sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Crítica: Crime em Palmetto | Um Filme de Volker Schlöndorff (1996)



Baseado no livro "Just Another Sucker" escrito pelo inglês James Hadley Chase, e roteirizado por E. Max Frye, “Crime em Palmetto” (Palmetto, 1998) é um filme noir bem ambientado em pleno anos 90. Mostra aquela qualidade do gênero onde o espectador pode constatar que a mulher pode ser a glória ou a desgraça de um homem. E essa é a essência de um bom film noir, que mais do que uma vítima masculina apropriada, precisa de um femme fatale convincente. Enquanto Woody Harrelson se debate enlouquecido pelas circunstâncias da trama, que oscilam entre comédia e tragédia, Elisabeth Shue esbanja sensualidade e astúcia como requer a necessidade. Ainda por cima, tem Gina Gerson belíssima em seu papel para completar e enriquecer as várias reviravoltas desse thriller.

A história acompanha a trajetória de Harry Barber (Woody Harrelson), um ex-jornalista que foi preso por engano e posteriormente libertado após dois anos detido. De mal com a vida, a única coisa que o faz permanecer na cidade é Nina (Gina Gerson) com quem está vivendo junto. Desiludido em um bar, Rhea Malroux (Elisabeth Shue) cruza seu caminho com uma proposta tentadora de negócios. Ela é casada com um dos homens mais ricos da cidade, que mesmo que esteja terminalmente mal de saúde, ainda vai demorar sua partida desse mundo. Nesse momento que começa a jogada de mestre. Barber se encarregaria de cumprir a parte burocrática de sequestrar falsamente sua enteada Odete (Chloë Sevigny) que também está envolvida no golpe. Ele ficava com cinquenta mil dólares de um montante de quinhentos mil que seria dividido entre elas do pagamento do resgate. Barber reluta a princípio, mas topa o golpe. Porém após o sequestro tudo foge de controle, pois de um falso sequestro a situação se inverte para um verdadeiro assassinato, e que convenientemente todas as pistas apontam para ele como único autor do crime.


O personagem de Harrelson age na trama de forma bilateral, pois ao mesmo tempo em que está envolvido no crime de sequestro, passa ironicamente a ser responsável pelo freio da impressa ávida por noticias sobre o caso. Por mais cômoda que seja sua situação diante desse golpe, graças às possibilidades que essa inusitada função lhe agregaria, nada corre de acordo como o planejado, devido ao fato, de seu personagem nessa trama ser apenas uma ferramenta no joguete da verdadeira criminosa dessa história. Seduzido e emburrecido pela beleza e sensualidade das mulheres que dividem a tela com ele, em especial a atriz Chloë Sevigny, cujo papel concilia uma Lolita com a experiência de uma mulher feita, Harrelson apresenta uma interpretação inspirada de um personagem inevitavelmente previsível nas mãos de uma mulher, mas ainda assim fascinante por sua composição simplista. 

O show fica por conta do elenco feminino, que tem os melhores diálogos e é responsável pela manipulação do personagem de Harrelson, que invariavelmente não esconde seu espanto e indignação por sua condição desfavorável na trama, que climaticamente tem cerca de umas quatro reviravoltas emocionantes. Contudo, nenhuma distante do enredo ou inverossímil. A cena dele abrindo o porta-malas para um policial, sabendo da existência de um corpo no interior, varia entre um destino trágico a um desfecho cômico. Pode ser considerada uma cena improvável, mas ainda assim necessária em função da criação de um bom entretenimento moderno. Como as cenas sensuais exibem uma beleza visual estética apurada muito bem conduzida por uma edição consciente de Peter Przygodda do que se deve ou não mostrar sem causar frustração do espectador ansioso por uma cena mais quente.


O filme pode ser rotulado como confuso a primeira vista, mas basta lhe dar tempo para que ela se mostre fascinante. É quase impossível que o espectador não sofra com as angústias de Barber, que mais cedeu a tentação desse golpe pela atitude sedutora de Elisabeth Shue, do que propriamente pelo dinheiro. Sua integridade se desfez junto com o fim de sua abstinência alcoólica. Ele até começa firme diante do vício, mas basta vislumbrar a desgraça na qual se meteu para perder o rumo das coisas de vez. Seu personagem acaba ficando a mercê do desejo de uma femme fatale a espera do inevitável. Muito do fascínio da história desse longa pode ser atribuída a direção de Volker Schlöndorff, precisa na narrativa do gênero, e da trama de James Hadley Chase, que curiosamente jamais conhecera a cidade de Palmetto na verdade.

Obviamente “Crime em Palmetto” não destrona clássicos do gênero, mas entretém o espectador de maneira competente. E pela leveza da trama que associada à interpretação tragicômica de Woody Harrelson inclusive diverte muito. Com os requintes de uma produção caprichada, que usa com perfeição todos os macetes necessários para compor um bom thriller, esse longa-metragem, apesar de alguns mínimos derrapes está perfeito como está.

