quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Crítica: Deus da Carnificina | Um Filme de Roman Polanski (2011)



Roman Polanski, como todo grande artista alvejado pelo destino também procura exorcizar seus demônios do passado através de seu trabalho. E quando decidiu transpor a peça teatral de Yasmina Reza (premiada com o Tony), cujo foco é a dissolução do verniz que recobre membros aparentemente distintos da sociedade, ele expressa sua injúria diante da hipocrisia de uma sociedade que até pode condená-lo com razão, mas que sob as condições adequadas, não se apresentam melhores ou menos incorruptíveis quanto ele. No longa "Deus da Carnificina" (Carnage, 2011) a história nos leva a acompanhar a reação de dois casais de pais cujos filhos deles protagonizam uma discussão que culminou numa agressão física. No apartamento do garoto agredido, os pais Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly) mostram através de imagens de uma câmera aos pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz) as cenas do acontecido, para que de forma civilizada discutissem a atitude que devem tomar a respeito da situação. Porém nem tudo sai como esperado, e o que era uma boa ideia em teoria aos poucos se demonstra um fracasso total. 


Outros cineastas como Sam Mendes, criaram preciosidades ao longo de sua carreira que focam a mesma temática aplicada em “Deus da Carnificina”, onde em “Beleza Americana” (2005), filme premiado pela Academia e cultuado pelo público aborda o jogo das aparências sociais e o verniz da sociedade com uma dramaticidade magistral. Contudo, enquanto Mendes transpõe sua obra cinematográfica de forma convencional ao formato, amplo em locações e personagens que se cruzam esporadicamente, Polanski restringe seu longa aos limites do apartamento de Penelope e Michael, fazendo desse filme uma espécie de teatro filmado. E o que poderia resultar em um filme chato e minimalista, consegue ultrapassar os limites graças ao roteiro ciente de sua condição teatral, com diálogos afiados e atitudes convictas, em um ritmo onde a ação verbal cresce na medida em que os personagens vão se esquecendo das motivações dessa reunião. Os ânimos vão da calmaria ao confronto físico, onde muita roupa suja é lavada e que as intimidades dos casais tomam as rédeas do debate que aborda questões sobre amizade e companheirismo. Mas nada funcionaria com tamanho esmero se não fosse pelo afinado elenco que impressiona, captados pela câmera de Polanski com habilidade de transpor as nuances de cada personagem de forma única. 

Por fim, o maior mérito de "Deus da Carnificina" está na escolha narrativa, arriscada por suas limitações físicas, pois toda ação é restringida aos cômodos do apartamento, mas que graças a um elenco competente, atende ao anseio do público sem problemas. Que se diga o ator Chistoph Waltz, revelado por Quentin Tarantino em "Bastardos Inglórios", que impressiona com sua interpretação, o colocando num seleto grupo de feras da atuação contemporânea.

Nota: 8,5/10  
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