sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Crítica: Doze Homens e Outro Segredo | Um Filme de Steven Soderbergh (2004)


Todo o elenco e direção de Onze Homens e Um Segredo voltam nessa brincadeira sequência para divertir mais uma vez o espectador

Qualquer um que goste de filmes onde há um desfile de astros e estrelas dividindo a tela no mesmo longa-metragem deve ficar atento aos lançamentos de Steven Soderbergh no cinema, ou correr para uma locadora mais próxima de você. É um dos poucos cineastas capazes de lidar, de forma técnica, com uma imensidão de egos talentos ao mesmo tempo, sem fazer injustiças. Quando Soderberg apresentou uma refilmagem de Onze Homens e um Segredo (2001), criou uma aventura urbana divertidíssima, que serviria para o futuro de ocupação para muita gente, para fazer uma sequência, quando surgisse uma oportunidade entre um trabalho significativo e outro. Assim "Doze Homens e Outro Segredo(Ocean´s Twelve, 2004), aproveita o tempo livre de amigos, para contar as consequências desencadeadas do primeiro filme. Enquanto no primeiro toda trama era voltada para o roubo de um cassino em Las Vegas, nessa continuação nos é apresentado uma disputa forçada pelo título de maior ladrão do mundo. Quando Danny Ocean (George Clooney) tenta levar uma vida honesta ao lado da esposa, Tess (Julia Roberts) surge o pretensioso francês, Raposa Noturna (Vincent Cassel), o afrontando com um desafio desnecessário, ao qual ele e sua equipe de ladrões se tornam vitimas de uma armação elaborada.


Como no filme anterior o roteiro é bem amarrado pelo roteirista George Nolfi, cheio de reviravoltas e nuances que dá espaço para exibicionismos de atuação, perfeitamente condicionado pela capacidade de realização de Soderberg. Toda a história é excêntrica, principalmente as atuações, surreais em certos momentos, com a única finalidade de divertir. Objetivo sempre atingido, até mesmo quando tudo dá errado, pela reação cômica da tragédia. Enquanto Danny perde um pouco dos holofotes, Matt Damon todo desajeitado clama por reconhecimento na gangue, dando margem para George Clooney e Brad Pitt lhe pregarem peças hilárias. O longa faz – através do roteiro - piada inclusive com o personagem de Julia Roberts. Ainda que Andy Garcia tenha jurado todos de morte, caso não cumpram com suas exigências, lhes proporcionando uma oportunidade de corrigirem seus erros, o ressarcindo dos valores surrupiados no filme anterior, Vincent Cassel não facilita a vida da quadrilha em nada. Porém Brad Pitt está aparentemente mais preocupado com uma reconciliação com a eis namorada Catherine Zeta-Jones, que tem um papel fundamental na trama, do que com o desenrolar da carruagem. Don Cheadle repete seu papel inventivo, ainda depositando toda sua fé nas decisões de Pitt, que permanece distante das relevâncias. O restante do elenco está excelente, à vontade em seus papéis - como se representassem personagens de uma série televisava – aprofundados em suas interpretações repetitivas, conscientes que todo o resto fica a cargo da produção e do talento de Soderberg.

Por fim, "Doze Homens e Outro Segredo" é um filme de férias, não do espectador propriamente, mas de Soderberg e de seus amigos, que evidentemente se divertem em sua realização tanto quanto a plateia, que não se cansa de ver tantas estrelas trabalhando juntas em prol do entretenimento mutuo. Por mais que esse filme não se mantenha espetacular se comparado ao anterior, ainda esbanja simpatia e bom humor sem fazer força.

Nota:  7/10
_____________________________________________________________________________

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Crítica: Sucker Punch – Mundo Surreal | Um Filme de Zack Snyder (2011)



Bem-vindo ao mundo de um diretor visionário

Dezenas de diretores tem feito o mesmo do mesmo sem vergonha dos resultados. Contudo o diretor Zack Snyder é um dos poucos que podem se orgulhar de tentar impor um estilo, revolucionário dependendo da perspectiva, mesclando elementos distintos em um só longa-metragem, para apresentar algo diferente do habitual. Certamente que esse longa divide opiniões e causa reações extremadas, principalmente por seu foco cego em um determinado público. Porém é unânime afirmar que apesar de suas extravagâncias narrativas e seu roteiro deficiente, a capacidade do diretor de realizar espetáculos visuais continua e está acima do esperado para quem começou a carreira nos apresentando um simples remake de “Madrugada dos Mortos”.

