sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Crítica: Missão: Impossível 3 | Um Filme de J.J. Abrams (2006)



Uma abertura bem feita pode ser meio caminho andado para que um filme de ação se garanta e caia nas graças do público com facilidade. Como em um gênero mais cerebral, onde o desfecho é vital para o bem sucedimento da missão, na ação, o momento da abertura é imprescindível para ganhar o espectador, e por isso normalmente lhe é dado um trato todo especial por parte dos produtores. Em “Missão: Impossível 3” (Mission Impossible 3, 2006) não é diferente. Os primeiros minutos dessa fita dão evidências dos contornos da narrativa adotada pela direção do cineasta responsável pela criação de uma das séries mais interessantes da televisão desde “Arquivo X”, que foi a quase interminável série “Lost”. Abandonando uma narrativa inteiramente explosiva e adrenalinesca como John Woo magistralmente conduziu no segundo episódio, o diretor J.J. Abrams foca seu trabalho prioritariamente nas interpretações do elenco e na relação dos personagens na trama, concedendo um toque mais autoral ao universo do agente especial Ethan Hunt, que definitivamente escreveu seu nome no rol de espiões bem sucedidos de Hollywood. 


 A história acompanha Ethan Hunt (Tom Cruise), ligeiramente distanciado das atividades de campo as quais se consagrou e está noivo de Julia (Michelle Monaghan). Dividido entre a pitoresca vida familiar e a responsabilidade relevante pelo treinamento de novos agentes no IMF (Impossible Missions Force), é informado da captura de um dos seus eis-alunos e consequentemente requisitado para um resgate urgente. No entanto, essa missão de resgate revela uma gigantesca rede de corrupção inserida na agência, ao mesmo tempo em que Ethan passa a se tornar alvo da vingança de Owen Davian (Philip Seymour Hoffman), um perigoso contrabandista de armas. Assim Ethan precisa correr contra o tempo para salvar Julia, raptada por Davian, e provar sua inocência pelo crime de traição ao qual é acusado por seu chefe (Lawrence Fishburne).


Através desse longa a franquia mostrou amadurecimento, narrativo e técnico, num produto que pode por conveniência se arrastar sem alterações por vários filmes sem culpa. Trata-se de um filme de ação, no melhor estilo Hollywoodiano, não se pode negar, mas com algumas alterações narrativas interessantes e inclusive bem autorais por parte dos realizadores. J.J. Abrams trouxe alguns elementos da série “Lost” que o consagraram aos olhos do espectador, que foi à relação humana plausível entre os personagens, como Cruise também abriu mão do excesso de correria com a função de dar tempo para se trabalhar com um maior esmero no roteiro. Bons diálogos, e uma trama cheia de reviravoltas foram o resultado, mas sem a desnecessária e confusa complexidade do primeiro filme. Claro, sem dispensar os clássicos exageros que estão ligados a cinessérie: há locações em vários países, efeitos visuais repetitivos, uma sequência onde é abatido um avião a jato em pleno ar com uma metralhadora do solo é um exemplo que justifica o título dessa produção. Mas no geral, a condição técnica melhorou bastante em comparação aos filmes anteriores, pela aplicação de uma direção de fotografia melhorada através da alta resolução, um ritmo menos clipeiro, enquadramentos mais amplos e boas tomadas.


Mas é no elenco em que reside as melhores qualidades desse longa, apesar de Cruise repetir seu papel e ter já de inicio seu melhor momento em cena, Seymour trás a franquia um vilão elegante transposto com competência. Um herói habilidoso sem um oponente a altura pode fardar um projeto ao fracasso sem sombra de dúvida. Porém, o confronto final entre os antagonistas deixou um pouco a desejar, fazendo com que o conjunto perdesse um pouco de seu brilho. A inserção de Billy Crudup é certeira até certo ponto, enquanto a de Ving Rhames é imprescindível para bem sucedimento da missão de todas as formas imagináveis. 

