quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crítica: O Legado Bourne | Um Filme de Tony Gilroy (2012)



Desde a incursão de Matt Damon ao universo da espionagem, nunca mais vimos os espiões com os mesmos olhos. A transposição do universo literário de Robert Ludlum para as telonas através da jornada de auto descoberta de Jason Bourne exibida em três produções de sucesso (A Indentidade Bourne, 2002; A Supremacia Bourne, 2004 e O Ultimato Bourne, 2007), foi o que existiu de mais próximo da realidade de mãos dadas com a visão cinematográfica e fantasiosa desse subgênero. Em “O Legado Bourne” (The Bourne Legacy, 2012) não vemos uma sequência necessariamente, mas uma ação paralela aos eventos ocorridos em “Ultimato Bourne”, que proporciona uma conveniente continuação a essa franquia nas quais cabeças chaves desse negócio haviam dado por encerrado – Matt Damon acusou o roteiro do terceiro episódio como o fim da carreira do personagem. Porém, Tony Gilroy que era roteirista dos três primeiros filmes, assume a cadeira de diretor nessa produção e a complicada tarefa de estender o prestigio dessa cinessérie por mais tempo.


A trama de “O Legado Bourne” se passa paralelamente a caçada de Jason Bourne quando chega à cidade de Nova York em “O Ultimato Bourne”. O panorama é de que o Programa Treadstone está prestes a ruir, e a repercussão que tem surgido na mídia faz com que outros programas de treinamento semelhantes do governo devam cessar até os holofotes se apagarem sobre a questão. E em um desses programas, o agente Aaron Cross (Jeremy Renner), é uma das cobaias para o desenvolvimento e aperfeiçoamento de drogas que auxiliam na melhoria do desempenho operacional de agentes. Sob o aval de Eric Byer (Edward Norton) a CIA determina encerrar os programas experimentais, eliminando todos os envolvidos, desde os agentes de campo aos envolvidos na pesquisa. Porém, Aaron sobrevive à tentativa de queima de arquivo, como também salva a vida da Doutora Shearing (Rachel Weisz), uma das responsáveis pela pesquisa médica do programa e criação dos milagrosos medicamentos. Mas apesar das melhorias que esse medicamento proporciona, tem como empecilho sua dependência química que caso não seja atendida pode levar a morte, fazendo da doutora Shearing uma ferramenta fundamental para a sobrevivência de Aaron Cross.


Com um forte vínculo com o personagem Jason Bourne (há varias menções ao personagem nesse longa) o diretor e roteirista tenta explorar ao máximo a Iniciativa Bourne. Tanto sua história como a narrativa adotada não se difere em nada dos três filmes anteriores, que tem como o chamariz um protagonista treinado em uma incessante fuga de autoridades do governo. Contudo as motivações dos protagonistas ligeiramente se alteram, pois enquanto Matt Damon buscava conhecimento sobre sua real identidade, Jeremy Renner busca a sobrevivência antes do esgotamento de seu tempo. E nessa luta contra o relógio, o ator corre, pula, briga para driblar seus algozes perseguidores em sequências de ação intermináveis e por vezes exageradas. Se Damon ganhava pontos por seu carisma, Renner esbanja intensidade por seu desempenho. Com um roteiro mais frenético do que a franquia exaltava nos episódios anteriores, todo o longa é focado no protagonista, não restando muitas oportunidades para Norton mostrar por que veio, em seu papel burocrático e funcional. A atriz Rachel Weisz, apesar de fazer dupla com Renner na maior parte do longa, e de certos momentos inspirados de interpretação, sem dúvida Gilroy entrega o filme ao protagonista por razões óbvias.


A produção caprichada e investe na repetição do formato da ação – lutas bem coreografadas, perseguições aceleradas e muitas exibições brutais com toques de sofisticação. Mesmo tendo um elenco promissor, mal aproveitado de certo modo, o roteiro se volta para o gênero da ação sem cerimônias como o maior atrativo dessa produção. A excessiva exibição de cortes e uma montagem rápida vêm a inserir na narrativa uma dose cavalar de adrenalina e ritmo. Apesar de um desenvolvimento emocionante e competente, como era esperado por um espectador da franquia, faltou um desfecho mais climático e menos apressado. A cena final como exemplo, não trouxe nenhum frescor às finalizações dos filmes anteriores.