O filme "Sucker Punch – Mundo Surreal" (Sucker Punch, 2011), é um desfile cuidadosamente articulado sobre, e através de referências culturais, fetiches e homenagens. Zack Snyder condiciona o público para uma viagem delirante, criada pela mente de uma garota órfã chamada Babydoll que, para escapar da realidade, cujo destino foi traçado pelo padrasto quando a internou em um hospício, após ser acusada injustamente do assassinato de sua mãe e irmã caçula, busca irremediavelmente seu refúgio em um mundo imaginário habitado pelas mais estranhas criaturas. Sua sobrevivência depende unicamente, do sucesso de seus confrontos épicos, que trava com zumbis nazistas da segunda guerra mundial, dragões flamejantes, Orcs, samurais gigantes oriundos do Japão feudal e robôs monocromáticos. Entretanto o maior adversário dessa jovem na realidade, pelas circunstâncias apresentadas, ainda é o tempo que se esgota rapidamente.

Com um elenco potencialmente feminista (Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Jamie Chung e Vanessa Hudgens), provido de requintes fetichistas e bravura colossal, consolidam a grandeza do alinho visual que reverência a beleza empregada nesse longa. A beleza hormonal das protagonistas somente se equivale à destreza com que combatem as feras imaginárias, frutos da mente delirante de uma jovem, que através de sua obstinação distorcida, procura desesperadamente – aliada a suas amigas – executar a elaboração de um plano de fuga dessa prisão em que se encontram. Que além do exorcismo das bestas materializadas em sua mente, precisa enganar os ditadores de seu cárcere, que margeiam com segundas intenções sua sensualidade.

Todos estão certos que a protagonista Babydoll foi destinada a um manicômio, porém em uma mudança vertiginosa de narrativa, a mesma locação ganha contornos explícitos de uma casa de shows, onde usa as internas como “atrações”, entre uma viagem e outra ao mundo imaginário de Babydoll. As incursões nesse delirante mundo são um espetáculo: não pelo que podemos ver, mas pelo que ouvimos, pois a canções que compõem a trilha sonora demonstram ser um elemento extremamente necessário para dar o tom preciso do efeito intencionado pela direção.   

Snyder nos presenteia com belos momentos de apuro visual também, com seus ótimos efeitos de câmera lenta – sempre bem pontuados – efeitos especiais que são um deleite aos olhos atentos e uma abertura magistral, condicionada por uma trilha sonora hipnótica. Detalhe que não surpreende de maneira alguma, sendo que ele fez uma das melhores aberturas de filme que já vi, quando resumiu precisamente algumas décadas da história e da cultura americana na abertura de “Watchmen. Além de uma fotografia que enriquece todas as ambientações, que oscilam entre a escuridão sinistra da abertura até o último embate com os robôs no trem-bala, tendo ao longe um horizonte paradisíaco.  

Se esse filme tivesse suas origens em um game da moda, desses de estratégia, seria a versão definitiva de uma transposição perfeita de um jogo para as telonas, visto que seu desenvolvimento parece uma crescente evolução de fases, onde os ambientes, os adversários e os objetivos são atingidos para desencadear o início da próxima fase. Apesar de seu roteiro ser seu maior calcanhar de Aquiles, causador de protestos exaltados, os trailers disponibilizados pela produtora deixavam claro que a exibição desse longa não seria nenhum anúncio de uma revelação transcendental, deixando evidentes indícios que sua narrativa era mais um óbvio culto a estilo, do que propriamente sobre intelectualidade e coerência. Deixou margens enormes para escolhas equivocadas, mas ainda sim corajosas.
Por fim, "Sucker Punch – Mundo Surreal" pode passar a ser uma ode ao exibicionismo sexista em detrimento a sutileza puritana de adoção tão comum na indústria hollywoodiana.