Tanto a direção de J.J. Abrams, quanto o roteiro de Alex Kurtzman e Roberto Orci num trabalho conjunto com o diretor, se armam de boas sacadas para dar credibilidade à trama. Os mistérios que rondam o tal pé-de-coelho – uma arma ou informação que Seymour cogita vender – é um exemplo das artimanhas do roteiro. Apesar do pouco destaque em âmbito geral, tem uma funcionalidade intrigante. Sua menção, feita por Simon Pegg tem ares sinistros que despertam de imediato sua importância dentro da trama sem a necessidade ressaltar afinal do que se trata – seu charme está em permitir que o espectador se encarregue de imaginar o que será o tal pé-de-coelho.


De fato, “Missão: Impossível 3” é um episódio mais sutil do que a franquia prega. A regra em vigor dessa produção foi explorar uma narrativa menos cardíaca e mais sentimental. Porém nas mãos de um realizador despreparado teria sido um completo fracasso por razões lógicas. Apesar da simplicidade da teoria, sua realização pode tornar-se extremamente complexa e difícil transposição. Por fim, a fita apenas resultou infelizmente em algo que pode muito bem causar descontentamento nos espectadores ansiosos por cenas de ação interrupta.

Nota: 7/10
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Crítica: Ronin | Um Filme de John Frankenheimer (1998)


Poucos filmes hoje em dia trazem para película sequências de ação e perseguições alucinantes como o mestre John Frankenheimer fez através desse longa chamado "Ronin" (Ronin, 1998). O título desse longa-metragem faz referência ao nome concedido a uma espécie de samurai sem mestre do Japão Feudal. A perda do mestre (Daimiô) resultaria no cumprimento de um ritual de suicídio que por vezes não era cumprido, por diferentes razões, deixando esses homens em peregrinação na qual sua sobrevivencia dependia de pequenos serviços em troca de condições para se manter. Mais temidos do que os próprios samurais, por não estarem presos a um código de ética e conduta, acabaram se tornando verdadeiras lendas da cultura nipônica. Num contexto mais contemporâneo, os "Ronin" seriam como mercenários altamente treinados que se dispõem a trabalhar pelo melhor valor oferecido por seus serviços. E com o fim da Guerra Fria, agências secretas dos Estados Unidos e da antiga União Soviética deixaram seus agentes abandonados a própria sorte, onde esses profissionais militarizados e capazes acabam encontrando nesse nicho de mercado a serventia para suas raras habilidades. E assim com essa ideia, os roteiristas J.D. Zeik e David Mamet mesclaram inteligentemente história da cultura japonesa com espionagem numa trama movimentada que prende a atenção do espectador do começo ao fim.


O filme conta a cruzada de Sam (Robert DeNiro), um ex-agente da CIA, que com outros membros de sua equipe (Jean Reno, Stellan Skarsgard), pegam um trabalho aparentemente simples a ser feito - roubar uma maleta cujo conteúdo é desconhecido. Mas quando o que era para ser um simples trabalho transforma-se em um pesadelo, onde mentiras transparecem e traidores são desmascarados. E se a fita "Operação França" sempre foi a queridinha do gênero em si tratando de perseguições de carros bem feitas, "Ronin" não perde em nada. As sequências são perfeitas, orquestradas magistralmente numa edição impecável, com angulos bem colocados e acentuados pela qualidade da direção de fotografia. A ação é de um realismo impressionante, que não apenas transcorre em tela, mas explode literalmente diante das manobras emocionantes nas estreitas ruas de Nice, na França, que naturalmente foram executadas por profissionais. Mas como não é só de aceleração que vive um filme assim, devo salientar, pois o elenco encabeçado por De Niro faz parte de um dos grandes trunfos dessa produção, bem ambientada na Europa. 


Portanto, "Ronin" não limita-se a ação desenfreada como único artificio de apelo para cativar o espectador, apesar da numerosa quantia de carros que foram destruidos para dar veracidade as cenas de ação (75 carros foram destruidos). O conjunto da obra é tão bom quanto possivel. Certamente foi o melhor filme de John Frankenheimer anos antes de seu falecimento em julho 2002.

