quinta-feira, 28 de abril de 2016

Crítica: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) | Um Filme de Alejandro González Iñárritu (2014)


No passado, o ator Riggan Thomson (Michael Keaton) interpretou com grande sucesso um super-herói para o cinema chamado Birdman. Após se recusar a interpretar o heroico personagem em mais uma sequência do super-herói nas telonas, ele acaba vendo sua fama desaparecer ao longo do tempo. Mas hoje ele tenta através de uma peça teatral a qual adaptou busca reconquistar tudo que perdeu e muito mais. Buscando com todas as suas forças se restabelecer como um ator de sucesso como no passado, porém de trabalho reconhecidamente sério e abandonar sua conturbada ligação com o personagem fictício que o alçou ao sucesso, Riggan encontra nesse desejo uma série de desafios. A tarefa não se mostrará uma missão das mais fáceis porque considerando as dificuldades com que será confrontado, como sua filha (Emma Stone), recém-saída de uma clinica de reabilitação; seu sócio (Zach Galifianakis), um estressado e inseguro empresário; um excêntrico ator de teatro (Edward Norton); uma odiosa critica de teatro; e se tudo isso tudo não bastasse, ainda há uma insistente voz em sua cabeça que não oferece a menor motivação para com seu objetivo, Riggan passará por fase de transcendência para a realização de seu desejo. “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” (Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance, 2014) é uma comédia dramática de humor negro dirigida pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (responsável por “21 Gramas”, de 2003; “Babel”, de 2006 e “O Regresso”, de 2016). Grande destaque do Oscar 2015, o filme foi premiado com três dos mais importantes prêmios do evento (Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original), além do sucesso que alcançou em outros festivais.


Inusitado, incomum e extraordinário, “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” é uma rara experiência de cinema. Elegantemente crítico quanto à crítica especializada, meio autobiográfico (a história parece que foi criada sob medida para o ator Michael Keaton) e inegavelmente genial em sua pretensão e estética que beira o realismo fantástico com direito a estampar traços de metalinguagem, Alejandro González Iñárritu resgata oportunamente Michael Keaton do limbo em se encontrava nos corredores de Hollywood e arranca dele uma de suas melhores interpretações de sua vida. Embora haja também uma seleta escolha de atores que o auxiliam em sua ressureição, com nomes como Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts e Zach Galifianakis no elenco, o que faz toda a diferença no conjunto da obra, ainda assim o filme é de Keaton em vários sentidos; já que o enredo de certo modo se encaixa com sua trajetória no cinemão. Montado de forma a causar a aparente ilusão de que o filme é o resultado de uma longa e continua tomada, “Birdman” exibe um nível de excelência técnica impressionante e impossível de passar despercebido pelo espectador, onde música e imagem se completam com a dramaturgia apresentada. De premissa atraente e argumento ácido e instigante, as inúmeras ideias propostas pelo roteiro alcançam um nível de sucesso impressionante. Temas como o amor, a relevância da crítica, a importância de ser realmente importante, a verdade por trás da arte, a queda das máscaras da ficção, entre outros mais são o combustível que alimenta essa energizada produção que apresenta um fluente repertório de ideias de humor e dramaturgia. “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” foi um dos poucos indicados ao Oscar que vi nos últimos anos que sabia antes mesmo de ver os demais concorrentes, que viria a ganhar pelo menos dois dos principais prêmios aos quais foi indicado. E ganhou.

Nota:  9/10   
_____________________________________________________________________________
      

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Crítica: Máxima Precisão | Um Filme de Andrew Niccol (2015)


