quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Crítica: Os Infratores | Um Filme de John Hillcoat (2012)



Certa vez alguém me disse: “eu não bebo, para não perder o controle de minhas emoções”. Julguei sensato o comentário, como um exemplo de autoconhecimento e responsabilidade, sendo alguém que sabe que o álcool pode desencadear o que há de pior na natureza humana sob as condições adequadas para uma fatalidade. Certamente que no ano de 1931, no condado de Franklin, na Virginia, sob o peso da grande depressão e o cumprimento da Lei Seca americana a qualquer custo, a imposta abstinência do álcool não conteve as emoções inflamadas, por vezes brutais, dos personagens do mais recente filme de John Hillcoat. Em “Os Infratores” (Lawless, 2012), o diretor faz uma incursão auspiciosa ao universo dos grandes filmes de gângsteres. 

Baseado em fatos reais, a história acompanha os três irmãos Bondurant, onde Forrest (Tom Hardy), o líder durão do grupo, Howard (Jason Clarke), um destemido sobrevivente de guerra e braço direito de Forrest, e Jack (Shia LaBeouf), um caçula pretensioso e acovardado, que tem na fabricação e distribuição ilegal de bebidas alcoólicas um negócio lucrativo. Vistos como lendas na cidade, são imensamente conhecidos pela bebida ilegal (uísque) que vendem e por uma suposta invencibilidade física. Porém o governo fecha o cerco para suas atividades, onde um delegado corrupto chamado Charlie Rakes (Guy Pearce), passa a travar uma guerra contra a gangue de caipiras que prosperam vendendo sua bebida na cidade de Chicago.
                
John Hillcoat, tendo como fonte de inspiração para a criação de seu filme o livro “The Wettest County in the World”, de Matt Bondurant, neto de Jack Bondurant, transpõe para película uma obra brilhante, roteirizada por Nick Cave (A Proposta), mesmo sem o glamour do crime organizado que é retratado em filmes como “Os Intocáveis” (1987) e “Ajuste Final” (1990) de atmosfera mais urbana. Em “Os Infratores”, a narrativa está mais para um faroeste, de forma crua, em preparo para uma transição a um patamar superior, que por sinal tem indícios da presente existência na figura do chefão do crime Floyd Banner, interpretado por Gary Oldman, fundamental como inspiração para Jack, quando passa a enveredar no caminho da ilegalidade do qual seus irmãos estão são envolvidos.

Apesar de Jack ser o elo do filme com o espectador – através da narração em off – o  mérito da trama fica creditado ao personagem de Tom Hardy, detentor das melhores falas e protagonista dos melhores momentos do filme – com seu sotaque caipira e postura truculenta inspira mais carisma do que a interpretação espalhafatosa de Shia LaBeouf. Enquanto o cruel delegado Charlie beira o ápice de uma interpretação caricatural impressionante, podemos ver que só não supera o papel de Gary Oldman, sempre competente e numa boa fase na escolha de projetos que enriquecem sua filmografia. Mas nessa terra sem lei, onde violência e brutalidade reinam em regime de soberania, o papel da recém-chegada de Chicago Maggie Beauford (Jessica Chastain) é um ar fresco e colírio eficiente aos olhos depois de algumas passagens sanguinolentas. 

Muitos podem criticar “Os Infratores” pela violência, pelo excesso de brutalidade que decorre pela trama. Hillcoat deixa claro que sua obra se passa num período complicado da história americana, onde o governo apenas supõe que tem poder sobre o povo que sobrevive sob a penúria da grande depressão. Os Bondurant justamente sobrevivem, e prosperam graças ao não cumprimento das leis. A grande depressão, de certo modo é maior violência apresentada na tela, sendo a responsável pela criação de uma atmosfera apropriada para que a violência e a brutalidade seja a verdadeira autoridade. Hillcoat sabe disso, e não poupa o espectador de cenas extremadas, até um desfecho – um tiroteio confuso – que cela sua atmosfera brutal de um western à moda antiga.

Seguindo a ordem natural de Franklin, “Os Infratores” é um filme de gângster necessário como exemplo, de como até o mais raivoso cão pode um dia ser um animal dócil, desde que o ambiente propicie isso. O trabalho de John Hillcoat pode não superar os grandes clássicos desse subgênero, porém apresenta uma obra interessante e bem realizada que prende a atenção do espectador do começo ao fim, por sua transparência bem desvinculada de sucessos consagrados.

Nota: 7,5/10
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2 comentários:

  1. É um filme que está na minha lista.

    Abraço

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  2. Assista! Tenho certeza que você vai gostar.

    abraço

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