Nota: 8,5/10


Crítica: Diário de um Jornalista Bêbado | Um Filme de Bruce Robinson (2011)



Qualquer semelhança com o longa-metragem dirigido por Terry Gillian (Os 12 Macacos) chamado “Medo e Delírio” (1998) não é mera coincidência. O filme “Diário de um Jornalista Bêbado” (The Run Diary, 2011), é baseado em um romance de Hunter S. Thompson, também autor do romance que inspirou a empreitada de Gillian. Ele foi o jornalista inventor do chamado "jornalismo gonzo", onde o autor mistura habilidosamente ficção e não-ficção em seus textos até os limites entre a realidade e a fantasia se confundam completamente.  Mas mesmo que “Diário de um Jornalista Bêbado” – seu primeiro romance – tenha elementos que remetam a lembrança lisérgica de Johnny Depp em Vegas, os filmes também se diferem muito narrativamente. Enquanto o trabalho de Gillian ultrapassa os limites da realidade, com sua história acompanhando os percalços de seus protagonistas completamente bêbados e chapados de uma maneira surreal, a empreitada de Robinson é mais pé no chão, apesar do desfile de personagens extravagantes de atitudes excêntricas que interagem com o personagem de Johnny Depp – o alter-ego de Thompson. 


Em o “Diário de um Jornalista Bêbado” acompanhamos a história de um jornalista chamado Paul Kemp (Johnny Depp), que se afasta do frenesi de Nova York viajando para a ilha de Porto Rico, para trabalhar como repórter em um jornal local chamado The San Juan Star. Entre um porre e outro, Kemp faz amizades com membros da equipe do jornal e se familiariza com o local. Em seu processo de descoberta acaba conhecendo a lindíssima Chenault (Amber Heard), noiva de Sanderson (Aaron Eckhart), o porta-voz de um grupo de empresários gananciosos da cidade, que planejam ganhar muito dinheiro numa jogada imobiliária que transformará Porto Rico num paraíso repleto de resorts para milionários, porém que levará desgraça aos moradores porto-riquenhos. Nessa jogada, Kemp é contratado para escrever artigos que favoreçam o empreendimento, onde passa a viver o dilema de ganhar dinheiro – e talvez o coração de Chenault – ou fazer jornalismo de verdade denunciando esse esquema corrupção que o destino trouxe ao seu conhecimento?

Longe de ser um dos melhores trabalhos de Johnny Depp, ainda assim não o distancia de conseguir uma interpretação interessante para sua filmografia. Entretanto o melhor desse longa se passa na primeira hora, que dá a noção dos contornos da proposta dessa fita. Bebedeiras, humor inteligente e situações absurdas as quais o elenco é submetido. De resto, fica as situações absurdas e uma correria desinteressante que cansa mais do é suportável. Acaba por tirar o brilho de um filme que até começa bem, mas por causa da adoção de uma narrativa que perde seu foco na comédia para cair no melodrama, perde o carisma do espectador pouco interessado na infinidade de personagens alucinados que giram em volta do protagonista, ou das circunstâncias extremadas as quais Depp se equilibra entre uma garrafa de rum e outra.

Se há uma qualidade brilhante que não se ofusca durante os 110 minutos de duração desse longa é a trilha sonora empolgante e bem escolhida que acentua esse paraíso tropical que é Porto Rico.  Deixa as canções óbvias da cultura local de lado – em sua grande maioria – e exibe ritmos mais cativantes que contrastam melhor com a trama e o ritmo da história. Lamentável que a condução de Bruce Robinson (Como Fazer Carreira em Publicidade e Jennifer 8 – A Próxima Vítima) tenha levado a trama a um lugar tão desinteressante como a que chegou em seu desfecho.


De fato, “Diário de um Jornalista Bêbado” poderia ter ficado melhor se não tivesse se distanciado tanto da premissa que remete ao longa “Medo e Delírio”. Mas dentre os romances de Thompson (The Rum Diary), não é mencionado como um de seus melhores livros, o que torna justo que sua transposição também não seja a melhor. Vale conferir esse longa pela curiosidade de ver Depp em ação novamente, a bela Amber Heard – que desbancou atrizes como Keira Knightley e Scarlett Johansson para o papel de Chenault – dando um baile de sensualidade, e Aaron Eckhart, fazendo o papel de duas caras longe do universo dos quadrinhos.