A Guerra contra o Terror sempre está ativa no território norte americano. Assim sendo, o major Tommy Egan (Ethan Hawke), um oficial da Força Aérea que está frustrado com sua atual ocupação militar é encarregado de operar ataques aéreos com drones por controle remoto nos arredores do Oriente Médio. Ele passa horas controlando drones sobre espaço aéreo afegão, embora trabalhe em uma base militar em Las Vegas, onde vive num pacato subúrbio desértico com sua esposa (January Jones) e filhos. Se em casa ele vive uma guerra por não se conformar com fim da possibilidade de voltar a pilotar caças, no trabalho surgem outros questionamentos que o perturbam igualmente. A guerra, os métodos de combate ao terrorismo e o perfil desses combatentes tem se transformado tão assustadores quanto à própria guerra. O peso psicológico conferido pela função tem se tornado um fardo insuportável de ser tolerado. “Máxima Precisão” (Good Kill, 2015) é um drama estadunidense escrito e dirigido por Andrew Niccol (responsável por filmes como “Gattaca”, “Senhor das Armas” e “O Preço do Amanhã”). Com uma nova parceria entre Ethan Hawke e Andrew Niccol, o cineasta deixa de lado suas perspectivas comerciais de ficção científica e o seu senso de humor ácido visto em seus trabalhos anteriores, e abraça seu conto de guerra moderno com seriedade e um toque de originalidade bem-vinda que para surpresa de muitos lança um olhar inédito sobre os campos de guerra pós 11 de setembro.

Estranhamente, “Máxima Precisão” é um típico drama de guerra como outros que já foram realizados aos montes pelo cinema. Porém, ao mesmo tempo ele é diferente do que os fãs de filmes assim estão habituados a ver. Porque ele lança um olhar contemporâneo sobre os atuais conflitos nos quais os Estados Unidos da América estão envolvidos. Os aspectos marcantes de uma produção do gênero estão presentes no desenvolvimento, mas camuflados por esse olhar e sem a conhecida aparência. O interessante é que “Máxima Precisão” é uma espécie de retratação da guerra como ela supostamente é hoje. E não como será ou como foi, mas como é hoje. Os perigosos ou áridos campos de batalha foram substituídos por apertadas salas de controle climatizadas a milhares de quilômetros de distância do alvo; os horrores da guerra são acompanhados com alta definição por uma tela de computador a centenas de metros de altura dos objetivos; os dramas dos soldados não se encaixam mais no que foi feito antes e são muito mais caseiros como os de qualquer outro cidadão comum; as arriscadas e caóticas incursões sobre território inimigo são substituídas por voos aéreos; as ordens que desencadeiam questionamentos morais não surgem mais de exaltados generais, mas da voz que sai de um alto-falante por metódicos agentes da CIA; o treinamento completo dos pilotos agora somente se passa em simuladores; como as ferramentas de guerra materializadas nas aeronaves não tripuladas acabam sendo o auge da sofisticação de destruição controlada. Mas ao contrário do que os especialistas em segurança militar imaginavam, a matança por controle remoto ainda assim é capaz de desencadear um efeito negativo sobre os soldados americanos. E “Máxima Precisão” aborda isso com uma dose agradável de competência. 

Máxima Precisão” aborda um assunto bem interessante com um nível de realismo bastante competente. A construção da atmosfera militar que cerca os acontecimentos é de um requinte primoroso. O filme explora bem os vários aspectos e as inevitáveis complicações que a guerra por controle remoto pode desencadear, como a facilidade em envolver inocentes nas baixas, as dificuldades em determinar os alvos, a quem responder numa confusa cadeia de comando e como reagir diante dos possíveis erros que podem acontecer durante uma operação. O homem por trás dos drones é muito mais complexo do que eles próprios. O filme perde um pouco de sua força por causa do argumento pouco estudado, mas ganha pontos preciosos pelo desempenho de Ethan Hawke que entrega um desempenho impressionante se comparado a trabalhos passados, como os demais nomes do elenco principal não fazem feio no conjunto.

Nota:  7/10
_____________________________________________________________________________

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Crítica: A Visita | Um Filme de M. Night Shyamalan (2015)