Nota:  8/10
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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Crítica: O Caçador | Um Filme de Daniel Nettheim (2011)


Baseado no romance de Julia Leigh, o filme "O Caçador" (The Hunter, 2011) até pode ser confundido a primeira vista como apenas mais um filme estrelado pelo incessante trabalhador Willem Dafoe. Com uma filmografia com mais de setenta filmes, raramente ele não deixou passar um ano sem emplacar um lançamento. Entre trabalhos curiosos como “A Sombra do Vampiro” (2000) onde está irreconhecível sob camadas de maquiagem; comerciais como o Duende Verde em “Homem Aranha” (2002); ou filmes emblemáticos como o combatente traído do Vietnã em “Platoon” (1986). Trata-se de um dos atores mais talentosos de sua geração, muitas vezes mal aproveitado, e que felizmente não é o caso dessa produção. Em “O Caçador” ele interpreta um mercenário enviado a uma terra distante no cumprimento de ordens de uma empresa de biotecnologia militar, com a missão de encontrar o paradeiro do que seria o último Tigre da Tasmânia do mundo – o animal está oficialmente extinto desde a década de 30. Para completar a missão, ele precisa matar o animal, sumir com os vestígios mortais e trazer amostras de seu DNA com a finalidade de reproduzir a toxina paralisante que o animal detém em sua natureza selvagem. 

Na trama que começa com sua chegada a um território inóspito, ocultando dos moradores locais suas verdadeiras pretensões, passa a residir numa casa de família na região. Dafoe passa a conviver com essa família traumatizada pelo desaparecimento do marido – o lar era composto por uma dona de casa, mãe de dois filhos – onde o protagonista é visto como um pesquisador forasteiro. A mãe tem fortes indícios de depressão causados pelo sumiço do marido e Dafoe passa a conviver com as dores que esse desaparecimento causara. Com uma narrativa que aborda esse drama familiar, o protagonista se vê transformado diante das circunstâncias. Quando chegou a essa terra era um homem obstinado por objetivos e resultados, frio e calculista. Porém o contato mais pessoal com a dor alheia causou um amolecimento de seu coração demonstrando o quanto esse homem durão pode ser sensível quando exposto as eventos que aflorem sensibilidade. 

O filme tem uma produção simples, presa a um ambiente mínimo e visualmente rico, bem explorado por uma fotografia lindíssima, e acentuado por uma trilha sonora hipnótica. Com atuações convincentes e dramaticidade acima da média, foi bem conduzido pela direção Daniel Nettheim, que alterna entre muitos focos, o trauma familiar e o objetivo do protagonista de maneira bem medida. O que poderia ser somente um filme para pagar contas na mão de um ator menos capaz, através da interpretação de Willem Dafoe, esse filme “O Caçador” consegue ser relevante dentro de sua filmografia. Dafoe estudou técnicas de sobrevivência e treinou métodos de caça para compor seu personagem de forma convincente, além de ler a obra que inspirou o filme. O resto ficou por conta de seu talento natural de dar magnitude a personagens inicialmente interessantes.

Nota: 7,5/10
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Crítica: The Spirit - O Filme | Um Filme de Frank Miller (2008)



Com visual noir e estilizado o desenhista Frank Miller assume definitivamente a cadeira de diretor e faz sua estreia na direção através "The Spirit - O Filme(The Spirit, 2008), homenageando assim seu mentor Will Eisner ao transpor para o cinema um de seus trabalhos mais marcante no ramo dos quadrinhos. Seguindo a estética visual adotada por Robert Rodrigues em “Sin City, que recriou com perfeição cada página de sua fonte para a película de uma forma nunca antes vista, Frank Miller se arma com as mesmas ferramentas e dá vida ao policial assassinado Denny Colt e que volta a vida misteriosamente fazendo o papel de vigilante em uma cidade tomada pelo crime.

O artista gráfico Will Eisner começou sua carreira de ilustrador em jornais e revistas pulp fiction. O personagem de “The Spirit” apareceu através de uma encomenda da Quality Comics para suprir uma necessidade por histórias em jornais dominicais, que foi desencadeada pelo boom dos quadrinhos, liderado pelo Superman e Batman. Eisner foi inovador na hora de desenvolver suas histórias para adultos e costumeiros leitores de jornal. Queriam que ele criasse um vigilante uniformizado para concorrer com os personagens da DC Comics. E em toda sua simplicidade, Eisner apenas lhe concedeu uma máscara que também atendia ao pedido da editora. O personagem Spirit, era o policial Denny, morto e trazido de volta à vida, que se escondia numa caverna sob seu túmulo, e combatia na noite os criminosos mais bizarros que se podia imaginar. Seu personagem era uma representação da luta do homem comum em um ambiente urbano, distanciado da fantasia dos super-heróis consagrados, e que apresentava perfeitas metáforas da vida real através da visão do autor onde misturava humor e violência. 

