quinta-feira, 10 de maio de 2012

Crítica: Entrevista com o Vampiro | Um Filme de Neil Jordan (1994)


O mal é um ponto de vista (...) Deus mata, assim como nós; indiscriminadamente. Ele toma o mais rico e o mais pobre, assim como nós; pois nenhuma criatura sob os céus é como nós, nenhuma se parece tanto com Ele quanto nós mesmos, anjos negros não confinados aos parcos limites do inferno, mas perambulando por Sua terra e por todos os Seus reinos. – Lestat de Lioncourt 

Em uma época anterior ao sucesso indiscutível da saga "Crepúsculo", da escritora Stephenie Meyer (de importância questionável dependendo do público), outra autora reinava nesse gênero literário onde predomina o insinuante e sedutor universo mítico dos imortais vampiros. A escritora Anne Rice, autora de várias obras ligadas a esses seres incomuns, criou histórias fascinantes sobre essas criaturas sanguinárias, que anterior a sua intervenção, a única referência física de relevância existente era a obra de Drácula, de Bram Stoker.  Em 1976 Anne Rice publicou seu primeiro romance, Entrevista com o Vampiro, o primeiro de uma série que ficou conhecida como Crônicas Vampirescas. Composta com vários elementos existencialistas, religiosos e filosóficos, a autora desenvolveu personagens carregados de emoções complexas em meio à imensidão do tempo a qual disponibilizava suas criações. Seus vampiros atravessavam décadas, centenas de anos sob a penumbra, vivendo e sobrevivendo, com uma dádiva que com o tempo transformou-se em castigo.

O longa-metragem "Entrevista com o Vampiro" (Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles, 1994), com uma trama que envereda em um jornalista chamado Daniel Malloy (Christian Slater) que passa as noites entrevistando pessoas estranhas que lhe possam contar boas histórias. Inusitadamente, ele começa a entrevistar Louis de Pointe du Lac (Brad Pitt), que relata sua historia de vida: sua trajetória como fazendeiro da Louisiana no século XVIII; de quando conheceu Lestat de Lioncourt (Tom Cruise); suas divergências com ele; a adoção sinistra de Claudia (Kirsten Dust); suas problemáticas perturbações sobre questionamentos existenciais e a descoberta da existência de outros vampiros, como o enigmático Armand (Antonio Banderas). Passada a premissa, Louis recém-viúvo atormentado pela solidão e a perda da esposa, cruza o caminho do solitário vampiro Lestat, despertando algo mais, do que a sede de sangue do predador. Lestat o deixa beirando a morte, quase exaurido, propondo uma alternativa perturbadora para sua salvação. Uma opção que posteriormente demonstrou-se igualmente fatal. Lestat o transforma em um vampiro, com a promessa de uma eternidade sem dor e remorso. Proposta aceita. Porém, após a transição, a perspectiva da eternidade ao preço da dizimação alheia era visto como inaceitável aos olhos de Louis. Assim seus instintos de sobrevivência, que lhe instigavam a consumir sangue, confrontavam-se direto com seus conceitos morais, que valorizava o dom da vida humana. Sua eternidade dependia da morte. Entre o dilema moral encrustado em sua alma, e o desejo incessante do consumo de sangue, somente encontrava dor e desgosto, ainda mais diante da perspectiva de toda a eternidade que estava por vir. 

A aliança com Claudia, à criança-vampira com quem vivem a décadas, dá contornos familiares à relação de Lestat com Luois, acalmando conflitos antigos, ao mesmo tempo em que criava outros novos. Em tom de guerra, Louis e Claudia abandonam Lestat a própria sorte, em uma Nova Orleans em chamas, em direção ao Velho Mundo em busca de outros iguais a eles. Onde por acaso conhecem o vampiro Armand, líder do Teatro dos Vampiros, em Paris – um vampiro manipulador, que faz bem o papel de juiz e executor. Enquanto Louis se apresentava sensível e emotivo em demasia, afogando-se em sofrimento, relutante por sua condição, Lestat detinha uma postura cética e impetuosa, um caçador em meio à sociedade, absolvido de qualquer pecado causado por sua natureza sobrenatural. Livre de culpa e questionamentos, conformado com seu destino e desprovido de dúvidas. Porém, mesmo não compartilhando da dor que lentamente devastava Louis, não indicava uma total insensibilidade, mas apenas características pessoais diferentes de seu companheiro. Lestat demonstra que por mais que não compartilhe de sua dor, evidencia a necessidade de companhia, uma afinidade emocional também humana que disfarça com violência e arrogância. Inclusive Armand, se analisado por sua trajetória literária, pode-se constatar sutis indícios de bondade. 

Com direção do irlandês Neil Jordan, guiado pelo roteiro de Anne Rice, que apenas adaptou seu livro aos moldes cinematográficos, junto a uma produção caprichada e competente, criaram um marco do cinema, moldado em tom de épico. Dois séculos de história, foram recriados perfeitamente para ambientar a trajetória de Louis, enriquecidos pelos detalhes e circunstâncias marcantes de suas locações. A escalação do elenco, polemica na época, mostrou-se perfeitamente antenada com a obra e a direção de Jordan, surpreendendo inclusive a autora da obra, que esperava que o ator Rutger Hauer interpretasse o personagem de Lestat. No entanto, após assistir ao filme concluído, declarou impressionada com o desempenho de Tom Cruise. Todo elenco central, demonstrou-se ao decorrer dos tempos, ser fabuloso e promissor. Um filme elegante, derivado da direção de Jordan, sobre uma impressionante odisseia sobre: amor, compaixão, imortalidade e amizade. Seus vampiros atravessam a eternidade detentores de uma dádiva de anseio humano, fascinantes pela complexidade de seus mistérios, porém solitários, agraciados com tempo de pouco proveito. Testemunhas da história, que narram à vida que observam, buscando uma resolução para seus anseios, que apenas refletem de forma distorcida as bem conhecidas necessidades humanas.

Nota: 9/10
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