quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Crítica: Por Uma Vida Menos Ordinária | Um Filme de Danny Boyle (1997)


O amor está se extinguindo. O verdadeiro amor. Diante desse desolador panorama, o anjo Gabriel (Dan Hedaya), pressionado pela maior de todas as divindades é incumbido da tarefa de mostrar que esse triste quadro pode mudar. Com isso Gabriel delega a tarefa a dois anjos, O'Reilly (Holly Hunter) e Jackson (Delroy Lindo), os enviando a Terra para unir o mais improvável dos casais numa paixão avassaladora para dar uma força ao destino. Mas a escolha desse par romântico não deixará essa tarefa nada fácil, sendo que de um lado da equação temos Celine Naville (Cameron Diaz), filha mimada de um multimilionário nada simpático, enquanto do outro lado há Robert Lewis (Ewan McGregor), um pobre faxineiro recém-desempregado que aspira ser escritor. Caso os anjos não consigam cumprir sua missão, serão penalizados tendo que viver para sempre na Terra. Tudo o que eles não querem. Assim em meio a um desengonçado sequestro de condução duvidosa, situações bizarras e a tentativa de realizar o impossível, O'Reilly e Jackson tentarão levar esperança a humanidade juntando esse curioso casal. "Por Uma Vida Menos Ordinária" (A Life Less Ordinary, 1997) veio em tempos onde a comédia romântica reinava absoluta na preferência do público em geral. Contudo, o gênero ainda assim tentava ao seu modo se reinventar antecipadamente antes que a fórmula se desgastasse excessivamente ao mesmo público que era consumidor de carteirinha, além de tentar cativar novos adeptos com suas peculiaridades. Assim o diretor do brilhante "Trainspotting", Danny Boyle e o roteirista John Hodge, uniram-se novamente para criar essa fita que foi uma estranha comédia romântica que misturava humor negro, fantasia e uma dose de violência nada característica do gênero numa produção que caso não se encontre no paraíso, mas é capaz de desencadear do espectador mais envolvido com a trama lúdica da intervenção divina terceirizada umas boas risadas.


É difícil entender por que essa produção foi tão alvejada pela crítica. Sua proposta não vem a desfazer nenhum progresso do gênero, mas os aspectos que o diferenciam das demais obras, também não justificam tamanha aversão. O filme tem as suas qualidades, que em sua maioria está nas interpretações. Tanto Cameron Diaz, quanto o próprio Ewan McGregor (até então em sua terceira parceria com cineasta Danny Boyle) está em sua sintonia com a obra, por mais absurdo que o enredo possa parecer (mais no Céu do que na Terra). Cameron convence como a herdeira excêntrica de um império corporativo, que conduz seu próprio sequestro para se vingar de seu ganancioso pai. McGregor leva a seu personagem o ar desesperador de "Trainspotting" de modo mais cômico e por vezes (devido a influência de Cameron) patético. A abordagem do roteiro que confronta os opostos (a bela malévola contra o pobre de coração de ouro) não é suprido de originalidade, mas também não se condena, justamente por não se levar a tão sério como provavelmente a crítica especializada o fez. E a intervenção do divino através das irreverentes interpretações dos anjos caçadores de recompensa é o arrojo que proporcionam ao casal os melhores momentos dessa produção (o momento em que McGregor cava a própria cova é hilária). A ação projetada do roteiro tem as suas deficiências naturalmente, mas que diante de um conjunto divertido se tornam irrelevantes.

"Por Uma Vida Menos Ordinária" é um dos trabalhos menos fascinantes de um cineasta que tem em sua filmografia mais recente trabalhos realmente extraordinários. Essa produção tem mais a cara dos anos 90 mesmo, com violência estilizada, personagens caricatos interpretados por grandes atores e humor negro que não fere ninguém. Naturalmente não tem a audácia de "Trainspotting", uma produção que marcou uma geração inteira e que facilmente habita a lista de melhores filmes de qualquer cinéfilo. Entretanto, além de ser divertido de modo engraçado, também tem anjos empunhando pistolas e revólveres de grande calibre, e isso também pode ser encarado como algo bem cool mesmo depois da virada do milênio.

Nota:  8/10
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