Nota: 6/10

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Crítica: Melancolia | Um Filme de Lars Von Trier (2011)



A notoriedade que os projetos cinematográficos de Lars Von Trier alcançam por sua excelência – “Dogville, “Manderlay” e “Os Idiotas” – são exemplos de sua aptidão para o cinema. Mas além da repercussão que seus filmes em geral conquistam perante a crítica, e o público, ocasionalmente o cineasta consegue de forma inesperada o impossível.  No caso do longa-metragem “Melancolia” (Melancholia, 2011), ele conseguiu desastrosamente minar sua própria figura, e consequentemente a de filme perante o júri de um dos mais renomados festivais de cinema do mundo, através de declarações provocativas. Tentou fazer graça em Cannes e se deu mal. Se queria chamar a atenção conseguiu, mas de forma negativa. E se tivesse dito que o filme ficou uma droga, e foi lançado porque era impossível ter feito coisa melhor e como já estava pronto, apenas deu segmento ao próximo passo – a exibição pública – toda plateia teria dado gargalhadas. Quem conhece seu trabalho sabe que o cara é fera, ao seu modo, de contar uma história com habilidade e sensibilidade. Mas não, tevê que mexer em um terreno espinhoso que é o nazismo numa cerimônia que não tem nada a ver com a história. Sua aversão à cultura estadunidense é bem conhecida, mas declamar simpatia ao regime nazista, ai é demais! O que ferrou a chances de seu longa ganhar a Palma de Ouro em Cannes, apesar de a protagonista Kirsten Dunst conquistar o prêmio de melhor atriz no mesmo festival. Com a expulsão do evento veio o arrependimento tardio. 

A história do filme retrata duas irmãs, onde uma delas noiva, Justine (Kirsten Dunst), esta prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). A outra irmã, mais vividamente experiente, Claire (Charlotte Gainsbourg), casada com John (Kiefer Sutherland), tem suas relações familiares dissecadas profundamente. Na primeira parte do filme, acompanhamos as nuances cerimoniais do casamento e a relação das irmãs afastadas pelo tempo e suas diferenças. Mas na segunda parte, quando há o anúncio da colisão de um planeta chamado Melancolia com a atmosfera terrestre, muita coisa muda e devido ao eminente Apocalipse, a inevitável catástrofe desencadeia diferentes reações pessoais.

O filme acompanha o evento do casamento de forma convencional, como se espera, dando o devido destaque à noiva. Kirsten Dunst está ótima, e talvez num de seus mais expressivos trabalhos, dá o tom exato da melancolia que dá título a essa produção. Conformada com o eminente desastre resta acompanharmos o desespero de Claire, apavorada com o fim do mundo. E é nesse trecho que que se justifica a escolha do título dessa fita. O roteiro, também de autoria de Lars Von Trier acentua as reações e as diferenças das mulheres que despertam as atenções do espectador, concentrando o foco da trama num elenco contado de forma profunda mesmo num enredo de proporções épicas como o fim do mundo. E a direção, que nas mãos de um cineasta menos preparado poderia ruir um projeto das pretensões que o enredo extraordinário desse longa estampa, é conduzido com perfeição.

O restante do elenco até tenta, mas não consegue roubar a cena, pois a condução da trama deixa claro à quem pertence esse longa-metragem. Com uma produção bem elaborada e uma direção de fotografia belíssima de responsabilidade de Manoel Alberto Claro, dando os contornos que esse longa-metragem necessita, Lars Von Trier apresenta o resultado visual que flerta com maneirismos do cinema independente (câmera tremula e vibrante em tons sombreados). 

Dentre os filmes da autoria do cineasta dinamarquês, “Melancolia” pode ser considerado um de seus trabalhos mais acessíveis. Apesar de lento, recheados de devaneios visuais ao som de “Tristão e Isolda” de Richard Wagner, pode ser considerado por muitos como excessivamente chato. Afinal, esse longa é uma lição de vida a ser relembrada novamente, pela visão de um cineasta corajoso que se presta a tarefa de mostrar que certos relacionamentos se fortalecem diante de uma tragédia iminente. Poucos diretores conseguem espremer do fatalismo sentimentos dramáticos tão satisfatórios com tanta competência.   