Pode ferir os conceitos de admiradores de filme ação, colocando garotas com poder destruição que deixaria qualquer marmanjo no chinelo. Pode causar à sensação de um necessário desfecho arrebatador a altura do desenvolvimento. Pode ser taxado com os adjetivos mais simplistas possíveis, por não estar de acordo formula estrutural habitual do cinema convencional. Contudo, essa obra mesmo tendo seus defeitos e limitações ostenta um caráter que prega a revolução, do que interessa para o autor acima de tudo. Snyder não se censurou na hora de criar algo novo a partir do mesmo, através de declarações visuais exageradas, proclama que cada um pode criar o seu o mundo como quiser, independente do seu estilo.

Nota: 7,5/10
____________________________________________________________________________

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Crítica: À Prova de Morte | Um Filme de Quentin Tarantino (2007)



Um Tarantino mais anos 80 do que em qualquer outro filme

Particularmente, esse é um dos filmes da autoria de Tarantino ao qual menos criei simpatia. Sempre gostei de seus filmes, desde “Cães de Aluguel”, por razões diversas que nem sei explicar direito. Seus filmes sempre tiveram elementos narrativos originais – entre outras coisas – que sempre me chamavam a atenção, inclusive quando dirigiu “Jackie Brown”, o único filme cujo roteiro não é de sua autoria até então. Contudo essa responsabilidade foi delegada – de criar um roteiro – ao Papa dos romances policiais, chamado Elmore Leonard. O que não é pouco. Quando Tarantino e Robert Rodriguez criaram a iniciativa “Grindhouse” – uma homenagem aos filmes de sessão dupla de baixo orçamento – onde o filme “Planeta Terror”, de autoria de Rodriguez, apesar de cumprir sua proposta, foi mal recebido e consequentemente. Assim “Death Proof”, que fazia a segunda parte da exibição, nem sequer era comtemplada pelo espectador que saia do cinema após a primeira exibição, o que resultou em fracasso nas bilheterias americanas. No Brasil o filme foi exibido separadamente, porém “Planeta Terror” também não foi bem recebido por aqui. E, portanto muito tempo depois, o filme À Prova de Morte (Death Proof, 2007), foi lançado diretamente em vídeo por aqui (somente em 2010) em receio a pouca receptividade do público quanto à ideia original.

A história do piloto maníaco que se auto intitula “Dublê Mike”, não passa de um exercício mais profundo das possibilidades de se fazer filmes com pouco dinheiro, ao mesmo tempo fazendo uma homenagem aos filmes Grindhouse pouco conhecidos por aqui. A coisa mais interessante desse longa – principalmente para os fãs do cineasta – ainda consiste em ver mais uma vez sua emblemática estilização da violência, os diálogos longos e marcantes e seu senso de humor negro afiado, sempre presentes em seus roteiros. Portanto, para quem se dispõe em assistir a um filme dele – preferência que nãos seja esse o primeiro – deve ter a consciência que seu estilo fala mais alto, independente do tema escolhido, e que seu vinculo com o cinema B somente ganha mais força nesse longa, produzido e realizado com recursos contemporâneos
.
Dublê Mike (Kurt Russell), é um maníaco que tem em seu rosto uma enorme cicatriz, e dirige um carro que é à prova de morte – automóvel usado por dublês em cenas de capotagem e perseguição na indústria cinematográfica – mas somente do lado do motorista evidentemente. Esse alerta infeliz Mike fez a uma jovem que havia pegado carona com ele, um pouco antes de matá-la. Depois ele segue pela rua na caça de mais vitimas e bate de frente com outras quatro garotas que bebiam em um bar, em um acidente intencional que foi fatal para elas. Nesse momento o filme parece que acaba e se inicia outro. Assim são apresentadas outras quatro garotas à procura de diversão, apaixonadas por carros velozes e por filmes que idolatram essas máquinas. Quando essas garotas cruzam o caminho de Mike, ele encontra nelas uma nova oportunidade de saciar seu desejo de matar novamente, porém o que se apresenta para a surpresa do espectador é uma fascinante reviravolta nessa história que o maníaco jamais esperava. Para quem gostou dos exageros e excessos de Planeta Terror, encontrará uma violência mais sutil e menos escrachada. Os diálogos banais fazendo referência à cultura Pop, característicos de Tarantino – varias citações de filmes da mesma época em que a trama se desenrola –, não falta e é um show a parte. Toda aquela conversa mole bem cotidiana demonstra como o autor sabe criar interações reais de grande veracidade, que demonstra perfeitamente como se trata de pessoas comuns. E ainda que ocorram acontecimentos extraordinários com os envolvidos, esse detalhe é muito bem salientado. Tarantino apresenta todas as semelhanças comuns de produções as quais o inspiraram, com uma direção de fotografia coerente, perseguições de carros bem focadas nos atores reais, erros de continuidade impossíveis de passar despercebido. Tudo elaborado para uma ambientação realista de uma época especifica, porém concebida com os cuidados das grandes produções contemporâneas. E o suspense e a tensão que se firma durante a duração, bem conduzido aos extremos das possibilidades pela direção e o roteiro de Tarantino, nos leva a um desfecho cômico que ultrapassa as expectativas depositadas nesse longa, de fachada pobre, estilo antiquado, bem feito a moda antiga, e que serve como exercício experimental para homenagear suas maiores fontes de inspiração, além de uma manifestação feminista sutil que habita as entre linhas. 

