domingo, 29 de maio de 2016

Crítica: Jogo de Espiões | Um Filme de Tony Scott (2001)


Nathan Muir (Robert Redford) é um ex-manda-chuva da CIA que se prepara para se aposentar de suas responsabilidades na agência. Depois de uma longa e promissora carreira na cadeia de comando CIA, um dia antes do tão famigerado dia de sua aposentadoria ele é surpreendido com uma inesperada notícia: um de seus pupilos, e também grande amigo, o agente Tom Bishop (Brad Pitt) está preso e condenado à morte em uma prisão chinesa, onde a sentença será executada no prazo de 24 horas. Determinado a libertá-lo antes que o prazo se esgote, mesmo sem o consentimento do governo americano, toda sua experiência é colocada á prova. Sendo que ao mesmo tempo em que tenta salvar o amigo da morte, ainda precisa lidar com o jogo interesses dos chefões da inteligência que estão ansiosos para colocá-lo de lado por definitivo. “Jogo de Espiões” (Spy Game, 2001) é thriller de espionagem internacional dirigido pelo britânico Tony Scott (1944-2012), realizador de filmes comoTop Gun: Ases Indomáveis”, “Déjà Vu”, “Inimigo de Estado”, entre muitos outros mais. Escrito por Michael Frost Beckner e David Arata, em contrapartida de seu desenvolvimento inverossímil, o filme é intenso, ágil e repleto de boas sacadas narrativas, onde essa produção está recheada de várias qualidades de seu realizador que consegue extrair da mais simplista premissa uma dose extra de energia.  

Jogo de Espiões” não é máxima do gênero, mas tem o seu valor. E justamente por ter sido feito por quem foi. Tony Scott (irmão de Ridley Scott) sempre buscou levar o espectador a uma experiência eletrizante, repleta de adrenalina e que prenda a atenção do espectador do começo ao fim sem dificuldades, mas não necessariamente memorável. Suas capacitações sempre se focaram em histórias enxutas que pudessem ganhar força na forma e no movimento. E isso ele sempre conferiu ao seu trabalho, como combinar talentos consagrados no elenco com propensos astros; além de imprimir uma roupagem arrojada através do uso de um condicionamento técnico sofisticado no desenvolvimento de suas histórias de claro foco comercial. Em “Jogo de Espiões” não é diferente. Acompanhar com atenção Robert Redford no complexo jogo de intrigas internacionais com suas memórias do passado quando recrutou Brad Pitt no fervo do Vietnã, além de missões conjuntas, o filme esbanja habilidade na montagem do nostálgico passado com alarmante presente. Duas atuações de grande trunfo que ganham intensidade pelas competências de Tony Scott. O filme tem em seu conjunto uma boa dose de humor inteligente e um toque de ação e suspense bem conduzido. “Jogo de Espiões” não é o melhor thriller de espionagem que já vi, como também não é o melhor filme realizado por Tony Scott, mas apresenta duas ótimas atuações dos protagonistas que elevam o resultado e ao mesmo tempo estampa várias qualidades que seu realizador adotava em seu trabalho.

Nota:  7,5/10
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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Crítica: Darkman: Vingança Sem Rosto | Um Filme de Sam Raimi (1990)


Peyton Westlake (Liam Neeson) é um empenhado cientista que tem todo o seu trabalho focado na pesquisa e criação de peles sintéticas para auxiliar pessoas no tratamento de deformidades estéticas. Mas durante a fase final do desenvolvimento da pele, ele é atacado e brutalmente espancado dentro de seu laboratório e deixado para morrer em uma explosão. Embora tenha sobrevivido a explosão, seu rosto e seu corpo ficaram completamente desfigurados por graves queimaduras. Submetido a uma cirurgia que inibe qualquer sensibilidade física, seu corpo perde a capacidade de sentir dor, como também passa a produzir doses extremas de adrenalina que lhe conferem grande força e uma resistência física superior a uma pessoa normal. Porém há outro efeito colateral preocupante: ele passa a ter ataques de nervos que o tornam extremamente agitado que o levam ao total descontrole emocional, algo com ele tem que aprender a lidar. Mas quando ele consegue dominar os prós e contras de sua nova pessoa, Peyton começa a arquitetar um plano de vingança aos seus malfeitores usando suas pesquisas de pele para criar disfarces acima de qualquer suspeita. “Darkman: Vingança Sem Rosto” (Darkman, 1990) é um produção estadunidense de ficção científica e ação dirigida por Sam Raimi (o mesmo responsável pela trilogia oitentista “Uma Noite Alucinante” e pelos filmes da primeira franquia “Homem-Aranha” iniciada entre 2002 a 2007). Após ter sido negado a Sam Raimi o direito de adaptar e dirigir o personagem The Shadow (um pioneiro super-herói dos quadrinhos a qual a trama se passa na década de 30) para as telonas, Raimi decide criar seu próprio super-herói aos moldes de suas aptidões narrativas. Não é que deu certo.