Afastada dos pais há muitos anos, Paula Jamison (Kathryn Hahn) é surpreendida com a inesperada notícia de que seus filhos, Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) irão visitar durante alguns dias seus avós. Devido a um mal-estar do passado entre eles e sua mãe, até então as crianças nunca haviam os vistos e somente tinham ouvido falar deles. Então foram mandados a uma pequena cidade do interior e logo conhecem o casal de idosos e a casa onde sua mãe viveu sua infância. Mas o clima pitoresco e hospitaleiro da chegada aos poucos vai se deteriorando com o passar dos dias, e as chances dois jovens adolescentes de voltar para casa diminuem com o passar do tempo quando coisas estranhas e assustadoras começam a acontecer em volta dos velhinhos. “A Visita” (The Visit, 2015) é um drama estadunidense de terror e suspense escrito e dirigido por M. Night Shyamalan (responsável por filmes como “O Sexto Sentido”, “Corpo Fechado”, “A Vila”, entre outros mais). Diferentemente de todos os seus trabalhos anteriores, tanto dos seus fracassos como de seus sucessos, M. Night Shyamalan acerta com um bom nível de precisão ao adotar o conceito de found footage (o estilo de falso documentário que ganhou o mundo depois do sucesso de “Bruxa de Blair” em 1999). Abrindo mão dos amplos recursos audiovisuais sempre presentes em todos os seus trabalhos, que sempre foram possibilitados por orçamentos rechonchudos (leia-se “O Último Mestre do Ar” e “Depois da Terra), aqui Shyamalan volta as suas raízes de gênero (o suspense e o terror) e aos orçamentos mirrados (o orçamento de “A Visita” gira em volta de 5 milhões de dólares) e entrega seu melhor filme em anos.

O cineasta acerta nos moldes que adota para “A Visita”. Numa mistura interessante de comédia e terror, o enredo se encaixa de forma convincente com o formato found footage. O desejo da jovem Becca de ser uma promissora cineasta se materializa convenientemente com a atitude de fazer um documentário sobre a viagem para a casa dos avós. Assim tudo é gravado, desde os acontecimentos mais corriqueiros e simplórios até as situações mais tensas e projetadas para o documentário como quando realiza algumas entrevistas típicas do formato documental. O estilo found footage compensa as carências dramatúrgicas do elenco e beneficia a atmosfera de suspense que se instala no filme. Embora a apresentação dos acontecimentos seja feita num formato inédito para o diretor, a essência de seu trabalho, como alguns aspectos fortes de seus outros filmes se mostra presente nesse trabalho também. A história rende uma boa premissa, que nas mãos de um realizador pouco criativo se perderia fácil; Shyamalan também se arma de um punhado de boas sacadas sempre necessárias em um bom filme de suspense ao inserir alguns sustos falsos e situações bizarras ao longo da projeção; há uma grande reviravolta nos acontecimentos como sempre é esperado em seus filmes autorais e que nesse caso deixa o espectador boquiaberto, porque vem na hora em que menos se espera; há algum aspecto mal resolvido do passado dos personagens principais que se torna um elemento chave em algum momento crucial do filme e um final emotivo complementar seguido de um inesperado bem-humorado.

A Visita” não de todo um exemplo de excelência em todos os aspectos. Os diálogos são um pouco descartáveis na maior parte do tempo, como a montagem segue uma cartilha pouco rica visualmente que herda as falhas da linha do tempo que nunca realmente é clara. Mas o resultado funciona ao seu modo como um ótimo exemplar de filme found footage, bem melhor do que a maioria dos filmes lançados nesse formato nos últimos anos.

Nota:  7/10
_____________________________________________________________________________


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Capitão América: Guerra Civil | Em Revista


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Crítica: Deadpool | Um Filme de Tim Miller (2016)


