terça-feira, 17 de julho de 2012

Crítica: J. Edgar | Um Filme de Clint Eastwood (2011)


Quando no passado dizia para amigos que Leonardo Di Caprio, logo depois de um tal filme em que ele dividia a cena com um navio, que ele seria uma promessa de astro que ainda renderia bons filmes, esses mesmos amigos faziam chacota com insinuações quanto minha preferência sexual. Uhmmmm! Vejo a recente filmografia do astro e percebo que minha antiga impressão converteu-se aos poucos em profecia. Às vezes nem por sua atuação necessariamente, mas pelos filmes ao qual seu nome foi vinculado. Trabalhos diversificados com diretores renomados em produções com alto padrão de qualidade. Filmes como: “Rede de Intrigas”; “Diamante de Sangue” e “Ilha do Medo”, são longas que apesar de não serem fenômenos de bilheteria, que além de tudo dividem a opinião da crítica de certa forma, são trabalhos bem antenados com os novos tempos do cinemão. Por isso esse filme sobre a biografia de um ícone do governo americano veio bem a calhar, quando caiu nas mãos de Di Caprio, que agora faz parceria com o cineasta Clint Eastwood. O ator com sua inegável credibilidade sobre o grande público, aliado ao talento de um diretor mestre da narrativa clássica de se contar histórias – e que tem sido figura certa nas indicações ao Oscar por sua desenvoltura atrás das câmeras – poderia concretizar com sucesso a transposição cinematográfica desse personagem de máxima relevância dentro da história americana.


O filme J. Edgar (J. Edgar, 2011) é uma espécie cinebiografia do chefão do FBI entre 1935 a 1972, onde acompanha de perto J. Edgar Hoover e sua ascensão na agência em meio à complicada relação que tinha com sua mãe e seus perturbadores conflitos pessoais – sua pouco comentada e presente homossexualidade até a realização desse filme. Apesar de estar longe de ser um dos melhores filmes de Clint Eastwood, está anos luz a frente de filmes da mesma temática que inundam os cinemas todos os anos. O cineasta conta a história alternando o passado do protagonista quando ainda jovem e ambicioso, ao tempo onde se encontra velho e consagrado em sua carreira. Alterna constantemente o foco de assuntos ligados ao seu trabalho entre questões pessoais que lhe causavam aflição e muitas vezes um tormento. Aos poucos os personagens ligados a sua persona foram sendo inseridos, como a secretaria e primeira pretensão amorosa de Edgar interpretada por Naomi Watts. O caso com Clyde Tolson, interpretado por Armie Hammer, cuja contratação foi resultante do interesse sentimental de Edgar ainda contido em sigilo e de pouca transparência. Aos poucos sua vida pessoal se mescla com a profissional de tal forma que é impossível criar uma ruptura.


As desvantagens desse longa ficam pelo roteiro de Dustin Lance Black (Milk – A voz da Igualdade) que derrapa em traçar a personalidade autoritária e reclusa de Edgar com sua comprimida homossexualidade de forma mais objetiva. Perde-se a ênfase de seus feitos para a importância de sua opção sexual, passando a monopolizar a maior parte do longa e deixando outros aspectos também relevantes de sua trajetória sem uma abordagem mais profunda. Sua campanha contra os gângsters foi uma apoteose dentro da história americana pouco explorada e que também renderiam pontos para essa produção. Mas as idas e vindas do roteiro quase sempre arremetiam a trama para o mesmo ponto. Sua homossexualidade. Porém um elemento imprescindível de sua personalidade bem explorado foi sua alienação diante do poder a ele delegado.  Suas metas profissionais muitas vezes se confundiam com uma obsessão psicótica pela paz diante de um eminente cataclisma. Uma guerra anunciada por ele mesmo o aterrorizava. A inserção do aspecto de seus métodos, às vezes nada ortodoxos, foi um ponto emblemático dentro de sua metodologia para conseguir atingir seus objetivos, que felizmente foi incluído. Como também sua sabedoria de como usar a informação disponível – independente da forma que foi adquirida – a seu favor, através de uma distorcida diplomacia política. O uso desse recurso em conjunto com o apoio público resultante de seus alertas de perigo, demonstrava sua capacidade de manipulação em diferentes camadas politicas – do eleitor ao presidente. Uma pequena decepção foi à caracterização dos personagens no período da velhice, com sinais evidentes de maquiagem equivocada. Enquanto Di Caprio com sérios problemas de dicção, que não mantém uma voz idosa regular e padronizada, Hammer aparece exageradamente envelhecido dando a impressão de ter muitos anos a mais do que realmente detinha. Mesmo com a produção dando ênfase explicita a opção sexual do personagem, Edgar é um filme que serve para desencadear reflexão sobre pessoas cujo poder arbitrário tem efeito direto sobre nossas vidas independente de quanto tempo possa ter passado. O passado pode ser um reflexo de nosso futuro. Os demônios dos quais nossos lideres nos protegem, podem nos expor a outros males que nem sequer eles imaginam existir, enquanto todos nós (inclusive eles) não se enxergarem no espelho.

Nota: 7,5/10




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