Darkman: Vingança Sem Rosto” foi o primeiro longa-metragem de estética e narrativa semelhante a um filme de super-herói lançado pelo cineasta. Embora não tenha sua origem firmada nas páginas dos quadrinhos como é de costume, e igual a outro famoso personagem aracnídeo (leia-se Homem-Aranha por aracnídeo) que adaptou para as telonas bem mais tarde, Darkman segue veemente um conjunto regras desse subgênero com algumas liberdades poéticas (a máscara é uma necessidade vital). Sobretudo, o personagem tem em sua essência um coração puro, que se sujeita a uma vida de abnegações (a impossibilidade da continuidade de seu amor por sua esposa) e que possui uma trajetória de sacrifícios para perpetrar a justiça sobre o mal. Obviamente com um toque autoral de seu realizador, que não suaviza os acontecimentos do enredo e radicaliza ao mostrar sua jornada de vingança e justiça. Interpretado com o brilhantismo que somente Liam Neeson seria capaz conferir a um personagem inverossímil e fantástico como Darkman, o filme se mostra uma experiência genial de seu tempo. Mesmo com uma trama improvável num mundo real, uma aparência de pouco apelo visual se comparado aos atuais filmes de super-herói e muita competência na frente e atrás das câmeras, “Darkman: Vingança Sem Rosto” é um filme imprescindível para ser redescoberto. Sem os encantos de uma grande produção hollywoodiana, ainda assim esse filme consegue na maior parte dos casos, causar com sua simplicidade uma grande empatia do público. Embora tenha posteriormente gerado duas sequências: “Darkman II: O Regresso de Durant”, lançado em 1995; e “Darkman 3: Enfrentando a Morte”, de 1996; ambos de pouca pertinência. Obviamente o primeiro é imbatível.

Nota:  8/10   
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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Crítica: Capitão América: Guerra Civil | Um Filme de Anthony Russo e Joseph V. Russo (2016)


A Marvel tem se estabelecido com grande fluência na sétima arte nesses últimos anos. Se não bastassem as primorosas adaptações da franquia dos X-Men que ganharam contornos de reinvenção a partir de “X-Men: Primeira Classe”, a trajetória de todos os personagens em volta dos Vingadores tem obtido grande sucesso de público e crítica. Os filmes da Marvel tem adotado um satisfatório padrão de qualidade como nunca se tinha visto antes. São em geral, adaptações de enredo genialmente esculpido nos moldes do universo cinematográfico da Marvel e realizadas com grande competência pelos mais variados realizadores. “Capitão América: Guerra Civil” (Capitain America: Civil War, 2016) é um filme de super-heróis da Marvel Studios baseado em um dos mais pertinentes arcos dos quadrinhos que dá continuidade a uma excelente fase da produtora. Em sua trama acompanhamos o crescente agravamento da opinião pública sobre as atividades dos Vingadores. Após outro incidente que acabou causando danos colaterais para a imagem do grupo liderado por Steve Rogers, o Capitão América (Chris Evans), a pressão do governo para instalar uma politica de comando e supervisão sobre as atividades dos Vingadores se intensifica. Motivada pelo Homem-de-Ferro, o também multimilionário Tony Stark (Robert Downey Jr.), a ideia se confronta com os conceitos e interesses do Capitão América, o que acaba criando duas distintas equipes de super-heróis que irão entrar em combate por seus ideais.


Capitão América: Guerra Civil” tem pouco de adaptação em sua estrutura. Semelhanças existem (algumas motivações e personagens familiares), mas ainda assim poucas para se chamar de adaptação. A obra dos quadrinhos escrita por Mark Millar e desenhada por Steve McNivem serviu mais como uma preciosa inspiração para esse novo produto, já que toda essência do material original está convenientemente moldada ao enredo dos demais filmes dessa franquia da Marvel. Filmes como “Vingadores: A Era de Ultron” e “Capitão América: O Soldado Invernal” ressoam sobre a narrativa de “Capitão América: Guerra Civil”, e as qualidades do roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely ganham força pela competência dos diretores Anthony Russo e Joseph V. Russo. O desenvolvimento de novos personagens como o do jovem Homem-Aranha (Tom Holland) e o do Pantera Negra (Chadwick Boseman) são uma surpresa agradável ao conjunto. A presença de Tom Holland é a surpresa do alívio cômico que o filme precisava gerando uma boa promessa para novos filmes. Personagens já conhecidos do universo cinematográfico da Marvel ganharam mais aprofundamento do que se poderia esperar, e atuações dramáticas como a de Chris Evans e Robert Downey Jr. são bem-vindas a um filme normalmente associado a um produto de evidente entretenimento fácil. O Homem de Ferro está mais sério do que em qualquer outro filme anterior. Além do mais, os diretores habilidosos em amarrar os acontecimentos de importância da trama principal, ainda se destacam brilhantemente em orquestrar sequências de ação inspiradas (destaque para sequência final de luta entre Homem de Ferro contra Capitão América e o Soldado Invernal).

