sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Crítica: Riddick 3 | Um Filme de David Twohy (2013)


Quer gostem ou não, "Riddick 3" (Riddick, 2013) é um retorno respeitável do personagem Richard B. Riddick, que volta as telas com a verdadeira essência que o consagrou em "Eclipse Mortal" (2000), uma produção de ficção científica de baixo orçamento bem realizada que angariou muitos fãs. Seu realizador David Twohy apresenta um produto divertido, desprendido de querer ser original e com muita ação, do mesmo jeito que fez tornar-se cult. E assumir orgulhosamente esse aspecto talvez seja seu maior mérito. Além de tudo, sem ignorar totalmente o longa "A Batalha de Riddick" (o segundo episódio lançado em 2004 que resultou em frustrante fracasso), David Twohy e o astro Vin Diesel acertam em dar continuidade a franquia sem renegar a trajetória do personagem independente do quanto controverso que o segundo filme se apresentou. Como no próprio enredo, Riddick sentia a necessidade de um recomeço, um retorno as suas origens. Assim em sua trama o espectador é apresentado a esse recomeço onde acompanhamos Riddick (Vin Diesel) traído por seus súditos (os Necromongers) e abandonado a própria sorte em um planeta de hostil e desconhecido.  Numa luta diária pela sobrevivência não há um dia sequer que não seja uma árdua batalha para se manter vivo. Aos poucos adaptado a esse implacável ambiente, Riddick percebe que é ora de partir, e quando encontra um posto avançado de mercenários abandonado acaba por encontrar uma maneira de sair desse planeta. Ciente de que sua cabeça está a premio por toda galáxia, ele aciona um dispositivo de emergência que alerta sobre sua presença despertando o interesse de dois grupos distintos de mercenários. Mas se esses mercenários, determinados em matar seu alvo, apenas vêem em sua presa uma perigosa ameaça, nem imaginam as surpresas que esse árido e rochoso planeta tem escondido. 


Com uma estética que é um reflexo mais trabalhado de "Eclipse Mortal", a dinâmica adotada consequentemente por David Twohy segue veemente sua inspiração. Uma direção de fotografia e direção de arte que se encaixa no sucesso do primeira fita. Com um elenco de mercenários brutamontes liderados por Jordi Mollà de um lado, e do outro Matt Nable a frente de um grupo perfeitamente uniformizado e melhor equipado, ambos traçam um plano de caçada a Riddick que os obriga a unir forças pelas circunstâncias. Enquanto Mollà é a materialização do mercenário em busca da riqueza através de seu trabalho, Nable esconde um interesse oculto em Riddick que se arrasta por um determinado período da trama e que gera uma reviravolta interessante. Mas Riddick é um canhão, um exército de um homem só que em atitude se mostra mortal como em raciocínio exibe uma capacidade certeira de premonição demonstrada com arrojo. A ação se mostra precisa como os diálogos conectados com a proposta que lembra heróis oitentistas. Com um elenco monopolizado por figuras masculinas infladas, o trabalho de Twohy apresenta um agradável surpresa na personagem de Katee Sackhoff (tanto em interpretação quanto visualmente). Apesar do roteiro de David Twohy não acrescentar muito ao universo do personagem de Riddick, já que  o enredo não busca maior aprofundamento sobre o lendário fugitivo, a trama aproveita de modo certeiro todas as qualidades conhecidas dele.

Sendo que 2013 foi um ano repleto de super produções de ficção cientifica que geraram muito alarde pré-estreia e resultaram em decepcionantes realizações, "Riddick 3" tem muito do que se orgulhar. Se pomposas produções como "Elysium" ou "Depois da Terra" que foram realizadas e protagonizadas por renomados membros da comunidade cinematográfica de Hollywood falharam ao transpor obras mais profundas e influentes no gênero, "Riddick 3" impressiona por apresentar um produto simples e competente que não aspirava nada mais do que entreter o espectador. Pode-se dizer que a missão foi cumprida.

Nota:  8/10
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Crítica: Fim dos Tempos | Um Filme de M. Night Shyamalan (2008)


Elliot Moore (Mark Wahlberg) é um professor de ciências da Filadélfia, que como outras pessoas passam a testemunhar pelo país um crescente número de suicídios. Sem explicação as pessoas simplesmente se matam das formas mais bizarras possíveis. Convencido da causa desse fenômeno, Elliot e sua esposa Alma (Zooey Deschanel) com outros mais, fogem através da Pensilvânia para escapar da epidemia causadora da perda do senso de autopreservação natural do ser vivo. "Fim dos Tempos" (The Happening, 2008) não merece tanta atenção dos espectadores quanto os primeiros trabalhos do cineasta indiano M. Night Shyamalan. O longa "O Sexto Sentido" (1999) sempre será lembrado como sua maior conquista. Contudo, "Fim dos Tempos" se mostra muito mais interessante do que os trabalhos mais recentes do cineasta, que vem nos últimos anos enfileirando trabalhos decepcionantes. Mas o problema desse longa, que tinha tudo para dar certo pelo menos de modo mais razoável (já que superar seus primeiros trabalhos tem sido uma tarefa quase impossível), o cineasta desperdiça a premissa batida que sempre está em alta no cinema com um desenvolvimento desinteressante.