Nota:  8/10 
____________________________________________________________________________
  

Crítica: Os Indomáveis | Um Filme de James Mangold (2007)



Um western com cara de filme de ação

O título nacional que foi adotado para esse longa, eu julgo ter sido infeliz, pela forma intrigante que esse filme se apresenta. Acho título muito simplista, considerando as proporções da história. Trata-se de um remake de um faroeste de 1957, escrito por Elmore Leonard, também chamado de 3:10 to Yuma (intitulado por aqui como Galante e Sanguinário). O título original, bem ao estilo western anuncia o maior objetivo da trama: a chegada do trem para a cidade de Yuma, exatamente às três e dez da tarde. Por aqui houve a inserção de um título expressivo, provido de valentia, que remete a lembrança irônica de “Os Imperdoáveis”. Mas por mais indomáveis que pudessem ser os personagens, o título original encarna melhor as motivações dos envolvidos na trama sem demagogia. 

A história de "Os Indomáveis(3:10 to Yuma, 2007), acompanha Dan Evans (Christian Bale), um pobre rancheiro à beira da completa falência, manco e que observa aos poucos sua família perdendo o respeito e a admiração por sua pessoa. Após a captura de um temido criminoso chamado Ben Wade (Russel Crowe), é organizado uma diligência para escoltá-lo até a estação de trem de Condention que irá levá-lo a Prisão de Yuma para enforcá-lo. Dan se oferece para integrar o grupo em troca de uma recompensa satisfatória. Assim conseguindo cumprir a missão, ele pode saldar suas dividas ao mesmo tempo em que pode reconquistar o respeito de sua família – principalmente de seu filho mais velho. Porém está tarefa não será fácil, já que todo bando de Ben Wade, agora liderado por Charlie Prince (Ben Foster), fará de tudo a seu alcance para resgatar seu comparsa.


O diretor James Mangold está mais para diretor competente do que para gênio. Apesar de sua filmografia demonstrar que, parcerias passadas geraram sucessos pessoais para os envolvidos, como quando lançou Sylvester Stallone como ator sério depois de sua interpretação em “Cop Land, ou mostrou que Angelina Jolie não era apenas um rosto bonito, depois de “Garota Interrompida”. O diretor, ao usar enquadramentos comuns de filmes de ação, faz um remake ágil e inteligente, com sequências eletrizantes. Aproveita os bem escritos diálogos, com cenas diferentes do que normalmente estamos acostumados em ver nos filmes do gênero. Aproveita ao máximo a paisagem árida do deserto através de uma direção de fotografia soberba, bem aliada com uma trilha sonora de presença elaborada por Marco Beltrami. 