No final das contas, “Capitão América: Guerra Civil” é um dos melhores filmes dessa franquia até o momento. E olha que muitos diziam ser impossível superar a eficiência de “Capitão América: O Soldado Invernal” de tão bom que era. Mas esse filme tem a essência de sua trama bem ajustada aos percalços dos personagens na telona, a ação é pontual de forma significativa e vibrante e o desfecho resultante de uma inesperada reviravolta na história que deixa o público dividido entre para quem vamos torcer é também, um bem-vindo desencadeador de debates. Um ótimo filme de entretenimento como vários outros da marca Vingadores.

Nota: 8,5/10
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terça-feira, 24 de maio de 2016

Crítica: Presságios de um Crime | Um Filme de Afonso Poyart (2015)


Numa caçada a um serial Killer, os detetives do FBI, Joe Merriwether (Jeffrey Dean Morgan) e Katherine Cowles (Abbie Cornish) se veem perdidos pela a astúcia de um desconhecido criminoso. Com poucas pistas e nenhuma prova consistente do autor dos crimes, Joe solicita a ajuda de um antigo amigo e também vidente paranormal, o Doutor John Clancy (Anthony Hopkins) para ajudar nas investigações como uma espécie de consultor. Afastado de suas competências desde a morte de sua filha, John pode ser uma figura essencial ao seu modo na descoberta do paradeiro do serial Killer que nunca deixa pistas. Mas para a surpresa de todos os envolvidos na caçada, o desconhecido assassino também mostra ter habilidades extraordinárias de premonição que o coloca sempre a um passo adiante de seus perseguidores. “Presságios de um Crime” (Solace, 2015) é um thriller policial de suspense paranormal escrito por Ted Griffin, Peter Morgan e Sean Bailey; e dirigido pelo cineasta brasileiro Afonso Poyart (responsável pelo filme de ação nacional “2 Coelhos”, de 2012). Em comparação, se para José Padilha o cinema estadunidense não conferiu muito a sua sólida carreira em terras brasilienses, que mesmo embora tenha entregado um remake bem realizado do personagem Robocop, o filme também se mostrou um produto esquecível no decorrer do tempo. Assim sendo, Afonso Poyart se deu melhor numa série de aspectos. Porém não o suficiente para que fizesse sua estreia em Hollywood algo memorável ou realmente gratificante.


Presságios de um Crime” se mostra um mix de ideias de uma série de outros filmes policiais que tem em seu âmago algo semelhante. Embora a mistura se mostre bastante equilibrada ao conjunto, onde a direção estilizada de Poyart confira uma narrativa bem arrojada e o elenco principal uma entrega de personagens adequada à proposta do enredo, o filme carece da perda da artificialidade que predomina na película. Toda a história, a fusão dos acontecimentos e a forma como se apresenta ao espectador é de um ajustamento técnico e narrativo irritante para quem busca filmes autorais sobre a temática da paranormalidade e capacidade de premonição. Sua aparência ajustada e precisa é seu maior defeito. Funciona com eficiência até certa altura, mas depois cansa e por fim não gera mais expectativas nas reviravoltas da trama. O filme até é bom como entretenimento escapista, e se mostra uma estreia interessante para Poyart, mas isso devido ao talento do elenco envolvido que entrega bons papéis apesar do roteiro subdesenvolvido que se arma mais de soluções visuais do que propriamente de sacadas teóricas de natureza investigativa. Tudo é muito abstrato em seu desenvolvimento até os esclarecimentos. O requinte visual proporcionado ao espectador é de um encantamento mágico, proporcionado por uma direção de fotografia bastante cuidadosa, e a trilha sonora eclética (de responsabilidade de Brian Transeau) é outro ponto forte na composição da atmosfera necessária para erguer esse longa-metragem. Assim sendo, “Presságios de um Crime” não chega a ser um thriller policial ruim, mas também não mostra nada de novo aos espectadores. Somente se trata de um enlatado comum entre uma infinidade de outros semelhantes na prateleira.