Se em seus melhores trabalhos o alcance global que suas tramas sempre alcançavam o cineasta conseguia reduzi-lo a um microcosmo materializado num ambiente familiar envolvente, aqui Shyamalan falha na construção desse ambiente e principalmente dos personagens. O elenco se mostra atento a direção do cineasta, mas prejudicado pela falta de foco do diretor. Além do mais, o rumo tomado pela trama inspirada em uma teoria pouco conhecida de Einstein, que não mantem um desenvolvimento com padrão de qualidade narrativa a altura da pretensão dessa produção, o cineasta veio a minar seu efeito sobre o espectador. Apesar de equilibrar com habilidade momentos tensos com cenas sugestivamente fortes, o filme perde um pouco da estrutura envolvente da temática de um futuro apocalíptico gerado por uma toxina lançada aos quatro ventos pelas plantas como forma de retaliação ao ser humano por sua irresponsabilidade com o meio ambiente, o argumento ecológico falha pela simplificação de todo resto (o roteiro também é de responsabilidade de Shyamalan). Shyamalan subestima a capacidade de interpretação do espectador (acostumado com um desenvolvimento estudado no estilo Hitchcockiano de ser). Apresenta soluções práticas para sua trama bem exemplificadas em seu desfecho irritantemente ajustado que não condizia com sua filmografia anterior.      

Entre aspectos positivos e negativos, "Fim dos Tempos" está longe de ser memorável. Entretém com pouca funcionalidade por entregar ao espectador menos do se poderia esperar de seu realizador. Suspense, sustos e o típico simbolismo que marca seu trabalho está presente nessa produção, mas não de forma tão interessante quanto poderia realmente ser.

Nota:  5/10
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sábado, 25 de janeiro de 2014

Crítica: A Bruxa de Blair | Um Filme de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez (1999)


Em 1994, três amigos viajaram para Burkittsville, Maryland, Estados Unidos para filmar um documentário sobre uma bruxa que habitou as redondezas das florestas da região. Porém os jovens, Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael Williams nunca mais foram vistos e cerca de um ano depois, as imagens foram encontradas, onde o espectador acompanha todo processo de filmagem do documentário e a angustia do trio diante de coisas estranhas que vão ocorrendo incessantemente enquanto buscam voltar a civilização, pois estão completamente perdidos na floresta. “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999) é um documentário fictício escrito e dirigido por Daniel Myrick e Eduardo Sánchez que resultou em um dos mais brilhantes filmes de terror criado pelo cinema independente. Inspirado no documentário “Häxan” (1922) de Benjamin Christensen, a ideia gerou muita polemica em volta do filme dos jovens cineastas. Apresentado sumariamente como baseado em fatos reais, aos poucos em festivais e salas de cinema a proposta foi esclarecida e esse filme foi conquistando uma legião de fãs pelo mundo através de uma influente campanha publicitária realizada pela internet, fazendo com que o site oficial da produção recebesse milhares de acessos em tempo recorde. Orçamentado em 35.000 mil dólares faturou milhões pelo mundo todo sendo um filme constantemente lembrado e parodiado pelo cinema.


Com uma trama simples e uma estética brilhantemente realista, o elenco (que inclusive usaram seus nomes reais para desempenhar seus papéis) conseguem convencer brilhantemente até o mais incrédulo dos espectadores. E muito disso em virtude da simplicidade com que é filmado, onde os próprios atores empunham as câmeras e dialogam num ritmo de improviso. O clima de suspense elaborado pelos diretores intencionalmente, transporta o espectador para o filme e faz com que ele compartilhe das angustias vividas pelos atores. E a bruxa? Talvez essa seja a maior sacada do filme, já que ela não aparece no filme deixando a plateia numa ansiedade incontrolável. Em tempos onde o cineasta tem como prioridade dar aos espectadores o que eles tinham como certo de ver, o trabalho de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez surpreende por não entregarem um produto ajustado a nenhuma fórmula. O desfecho inesperado e simplesmente aterrorizante mexe com a imaginação do espectador, o que faz de “A Bruxa de Blair um filme memorável. Uma produção de baixo orçamento desprovida de efeitos visuais, trilha sonora bacana e de recursos comuns em Hollywood, mas que se mostra pioneira num subgênero que usa o realismo fictício para mexer no imaginário do espectador.