Mas nem toda produção do mundo, substitui o afinado elenco desse longa. Christian Bale, encarna um homem marcado por uma vida sem grandes feitos, que estabelece uma meta suicida para provar ao filho, e a si mesmo, sua nobreza apesar dos fracassos. Enquanto Russel Crowe balanceia perfeitamente a mistura de violência com carisma em sua interpretação de vilão esquemático. E margeando a interpretação dos astros, Ben Foster – que não teve seu nove no cartaz com o devido destaque – é uma das grandes surpresas desse filme, com sua interpretação assustadora de fora da lei. Além do ótimo elenco de apoio pertinente, desempenhado pelo experiente Peter Fonda.


O elenco inicialmente tinha nomes como Tom Cruise e Eric Bana, nos papéis de Dan Evans e Ben Wade, e Kris Kristofferson no papel de Peter Fonda. Isso quando Cruise fazia parte da produção, assim com sua desistência, houve um consenso entre Crowe e Mangold e produtora, em chamar Christian Bale para o papel. 

Apesar de muitas críticas negativas deferidas a esse remake, não há problemas expressivos em sua composição. Infelizmente os melhores faroestes ainda (sempre) serão aqueles feitos antigamente, de preferência por Sergio Leone. Mas "Os Indomáveis", certamente sofre do mesmo mal que assola Bravura Indômita, dirigido pelos irmãos Coen. É difícil agradar um público, fã de western, conhecedor das obras originais, que sente a necessidade compulsiva de fazer comparações, muitas vezes desnecessárias. Particularmente, “Os Indomáveis está perfeito como está, mesmo que não possa chamar James Mangold de gênio, como podemos dizer de Sergio Leone.

Nota: 7,5/10
______________________________________________________________________________

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Crítica: 16 Quadras | Um Filme de Richard Donner (2006)



Com uma história contida que poderia muito bem ultrapassar alguns limites

A história de "16 Quadras(16 Blocks, 2006), segue a missão Jack Mosley (Bruce Willis) de escoltar o preso Eddie Bunker (vivido pelo famoso rapper afro-americano Mos Deff) até o Tribunal para testemunhar em um importante caso de corrupção policial. Porém, ambos acabam sofrendo uma "pequena" alteração de percurso até seu destino. Por isso o que parecia uma tarefa chata e corriqueira para Jack, acaba se tornando um inferno, quando descobre que a testemunha é vital, desencadeando a fúria de vários tiras corruptos. Jack luta contra tudo e contra todos para salvar a vida do jovem Eddie e mudar o curso de seu destino antes que seja tarde demais. Esse filme começa como qualquer filme policial e ganha contornos imprevisíveis numa corrida de gato e rato pelas ruas de Nova York. As típicas perseguições de carros – mais do que necessárias em um bom filme de ação policial – são substituídas por correrias entre transeuntes em becos e subsolos de Chinatown. Os tiroteios ficam mais contidos e menos monstruosos que em outros filmes de Richard Donner (Máquina Mortífera, Assassinos). A câmera segue os envolvidos de perto, tremulada e segura da narrativa. Donner tem um passado no gênero de ação carregado de glórias que ele tenta trazer para esse filme. O percurso de 16 quadras, não chega a ser uma maratona, porém para Jack, com ares de cansaço, consumido pela desgastante rotina policial, inevitavelmente vira uma jornada física quase impossível. Bruce Willis está bem pançudo para caracterizar o policial alcoólatra com veracidade. Acomodado e desprovido de entusiasmo para desempenhar a função de servir e proteger.  Inclusive colocou pedras no sapato, para tornar o andar desconfortável e legitimar uma postura de policial debilitado pelos anos dedicados ao trabalho. Mas sua maior fraqueza, a consciência pesada por uma vida marcada por decisões erradas, ele não consegue transpor com credibilidade. Sua maior qualidade como ator, quando investe no tom cômico de seus personagens, não é adotado aqui. Essa responsabilidade foi delegada a Mos Deff. 


