sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Crítica: Missão: Impossível 3 | Um Filme de J.J. Abrams (2006)



Uma abertura bem feita pode ser meio caminho andado para que um filme de ação se garanta e caia nas graças do público com facilidade. Como em um gênero mais cerebral, onde o desfecho é vital para o bem sucedimento da missão, na ação, o momento da abertura é imprescindível para ganhar o espectador, e por isso normalmente lhe é dado um trato todo especial por parte dos produtores. Em “Missão: Impossível 3” (Mission Impossible 3, 2006) não é diferente. Os primeiros minutos dessa fita dão evidências dos contornos da narrativa adotada pela direção do cineasta responsável pela criação de uma das séries mais interessantes da televisão desde “Arquivo X”, que foi a quase interminável série “Lost”. Abandonando uma narrativa inteiramente explosiva e adrenalinesca como John Woo magistralmente conduziu no segundo episódio, o diretor J.J. Abrams foca seu trabalho prioritariamente nas interpretações do elenco e na relação dos personagens na trama, concedendo um toque mais autoral ao universo do agente especial Ethan Hunt, que definitivamente escreveu seu nome no rol de espiões bem sucedidos de Hollywood. 


 A história acompanha Ethan Hunt (Tom Cruise), ligeiramente distanciado das atividades de campo as quais se consagrou e está noivo de Julia (Michelle Monaghan). Dividido entre a pitoresca vida familiar e a responsabilidade relevante pelo treinamento de novos agentes no IMF (Impossible Missions Force), é informado da captura de um dos seus eis-alunos e consequentemente requisitado para um resgate urgente. No entanto, essa missão de resgate revela uma gigantesca rede de corrupção inserida na agência, ao mesmo tempo em que Ethan passa a se tornar alvo da vingança de Owen Davian (Philip Seymour Hoffman), um perigoso contrabandista de armas. Assim Ethan precisa correr contra o tempo para salvar Julia, raptada por Davian, e provar sua inocência pelo crime de traição ao qual é acusado por seu chefe (Lawrence Fishburne).


Através desse longa a franquia mostrou amadurecimento, narrativo e técnico, num produto que pode por conveniência se arrastar sem alterações por vários filmes sem culpa. Trata-se de um filme de ação, no melhor estilo Hollywoodiano, não se pode negar, mas com algumas alterações narrativas interessantes e inclusive bem autorais por parte dos realizadores. J.J. Abrams trouxe alguns elementos da série “Lost” que o consagraram aos olhos do espectador, que foi à relação humana plausível entre os personagens, como Cruise também abriu mão do excesso de correria com a função de dar tempo para se trabalhar com um maior esmero no roteiro. Bons diálogos, e uma trama cheia de reviravoltas foram o resultado, mas sem a desnecessária e confusa complexidade do primeiro filme. Claro, sem dispensar os clássicos exageros que estão ligados a cinessérie: há locações em vários países, efeitos visuais repetitivos, uma sequência onde é abatido um avião a jato em pleno ar com uma metralhadora do solo é um exemplo que justifica o título dessa produção. Mas no geral, a condição técnica melhorou bastante em comparação aos filmes anteriores, pela aplicação de uma direção de fotografia melhorada através da alta resolução, um ritmo menos clipeiro, enquadramentos mais amplos e boas tomadas.


Mas é no elenco em que reside as melhores qualidades desse longa, apesar de Cruise repetir seu papel e ter já de inicio seu melhor momento em cena, Seymour trás a franquia um vilão elegante transposto com competência. Um herói habilidoso sem um oponente a altura pode fardar um projeto ao fracasso sem sombra de dúvida. Porém, o confronto final entre os antagonistas deixou um pouco a desejar, fazendo com que o conjunto perdesse um pouco de seu brilho. A inserção de Billy Crudup é certeira até certo ponto, enquanto a de Ving Rhames é imprescindível para bem sucedimento da missão de todas as formas imagináveis. 

Tanto a direção de J.J. Abrams, quanto o roteiro de Alex Kurtzman e Roberto Orci num trabalho conjunto com o diretor, se armam de boas sacadas para dar credibilidade à trama. Os mistérios que rondam o tal pé-de-coelho – uma arma ou informação que Seymour cogita vender – é um exemplo das artimanhas do roteiro. Apesar do pouco destaque em âmbito geral, tem uma funcionalidade intrigante. Sua menção, feita por Simon Pegg tem ares sinistros que despertam de imediato sua importância dentro da trama sem a necessidade ressaltar afinal do que se trata – seu charme está em permitir que o espectador se encarregue de imaginar o que será o tal pé-de-coelho.


De fato, “Missão: Impossível 3” é um episódio mais sutil do que a franquia prega. A regra em vigor dessa produção foi explorar uma narrativa menos cardíaca e mais sentimental. Porém nas mãos de um realizador despreparado teria sido um completo fracasso por razões lógicas. Apesar da simplicidade da teoria, sua realização pode tornar-se extremamente complexa e difícil transposição. Por fim, a fita apenas resultou infelizmente em algo que pode muito bem causar descontentamento nos espectadores ansiosos por cenas de ação interrupta.

Nota: 7/10
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