Nota:  9/10
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Crítica: O Ataque | Um Filme de Roland Emmerich (2013)


Definitivamente o cineasta Roland Emmerich tem um fraco por destruir a Casa Branca. Após ter realizado essa façanha através do longa de ficção cientifica “Independecy Day”, um sucesso de público recheado de efeitos visuais que levou multidões aos cinemas em 1995, o cineasta volta a derrubar paredes e explodir tudo que se mexe nos arredores da Casa Branca através de  “O Ataque” (White House Down, 2013), um filme de ação estadunidense cuja a existência beira ao inexplicável. Sobrecarregado de deficiências, que vão de um roteiro pobre a uma realização pouco climática, o filme não empolga e menos ainda convence o espectador de ser uma boa opção de entretenimento. Ainda assim, sendo o segundo filme de 2013 a materializar um atentado terrorista sob o teto da Casa Branca, já que Antoine Fuqua também realizou um filme de premissa similar em vários aspectos através do longa “Invasão à Casa Branca”, o trabalho de Emmerich perde consequentemente muito de seu impacto. Apesar de ser uma de suas produções mais realistas em anos de megalomaníacas destruições, esse longa perde o efeito positivo pelas inúmeras comparações que o assolam. Apresentando uma proposta quase idêntica com o trabalho de Fuqua, ambos os filmes acabam por justificar a comparação com à franquia “Duro de Matar”. Porém, tanto uma quanto a outro não detêm o carisma e a competência que marcou a icônica franquia oitentista. A trama dessa produção: em “O Ataque” acompanhamos o ex-militar e agora segurança do Capitólio, John Cale (Channing Tatum) que sempre teve o sonho de integrar a equipe do serviço secreto responsável pela segurança do presidente dos Estados Unidos da América. Sua filha é fascinada pela Casa Branca, e seria um grande orgulho para ela que o pai fosse trabalhar como segurança do presidente Sawyer (Jamie Foxx). As expectativas são enormes para que ele seja aprovado, tanto que inclusive ela vai junto com ele a entrevista de emprego. Porém quando ele é reprovado no processo seletivo, lhe resta apenas à tarefa de dar continuidade a uma viagem turística pelo interior da Casa Branca. Contudo, tanto o governo dos Estados Unidos como o próprio John é surpreendido por ataque de um grupo paramilitar armado que sequestra e mantem o presidente refém no interior da Casa Branca aterrorizando as autoridades. Mesmo com todas as forças de segurança nacional empenhadas no salvamento do presidente, resta a John fazer a diferença numa luta contra o relógio para salvar sua filha e o presidente desse inesperado ataque.

Mesmo com uma infinidade de recursos a disposição de Emmerich, o cineasta não consegue dar credibilidade a trama de conspiração e terror que fundamenta seu trabalho. E muito disso, se deve ao trabalho desconcertante do roteirista James Vanderbilt (O Espetacular Homem-Aranha), que não constrói uma história no mínimo interessante. Recheada de diálogos desnivelados, que inclusive em muitos casos soam até constrangedores e quase impossíveis de serem digeridos pelo espectador sem causar enjoo, Vanderbilt entrega um roteiro complicado. Emmerich tenta torná-lo plausível, mas devido as suas próprias limitações é quase impossível encobrir as deficiências lógicas que assolam essa produção. Personagens caricatos em situações de pressão causam sonolência ao mais ávido dos espectadores por filmes de ação. Ação essa que apesar de algumas boas sequências bem conduzidas, em geral não equilibram os aspectos negativos dessa produção. O principal deles, o dramático. Já que o humor ingênuo, as frases de efeito, a presença de um show pirotécnico de Emmerich já não funcionam como no passado. Como também, se Jamie Foxx se mostrou em outros trabalhos uma escolha acertada para papéis aos quais foi incumbido, aqui em sua versão de Barack Obama é odiosa de ver. Se Channing Tatum promete ser uma boa opção de ator para filmes de ação para o futuro, que lida bem com cenas que requerem desempenho físico e momentos de humor politicamente incorretos, não será graças a sua interpretação em “O Ataque” que irá lhe garantir novos trabalhos. Enquanto o papel de vilão se inicia sob os agressivos cuidados de um regimento de mercenários e cai certeiramente no colo de um dos mais repetitivos vilões do cinema, cuja motivação para todo terror soa demasiadamente artificial. Como há a mudança de vilão convencional para surpreender o espectador, Tatum e Foxx também acabam por dividir convenientemente o papel de herói também (o comum herói solitário passa a receber uma inusitada ajuda para salvar o dia). Uma decisão narrativa de provável rejeição até ao mais fiel compatriota.

Tentar levar a trama furada de Vanderbilt a um nível respeitável não é tarefa fácil, nem ao mais hábil dos realizadores. Mais do que um filme de ação que pouco se pode levar a sério, Emmerich apresenta um desperdício de recursos, tanto de pessoal quanto técnicos. O trabalho de Vanderbilt, que insere termos e situações estratégicas reais em situações de ataque terrorista em um enredo precário e nada envolvente, mina o trabalho de Emmerich. Se alguns filmes do cineasta detinham ausência de um fluente roteiro também, ganhavam pontos pela materialização assumida de absurdas tramas que despertavam certa curiosidade e desencadeavam algum carisma magnético que seus espetáculos visuais proporcionavam. Em “O Ataque” há contornos mais realistas aos quais não tiveram o devido delineamento. Sobretudo se apenas destruições em massa forem o suficiente para lhe causar encanto, o trabalho de Emmerich talvez seja satisfatório, como dos seus trabalhos anteriores (O Dia Depois do Amanhã, 2012). Do contrário, escolha seu oponente direto e talvez se agrade mais.

Nota: 5/10
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