Enquanto Eddie transpõe um personagem ingênuo distante da importância de seu papel dentro da trama, cumpre a tarefa de seguir o astro na fuga. O roteiro se arma de algumas peripécias para deixa-lo um pouco mais interessante – como a questão do ponto de ônibus em meio ao furacão – mas falha com uma série de outros furos que giram em volta de seu personagem. Se houve a intenção de criar um personagem irritante, essa meta foi obtida com sucesso. Ele desgasta a paciência de qualquer um quando começa falar de trivialidades para Jack. Mas suas deficiências de transpor um personagem intrigante acabam não sendo compensadas com o estrelismo de Willis. Mesmo com uma direção tentando escapar dos clichês, infelizmente o roteiro limitado por sua natureza não contribui no conjunto. Ainda mais armado do antagonista Frank Nugent (David Morse), com uma atuação elegante, mas exageradamente burocrática. O desfecho da trama, apesar de imprevisível e improvisado, não trazia nada de novo até mesmo para época. A história que não causava envolvimento no processo, não empolgou nos acertos, e errou feio em salvar os bonzinhos ao mesmo tempo em que quis levar a redenção aos arrependidos. Uma proposta muito politicamente correta, em um filme que até o segundo ato, parecia que ninguém se salvava. Assim "16 Quadras" demonstrou ser um filme legal, menos empolgante do que outros da autoria de Donner, mas melhor do que vários filmes, nos quais Willis atuou entre os sucessos da franquia Duro de Matar, ao qual o papel de policial beberrão é magistralmente bem desempenhado por ele. 

Nota: 6,5/10

Crítica: O Homem que Mudou o Jogo | Um Filme Bennett Miller (2011)



"O Homem que Mudou o Jogo(Moneyball, 2011) é uma retratação sobre a ciência por trás do beisebol, entre outras coisas. Felizmente não somente sobre o jogo – que por aqui é um mistério feito o futebol americano. Ainda bem que o filme dá destaque a muitas outras coisas, além do esporte. O jogo em si, é somente um dos elementos de uma trama sobre auto superação e reinvenção de métodos arcaicos para escolha de jogadores em potencial. Até então as melhores contratações eram abocanhadas pelos grandes times, que tinham a sua disposição grana para disputar o campeonato de forma competitiva.  

Essa produção é baseada na história real de Billy Beane (Brad Pitt), gerente de um time de beisebol, o Oakland As (um time distante dos líderes da primeira divisão) quando revolucionou a forma de contratar jogadores, utilizando os diversos conhecimentos estatísticos aplicados por Peter Brand (Jonah Hill) ao esporte. O Oakland As, devido ao baixo valor de caixa, passou a comprar o passe de jogadores desacreditados, mas promissores, que aliam custo/benefício, montando um baita time/elenco. E assim, mesmo com toda pressão da mídia, obstáculos pessoais dos atletas, o jogo de intrigas dos bastidores do poder sobre o Oakland, a perseverança e obstinação de Billy para ganhar o campeonato são vistos revolucionários até hoje.


Por mais que o grande nome da produção seja o de Brad Pitt (em uma de suas melhores performances como que há muito tempo não se via) a interpretação de Jonah Hill, cujo nome estava sempre associado a comédias despretensiosas, é um destaque a parte nessa produção. Com seu jeito tímido, com ares de nerd, demonstrou sua importância dentro da história, inclusive roubando a cena de atores consagrados com Philip Seymour Hoffman, que fez o papel de técnico contrariado do Oakland. A coragem do protagonista de modificar o que era visto como certo (valorizando os jogadores por seus resultados e não pela sua fama) pode não ter consagrado seu time como planejado, mas outros grandes times do beisebol que adotaram sua logística na contratação e desenvolvimento da equipe conseguiram – graças à persistência de Billy quando não cedeu a pressão posta sobre ele no início do campeonato. Dentre suas conquistas reais, ficou o recorde de vitórias consecutivas por partida.  

No filme "O Homem que Mudou o Jogo", mesmo com a trama girando em volta do esporte, não se prende necessariamente a ele, deixando os sentimentos tempestuosos dos envolvidos em primeiro plano. O diretor Bennett Miller criou um filme, cujo título, que mesmo não fazendo jus ao seu desempenho, em razão a sua narrativa clássica em contar a história, transpõe um filme familiar e competente, com ares de inovação que vai agradar até mesmo que não entende de beisebol.