O filme “The Spirit” acompanha Denny Colt (Gabriel Match) um colaborador da policia de Central City, que trabalha em conjunto com o comissário Dolan (Dan Lauria) e sua filha, Ellen (Sarah Paulson), a qual mantinha constantes flertes entre muitas outras personagens femininas que transitam pela tela. Seu arquirrival é Octopus (Samuel L. Jackson) que também, como Denny Colt, se apresenta invulnerável, e em certo momento, responsável por essa peculiaridade. Octopus conta com a ajuda de sua assistente ambiciosa Silken Floss (Scarlett Johansson) deslumbrante e perigosa.  Sand Saref (Eva Mendes) é uma ex-paixão de Colt, que transformada em vilã após vários anos desaparecida, surge em cena para roubar um tesouro de posse de Octopus. No encalço do herói ainda há Lorelei (Jamie King) uma entidade sobrenatural que deseja o Spirit que tarda por morrer. No meio de todas essas mentes criminosas, Spirit luta contra o crime e por respostas para sua imortalidade. 

Frank Miller, certa vez declarou que jamais cogitou a possibilidade de abandonar a atividade de roteirista e desenhista de quadrinhos para assumir a função de diretor de cinema. Ainda bem. Por mais que a trama desse longa seja bem feita, a produção seja bem acabada, “The Spirit” não se aproxima do brilho de seu trabalho em “Sin City”, apesar das infinitas semelhanças. E talvez este seja seu calcanhar de Aquiles. Mesmo com um trabalho elegante e bem afinado, o personagem de destaque que dá título a essa produção, não desperta o mesmo carisma no espectador como aqueles que transitam no longa que dirigiu em parceria com Robert Rodrigues – principalmente nos menos familiarizados com as suas origens. Composto com vários elementos de outros trabalhos de Miller, como Batman, sua transposição para o cinema foi debilitada pelo excesso de comparações que não funcionaram bem como homenagem da forma que Miller projetava em teoria. O personagem sofre de uma síndrome de falta de originalidade que não se pode culpa-lo. Eisner criou um personagem a sombra de seus concorrentes a dezenas de anos atrás, e que mesmo obtendo reconhecimento, não alcançou a glória dos mesmos. Naturalmente Miller transpôs para película um produto necessariamente fiel, contudo corrompido e sem culpa. Aproveita assim para fazer homenagens a momentos da história real, como quando Denny Colt ainda um garoto, folheia uma revista em quadrinhos (Crime SuspenStories) tendo na capa um homem enforcado. Foi na época, o que o movimento conservador precisava para estabelecer censura, justificada por sugerir que gibis incitavam a delinquência juvenil. Apesar de Miller construir um universo visualmente distante da realidade, não perde a oportunidade de mesclar elementos factualmente relevantes no contexto.  

O elenco no qual desfila beldades como Eva Mendes e Scarlett Johansson, e astros como Samuel L. Jackson, não seguram a trama com devido interesse. São personagens fantásticos em um ambiente de difícil contextualização. Suas atuações são bacanas, mas muito andrógenas e comportadas. Como em todo o universo da graphic novel, seus personagens são exageradamente excêntricos e visualmente sinistros. O que é bom e necessário para essa produção. Mas Gabriel Match ainda não tem o carisma necessário sobre o grande público para estampar como cabeça uma produção que é baseada em quadrinhos, nos quais os fãs são extremamente críticos diante de alterações – apesar das semelhanças físicas perfeitas na composição do personagem – se posicionam ávidos em protestar diante de detalhes não cativantes.

Dificilmente “The Spirit - O Filme” constará na lista de fãs dos quadrinhos como uma adaptação emblemática no cinema. Miller tratou seu projeto com carinho ao trabalho de Will Eisner, e respeito ao formato dos quadrinhos. Ele conseguiu arquitetar seu longa com alterações necessárias para essa relação cinemão/HQs, e recheou com homenagens sutis ao formato dos quadrinhos, que em sua maioria passa desapercebida ao público convencional, mostrado que mesmo não apresentando algo espetacular como esperado por seus fãs, ainda sabe o que pode fazer, frente a um roteiro ou atrás de uma câmera. 

Nota: 6/10
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Crítica: 10.000 a.C. | Um Filme de Roland Emmerich (2008)



A narrativa adotada pelo cineasta alemão para esse longa estadunidense se mostra moderna em demasia. E quando adjetivo a palavra “moderno”, não me refiro de forma positiva quanto às qualidades dessa produção. Para um filme que é intitulado "10.000 a.C." (10.000 B.C., 2008) essa produção, como as anteriores que foram dirigidas pelo cineasta (O Dia Depois de Amanhã, Independence Day, Godzilla), tem um enredo fraco e com efeitos visuais em primeiro plano pouco expressivos. Contudo, essa fórmula que até funcionou numa eminente invasão alienígena, e depois derrapou bastante na chegada do armagedon, naturalmente seria muito criticada caso fosse adotado nesse longa, que nos apresenta uma trama ambientada na passada pré-história, mas com vários elementos narrativos difíceis de se encaixar no tempo onde a ação se passa. Isso sem mencionar a infinidade de referências cinematográficas aplicadas através de uma reciclagem de ideias sem um pingo de vergonha. 

