terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Árvore da Vida e Suas Raízes




Ao invés de escrever sobre os grandes vencedores do Oscar 2012, que em sua maioria somente irei ver quando estiverem na prateleira da locadora de vídeo, meu post fica dedicado a um dos perdedores dessa corrida premiada. Tão perdedor que chega a ser infelizmente um retardatário nessa competição. Os grandes prêmios da cerimônia mesmo foram previsivelmente divididos entre os filmes O Artista e A Invenção de Hugo Cabret, aos quais não tive oportunidade de vê-los na telona, mas que não os perderei de vista durante o ano. Ambos têm características nostálgicas de um cinema que nunca teve muito a ver comigo, ao qual vi poucas obras semelhantes, e que inclusive possivelmente serviram de referência para seus realizadores.  Cinema mudo, por exemplo, nunca me cativou, e seria uma hipocrisia dizer o contrário somente por estar em foco no momento. Gosto sim do diálogo, das frases de efeito marcante, das reviravoltas que uma boa discussão causa. Gosto de relembrar no dia posterior a uma exibição o que fulano disse para ciclano. Necessito disso tanto quanto gosto. Por isso acho que Martin Scorsese com o filme A Invenção de Hugo Cabret já ganhara meu voto antes mesmo de vê-lo. Mas talvez ainda me surpreenda com o filme O Artista de Michel Hazanavicius porque o cinema tem esse fantástico poder sobre as pessoas ao qual não sou imune também. 

Nessa peneira da Academia, que não passa muita variedade, facilita as apostas e muitas vezes as deixam um pouco óbvias demais. Tem muita coisa boa rodando nas salas de cinema e que não obtém um justo reconhecimento pelos criteriosos membros da Academia caindo por fim no limbo. Uma indicação sempre pode alavancar um projeto promissor que passara despercebido pelo grande público. Por essa razão, voltei minha atenção mais aos competidores do que aos premiadíssimos vencedores que dispensam mais aplausos pós-cerimônia.

Minha postagem dedicatória não fica propriamente restrita ao filme em questão, mas sim ao seu realizador, que faz parte de um seleto grupo de diretores excêntricos como David Linch (Cidade dos Sonhos), Spike Jonze (Eu Quero Ser John Malkovich) e Lars Von Trier (Festa de Família) que demonstram muitas vezes dirigirem filmes para si próprios, de tão controversos que são seus resultados.

O filme A Árvore da Vida, (The Tree of Life, 2011) estrelado por Brad Pitt, Sean Pean e Jessica Chastain, é o mais recente trabalho do diretor Terrence Malick, que documenta a relação entre pai e filho em uma simples família americana, ao mesmo tempo em que paralelamente exibi um ensaio sobre a vida com uma abordagem visual sofisticada da criação do mundo até o fim dos tempos, sempre enfatizando a profundidade do tema familiar com uma edição de imagens correlacionadas. O filme inusitadamente é também indicado ao Oscar de melhor filme, mas não se consagrou em nenhuma categoria. Particularmente por razões óbvias. O filme é interessante de uma forma própria, bem característica da autoria de Malick, porém desnecessariamente longo e excessivamente divagante. E bota divagação nisso. Sequências intermináveis de imagens e mais imagens. Por mais que bem feito e criativamente editado, torna-se cansativo para a maioria, justamente por sua maior qualidade: o tempo. Esse é tipo de filme que você precisa se informar mais quanto ao realizador, do que propriamente quanto à obra antes de encarar os 138 minutos de exibição.  

O filme Além da Linha Vermelha, (The Thin Red Line, 1998) talvez seja um de seus trabalhos mais comerciais já feitos por Terrence Malick. Algo no mínimo curioso, em vista que se trata de um filme de guerra ambientado na Segunda Guerra Mundial. Esse concebido depois de anos afastado das câmeras, retornou com projeto monumental e complexo que não agradou muito por seu ritmo mais contido e imparcial para o gênero. O filme também havia sido indicado ao Oscar de melhor filme, com poucas chances sobre o vencedor da categoria, porém esse havia sido apresentado com um formato mais linear e sóbrio do que A Árvore da Vida. Tinha todos os devaneios existências característicos do autor, ritmo lento e contemplativo, com um elenco estelar e uma proposta interessante de reflexão espirituosa sobre os dramas dos combatentes nos campos de batalha. É um dos meus preferidos no gênero.

Apesar de Terrence Malick ter amargurado outra vez uma derrota pela conquista do Oscar, ele tem uma virtude comum com o vencedor: ele tem uma visão nada convencional do cinema a qual estamos acostumados a ver diariamente e não teme o risco que essa afronta pode causar. Minha salva de palmas fica reservada a ele por sua persistência por realizar projetos inclinados em gerar reflexão através de beleza e autenticidade como o vencedor deste ano.

2 comentários:

  1. Ainda preciso assistir este que me parece ser um belo filme.

    Os filmes de Malick tem no mínimo uma belíssima fotografia.

    Abraço

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    1. Com certeza. Sua indicação por melhor fotografia não foi a toa. Suas imagens são de uma beleza rara beleza.

      Abraço.

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