Nota: 7,5/10
____________________________________________________________________________

sábado, 11 de agosto de 2012

Crítica: Busca Implacável | Um Filme de Pierre Morel (2008)



O cinema francês reciclando ideias e criando grandes filmes

“Não sei quem são vocês. Não sei o que querem. Se querem um resgate, eu não sou rico. Porém, possuo habilidades muito especiais. Habilidades que adquiri durante uma longa carreira. Habilidades que me tornam um pesadelo para gente como vocês. Se soltar minha filha agora, tudo termina aqui. Não irei procura-los nem persegui-los. Caso contrário, irei atrás de vocês. Eu os encontrarei... e os matarei.” A voz estranha do outro lado da linha apenas deseja: “Boa Sorte”.

O que o sequestrador não sabia, era que ele mexeu com o cara que acaba de declarar guerra contra ele, ou qualquer um que tente impedi-lo de salvar sua filha. Kim (Maggie Grace), filha de Bryan Mills (Liam Neeson) um ex-espião agora aposentado, é sequestrada em Paris – sequestro acompanhado pelo pai através do telefonema desesperador da filha – o fazendo partir para França para resgatá-la. Bryan não irá medir esforços para localizar e declarar guerra contra uma gangue do submundo parisiense. Assim "Busca Implacável(Taken, 2008), através dessa premissa torna-se um suspense de ação à altura da trilogia Bourne. Liam Neeson encabeça uma trama simples, porém bem conduzida por Pierre Morel, um dos maiores cineastas do gênero de ação do cinema francês. Mais um diretor francês que sabe bem reciclar ideias do cinema americano, convertendo uma fórmula batida, em transposições arrojadas. Por mais que a história tenha início em território americano, toda trama se desenrola na Europa – mais especificamente em Paris. Uma viagem turística da filha e de uma amiga se resulta em um sequestro comum para as autoridades locais, mas que deixam o experiente Bryan horrorizado com tamanha violência. A caçada pelo paradeiro da filha começa do momento da chegada a Paris até o desaparecimento dramático que foi acompanhado por telefone a milhares quilômetros.  Ponto para o roteiro. Mantém uma linha lógica com um toque perspicaz de dramaticidade, que passa normalmente batido pelos roteiros Gringos, mas que é aplicado em pequenas proporções por todo o longa. Detalhes e procedimentos de campo de um verdadeiro agente – usados pelo protagonista – são ferramentas essenciais para ambientação convincente, e vitais para dar segmento à trama, que sobe a cadeia hierárquica do crime e da corrupção na cidade.


O roteiro, de criação de Luc Besson (também produtor) e Robert Mark Kamen, usa um mafioso esquema de prostituição como o estopim para alavancar toda trama, porém o andamento da história é onde mora sua virtude. Além do desencadeamento de situações que levam o protagonista mais próximo de sua filha de forma competente, todo desenvolvimento é intercalado com tiroteios bem conduzidos, perseguições legais e lutas executadas por Liam Neeson, que não fazem feio perto de um Jason Bourne. Mesmo tendo a idade que tem, visível aos olhos do espectador, sua interpretação – de experiência e motivação condicionada – convence como a de astros do naipe de Bruce Willis em Duro de Matar 4.0, que também não é mais nenhum garoto, mas que abusa na porrada sem ficar ridículo.

Embora os diálogos não sejam excelentes, as frases de efeito, imprescindíveis em um bom filme de ação não causam apenas efeito. Mas vários efeitos, dentre eles choque. Aguardamos que seja dito algo, uma frase, ou apenas uma palavra, que às vezes não chega nem sequer a se completar, e um tiro a queima roupa é disparado sem hesitação. O resultado é vibrante, pois dispensa um monte de conversa mole e papo furado que na maior parte do filmes se torna maçante, pelo som de um tiro dado no momento certo, que responde por mil palavras. "Busca Implacável" é um dos melhores filmes de Morel desde não sei quando. Cinema de ação de qualidade inegável e bem condimentada. Luc Besson sabe produzir bons filmes quando quer. Por isso é bonito, bem apresentado, gostoso de ver e que dá aquela sensação de satisfação, como somente a glamorosa culinária francesa é capaz de criar. E o melhor: com uma sequência estreando em breve, ainda por cima, poderemos repetir. Somente espero que não vire marmita feita "Carga Explosiva".

Nota: 8/10 

__________________________________________________________________________