A história criada pelos roteiristas Harald Kloser, em parceria com o diretor Roland Emmerich, nos leva a pré-história para acompanhar um épico no qual um homem é destinado a se tornar o herói de seu povo. Seu nome é  D’Leh (Steven Strait), o qual uma anciã profetizou a muitos anos atrás que iria herdar a lança branca de seu pai após matar um Manac (Mamute). Junto com a lança receberia o direito pela mulher amada, Evolet (Camilla Belle). Porém junto na profecia, vinha à notícia de que um mal tomaria a tribo, e que esse homem se levantaria contra o mal e libertaria seu povo. E esse mal veio a cavalo, destruiu e sequestrou membros de sua tribo, dentre eles sua amada, levando-o numa busca incessante por terras desconhecidas para resgatá-la. Nesse resgate, vagam por lugares desconhecidos e combatem ameaças naturais perigosas, ao mesmo tempo em que junta um exército de soldados de várias tribos diferentes para combater a supremacia de um povo evoluído em terras egípcias que escraviza outros povos para construção de pirâmides.

Obviamente o roteiro não é o forte desse longa. Numa salada de referências cinematográficas, que vão de “300” a “Jurassic Park”, o história que ainda que tenha sido fundamentada em estudos científicos, possibilitava oportunamente a liberdade poética. Apesar de todos os estudos feitos sobre o período em que se desenrola toda a ação, ainda há gigantescas lacunas sem respostas sobre centenas de anos sobre os primórdios da civilização. Assim, Roland Emmerich com sua pretensão, preencheu essas lacunas com sua falta de criatividade. Mesclou vários elementos de outros filmes de forma acomodada a paisagens perfeitamente enquadradas por sua câmera. A direção de Emmerich peca demais por não dar ritmo à trama, que muitas vezes se demonstra arrastada e muito contemplativa de maneira desnecessária. Com poucos momentos marcantes, como a primeira aparição do tigre dente-de-sabre, as demais criaturas tornam-se um vexame para a equipe de efeitos visuais, tamanha a artificialidade do CGI em relação ao ambiente. O acabamento tem ares de amadorismo que não é coerente com a filmografia do cineasta. Os mamutes inclusive têm os seus momentos de glória em cena, mas que não superam a expectativa de um confronto como o estampado no pôster do filme, que por sinal, nem surge à possibilidade de ocorrer de verdade.

O elenco até tenta convencer, mas o enredo não ajuda numa boa performance. Steven Strait, não tem carisma para carregar um personagem de peso como o qual foi incumbido, como Camilla Belle, apesar de sua beleza hipnótica devido ao brilho daqueles olhos azuis, precisa de mais até mesmo para uma donzela em perigo. O único rosto conhecido do elenco é de Cliff Curtis, detentor de um talento que foi desfigurado por uma caracterização constrangedora por parte da produção. 

No final "10.000 a.C." tem um resultado previsível até mesmo para os padrões de Roland Emmerich. Carregado de clichês e equívocos históricos, distorcidos ainda mais em um roteiro simplista, além de tudo o espectador é brindado com um final que plagia outro épico protagonizado pelo império grego. Não é a toa que o site Yahoo havia colocado esse filme na lista de “Os 10 Filmes mais Historicamente Imprecisos”. Com um filme onde a ação descrita se refere ao principio da civilização humana evoluída, usando também como base de inspiração uma tragédia grega como solução para o desfecho, esse longa só tinha que se dar mal. 

Nota: 6/10

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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Southland Tales & Action Comics | HQs



O que veio primeiro? O ovo ou a galinha? Bem... enquanto está cada vez mais comum vermos diretores fazerem transposições de personagens e histórias em quadrinhos para o cinema, seguindo uma tendência em alta, alguns cineastas fazem o caminho inverso. Ousam inserir suas iniciativas na mídia de HQs como uma oportunidade de tirar uns tostões a mais de um projeto concluído, ou uma superação de um fracasso inesperado.

Pôster do filme Southland Tales

 Richard Kelly, cineasta responsável pelo cultuado “Donnie Darko” (2001), como forma de superar o fracasso de “Southland Tales” (2006) – uma estranha ficção cientifica – no festival de Cannes, decidiu lançar a adaptação do filme em quadrinhos, numa minissérie dividida em três partes para dar mais profundidade a seu projeto cinematográfico. Enquanto o filme se apresenta confuso e pouco enfático, seu trabalho nos gibis demonstrou ser mais interessante do que se poderia esperar. 


Southland Tales (de Richard Kelly, Brett Weldele, 96 págs), conta a história de um astro do cinema encontrado sem memória no deserto, de uma atriz pornô dona de um reality show e um policial que é a chave de uma conspiração americana. O filme tenta, mas não consegue cativar o público como a HQ, tanto que o filme foi lançado por aqui  diretamente em DVD, devido a péssima recepção que teve no mercado internacional. 