Por fim, “O Legado Bourne” é diversão descompromissada. Acima de tudo, trata-se de entretenimento bem feito sem maiores pretensões a não ser a de conseguir mais com o mesmo. Tony Gilroy anseia pela volta de Damon a franquia mesmo após algumas trocas de farpas. Quem sabe no próximo episódio não veremos Matt Damon novamente ligado à franquia e a incontestável confirmação disso?  

Nota: 6,5/10
_____________________________________________________________________________

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Crítica: Django Livre | Um Filme de Quentin Tarantino (2012)



Todo lançamento de um filme do cineasta Quentin Tarantino é uma boa razão para celebrar. E falar de seus filmes sem mencionar o seu nome é quase impossível. Querendo ou não, a ciência do cineasta em compor seus trabalhos eventualmente é tão fascinante quanto o próprio resultado. Limitando os meus comentários aos mais recentes trabalhos do cineasta, dentre eles o longa “À Prova de Morte”, que foi esmiuçado friamente pela crítica, mesma consciente das motivações do cineasta para sua realização, em “Bastardos Inglórios”, Tarantino deu sinais de seu amadurecimento como cineasta mainstream. Se no passado seus filmes eram apenas rotulados como violentas estilizações de histórias magistralmente conduzidas, fruto de seus respectivos roteiros, sua criativa e imaginária vingança histórica de judeus na Segunda Guerra Mundial, liderada por Aldo Raine (Brad Pitt), demonstrou o quanto Tarantino pode ser brilhante sem abandonar suas características na realidade. “Bastardos Inglórios” alia a qualidade de seus roteiros, sempre esbanjando esmero e diálogos impressionantes, com um foco mais sóbrio e delineado. Além das motivações dilacerantes de seus personagens no decorrer da trama, há nobres ideais a serem alcançados no contexto da ação. Acima de tudo, contado de forma que o cineasta não precise abrir mão das qualidades narrativas que o consagraram como ícone da cultura pop. Basta vermos alguns minutos de uma obra de sua autoria, para constatar que se trata de um filme de Quentin Tarantino.

Em “Django Livre” (Django Unchained, 2012), o cineasta une de certo modo, o útil ao agradável – uma história com motivações ideológicas, contada com estilo e exuberância. Através desse faroeste divertido, em função dos diálogos marcantes que permeiam toda a produção, um elenco extremamente competente e uma história repleta de homenagens delirantes, Tarantino usa uma postura crítica a escravidão – tema sempre atual, apesar de pouco destaque crítico no gênero – como pano de fundo para sua obra mais bem realizada, que inclusive está sendo indicado a 5 Oscar’s – incluindo Melhor Filme e Roteiro Original – e concorre com vários gigantes dessa cerimônia. A história se passa em 1858, antes da Guerra Civil Americana, onde Django (Jamie Foxx), um escravo que é comprado por King Schultz (Christopher Waltz), um esperto caçador de recompensas alemão, que precisa da ajuda de Django para capturar os irmãos Brittle – três criminosos que tem a cabeça a prêmio. Somente Django pode reconhecê-los, gerando o seguinte trato: Django o ajuda na captura dos foragidos da lei, vivos ou mortos, em troca de sua liberdade. Após uma missão bem sucedida, porém, ambos permanecem juntos numa inusitada parceria. Após um tempo trabalhando juntos, Schultz decidi ajudar o amigo e atravessam todo Texas e o Mississipi em busca da esposa de Django, Broomhilda (Kerry Washington), uma escrava que está em poder do cruel Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Dono de uma enorme fazenda chamada "Candy Land", a mulher é deixada aos cuidados do preconceituoso escravo Stephen (Samuel L. Jackson), onde a dupla terá nesse perturbador empregado o seu maior obstáculo para sair da fazenda com Broomhilda são e salvos. 