Nota: 7/10
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Crítica: Prometheus | Um Filme de Ridley Scott (2012)


Cerca de 33 anos depois da primeira aparição da criatura que virou uma referência na ficção científica através do filme “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), um marco que principiou a carreira de sucesso do cineasta Ridley Scott, outros três filmes surgiram com o decorrer do tempo, porém naturalmente realizados por diferentes diretores. Além disso, mais tarde houve o lançamento de mais dois longa-metragens (Aliens vs Predador, 1 e 2) onde os famosos Aliens dividiam os créditos com outro intrigante personagem vindo do espaço que por sua vez virou ícone da cultura pop que surgiu na década de 80 chamado “Predador” (1987). Mas que nunca impuseram respeito ao clássico de 1979 dirigido por Scott, que em sua trama acompanha a nave cargueira Nostromo que caiu numa cilada ao prestar resgate a um sinal de socorro. Por fim, uma criatura nunca antes vista se inseriu nas dependências da nave dizimando toda tripulação até o desfecho que culminou em um confronto mortal com a Tenente Ellen Ripley (Sigourney Weaver). 

"Prometheus" (Prometheus, 2012) é materialização de um sonho de fãs e admiradores do personagem. Era a chance de fazer esclarecimentos de pendencias que se arrastavam desde o primeiro filme, ao mesmo tempo em que se teria a oportunidade de ressuscitar a franquia de forma gloriosa através da criação de novos questionamentos depois de muitas escorregadas que o personagem sofrera devido à incompetência de Hollywood. Era. O filme “Alien 3” (1992) talvez tenha sido uma das maiores pisadas de bola que os produtores poderiam realizar, que inclusive hoje, o diretor David Fincher – responsável pela direção – renega veemente,  tamanha sua insatisfação quanto ao resultado final. Contudo, ainda que a produção tenha caprichado rigorosamente numa ambientação adequada, a tentativa de se tornar relevante dentro do universo Alien pode de certo modo frustrar os fãs. Sua ligação com o personagem, apesar de inegavelmente presente, se apresenta tão sutil que quase inexiste. E justamente por ter sido vendida como um filme da franquia, obviamente se espera que remeta de forma mais explicita a ela, não se limitando apenas ao DNA herdado. A história começa pela descoberta de algumas marcas gravadas no interior de uma caverna, apresentando indícios da passagem de uma civilização desconhecida na Ilha de Skye, localizada ao norte da Escócia, no ano de 2089. A cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), supõem que não se trata apenas de vestígios de uma civilização extinta desconhecida, mas possivelmente marcas de ancestrais extraterrestres da raça humana. Já no espaço, no ano de 2093, numa extraordinária missão de descoberta pelas origens da raça humana, o androide David (Michael Fassbender) desperta a tripulação da nave Prometheus pouco antes de chegar ao seu destino. Aos poucos Meredith Vickers (Charlize Theron), representante da empresa que financiou essa expedição, vai familiarizando os tripulantes da nave quanto ao objetivo da missão. Porém o que ninguém imaginava era que o mapa na caverna deixado pelos visitantes até o tão famigerado destino, não apenas os levaria a descoberta de respostas para a origem da vida, mas também ao encontro da morte.

Esse longa não é somente a retomada da franquia Alien, mas o retorno do cineasta responsável por faze-la figurar entre umas das mais impressionantes da história do cinema. Entretanto, mesmo depois de tantos anos distante dessa franquia, o visual não se distância expressivamente dos filmes anteriores. Com vários designers de confiança de Scott trabalhando a toda para criar uma estética visual inédita, o resultado foi um imenso catálogo de tudo que seria apresentado na película (roupas, objetos, estrutura da nave, veículos) para dar a acentuação perfeita ao roteiro de Jon Spaihts (A Hora da Escuridão) e Damon Lindelof (série Lost) na pré-produção. Tudo pronto e mãos a obra. Em meio a muita ansiedade pelo lançamento do filme, alguns vídeos virais iam sendo disponibilizados na rede, como aquele que o personagem de Guy Pearce aparece discursando sobre tecnologia ao citar T.E. Lawrence diante de uma multidão, ou quando o androide David (Fassbender) aparece em um comercial fictício apresentando suas habilidades. De fato, com o filme finalmente pronto o sentimento de ansiedade dos fãs foi substituído por frustração ao verem um filme diferente de suas expectativas. Alien? Onde? Contudo, o maior problema dessa produção não resida apenas na pouca presença de tela de um personagem, mas no roteiro que apesar de bem intencionado, torna-se pouco enfático no que ele se propõe. Está superficial e confuso demais na questão de explicar pontos relevantes da história do personagem, repleto de diálogos sem impacto e cenas clichês completamente desnecessárias deixando os grandes momentos a cargo das cenas de ação muitas vezes previsíveis que infelizmente deixam a desejar. Situações conveniadas como quando a nave Prometheus encontrou o destino exato da expedição sem sequer um esboço de planejamento. E se a produção contava com a mesma sorte para alcançar seus objetivos, não conseguiu ser mais feliz. 