Assim também Richard Donner retorna ao personagem que o consagrou nas telonas e ele ajudou a tornar ícone pop. A Action Comics 844 (de Geoff Johns, Adam Kubert e Richard Donner, 32 págs) juntam-se na criação de um gibi sobre uma história que envolve o Superman. Na trama de Donner, mostra a curiosidade do Homem-de-Aço à chegada de uma nave espacial trazendo em seu interior um garotinho que possivelmente também é Kryptoniano. Não é criado com a proposta de radicalizar o universo do personagem, porém é bem contextualizado como um episódio singular, sem influência sobre a trajetória do personagem a longo prazo.

Tanto um quanto outro projeto tem seus méritos em seu visual e nas tramas bem elaboradas. O trabalho de Donner é mais simples por trabalhar um personagem oriundo do formato, entretanto Kelly, mostra toda sua genialidade numa área diferente da qual se consagrou quando lançou o curioso filme “Donnie Darko”.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Crítica: 007 – Cassino Royale | Um Filme de Martin Campbell (2006)



Para qualquer um que tenha entortado o nariz para as aventuras do agente James Bond anterior a esse filme, principalmente nos últimos episódios, esse espectador pode e deve reavaliar seu julgamento quanto a uma das maiores franquias da história do cinema. Através desse longa-metragem, que resgata suas origens (que é baseada no primeiro livro de Ian Fleming) mostra a melhor aventura do agente secreto em décadas. Com a escolha de um protagonista que gerou polêmica entre fãs e uma narrativa mais “realista”, esses aspectos fazem desse filme intitulado "007 – Cassino Royale" (Casino Royale, 2006) uma das melhores surpresas dessa resistente série, que soube se reinventar na hora certa e cativar novamente um público que via no personagem James Bond um ícone desfigurado criativamente. 


Com uma introdução retrô (filmada em preto-e-branco) logo de cara somos familiarizados com a promoção a 00 que o espião inglês James Bond (Daniel Graig) conquista ao assassinar duas pessoas. A primeira morte é exibida de forma crua, violenta e extremamente realista. Enquanto a segunda, de um membro da inteligência britânica é mostrada de forma elegante e igualmente fatal. Após uma promoção merecida, não demora muito para que o desajustado agente especial inflame o ânimo de sua chefe M (Judi Dench) resultante de uma perseguição emocionante a um terrorista em Madagascar que ganha destaque internacional. Como era de se esperar de Bond, ele não descansa e segue as pistas que o levam a impedir um atentado terrorista a um avião. Seu sucesso nessa missão o leva a se confrontar com Le Chiffre (Mads Mikkelsen) que endividado com seus contratantes devido ao fracasso da explosão, precisa reaver o dinheiro perdido de seus investidores em uma mesa de pôquer no Cassino Royale. Porém Bond tenta vencer Le Chiffre em seu jogo, para poder chantageá-lo em troca dos nomes das verdadeiras mentes criminosas por trás de seu personagem, contanto que convença Vesper Lynd (Eva Green) uma contadora do MI6 representante do tesouro inglês, que pode ganhar no jogo e ter sucesso na missão.

Esse filme põe todas as cartas na mesa ao mostrar uma versão humana de James Bond nunca antes vista, e abre mão de elementos marcantes da série (o agente dispensa bugigangas malucas) atendo-se a uma abordagem mais realista em comparação aos parâmetros pré-estabelecidos pela produção, como também apresenta um antagonista igualmente humano, descartando objetivos como dominar o mundo, destruí-lo ou coisa parecida. O único objetivo do vilão é ganhar dinheiro, umas das metas mais humanas que se poderia imaginar como motivação pessoal. Isso sem contar com a personagem de Eva Green, que possivelmente foi até então uma das Bond Girls mais inteligentes e lindas que cruzaram o caminho do agente especial, tanto que, não pudera foi talvez à única mulher pela qual James realmente nutriu algum sentimento verdadeiro em sua trajetória. Apesar de um flerte relâmpago com Caterina Murino, o protagonista demonstra estar mais responsável e obstinado em seu papel dentro da espionagem, como a Bond Girl deixa de ser somente um rostinho bonito dentro da trama. 

Uma das concessões mais acertadas dessa produção, talvez tenha sido a eliminação das extravagâncias tecnológicas ao qual o personagem era munido a cada episódio. De carros controlados por controle remoto a carros invisíveis, esses exageros delirantes apagavam o brilhantismo do personagem. Os carros luxuosos e sofisticados ainda transitam pelo longa, mas atidos rodar como máquina de transporte e mais nada. A ação de espionagem fica a cargo da astúcia do personagem e a recursos mais sintonizados com a realidade do que com a ficção cientifica, aproximando a imagem de James Bond a outros agentes como Jason Bourne e Jack Bauer antenados com seu tempo, e que por sinal não fizeram feio diante do ícone inglês.