Wade Wilson (Ryan Reynolds) é um ex-militar das forças especiais americanas que hoje leva a vida como um despretensioso mercenário. Vivendo uma intensa paixão com uma jovem stripper, Vanessa Carlysle (Morena Baccarin), onde a convivência mostra que foram feitos um para o outro, a vida o golpeia inesperadamente com a notícia de um diagnóstico de câncer em estado terminal. Mas Wade encontra a possibilidade de cura em um sinistro experimento científico conduzido por Francis Freeman (Ed Skrein) que além de lhe conferir a sobrevivência e uma impressionante capacidade de se curar diante dos mais agressivos ferimentos, também lhe marcaram o corpo com horrendas cicatrizes que o desfigurou completamente. Num embate entre os dois, Wade é deixado para morrer e abandonado à própria sorte. Recuperado e sedento por uma vingança, Wade adota a alcunha de Deadpool e traça um plano de justiça para encontrar o responsável por sua desfiguração obrigando-o a concertar as marcas deixadas pela experiência mutante para que ele possa voltar para seu grande amor sem a aparência monstruosa com que ele se encontra. “Deadpool” (Deadpool, 2016) é uma produção de ação e comédia baseada no personagem e anti-herói da Marvel Comics. Produzida e estrelada por Ryan Reynolds, o filme é dirigido pelo estreante Tim Miller (um talentoso diretor criativo e habilidoso criador de efeitos visuais em famosas produções estadunidenses). Diferentemente dos demais filmes do selo da Marvel apresentados até agora, “Deadpool” vem para surpreender novos espectadores ao descontruir tabus. Mantendo-se fiel a revista em quadrinhos, essa produção não poupa o espectador de diálogos chulos, situações constrangedoras e como não podiam faltar muitas cenas de ação impecáveis.

Deadpool” é um filme autoconsciente. Ele (o personagem título) sabe que se trata de mais um filme de super-heróis e não se censura em fazer inesperadas interações com o público de forma bastante informal para evidenciar isso, seja nos diálogos ou em atitudes. Deadpool faz comentários escabrosos de cujo sexual e menções a cultura pop sem concessões auxiliado por uma montagem bem elaborada; brinca com o público em passagens completamente inesperadas com a mesma naturalidade com que dizima seus oponentes e também deixa qualquer traço de elegância típica dos icônicos X-Men de lado da mesma forma que o espectador releva suas atitudes politicamente incorretas para que ele possa dar curso a sua história de amor com Vanessa Carlysle. Inclusive Wade a certa altura do filme avisa: “Deadpool” não é uma história de super-heróis, mas uma história de amor (evidentemente às avessas como tudo a seu respeito). Talvez Ryan Reynolds tenha finalmente se achado no universo dos quadrinhos, isso depois de uma vexaminosa experiência como Lanterna Verde e uma criticada interpretação de Deadpool em “X-Men Origens: Wolverine”, como um dia Chris Evans já esteve perdido ao interpretar o Tocha-Humana em “O Quarteto Fantástico”. Ponto para Reynolds por revisitar de corpo e alma uma experiência negativa e transformá-la em um imbatível sucesso. Com um orçamento mirrado para os padrões de filmes do gênero (58 milhões de dólares), Tim Miller entrega um produto bastante ajustado ao que se propõe. Ao mesclar um roteiro enxuto (de responsabilidade de Rhett Reese e Paul Wernick) de trama simples armado de boas sacadas em seu enredo (onde Wade brinca com os clichês dos filmes do gênero), uma dose de humor politicamente incorreto que remete a lembrança de produções juvenis marcadas de bebedeiras e erotismo barato e muitas cenas de ação elaborada como esperado.

O resultado dessa produção é que “Deadpool” é tão bom quanto inesperado. Embora apenas extrapole as soluções dadas como certas e respeitadas com certo rigor no universo da Marvel, muita vezes de modo desnecessário e arrisque ao conferir uma narrativa diferente por sua autoconsciência, tanto Reynolds quanto Tim Miller entregam um filme ligeiramente surpreendente. E não somente por ele existir, o que seria a parte mais fácil da empreitada. Mas porque no final das contas ele funciona mesmo da forma que é ao que se propõe: entreter e divertir sem compromissos transcendentais.

Nota:  8/10
_____________________________________________________________________________

terça-feira, 12 de abril de 2016

Crítica: O Programa | Um Filme de Stephen Frears (2015)