No entanto o elenco encabeçado por Noomi Rapace supera as expectativas equilibrando a balança do descrédito. Uma atriz que remete a lembrança de uma Sigourney Weaver facialmente parecida – igualmente forte e presente na película. Até na primeira metade do filme tem os contornos necessários de uma cientista e arqueóloga, mas devido às circunstâncias extraordinárias passa a se assemelhar consequentemente ao mais intenso vínculo humano do personagem alienígena. Mas se Rapace está ótima em seu papel transbordando talento em sua interpretação, somente não supera a de Michael Fassbender em seu papel andrógeno ao qual se armou com uma postura por vezes dissimulada que lhe dá certo requinte numa transposição complicada. Certamente que vem dele as melhores falas que a pobre argumentação apresenta ao mesmo tempo em que protagoniza uma das cenas mais incompreensíveis do roteiro, como quando envenenou Logan Marshall-Green propositalmente. Seria como se eu tomasse gasolina. Certamente seria hospitalizado, com sorte teria uma dor barriga horrenda, mas se colocasse no tanque do meu carro eu poderia dirigir uns 12 quilômetros. Um exame laboratorial seria mais sensato para desvendar a real serventia do conteúdo do recipiente que ele coletou em uma das primeiras incursões ao interior da pirâmide dos humanoides. O restante do elenco oscila numa trama em que Charlize Theron deixa de ser o foco das atenções, e é reduzida a um papel burocrático. Guy Pearce está irreconhecível sob tanta maquiagem que não lhe faz justiça. O restante do elenco cumpre seu papel, que desde o início estava certo de acontecer, aonde vão morrendo aos poucos através de um clichê que Scott já soube aproveitar antes de forma mais convincente. Entre mutações genéticas absurdas que beiram o “trash”, e medidas desesperadas de um piloto camicase, essas situações estão na composição desse longa que tinha tudo para fugir justamente do rumo que tomou. 

Por fim, o apuro visual adotado pela produção – pura excelência tecnológica – foi aos poucos se perdendo pela falta de ajuste do roteiro, que tenta pretensiosamente surpreender o espectador com revelações bombásticas sobre a origem da vida, entre outras coisas, ao se armar com clichês de filmes de ação nada empolgantes – não há uma sequência sequer que justifique sua existência. Uma abordagem mais cerebral e menos comercial teria sido uma solução melhor aproveitada materialmente. Entretanto, o personagem “Alien” virou um produto comercialmente popular, e consequentemente “Prometheus” segue a mesma linha focada no entretenimento seguro. Mas com isso, perdeu-se muito do potencial que a premissa que foi difundida nos canais de informação – tratava-se sobre um filme sobre a origem dos Aliens – com soluções nada cativantes e por vezes confusas, que apenas se salvam pelo desfecho final – interessante, apesar de previsível – que é um prato cheio para quem terminou de ver a fita querendo bis.

Mesmo que “Prometheus” não seja tudo que se esperava, o fato de termos Ridley Scott no comando já é razão de comemoração por parte dos fãs da saga Alien. O cineasta praticamente definiu o gênero ficção científica por seus trabalhos – “Alien – O Oitavo Passageiro” e “Blade Runner”. Obviamente não atendeu a expectativa da maioria, porém mesmo repleto de equívocos tem as suas qualidades. Um número menor do que se permite, devo dizer. Mas nem tudo nessa experiência cinematográfica procedeu como se esperava, descartando a ousadia de fazer algo memorável em prol do entretenimento convencional. Como em certa passagem do filme, quando Elizabeth Shaw explica aos demais tripulantes da nave sobre o objetivo dessa expedição, que é a descoberta da origem da raça humana, muita gente torceu o nariz. Um dos intrépidos membros da tripulação caçoa, ao questionar a veracidade da afirmação. “Querem que a gente descarte milhares de anos de Darwinismo porque vocês encontraram algumas pinturas na parede de cavernas”. Bem que o diretor Ridley Scott tentou!