A trama mais movimentada e violenta é outra escolha bem sucedida desse longa. Não que as anteriores não tivessem esse elemento, mas não com tamanha competência. A sequência inicial bem ao estilo made in Hong Kong dá a noção exata disso. Dessa vez, James soa e sangra como nunca antes aconteceu – coisa rara em si tratando de Bond – usando toda sua aparência atlética como elemento fundamental para dar coerência ao enredo e delírio ao público feminino. A cena da tortura entra em um seleto rol de sequências do gênero memoráveis pelo sua desenvoltura angustiante ao mesmo tempo hilária. No entanto, não é apenas de músculos e socos que o protagonista se arma para convencer, pois as estratégias de espionagem e as nuances de seu personagem estão presentes e ativas – seu comportamento na mesa de jogo é fomentado com base na técnica de jogadores profissionais. Seus diálogos mais marcantes não se resumem a uma dúzia de frases feitas, e sim a duelos verbais antológicos, onde um deles, talvez um dos melhores, é divido com a personagem de Eva Green quando se conhecem nas dependências de um trem a caminho do Cassino, ou quando se deslocavam em direção ao hotel onde se hospedariam.

E se a trama é boa, deve-se a contribuição feita pelo roteiro de Paul Haggis que divide os créditos com os roteiristas convencionais da franquia. Mexeram com precisão no livro que inspirou esse filme, destilando e fazendo acertos na transposição literária para versão cinematográfica perfeitamente. Diretores como Quentin Tarantino já mencionaram ter interesse em transpor o livro de Ian Fleming para a telona, quando Pierce Brosnan ainda desempenhava o papel de James Bond, desde que a história se seguisse após os eventos ocorridos em “007 A Serviço de Sua Majestade”. Mas a produtora Barbara Broccoli já enfatizava que Tarantino era um cineasta único em sua forma de criação, o descartando pelo fato da franquia ter certos critérios narrativos que necessitam ser preservados sem alterações.

Por sua vez, Martin Campbell que já havia dirigido “007 – Um Novo dia para Morrer” foi incumbido da tarefa de mostrar a revolução da série. Depois de dirigir um dos maiores sucessos de bilheteria da franquia, ele ficou responsável por apresentar as novas gerações um James Bond diferente do qual seus pais conheceram. Mas nem tudo é alegria: o prolongamento da trama que enfoca o par romântico Craig/Green em um terceiro ato após um presumido clímax se demonstra extenso demais, demonstrando um excesso tempo desnecessário apesar de bem realizado.

"007 – Cassino Royale" volta no tempo e se apresenta como uma ótima diversão que há tempos não víamos na franquia. Mostrando um James Bond recriado do zero, marcantemente repaginado e que agora tem um ator que injeta perigo e arrogância em sua postura (bem diferente do anterior) através de uma narrativa que abandona de vez o fantástico pelo realismo. Simplesmente, essa produção apresenta o melhor Bond desde a aposentadoria de Sean Connery.

Nota: 8,5/10

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Crítica: O Turista | Um Filme de Florian Henckel von Donnersmarck (2010)



Baseado no genial filme “Anthony Zimmer – A Caçada”, esse remake que parece que foi feito sob medida para turistas indecisos que não sabem onde passar as férias, tamanha foi à glamorização dada a Veneza, onde toda trama se passa, desperdiça uma boa ideia com uma climatização falha a longo prazo, repleto de clichês e que não melhora em nada o original. "O Turista" (The Tourist, 2010), segue a premissa de sua inspiração: a atriz Angelina Jolie entra em um trem seguindo as ordens de seu marido, um criminoso procurado e misterioso, que a instrui para manter contato com algum passageiro com seu porte físico para que as autoridades que a estão seguindo se confundam, para mais tarde haver o verdadeiro encontro. O passageiro e também turista escolhido para cumprir esse papel, fica a cargo de Johnny Depp, que é um professor americano meio desengonçado e surpreendido pelo contato. Porém, para piorar a situação dos dois, além da confusa polícia que segue monitorando os passos da dupla, ainda há um impetuoso mafioso na caça do marido de Angelina Jolie que foi roubado e está ansioso para um acerto de contas.


Contudo a premissa desse longa-metragem lindamente ambientado em Veneza, tem sua maior virtude na trama interessante, que lamentavelmente não teve a força necessária para se manter dessa forma por toda duração. Juntaram uma atriz que é sinônimo de beleza e talento, quando bem conduzida, com um ator irreverente e de conceito em Hollywood feito Depp, sob o comando de um diretor talentoso que prometia ser uma revelação, incumbidos de dar textura ao roteiro do experiente  Christopher McQuarrie. Mas toda a estrutura construída sobre esse roteiro, mesmo que bem planejada em teoria, naufraga pela falta originalidade adotada na prática e o curso infeliz para a comédia que toma pela falta de seriedade pelo qual o projeto é tomado. Em um emaranhado de clichês, e personagens caricatos (os policiais italianos são cômicos em sua postura) pouco se aproveita nos personagens que margeiam a atuação dos protagonistas, que inclusive, apenas cumprem seu papel de acordo com o comando da direção, que nesse longa, não teve a mesma profusão que obteve no filme “A Vida dos Outros” (também um trabalho Hollywoodiano). Nesse filme, as atuações foram mais inspiradas, o que deram o devido crédito ao trabalho do diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck para tocar essa refilmagem. Mas a trama relapsa de “O Turista”, não ajuda no desenvolvimento de uma história mais cativante, que não deixe tantos furos e abordagens superficiais sobre os personagens. Mesmo com um elenco com nomes como Paul Bettany – que tem um papel muito apagado dentro do plano maior – a Rufus Sewel, um ator que detém um feeling marcante mal aproveitado, o desfecho previsível aos atentos quebra sem piedade qualquer possibilidade de redenção a essa produção.