Nota:  6/10
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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Crítica: Uma Saída de Mestre | Um Filme de James F. Gray (2003)


Filmes de golpe são comuns no cinema. Um subgênero de inegável sucesso e aceitação de público. Na maioria dos casos, esses filmes seguem um pequeno repertório de regras e fórmulas de eficiência comprovada que são capazes de alçarem o resultado ao sucesso ou a uma simples estatística. Na maioria apenas servem como uma fuga de entretenimento fácil. Mesmo com inúmeros exemplares sendo lançados anualmente, a maioria se perde no convencionalismo do gênero e caem no esquecimento do público. Assim sendo, o nível de sucesso ao qual atingem acaba dependendo única e exclusivamente da empatia do público pela disposição dos elementos que compõem o conjunto. Enfim, ao longo dos tempos não há um ano sequer que esse gênero não seja revisitado, e ocasionalmente surgem alguns filmes legais que merecem serem relembrados. “Uma Saída de Mestre” (The Italian Job, 2003) é um thriller de crime estadunidense escrito por Troy Kennedy-Martin e tem o roteiro de Donna Powers e Wayne Powers. Dirigido por James F. Gray, essa produção é baseada em um filme britânico de 1969, chamado “Um Golpe à Italiana”. Trata-se de um remake que é uma mistura equilibrada de entretenimento eficiente em uma realização competente, isso dentro de sua proposta. Em sua trama acompanhamos uma quadrilha de ladrões que unem suas diferentes habilidades para executar mirabolantes assaltos pelo mundo. Mas uma inesperada traição na quadrilha ocasiona o assassinato de um veterano após uma bem sucedida operação em Veneza onde foi roubado cerca de 35 milhões de dólares em ouro. Anos depois do fato, os demais sobreviventes dessa traição traçam um plano de vingança ao qual, com a ajuda da filha do veterano assassinado, elaboram o resgate do ouro roubado deles e a punição do traidor.

Uma Saída de Mestre” é a grata reunião de um elenco bem descolado em meio a uma trama repleta de reviravoltas engendradas por um roteiro astuto. Mark Wahlberg, Charlize Theron, Donald Sutherland, Jason Statham, Seth Green, Mos Def e Edward Norton são nomes que figuram nesse elenco de estrelas. Vários personagens de diferentes naturezas que coexistem em uma delicada harmonia em prol de um ideal comum: punir o ganancioso traidor interpretado por Edward Norton. Essa produção é genialmente elaborada com ótimas passagens de ação, todas sem apelos visuais de natureza artificial ou com extravagantes explosões e tiroteios exagerados, onde toda a ação se apoia na inteligência e na elaboração técnica arrojada. É um bom filme de ação que não tem derramamentos de sangue desnecessários. O uso dos automóveis da linha Mini Cooper nas perseguições é um show a parte; os carros são quase como personagens na trama a tamanha importância das máquinas dentro do enredo, que aproveita bem todo o potencial dos pequenos automóveis. O humor inteligente é outro ponto forte do filme; com bons diálogos e várias passagens divertidas essa produção se assegura como um bom filme de entretenimento leve, formidavelmente conduzido com solidez por James F. Gray. Filmado com agilidade, montado de forma enxuta e detentor de uma trilha sonora empolgante, “Uma Saída de Mestre” é a máxima do que se pode chamar de um filme de ação leve e divertido. Embora esteja afundado em clichês, perdido no convencionalismo do gênero, ainda é inegável que se trata de um produto tão agradável quanto ter um Mini Cooper na garagem de casa.

Nota:  7/10
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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Crítica: O Abutre | Um Filme de Dan Gilroy (2014)


Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) sempre foi um ladrãozinho qualquer de Los Angeles que agia as margens da sociedade na busca por dinheiro fácil. Mas até a vida do crime não tem lhe conferido moleza alguma, já que estava cada vez mais difícil sobreviver através de pequenos roubos. Comunicativo, inteligente e aparentemente ingênuo, o ar de cordialidade que ele costumeiramente busca estampar no seu comportamento também escondia a faceta de um homem frio e calculista que ambiciona encontrar o sucesso. E quando seus problemas financeiros se intensificam, é no acaso que surge na profissão de cinegrafista freelancer, que grava as consequências de desastrosos acidentes e cenas de crimes dos mais variados, a revelação de uma nova e recém-descoberta profissão que pode lhe conferir o tão famigerado sucesso. O material de suas gravações era oportunamente vendido pela melhor oferta aos noticiários locais que os exibem em horários nobres de forma pouco criteriosa. Louis demonstrava ter o temperamento certo para prosperar na função, considerando que esse jornalismo sensacionalista tem crescido no gosto popular na mesma proporção que tem sido possível captura-lo pela lente da câmera. Mas algo terrível pode estar acontecendo quando Louis começa a ultrapassar a linha tênue entre observador a fabricante de notícias. “O Abutre” (Nightcrawler, 2014) é um thriller policial neo-noir escrito e dirigido pelo californiano Dan Gilroy. Responsável pelo roteiro de filmes comerciais como “Freejack”, “Uma Loira em Apuros”, “Gigantes de Aço” e “O Legado Bourne”, produções onde todos os filmes oscilavam entre uma qualidade mediana e esquecível, Dan Gilroy surpreende com sua estreia na direção.