Apesar dos famosos filmes de faroeste de Sergio Leone, as referências de Tarantino para compor seu “Django” se restringem mais aos filmes de Sergio Corbucci, e do Django estrelado por Franco Nero na década de 60. Sem deixar de lado os delírios tarantinescos mais do que esperados pelo espectador, como o culto ao movimento Blaxploitation, “Django” consiste entre muitos outros elementos, na garantida violência estilizada com ceros exageros, ou em diálogos ágeis proferidos por um elenco de primeira. 

Se Jamie Foxx tem o peso da responsabilidade de interpretar o personagem principal, a alavanca na qual se ergue toda trama, Christopher Waltz deixa claro que a primeira metade da produção é inegavelmente dele no momento em que somos apresentados a sua persona no início do filme. A forma cômica com que o ator profere suas falas é de um brilhantismo único – é a sua transposição mais carismática até então. Se em “Bastardos Inglórios”, Waltz no papel de um vilão dissimulado ele já inspirava carisma por parte do espectador, agora como um elemento heroico da história ele esbanja simpatia. Enquanto na segunda parte, a oportunidade de Jamie Foxx de equilibrar a balança, Leonardo DiCaprio rouba a cena entregando uma performance intrigante. Seja pela sua materialização de um vilão naturalmente cruel, desprovido de questionamentos morais, ou seja, pela relação intrigante que mantem com seu empregado Stephen, que esboça certo poder de influência sobre sua figura. Stephen é tão racista quanto seu próprio patrão, senão mais ainda. O que o torna uma peça fundamental no desfecho da trama e na jornada de vingança do protagonista. O que não quer dizer que Foxx esteja mal em sua interpretação. Somente não tem o mesmo rendimento que os demais personagens apesar de demostrar conforto em sua interpretação – sua interpretação é mais gestual, física e limitada as suas atitudes do que em diálogos exibicionistas. Os melhores diálogos estão sem dúvida com Christopher Waltz, o personagem mais estudado do roteiro, como DiCaprio na cena do jantar, exibe talento em não deixar a extensa sequência ficar desgastante ou monótona. Apenas diante do próprio Tarantino em atuação, Django apresenta toda sua versatilidade em atuação.

A trilha sonora é igualmente inspirada, senão mais, do que em filmes como “Kill Bill” e “Pulp Fiction”. Trata-se de um espetáculo musical, que por vezes proporciona a devida intensidade aos acontecimentos que transcorrem sobre a película. Com canções retiradas de sua coleção própria de discos de vinil dos anos 70 – com ou sem falhas decorrentes do desgaste – demonstra o quanto fascinante pode ser o processo de criação de Tarantino. 

Ao contrário de seus trabalhos anteriores, Tarantino tarda um pouco pelo caminho do desfecho – a conclusão da vingança. Perde-se algumas passagens que seriam próprias para isso, deixando duração mais extensa do necessário. No final, peca pela ausência de um término climático a altura do desenvolvimento. Certamente que tiroteio no salão criou uma falsa sensação que precedia o THE END. Mas o cineasta não podia perder a oportunidade de mostrar o quanto divertido – através de sua participação especial – que foi a construção desse faroeste carregado de reflexão sobre um tema a ser discutido com relevância, bom humor e originalidade. Ao ver “Django Livre”, muitos espectadores irão torcer o nariz para seu espetáculo de brutalidade, transvestido de uma transposição histórica fiel. Muitos cineastas se armam de roteiros ambientados em épocas conturbadas para justificar ações mais radicais visualmente. Talvez seja o caso de Tarantino. Contudo, inegavelmente houve melhoras em seu trabalho desde que optou em se comprometer com um cinema de contexto mais amplo, mesmo sendo nas trivialidades do fenômeno “Pulp Fiction” que resida a maior gama de fãs ao seu sensacional trabalho.