"O Turista", pode sim agradar ao espectador deslumbrado com as paisagens europeias inundadas de Veneza. Aos fãs de um elenco, sedentos por cenas tórridas dos protagonistas. Pode e vai agradar aos espectadores que não alimentam muita expectativa nesse filme, porque tudo nele remete para uma sessão da tarde descompromissada. Mas quando, Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood citou esse filme como um dos melhores filmes de 2010 no Globo de Ouro, certamente estava fazendo piada?


Nota: 5,5/10

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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Crítica: Vingança Sem Limites | Um Filme de David Ren



Esse filme de ação criado nos moldes de “Sin City” que também remete a filmes de pancadaria típicos de Hong Kong, e a uma leva de outras referências cinematográficas, tenta sem muito sucesso, dar cor e textura a uma cruzada muito similar a de Marv (personagem de Mickey Rourke em Sin City). E se não consegue o devido sucesso nessa empreitada, deve-se a inevitável comparação que desencadeia após poucos minutos de exibição, se tornando seu calcanhar de Aquiles. Logo de inicio nota-se com níveis razoáveis de evidência, as deficiências de uma climatização eficiente e de uma história com uma narrativa carismática como a que Robert Rodrigues obteve naturalmente. Embora agrade o espectador desprovido de expectativa.


Assim acompanhamos esse longa chamado Vingança Sem Limites (The Girl from the Naked Eye, 2012) onde Jake (Jason Yee) um motorista que transporta e protege strippers em programas particulares pela cidade, se depara em casa com o assassinato de Sandy (Samantha Streets) a qual era apaixonado. Por sua vez, ela também era garota de programa a qual muitas vezes escoltou em serviço. Inconformado com a morte inexplicável da garota, Jake sai pela cidade na busca dos responsáveis sedentos por vingança. Seu ponto de partida para encontrar o assassino, passa a ser seu chefe, que detém uma caderneta com os nomes dos últimos clientes aos quais Sandy teve contato. Porém a situação foge do controle e toma rumos incontroláveis que levam Jake ao submundo das drogas, do sexo e da violência.

O filme tem uma atmosfera noir barata, que bebe da fonte das revistas do movimento pulp fiction como se fosse sua fina inspiração – o filme começa com uma revista ilustrada ao estilo se abrindo e termina com a mesma se fechando – deixando claro uma de suas referências mais expressivas. Porém, o desejo de imitar outros cineastas que se consagraram com o gênero (Quentin Tarantino ou até mesmo Guy Ritchie) transparece uma pretensão inadequada para um projeto genialmente minimalista. Embora que ambos tenham se dado bem com essa fórmula, inclusive eles tiveram a consciência de se reciclarem para não caírem em descredito.

Ainda com uma narrativa que oscila entre referência e homenagem, há uma recriação de uma sequência de pancadaria que remete a lembrança imediata ao longa-metragem “Oldboy” numa cena que ocorre em um corredor, deixando claras as infinitas possibilidades que foram adotadas para se contar a trama principal também roteirizada pelo protagonista, que surpreende apesar dos diálogos deslocados e personagens caricatos. Inclusive há uma participação relâmpago de Lateef Crowder (o exímio capoeirista de O Protetor) entre outras, como a atriz pornô Sasha Grey.


Por fim, o filme Vingança Sem Limites, se visto de forma descompromissada funciona bem, sendo que foi feito sem o alvará de grandes estúdios ou a participação de grandes nomes do cinema. Transborda criatividade com uma trilha sonora eclética e eficiente, mas carece sem dúvida de um desfecho mais empolgante do que se apresenta. Tem boas cenas de ação e uma pancadaria sem muito rodeio, com enquadramentos que novamente remetem a filmes de luta feitos nos anos 90, como é de se esperar de uma produção que foi arquitetada sobre homenagens a filmes da mesma época, há mais nostálgicos ainda.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Crítica: Marcas da Violência | Um Filme de David Cronenberg (2005)