Diferentemente do roteiro de seus filmes anteriores, “O Abutre” é o resultado de uma superação. Se tivesse sido realizado por diretores de filmografias mais sérias não seria nenhuma surpresa. Mas por ter saído da mente e das mãos de Gilroy, somos apresentados a um promissor cineasta em ascensão. Sua retratação visceral de um mundo que existe nas sombras da sociedade é mais do que promissora. Polêmico, crítico e coeso com uma realidade contemporânea impactante, Dan Gilroy entrega um filme surpreendente que explora todas as possibilidades de sua premissa e do enredo em si. De roteiro bem escrito e atual, o filme é genialmente bem filmado (a direção de fotografia que intensifica o visual noturno de Los Angeles e as locações decadentes da cidade é tudo de uma qualidade e escolha impecável). E a história que retrata a proliferação de profissionais como o de Louis Bloom (interpretado por Jake Gyllenhaal), uma consequência de uma crescente audiência por esse tipo de informação, é outro ponto forte dessa produção. Porém o filme é favorecido, sobretudo pela atuação brilhante de Jake Gyllenhaal, um retrato bastante autoral de uma figura sociopata dos novos tempos. Porque se trata de um profissional criticado por muitos e idolatrado por outros. Personagens como a de Romina (Rene Russo), também esposa do diretor Dan Gilroy é outro ponto forte do filme, tanto por sua atuação como por sua relevância dentro do panorama abordado pela produção.

O Abutre” é um filme imperdível a todo e qualquer tipo de cinéfilo. Sua retratação dos rumos que o jornalismo tem tomado numa disputa por audiência; a responsabilidade ou a irresponsabilidade com que a televisão tem com seus espectadores; a ganância desenfreada que move muitos profissionais ligados aos meios de comunicação são temas ligeiramente dissecados e presentes em “O Abutre”. Mas o que faz dessa produção um produto surpreendente é que tudo foi genialmente mesclado com crime e uma atmosfera de cinema formidável.

Nota:  8/10
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sexta-feira, 13 de maio de 2016

Sexta-Feira 13 | Jason Voorhes nunca morre!


terça-feira, 10 de maio de 2016

Crítica: Evereste | Um Filme de Baltasar Kormákur (2015)


Baseado em fatos reais, o desastre que ocorreu em maio de 1996 no alto do Monte Evereste foi uma tragédia que marcou e ressoa como um aviso importante da história mais recente dessa montanha. Isso foi ocasionado pelo fato que vários escaladores de diferentes nacionalidades morreram naquela primavera ao tentar escalar a mais alta montanha do mundo. Um desafio que se mostrou tão perigoso quanto surpreendente. Isso ocorreu quando duas expedições, a da Adventure Consultants e da Mountain Madness foram surpreendidas por uma perigosa tempestade de ventos fortes e nevascas ofuscantes. Ambas as empresas especializadas em conduzir alpinistas amadores ao topo da montanha estavam em uma disputa por evidência na imprensa mundial e a pressão de obter sucesso em seu objetivo era muito grande. Enquanto uma era conduzida pelo guia neozelandês Rob Hall (Jason Clarke) e a outra pelo norte-americano Scott Fisher (Jake Gyllenhaal), a certa altura da expedição uma agressiva e repentina mudança climática muda tudo e as já difíceis chances de sobrevivência nesse inóspito território caíam para zero. O clima de propicio a insustentável tornou quase impossível o retorno ao acampamento mais próximo, como também tornou inviável a possibilidade de um resgate seguro aos poucos sobreviventes. Mesmo que muitos dos escaladores naquele ainda assim tenham conseguido sobreviver, os que morreram são lembrados e homenageados através desse relato cinematográfico. “Evereste” (Everest, 2015) é um drama escrito por William Nicholson e Simon Beauty e dirigido pelo eficiente diretor islandês Baltasar Kormákur. Um diretor que veio a estrear em Hollywood com o funcional “Contrabando”, em 2012 e depois com o thriller de ação policial “Dose Dupla”, em 2013. Em “Evereste” o diretor mescla bem um espetáculo visual de foco comercial com a devida seriedade dramática de um produto competente.