O lançamento de um drama biográfico sobre a vida do ciclista norte-americano Lance Armstrong era um filme esperado com grande anseio em determinados círculos. Baseado no livro O Sete Pecados Capitais (Seven Deadly Sins: My Pursuit of Program) escrito por um jornalista do Sunday Times, o irlandês David Walsh, o jornalista acompanhou de perto a carreira do ciclista e escreveu várias matérias sobre o atleta ao longo dos anos desde quando o conheceu em 1993. Armstrong que ganhou fama e prestigio após vencer sete edições consecutivas do Tour de France entre 1999 a 2005, ao mesmo tempo em que virou uma espécie de garoto propaganda na luta contra o câncer após ter se curado de um (inclusive criando uma fundação de apoio a portadores de câncer chamada Livestrom), deixou o mundo boquiaberto quando veio com à inesperada revelação ocorrida em janeiro de 2013 com ele admitindo publicamente em um famoso programa de televisão de ter estado sob o efeito doping em suas vitórias. Após anos negando veemente, foi um inegável choque para o mundo que o acompanhava com admiração ou com alguma suspeita. Mas essa confissão era só o que faltava: Lance já havia sido banido do esporte pela União Internacional de Ciclismo em 2012 pelo uso de anabolizantes após uma intensa investigação focada nele em seus antigos companheiros de equipe. Só faltava uma confissão. Isso foi a queda definitiva de um herói. “O Programa” (The Program, 2015) é um filme britânico-francês adaptado por John Hodge e dirigido por Stephen Frears (responsável por filmes como “A Rainha” e “Philomena) que se mostra um rápido e interessante esclarecimento sobre umas das maiores lendas do ciclismo contemporâneo. Durante anos o atleta obteve destaque no mundo inteiro por suas conquistas dentro e fora do esporte, e acompanhar de forma compacta em um longa-metragem sobre sua meteórica ascensão no esporte e consequentemente sua queda é no mínimo uma experiência válida.


De herói a vilão, de exemplo de superação a mentiroso, “O Programa” retrata cronologicamente todas as grandes guinadas que Lance Armstrong se sujeitou ao longo de mais uma década. Entre fatos e liberdades criativas, a essência de sua trajetória se encontra no desenvolvimento desse longa-metragem. De mero figurante nas grandes competições a imbatível favorito, Lance tem sua vida dissecada para os olhos do público através da intepretação bem-sucedida do ator Ben Foster e da condução equilibrada de Stephen Frears. Mais do que sobre o ciclista, o trabalho de Stephen Frears é metodicamente focado no período no qual o atleta e sua equipe se utilizavam de meios ilícitos de ganho de desempenho. Frears não se censura em mostrar a rotina de doping usada pelos atletas. O uso de drogas como EPO, testosterona, cortisona conciliados com transfusões de sangue faziam parte do método de melhorias físicas adotadas por Lance e sua equipe de ciclismo que eram administradas por Michele Ferrari (interpretado por Guillaume Canet). Depois da confissão, o ciclismo é o aspecto menos relevante em volta da vida de Lance. Ironicamente a certa altura do filme, numa casual conversa em viagem entre os membros da equipe do atleta especula-se a possibilidade de no futuro ser feito um filme sobre ele (uma sacada do roteiro) onde nenhum dos colegas de equipe de Lance acerta com alguma precisão o verdadeiro foco do longa-metragem. O ciclismo é menor dos aspectos retratados no desenvolvimento da trama, e sim a má conduta desportiva do atleta que foi rotulada como o mais sofisticado esquema de doping já praticado em qualquer modalidade esportiva.

Mesclando cenas reais de arquivo com uma produção bem acabada, bem ao estilo de um thriller de suspense, “O Programa” confere um nível de realismo competente para o desenvolvimento da trama, seja nos aspectos visuais do filme ou nas interpretações bem entregues por parte do elenco (obviamente com destaque para Ben Foster). Embora não seja tão rico em informações e detalhes sobre os bastidores da conturbada trajetória do ciclista, e principalmente sobre o escândalo em volta de Lance Armstrong quanto o documentário “A Mentira de Armstrong” (2014); ou tão inspirado quanto outras cinebiografias lançadas nos últimos anos como “Selma” ou “Rede Social”, no final das contas, “O Programa” se mostra um filme competente e de resultado satisfatório. E um dos motivos ao qual não nos agradamos plenamente com o filme, talvez seja pelo fato de não conseguirmos aprovar a atitude ilícita que o protagonista toma e principalmente com sua personalidade pouco cativante fora do alcance dos holofotes.

Nota:  7/10
_____________________________________________________________________________