O roteirista Josh Olson conseguiu extrair da história da graphic novel A History of Violence, da autoria de John Wagner e Vince Locke, todos os pontos positivos de uma premissa fascinante. Adicionando linearidade à trama, diferente da apresentada na revista em quadrinhos original, conseguiu se diferenciar dos demais roteiristas que apenas reproduzem cada enquadramento dos quadrinhos sem ousadias ou soluções mais antenadas com o formato cinematográfico perfeitamente. A revista havia muitos flashbacks que foram convenientemente descartados. Mas ainda assim houve a preservação da essência da história – aquela energia essencial que impulsiona várias pessoas numa única direção – ao mesmo tempo em que descartou de seu roteiro o exibicionismo de violência e crueldade que também compõe as páginas da HQ de forma marcante. Mas além do roteiro enxuto e de contornos precisos, desvinculado de suas origens além da suma, há Viggo Mortensen, um ator sério e capaz de protagonizar um papel de um ser humano comum com a mesma perfeição com a qual o transforma em um ser fantástico de acordo com a necessidade, encabeçando um elenco um tanto formidável mesmo visto separadamente. No comando desse projeto, David Cronenberg, um cineasta detalhista e com força de transformar a mais casual das histórias em uma experiência refinada de estilo e competência.


Assim Marcas da Violência (A History of Violence, 2005), nos apresenta uma história madura além do esperado de um ato de heroísmo de um cidadão aparentemente comum em uma cidadezinha americana. Tom Stall (Viggo Mortensen) é um pai de família, que vive com a esposa (Maria Bello), o filho adolescente e uma caçula, de forma pacata e feliz. No entanto certo dia dois violentos criminosos entram em seu restaurante ameaçando a vida de todos ali presentes, onde Tom em uma reação inusitada os mata sem hesitação. Após o acontecido, automaticamente vira um herói do dia para a noite, com direito a cobertura televisiva nacional e tudo. Porém, depois de alcançar o status de celebridade, o herói é visitado por alguns homens estranhos, liderados por Ed Harris, que viram o noticiário que cobriu seu ato heroico, e juram que o conhecem de outro lugar com outro nome. Assim Tom é confrontado com seu nebuloso passado, há muito tempo esquecido, que coloca em xeque toda a estrutura familiar que tanto batalhou para conquistar.

Como minha avó dizia: “aqui se faz, aqui se paga”. Se no final desse longa-metragem o espectador capta alguma mensagem, uma delas certamente é de que nenhum ato de violência cometido, independente do tempo, está isento de sofrer as consequências em algum momento no futuro ou do presente. Além disso, ainda é uma análise sobre segredos ocultos que sofrem de um desejo de serem esquecidos pelos que o detem. Trata-se de um exercício de diferenciação entre ocultar a verdade, ou contar uma mentira. No caso de Tom, viver uma mentira, mesmo que todos tenham o direito de um recomeço. Para ele o retorno de fantasmas do passado põe um ponto final ao tempo de inocência que vive atualmente, pondo em risco sua condição de pai de família e marido exemplar. Trata-se de um teste aos alicerces da família que ele construiu com tanta devoção. Esses fantasmas são o risco de uma pessoa perder sua oportunidade de alcançar a redenção por causa do instinto primitivo que habita no ser humano, e que lhe faz abandonar a razão.

O ator Viggo Mortensen, também astro da franquia “Senhor dos Anéis”, consegue equilibrar com requinte, as infinitas diferenças comportamentais e as sutis nuances de um hábil pai de família e cidadão exemplar, com a de um homem misterioso e possível assassino coagido com as circunstâncias extremadas. Seu desempenho nesse longa rendeu-lhe uma parceria promissora com David Cronenberg, que se confirmou mais adiante em “Senhores do Crime” – também perfeito na proposta oferecida ao público. Maria Bello, esposa de Tom, interpreta um papel difícil de rivalizar com o do marido, considerando o desempenho magnífico do protagonista. As cenas de sexo adulto, feita por adultos foi elemento crucial no projeto de Cronenberg, que enfatizou o esquecimento da existência do sexo conjugal por parte de um público que tem verdadeira adoração pelas beldades joviais que são febre nas telas do cinema contemporâneo. Homens casados também fazem sexo com suas esposas no cinema para o espanto do espectador pouco habituado a ver esse elemento tão óbvio e pouco abordado nas telonas. Ed Harris interpreta o mensageiro da morte, sem muita firula e de forma objetiva como poucos papéis que desempenhou. Sinistro e de pouco rodeio, seu papel demonstra o quanto esmero foi dedicado ao roteiro, que coloca de forma delineada a posição de seu personagem como uma ferramenta dentro de um plano maior.



Ao final, o cultuado cineasta que é autor de filmes como “Crash – Estranhos Prazeres” e “A Mosca”, conseguiu através desse longa-metragem chamado Marcas da Violência, um resultado apurado e profundo, composto em fino ajuste, onde aproveita ao máximo cada segundo de exibição através dos diálogos bem escritos, das interpretações apuradas e da história, que apenas se encarrega de se apresentar, deixando o direito de julgamento exclusivo ao público sobre a diferença entre o certo e o errado ao qual o protagonista está envolvido.