Evereste” tem em sua essência uma legítima história de bravura em meio às adversidades proporcionadas pela implacável mãe natureza. O que poderia ser apenas um típico filme-catástrofe ou de sobrevivência ao grande público, o que agradaria facilmente um significativo percentual de espectadores, também é capaz de oferecer algo mais ainda que em proporções menores do que espectadores que apreciam filmes baseados em fatos reais esperariam do enredo.  Mas esse confronto entre homem versus natureza retratado no trabalho de Baltasar Kormákur se mostra uma boa surpresa, de um lado conferido pelo espetáculo visual arrebatador dado pelo condicionamento técnico impecável; como do outro, pela reunião de um elenco espetacular muito bem aproveitado pela direção. Josh Brolin, Jake Gyllenhaal, Jason Clarke, John Hawkes, Robin Wright, Sam Worthington, Keira Knightley e Emily Watson são as escolhas de um grande elenco que colabora com o conjunto. Ao materializar suas histórias pessoais que fortalecem a carga emocional do filme, seus personagens criam um vínculo de empatia com o público vital. Com cerca duas ou três passagens de grande emoção (a história pessoal de um dos escaladores, o carteiro interpretado por John Hawkes é de amolecer o coração), ou o telefone da esposa grávida de Jason Clarke em um momento crucial da tragédia é outra passagem arrebatadora do filme. Sobretudo, há outras mais espalhadas ao longo da segunda hora dessa produção, já que a primeira se prende necessariamente a uma fluente apresentação de personagens e criação de atmosfera, onde qualquer descuido na escalada pode custar à vida.

Evereste” dispensa um embelezamento artificial para impor respeito. A carga dramática acontece naturalmente pela competência do elenco, ou pela força da história em si; a ação é sutil e precisa em proporção e na pontualidade; e a forma como Baltasar Kormákur transpõe o roteiro que foi inspirado em diversas fontes captura bem a atmosfera de vertigem preponderante no enredo. Embora a qualidade da imersão não tão eficiente quanto se gostaria, a contemplação dos acontecimentos já basta para garantir uma boa dose de satisfação. Trata-se de um exemplar a espera de ser descoberto. Além do mais, em certa passagem é destacado: Por que escalar o Monte Evereste? A resposta é: Porque ele está lá. Assim sendo, eu pergunto: Por que assistir “Evereste”? Para começar, somente pelo fato dele existir já é um bom começo.   

Nota:  7,5/10
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domingo, 8 de maio de 2016

Crítica: Confissão de Assassinato | Um Filme de Jung Byung-Gil (2012)


Segundo um ditado popular: “A justiça tarda, mas não falha”. Mas essa afirmação não é totalmente correta ou ao menos segura. Considerando que em alguns casos que a justiça se mostrar tardia de mais, a falha é inevitável. Porque se um crime de assassinato sem solução, que não há a esperada punição ao assassino dentro de um período de tempo especifico, o crime acaba prescrevendo num prazo de 15 anos e o autor absolvido automaticamente como o crime arquivado permanentemente. O que consequentemente faz com que uma descoberta posterior a esse prazo acaba não implicando em mais nada ao autor. Sabendo disso, Lee Du-Seok (Park Shi-hoo) publica um livro autobiográfico em que descreve ser o autor de uma série de homicídios contra mulheres, justificado pelo o arrependimento de seus atos hediondos, onde convenientemente é lançado após 15 anos do ocorrido. Lee Du-Seok tem ares de galã de cinema e as suas revelações descritas em seu best-seller geram muita polemica e lhe conferem o status imediato de celebridade. Porém o detetive Choi (Jeong Jae-yeong), responsável pelas investigações dos homicídios na época suspeita que haja muito mais por trás dos fatos. Essa repentina aparição e confissão esconde muito mais do que um aparente arrependimento de um assassino em série que procura sob os holofotes da imprensa fazer as pazes com seu passado. “Confissão de Assassinato” (Nae-ga sal-in-beom-i-da, 2012) é uma produção sul-coreana do gênero suspense policial dirigida pelo estreante Jung Byung-Gil. Sem a fama de outros cineastas sul-coreanos como Park Chan-Wook (Oldboy) e Bong Joon-Ho (Expresso do Amanhã), o longa-metragem de estreia de Jung Byung-Gil somente sinaliza todo o potencial de mais um promissor diretor sul-coreano que não desperdiça o potencial do plot.