Nota: 6,5/10
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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Crítica: Rede de Mentiras | Um Filme de Ridley Scott (2008)



Dentre tantos e variados gêneros em que o famoso cineasta britânico já se aventurou, entre épicos romanos e obras de ficção cientifica, foi através de “Rede de Mentiras” (Body of Lies, 2008), que o diretor Ridley Scott faz sua primeira incursão no universo da espionagem. Através desse thriller de temática atual e de uma engenhosidade impressionante ele se lançou num gênero desconhecido e distante de sua experiência. E por mais que essa fita a primeira vista possa ser confundida sendo apenas mais um thriller de espionagem em prol do entretenimento fácil, não se engane, pois basta notar as sutilezas de um roteiro bem elaborado que se encaixa em um contexto sobre os conflitos no Oriente Médio que se desenrolaram na última década para ver quão antenado está com o seu tempo. 


A história acompanha Roger Ferris (Leonardo DiCaprio), um agente secreto do governo norte-americano que trabalha disfarçado no Oriente Médio e que tem como tarefa prioritária se infiltrar em células terroristas. Tendo um veterano da CIA chamado Ed Hoffman (Russel Crowe), um burocrata egocêntrico que comanda as atividades antiterroristas do outro lado do mundo por telefone como seu contato, Hoffman interfere negativamente numa missão conjunta entre Ferris e a polícia jordaniana, colocando seu agente de campo em maus lençóis aos olhos dos poderosos da Jordânia.  Numa busca incessante pela captura de um líder terrorista da Al Qaeda que segundo informações adquiridas pela Agência, está promovendo um eminente ataque terrorista ao solo americano, obriga Ferris a se armar com técnicas de espionagem nada convencionais para se redimir perante as autoridades da Jordânia e conseguir descobrir o paradeiro do líder terrorista antes que seja tarde.

A fita é baseada no livro de David Ignatius, que foi adaptado para o cinema pelo roteirista Willian Monahan (Os Infiltrados, 2006). Ridley Scott, sempre competente no faz, cria uma transposição bem realista sobre os conflitos bélicos que ocorrem no Oriente Médio, transpondo a questão do terrorismo e as tensões causadas por ele com maestria. Apesar das qualidades visuais do filme serem brilhantes, seu maior mérito está no roteiro repleto de passagens intrigantes e diálogos bem elaborados entre os protagonistas, que quase sempre travam verdadeiras batalhas verbais que proporcionam uma dinâmica apurada a obra. Mas nem tudo é apenas estilismo narrativo, embora prevaleça, pois há várias nuances de fatos e referências contemporâneas no enredo que dão a devida credibilidade ao longa-metragem.

Enquanto Ferris transpõe uma versão do agente de campo, inteligente e flexível, que movimenta a máquina da espionagem e atende a eventual necessidade da presença de um Cristo quando algo não dá certo, Hoffman é a materialização de tudo que está errado através de uma personificação bastante cínica do alto escalão, negativando a política externa norte-americana em relação às regiões do Oriente Médio e da Ásia Central, e que retrata de forma detalhada como os EUA é capaz de passar por cima de tudo e de todos em função de seus interesses econômicos. E no meio disso, temos o chefe da segurança jordaniana (Mark Strong), o freio motor de ambas as partes, que sela seus tratos com base na confiança.


Apesar de “Rede de Mentiras” ser uma obra bem feita e aperfeiçoada, mesmo que a certo ponto se limite aos  interesses românticos de Ferris com uma enfermeira Jordaniana Aisha (Golshifteh Farahan), fugindo de seu foco político, a trama se mantém segura na mão de Scott, que consegue mesclar a tensão de tudo de forma natural sem deixar furos gritantes. O que poderia, por exemplo, nas mãos de Tony Scott ser apenas um festival de imagens de satélite na tela, confusas perseguições, e intermináveis tiroteios, Ridley Scott dá a devida profusão necessária para dar credibilidade ao conjunto. Mesmo que ignorado nas bilheterias, e que somente atingiu suas metas devido ao mercado internacional, não muda o fato de ser uma realização bem feita, com um ritmo envolvente e tenso até a última imagem de satélite.

Nota: 7,5/10
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