Nota: 8,5/10 
__________________________________________________________________________

sábado, 26 de janeiro de 2013

Sobre a Perspectiva de Tom Olesnevich | Fotografia


Veja a perspectiva inovadora com que o fotógrafo e ciclista Tom Olesnevich decide mostrar a cidade de Nova Iorque.  Com uma infinidade de fotos tiradas com uma câmera anexada ao quadro de sua bike, o fotografo encontra uma maneira diferente de mostrar lugares bem familiares aos nossos olhos, porém de um ângulo bem diferenciado. Confira as fotos:



 











Fotografia Subaquática de Andreas Franke


O fotógrafo suíço Andreas Franke dá sequência a seu trabalho de fotografia subaquática iniciado na série “Life Below the Surface”, onde une seu gosto pelo mergulho ao prazer de fotografar, retratando cenas de um cotidiano moldado no convés de um navio naufragado no Golfo do México e que, vejam só, passou a ser justamente o local derradeiro para a exposição de suas montagens fotográficas prontas – 100 metros abaixo do mar. Agora Andreas Franke, usa os restos mortais do naufrágio do navio Stavronikita SS que se encontra nas profundezas do mar próximo as ilhas caribenhas de Barbados, onde que transpõe cenas do cotidiano barroco europeu através da série “The Sinking World”, do projeto chamado “Stavronikita Project”, e que também tem seu trabalho exposto nas imediações do naufrágio, há 24 metros de profundidade, sendo necessário mergulhar para conferir o resultado desse curioso artista. Confira logo abaixo parte desse fenomenal trabalho:

 



 


Fonte: DesignBoom

     

 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Crítica: Vamos Nessa! | Um Filme de Doug Liman (1999)



Com uma narrativa basicamente fragmentada, o diretor do excelente “Swingers” consegue um resultado bem bacana mostrando a força do cinema independente no fim da década de 90 através de “Vamos Nessa!” (Go, 1999), que retrata uma noitada insana de jovens em meio a circunstâncias desesperadas. O filme remete a lembrança do fenômeno do cinema underground chamado “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, ou do filme “Short Cuts”, de Robert Altman, porém menos sanguinolento do que o trabalho de Tarantino, e mais simplista que do que a fita de Altman, mas inegavelmente divertido em todos os sentidos.

A trama narra um dia e uma noite de um grupo de personagens as vésperas do Natal, visto sob três diferentes perspectivas: a de Ronna (Sarah Poley), uma caixa de supermercado falida e desesperada por dinheiro, e Claire (Katie Holmes) disposta a qualquer negócio para sair da rotina; a de Simon (Desmond Askew), um inglês distante de casa, desesperado por diversão que segue rumo a Las Vegas com seus amigos de Los Angeles e somente encontram confusão; e Adam e Zack (Scott Wolf e Jay Mohr) uma dupla de atores de TV, que em busca de diversão, se metem numa ação policial confusa e recebem de um policial estranho uma proposta mais estranha ainda. 


Vamos Nessa! é um exemplar de fita que mesmo não apresentando nada de extraordinário, diverte, tanto pelos personagens malucos quanto pela história em si, isso por conta dos diálogos ágeis das situações absurdas as quais esses personagens se envolvem. Drogas alucinógenas, sexo casual, música eletrônica são elementos imprescindíveis dentro da trama, e não são meros artigos de decoração, e sim fazem parte das adversidades comuns as quais os jovens se esbarram numa noitada feito a desses personagens, se fazendo mais do que necessária como uma justa ambientação. A forma com que foi montada – de forma fragmentada – é somente um dos atrativos que essa produção nos presenteia. A trilha sonora é igualmente brilhante e antenada com a proposta dessa produção. 

A forma como o roteiro de John August se desenvolve e brinca com os personagens – como no caso de Scott Wolf, deixando claro que sua interpretação está ligada ao personagem da extinta série “O Quinteto”, é uma das passagens inspiradas de seu roteiro; ou quando os atores, numa conversa casual, se queixam da tietagem resultante de seu trabalho na TV. Claire, uma das personagens mais legais dessa produção, dá um show que a torna relevante não tanto na trama, mas no balanço das interpretações divertidas de “Vamos Nessa!”.

Por fim, “Vamos Nessa!” é como uma tradicional balada. Trata-se de uma rotina que algumas vezes muda, aqui ou ali. Em geral é sempre a mesma coisa, e mesmo que funcione para passar o tempo de maneira divertida, não vai mudar sua vida. 

Nota: 7/10