Confissão de Assassinato” não se difere em muito da maioria das produções sul-coreanas que tem como temática comum o crime, a vingança apresentadas com toques de brutalidade crua. Porém ao agrado dos espectadores, as formas como os cineastas de lá expõem esses aspectos faz toda a diferença. Pelo que parece, Jung Byung-Gil também tem essa capacidade de fugir do convencional e imprimir um toque autoral em seu trabalho. Alternando bem uma trama séria com boas passagens de humor, o diretor e roteirista Jung Byung-Gil é ágil com a câmera como poucos cineastas de seu país. Além de tudo, “Confissão de Assassinato” tem uma montagem bem elaborada que intensifica as grandes sacadas do roteiro que detêm ótimas reviravoltas (principalmente que antecipa o desfecho final), embora sua direção de fotografia seja irregular em certas passagens. Sobretudo isso também não atrapalha em nada a experiência pela qualidade de uma série de outros aspectos em redor dessa produção. Os atores, por exemplo, (que obviamente não são nomes de fácil reconhecimento do público ocidental) cumprem com seu papel de maneira magistral e se mostram escolhas bem sucedidas a proposta desse longa-metragem. A ação é outro ponto forte. Distante das cenas de luta genialmente coreografadas típicas do cinema de Hong Kong, as esperadas cenas de luta aqui são mais sujas assemelhando-se a brigas de rua; enquanto as perseguições de carro, as correrias e os tiroteios se afirmam sem censura na ficção. Trata-se de um típico filme que surge e morre em festivais de cinema, e vem apenas a serem descobertos pelo grande público através de canais de TV paga, embora isso não diminua a intensidade do desenvolvimento apresentado pelo longa-metragem. Apenas se mostra um reconhecimento atrasado de sua potencialidade. No final das contas, “Confissão de Assassinato” tem potencial de entretenimento sobrando e não faz feio diante de nenhuma produção de Hollywood do mesmo gênero.

Nota: 7,5/10 
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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Crítica: As Duas Faces de Janeiro | Um Filme de Hossein Amini (2014)


Quando menos se espera, algo de ruim pode acontecer. O que diga esse elegante cavalheiro que atende pelo nome de Chester MacFarland (Viggo Mortensen), um empresário de aparente sucesso que está de férias com sua linda esposa, Collette (Kirsten Dunst) na cidade de Atenas, na Grécia no ano de 1962. Entre um ponto turístico e outro, sempre deslumbrados com as fascinantes belezas de Acrópole e sua região, o casal apaixonado não poupa gastos e nem se censura em dar uma extensa continuidade ao seu programa de viagens internacionais. Porém certa noite nas dependências do hotel ao qual o casal está hospedado, um homem intimidador que busca esclarecimentos quanto a certas dívidas de Chester deixadas nos Estados Unidos é assassinado acidentalmente. Disposto a não responder pelo crime, Chester contrata um ganancioso guia turístico chamado Rydal (Oscar Isaac) a quem conheceu em sua passagem por Atenas e que vai ajuda-los a se livrar do corpo e escapar das autoridades locais. No entanto, durante a necessária jornada de fuga em direção à Turquia o relacionamento do trio de foragidos se inflama e a acordo de cumplicidade firmado pelos dois homens se deteriora por divergências em seus pontos de vista e pelo ciúme que Chester tem por Collette. Assim à medida que se distanciam das provas do crime rumo à impunidade, o cadáver deixado na lembrança começa a ser apenas um dos muitos pecados que ainda estão por vir. “As Duas Faces de Janeiro” (The Two Faces of January, 2014) é um thriller de suspense baseado no romance de Patricia Highsmith, e é a estreia da direção do iraniano-inglês Hossein Amini, um conhecido roteirista de famosos filmes de sucesso do cinema internacional e que também assina o roteiro.


