança é algo tão fascinante naquela sociedade quanto foi a chegada do homem a Lua a décadas atrás, e a direção de Cuarón enfatiza bem a importância desse evento dentro do enredo.

"Filhos da Esperança" tem uma história no mínimo curiosa. Sobretudo, um elenco fabuloso com destaque para Clive Owen e também por Julianne Moore (ex-mulher de Faron e líder da resistência rebelde) como também o inspirado Michael Caine (um excêntrico amigo hippie de Faron); o diretor leva ao espectador um verdadeiro espetáculo narrativo muito bem conduzido. O filme tem como característica tomadas longas desprovidas de cortes rápidos, onde Cuarón desenvolve um clima tenso e sufocante através da película. Uma das sequências mais brilhantes desse filme reside, numa fuga desesperada que é acompanhada de dentro do carro através de uma logística superinteressante que é bem explicada nos extras do DVD, que revela os segredos dessa tomada que até parece que foi feita com efeitos visuais, mas não. Uma demostração de criatividade e capacidade de realização. Assim sendo, "Filhos da Esperança" mesmo que tenha sido injustiçado pela academia (teve três indicações a premiação do Oscar) não levando nenhum prêmio sequer, o cineasta Alfonso Cuarón tem em seu fundamento a característica de ser o mais consistente e brilhante entre seus conterrâneos aos quais obtiveram no mesmo ano melhor reconhecimento: O Labirinto do Fauno de Guillermo del Toro e Babelde Alejandro González. Trata-se de um filme tocante, bem realizado e interpretado com força e energia. Genial ao seu modo. 

Nota:  8/10  
_____________________________________________________________________________

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Crítica: Bravura Indômita | Um Filme de Joel e Ethan Coen (2010)



Baseado em um western de 1969 estrelado por John Wayne, o filme Bravura Indômita (True Grit, 2010), dirigido pelos consagrados irmãos Coen fazem de um filme originalmente interessante, algo impecável e surpreendente, e que ao contrário do original, consegue saciar o apetite voraz do espectador por atuações memoráveis, ao mesmo tempo em que desperta emoções inéditas. No filme “Onde os Fracos Não Tem Vez” os irmãos Coen apresentam um breve ensaio do gênero, que inclusive superou o espetáculo anunciado. Apesar da roupagem moderna adotada em “Onde os Fracos Não Tem Vez, ele bebia da fonte inspiradora dos westerns, contendo vários elementos de um bom faroeste a moda antiga deixando claro o profundo conhecimento dos autores sobre o território pelo qual caminhavam. Bravura Indômita é a afirmação disso, mesmo trabalhando sobre a plataforma de um remake, criaram algo novo, e mesmo que não tenha conseguido angariar tantos fãs quanto o original, tem seus méritos também. Nesse filme o espectador acompanha a jornada de Mattie Ross (Hailee Steinfeld), uma garotinha de 14 anos, que vai a cidade resolver algumas pendengas da família, e sem o conhecimento da mãe ou de sua família, busca vingança pelo assassinato do pai cometido por Tom Chaney (Josh Brolin). Porém devido as dificuldades obvias da missão de justiça, ela contrata Rooster Cogburn (Jeff Bridges) e acaba tendo auxilio do policial Texas Ranger La Bouef (Matt Damon), que também persegue Chaney a anos.


Um dos pontos altos desse faroeste, além do humor negro característico dos filmes criados pelos cineastas, é a afinada relação entre os protagonistas: Steinfeld se apresenta apesar da idade, uma grande negociadora dotada de uma postura madura diante da gravidade da situação; Bridges mesmo bêbado e com ares de vagabundo, mostra um ator convincente no papel, e que mesmo cheio de defeitos morais, funciona como uma figura paterna substituta para Mattie responsável apesar de controversa; Damon faz um papel medido para transpor as falácias de seu personagem; e quanto a Brolin, desprezível em sua totalidade, se mostra expressivo e vítima inconsequente de sua condição criminosa, que apenas busca sua auto preservação erroneamente. Tanto no conjunto como na forma unitária, todo o elenco está ótimo e à vontade em seus papéis. Por fim, Bravura Indômita é um belo exemplar contemporâneo de um gênero no qual se deposita muita expectativa a cada lançamento. Cria vários protestos de fãs que sempre os comparam com obras consagradas do passado. Esse longa é visualmente perfeito, com uma narrativa contemporânea bem transposta, que foi habilmente escolhida pelos responsáveis e funciona bem como em todos os filmes dos irmãos Coen – profundos conhecedores do que fazem. Mas também funciona ainda como convite para conferir outros clássicos do gênero, hoje perfeitamente disponibilizados no formato de DVD

Nota: 8/10

____________________________________________________________________________