As Duas Faces de Janeiro” se mostra uma farsa. A premissa intrigante se perde num desenvolvimento maçante. Porém, ainda que se mostre também uma estreia interessante para Hossein Amini, o filme carece de força ao que se propõe e se desenvolve de forma ligeiramente indecisa em seu foco. Se em algum momento a direção pretendeu realizar uma espécie de homenagem ao mestre Hitchcock, falha ao desenvolver a atmosfera correta para isso. Ainda que os aspectos técnicos sejam impecáveis (a reconstituição do período em que se passa a trama e a direção de fotografia é mais do que primorosa), o ritmo se mostra arrastado de modo estranho. É perceptível a ausência de algo mais que nunca surge na tela. E se Oscar Isaac se destaca em sua atuação com um punhado de facetas e um personagem de psicologia muito mais complexa do que se pode constatar a primeira vista, possibilitando a entrega de uma atuação coadjuvante bastante agradável, o casal composto por Viggo Mortensen e Kirsten Dunst se mostra o calcanhar de Aquiles desse longa-metragem, já que demonstram uma ausência de química excessivamente visível e consequentemente decepcionante. No final das contas, “As Duas Faces de Janeiro” não chega ser um filme necessariamente ruim, mas de pouco alcance. A homenagem é apenas um rascunho do que poderia ser; o romance nunca esquenta os ânimos; o suspense é escasso e as medidas de urgência tomadas no enredo para conseguir a impunidade nunca realmente se mostram urgentes de verdade. Assim sendo, o trabalho de Hossein Amini está mais para uma tragédia grega do que para uma memorável homenagem aos thrillers de suspense da década de 60.

Nota:  5,5/10
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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Crítica: American Ultra: Armados e Alucinados | Um Filme de Nima Nourizadeh (2015)


Mike Howell (Jesse Eisenberg) é um cidadão comum que trabalha em uma desinteressante loja de conveniência na localidade da West Virginia. Entre a criação de inspiradas ilustrações e o corriqueiro fumo de maconha, a coisa a qual ele mais dedica sua atenção é o seu grande amor, a jovem Phoebe (Kristen Stewart). Mas nem tudo na vida de Mike é o que parece. Mike Howell é uma vítima de um programa de treinamento criado pela CIA que lhe conferiu perigosas habilidades de matar e que lhe garantem a sobrevivência diante de uma inevitável situação de risco. Mas ele não se lembra de nada disso. Tudo desse período de sua vida durante o treinamento foi apagado de sua memória convenientemente para que ele pudesse levar uma vida tranquila após o término do programa. No entanto inimigos do passado voltam das sombras para eliminá-lo, e quando sua antiga supervisora, Victoria (Connie Britton) entra em cena e ativa novamente suas extraordinárias habilidades de matar, a ameaça que Yates (Topher Grace) oferece aos interesses da CIA encontrará na estranha figura de Mike Howell uma barreira insuperável, principalmente quando sua amada é lançada no meio do fogo cruzado. “American Ultra: Armados e Alucinados” (American Ultra, 2015) é uma produção estadunidense de ação e comédia escrita por Max Landis e dirigida pelo cineasta iraniano Nima Nourizadeh (responsável pela comédia estudantil “Projeto X: Uma Festa Fora de Controle”, de 2012). Numa mistura destemperada de ação extremada e humor negro, onde o sangue jorra, o tiroteio corre solto e o argumento programado por Landis carece de funcionalidade e principalmente de originalidade, quase nada funciona nesse mix de ideias como imaginado.

Mesmo com Jesse Eisenberg mostrando uma série de trabalhos comercialmente interessantes nos últimos anos, com Kristen Stewart detentora de uma legião de fãs pós Crepúsculo e Nima Nourizadeh, um cineasta de boas ideias, “American Ultra: Armados e Alucinados” não cumpre o que promete: divertir verdadeiramente. Infelizmente, em teoria parecia muito melhor do que realmente se mostra. Se por um lado à ação programada ganha pontos pelo requinte técnico aguçado (o que para o cinema estadunidense também não era um grande desafio se comparado uma infinidade de outras produções do gênero que mostram muito mais sem a metade da pirotecnia que aqui se encontra) a comédia por outro lado é a ruina dessa produção. O que há de errado com as comédias norte-americanas? É difícil dizer. A fórmula de sucesso idealizada aqui já foi de grande retorno no passado. Mas Nima Nourizadeh não acerta no tom de seu filme como ele necessitava, e as delirantes e muito bem cuidadas imagens que transcorrem a pleno vapor na tela não surgem como soluções expressivas para sua história de amor. Porque no final das contas há uma história de amor nas entrelinhas. Considerando que o texto em si não proporciona grandes passagens como deveria, e a história inverossímil se mostra difícil de comprar, o grande elenco principal combinado com outros nomes de algum reconhecimento não equilibram as contas dessa empreitada. As boas piadas se perdem em exibições de brutalidade extrema, em caóticos tiroteios e ações de bravura mal pontuadas pelo roteiro. Há uma constante quebra de ritmo no desenvolvimento da trama que mina ainda mais o resultado, e o elenco até bem escolhido, mas mal aproveitado pelo roteiro não salva “American Ultra: Armados e Alucinados” do lugar comum em que se encontra. Infelizmente.

Nota:  5/10
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